Todos os posts de Felipe Lindoso

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, Diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil Pode Ser um País de Leitores? Política para a Cultura, Política para o Livro, pela Summus Editorial.

Como a Coréia promove seus autores no exterior

As estratégias de promoção das literaturas nacionais no exterior são muito variadas. Um ponto em comum é a existência de programas de apoio à tradução.

O artigo do Publishing Perspectives aqui linkado exemplifica o esforço do governo coreano nesse sentido. Ficamos sabendo que o Instituto de Tradução de Literatura envia autores para participar de eventos literários no exterior, em busca de desenvolver intercâmbio com outros autores e também auxiliar os tradutores. O ITL mantem cursos para tradutores estrangeiros, com oficinas e programas para visitantes não coreanos que se propõem a traduzir para cinco idiomas: inglês, francês, alemão, espanhol e russo.

O programa coreano incluiu bolsas para a publicação, além da tradução, inclusive de livros eletrônicos. Os valores são determinados segundo o gênero, o idioma alvo e as dificuldades do texto original.

Destaque-se que a Coreia do Sul também tem músicos conhecidos internacionalmente, como o fenômeno Psy. Em S. Paulo, a colônia coreana é muito ativa na promoção de atividades culturais, mas essas são destinadas principalmente para os membros da comunidade coreana. As séries televisivas coreanas têm um público de admiradores fieis, que legendam para o inglês e daí ao português, de modo que o download pode ser feito poucos dias depois que cada capítulo vai ao ar.

A indústria editorial coreana também é muito forte. Segundo li em estatísticas já há alguns anos, naquele país se produz mais livros que no Brasil, apesar da população muito menor, e os índices de leitura são muito altos. Resultado, certamente, dos altos investimentos em educação.

Vale a pena ler o artigo e visitar o site do Instituto.

Biblioteca Nacional e PNLL: o vai-e-vem institucional

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Há quase dez anos, escrevi e publiquei um livro no qual repassava experiências e reflexões sobre décadas de envolvimento com o livro. O Brasil pode ser um país de leitores? Política para a Cultura, Política para o Livro (Summus Editorial, 2004) é um livro no qual uma boa parte do que escrevi continua, na minha opinião, válida. Houve mudanças, é claro, e espero em breve poder sintetizá-las.

Algumas dessas mudanças dizem respeito às estruturas governamentais ligadas ao assunto. No caso, o MEC e o MinC. E, no caso do MinC, a trajetória falhada da Secretaria do Livro e Leitura e da Biblioteca Nacional. A SLL havia sido criada pelo Ministro Weffort, e não conseguiu se firmar precisamente porque muitas atribuições de políticas para o livro eram do então Departamento Nacional do Livro, que fazia parte da BN. Gilberto Gil só manteve a SLL por alguns meses, ocupada por seu amigo o poeta Waly Salomão. Depois que este morreu, a SLL foi extinta.

Mas começo repetindo o que escrevi na época:
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FRANÇA ENCAMINHA SOLUÇÃO PARA “OBRAS ÓRFÃS”

Já tratei aqui da questão das chamadas “obras órfãs” e de como, com a possibilidade de digitalização, a recuperação desses títulos se tornou possível e é importante sob vários aspectos: para as bibliotecas, na preservação e ampliação de acervos; e para a reedição de livros há tempos fora do mercado.

Lembrando, “obras órfãs” são aquelas cujos direitos autorais podem ou não ser ainda vigentes (passam a domínio público setenta anos após a morte do autor), mas que estão fora do mercado, seja pelo desaparecimento da editora original, seja para dificuldade em localizar os autores para conseguir as permissões para reedição. Além disso, a lei atual proíbe a digitalização – mesmo para arquivamento – sem prévia licença dos detentores de direitos. Enfim, mais detalhes sobre o assunto podem ser visto no post mencionado.

A Biblioteca Nacional da França e o Ministério da Cultura daquele país, entretanto, tomaram uma iniciativa, que começa a ser posta em prática este ano, para equacionar o problema. O Congresso Nacional Francês aprovou, em 2012, alterações na legislação de direito autoral, transferindo a tutela das “obras indisponíveis” para uma sociedade de arrecadação que pode autorizar novas edições digitais (nunca em papel), tornando as obras ReLegíveis (o programa é chamado de ReLire em francês).

