O BRASIL EM FRANKFURT EM 1994 – 6 – AUTORES NA MUVUCA

Público aguardando as atrações na exposição principal do Brasil em Frankfurt 1994

Não me lembro mais – como já disse antes – quantos autores brasileiros estiveram no período da Feira, em 1994, e nem há meio de recuperar integralmente essa informação. Júlio Heilbron, que produziu os eventos para a Comissão Organizadora, tinha guardado (como bom produtor), uma boa parte da informação, e desencavou e digitalizou para me enviar o catálogo editado pela Feira com os eventos oficiais. Relendo