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Cinema e livros: dois pesos e duas medidas

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Luiz Zanin Oricchio, crítico de cinema d’O Estado de S. Paulo publicou em seu blog – Cinema, a nossa imagem lá fora e no Caderno 2 – Nova diplomacia para divulgar a produção brasileira no exterior – artigo sobre recentes medidas da Ancine para a divulgação do cinema brasileiro no exterior. Os dois foram publicados no domingo, 19 de maio. O artigo do blog só se diferencia do publicado na edição impressa no acréscimo do nome de dez títulos do cinema nacional que seriam objeto da nova “diplomacia cinematográfica”.

Em resumo, Zanin Oricchio reporta que a Ancine “criou um programa para mostrar filmes brasileiros aos curadores de festivais internacionais”, em uma parceria entre o MinC e o Itamaraty para “solucionar um problema, a atual falta de visibilidade do cinema brasileiro no exterior”. Segundo Zanin “parte do problema se deve à falta de divulgação adequada”. Outra parte “tem a ver como a natureza da produção brasileira, ao menos como ela é percebida no exterior”. Segundo a matéria, os curadores de festivais “verbalizam um diagnóstico que coincide com muitos dos críticos de cinema patrícios [pois] estaria dividida entre filmes televisivos […] e filmes que, por reação, se colocam de maneira esteticamente muito fechada em relação ao público”. Esses dois tipos de filmes não interessam aos festivais. Mas Zanin Oricchio assinala a existência de filmes “de ambição artística porém sem menosprezo pelo público”.

“Fata de visibilidade”, “falta de divulgação adequada”? Onde será que li algo assim?

Diante dessa situação, Ancine – Ministério da Cultura – e Itamaraty bolaram o programa de divulgação.

A matéria não menciona valores.

Entretanto, alguém por aí ouviu falar em desperdício de recursos públicos para favorecer os produtores de cinema nacionais? Eu, pelo menos, não.
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Comunidades de leitores ligadas a editoras estão explodindo? Aqui, não

No post de ontem, publiquei um artigo de Jane Tappuni, publicado originalmente no Publishing Perspectives, a excelente newsletter dirigida pelo Ed Nawotka. Hoje, comento um pouco sobre o assunto.

Apesar de ser uma novidade em si, e estar se expandindo, essas comunidades de leitores têm origem em uma iniciativa mais antiga das editoras, principalmente dos EUA: o material para uso dos clubes de leitura.

Uma boa parte dos romances publicados nos EUA trazia no final, até pouco tempo (tanto na edição hardcover quanto em paperback) material preparado pela editora para ajudar nas discussões em torno do livro nos clubes de leitura. Esse é um fenômeno que persiste, espalhado pelos EUA, e que nunca foi muito comum aqui, embora recentemente se tenha notado um certo crescimento dessa atividade de conversas sobre livros lidos por todos os membros. Para uma percepção da situação atual nos EUA, veja aqui. Continue lendo Comunidades de leitores ligadas a editoras estão explodindo? Aqui, não

Comunidades de leitores ligadas a editoras estão explodindo

Jane Tappuni Jane Tappuni, PublishingPerspectives

Mês passado, a Publishing Technology encomendou um estudo baseado nas tendências que notamos crescer entre editores acadêmicos e de livros gerais. Anteriormente, as ações de marketing estavam focadas principalmente nas bibliotecas e livrarias, fazendo delas divulgadores de revistas acadêmicas e livros. Mas diante do declínio de compras de bibliotecas e o fechamento de livrarias nos últimos anos, editores passaram a devotar parcelas maiores de seus orçamentos de marketing para construir um relacionamento direto com seus clientes. A criação de comunidades online vem sendo central nesse esforço.

Com a recente venda do site de networking social de livros GoodReads para a Amazon, pela quantia divulgada de US$ 150 milhões, está claro que uma comunidade online em torno de livros e narrativas é uma mercadoria valiosa que pode ajudar os editores a reagir melhor aos interesses dos leitores. Mas vale a pena para os editores investir na criação de suas próprias comunidades online de marca? Os editores acham que sim. Segundo nosso estudo, feito pela Bowker Market Research, o número de comunidades online de propriedade de editoras deve mais que dobrar nos próximos dois anos. O estudo, focado nos editores dos EUA e do Reino Unido, tanto dos segmentos de mercado de obras gerais e livros acadêmicos, revelou que dois terços dos editores que responderam ao questionário atualmente hospedam comunidades de leitores, e que esse número deve aumentar em 90% nos próximos dois anos.

Algumas das comunidades online mais populares estão focadas em um gênero em particular, ou algum interesse que atrai uma audiência selecionada – a editora de história militar Osprey Publishing usa as abundantes opiniões de seus leitores para definir prioridades na encomenda de novos textos de história militar; a editora de livros românticos Mills & Boon apresenta discussões de destaques que encorajam seus leitores a compartilhar histórias, conselhos e questões sobre amor e vida; Pottermore dá vida às histórias de fundo dos personagens e aspectos do mundo de Harry Potter, que não foram apresentados nem nos livros nem nos filmes.

Dos editores que já têm comunidades online, 64% estavam convencidos de que seu investimento nesse mercado já se pagava, e continuarão a fazer isso ao proporcionar um bom suporte de marketing para os canais de venda. Com esse sucesso, um quarto dos editores esperam ter sete ou mais redes de pé e funcionando em 2015, com muitos outros participantes da pesquisa predizendo um enorme crescimento no número de comunidades online para suas empresas, desde a média atual de 2,1 para mais de 5 nos próximos dois anos.

Apesar de ser um estudo focado nos editores dos EUA e do Reino Unido, a tendência é internacional. O Cloudary, da China, (nome reformulado da Shanda Literature, parte do Shanda Interactive, uma empresa de jogos online) foi lançado em 2008, e cresceu virando uma vibrante comunidade tanto de leitores como de escritores. Qualquer um pode subir suas histórias e usar o site como uma plataforma para construir uma base de fãs, ou escritores de sucesso podem testar uma história com os leitores. O site alega ter 800.000 escritores. O Shanda Network opera através de três portais conhecidos e controla mais de 90% do mercado chinês de leitura online, com a maior parte do conteúdo se situando entre ficção científica e gêneros de fantasia. E é tão popular que está se preparando para lançar ações públicas.

O que nosso estudo revelou é que o apoio dos editores para as comunidades online, tanto as suas como as outras, está agora na linha de frente de sua transformação em organizações diante dos consumidores, e os consumidores estão ávidos por participar disso.

Jane Tappuni é Vice-Presidente Executiva, Desenvolvimento de Negócios, da Publishing Technology. Para mais informações sobre o estudo das comunidades online, visite.

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Amanhã, em novo post, comentários sobre esse assunto.

Um mercado opaco

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Tomei a iniciativa de escrever a coluna no PublishNews e o blog Oxisdoproblema pensando no público bem focado, e restrito, dos interessados no mercado editorial. Fico muito satisfeito, como sempre dizem os colunistas, com minha meia dúzia de leitores (ou um pouco mais, na média, tá bem…).

Qual minha surpresa, portanto, quando a coluna que publiquei na última quinta-feira, Literatura brasileira no exterior: problema dos editores? teve cinquenta vezes mais acessos que a média do blog, e foi replicada em muitos sites, no Facebook e no Tweeter. O Google Analytics – ferramenta de análise dos acessos – registrou uma dispersão muito grande em suas origens, com países em que eu jamais pensaria encontrar algum leitor. Entre os que comentaram ou replicaram nas redes sociais, pelo que pude perceber, havia uma substancial parcela de escritores.

Parece que o post mexeu com preocupações e sensibilidades das pessoas sobre a posição da literatura brasileira no exterior, sobre as dificuldades e os causantes da situação.

Como disse naquele post, meu interesse pelas políticas para o livro e leitura nasceu quando me fiz a pergunta, quando era sócio da Marco Zero, sobre a razão pela qual nossos ótimos livros não vendiam o que esperávamos. Como sabem os cientistas sociais, o funcionamento das sociedades é sempre opaco.
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Literatura brasileira no exterior: problema dos editores?

Prólogo.
Esse é um assunto que me interessa muito. Participei da organização da primeira vez em que o Brasil foi país convidado da Feira de Livros de Frankfurt, em 1994. Depois, participei também da organização da presença brasileira em outras feiras: Bogotá (1995), Guadalajara (2001). Em 2011 publiquei uma série de posts no blog sobre a participação em 1994 (veja aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, e aqui) e também já me manifestei sobre a importância e as condições de participação em feiras internacionais aqui.

Em relação à próxima presença do Brasil em Frankfurt, em outubro, minha contribuição se resumiu em um paper com considerações sobre as possíveis linhas mestras do pavilhão principal. Não fiz e não faço parte da organização da feira, nem da programação dos autores. Além disso, estou como editor da Machado de Assis Magazine, coedição entre a FBN e o Instituto Itaú Cultural (trabalho que não onera o orçamento da FBN). A revista publica excertos de traduções de autores brasileiros, selecionados por uma Comissão Editorial a partir de chamamento público.

O que eu gostaria aqui seria contribuir com a discussão, procurando analisar o que está em jogo, e as condições em que esse jogo é jogado no mundo editorial. É o que posso fazer, como cidadão envolvido com as questões de políticas públicas para o livro e a leitura.
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Portugal é o homenageado na Feira do Livro de Bogotá

A Feira do Livro de Bogotá deste ano teve Portugal como convidado de honra, sucedendo ao Brasil, que foi ano passado. O estande brasileiro deste ano só tinha livros da livraria da Fondo de Cultura Económica e teve gente que visitou a feira e quis deixar exemplares lá para exibição, que foram recusados.

A delegação portuguesa incluiu 23 autores, de vários gêneros, e a viúva de José Saramago, Pilar del Rio, que fez uma palestra sobre a obra do marido. As atividades de formação foram intensa e uma das novidades foi a “Ruta de La Independencia”, que marcava o caminho entre os estandes das editoras independentes.

A Publishers Perspectives publicou um artigo de avaliação geral da FILBO. Vale a pena ler (em inglês)

A minha avaliação da FILBO do ano passado e da política do livro colombiana foi publicada aqui.

“Fariam a mesma pergunta para Philip Roth?”

The-Woman-Upstairs
Esse é o título do artigo de Dennis Abrams, publicado na Publishing Perspectives do dia 3 de maio, a partir de uma queixa feita pela romancista Claire Messud em uma entrevista que lhe foi feita pela Publishers Weekly a propósito do lançamento de seu último livro The Woman Upstairs (veja aqui a resenha publicada no New York Times Book Review). Note-se que a PW é uma publicação do mercado editorial.

Como se trata de assunto de caráter geral, solicitei permissão para publicá-la aqui, gentilmente concedida pelo Ed Nawotka.
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The Woman Upstairs (Knopf) está recebendo críticas elogiosas de várias publicações. Mas em uma entrevista recente com a Publishers Weekly, Mesud ficou frustrada com a linha das perguntas, particularmente sobre o principal personagem do romance, Nora Eldridge.

Depois que lhe perguntaram, “Eu não gostaria de ser amiga de Nora, e você? É uma personagem quase insuportavelmente cinzenta”, Messud respondeu:

“Por favor, que tipo de pergunta é essa? Você gostaria de ser amiga de Hubert Humbert? Gostaria de fazer amizade com Mickey Sabbath? Saleem Sinai? Hamlet? Krapp? Édipo? Oscar Wao? Antígona, Rskolnikov? Qualquer um dos personagens de Correções? Ou algum dos personagens de Infinite Jest? Algum dos personagens de qualquer coisa escrita por Pynchon? Ou Martin Amis? Ou Orham Pamuk? Ou de Alice Munro, já que estamos nisso? Se você ler para descobrir amigos, está com muitos problemas. Lemos para descobrir a vida, com todas suas possibilidades. A pergunta relevante não é se ‘esse é um amigo em potencial para mim?’ mas sim ‘esse personagem vive?’

Mas a coisa vai além disso, acho.

E se não for simplesmente uma pergunta ruim pela razões apontadas por Messud, mas uma pergunta que parte de suposições sobre livros de autores mulheres (e os personagens desses livros), que jamais seriam feitas sobre livros de autores homens?

Será que em algum momento perguntariam a Philip Roth se ele seria amigo de Portnoy?
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O artigo foi publicado em uma seção de discussões da Publishing Perspectives. E você, o que acha?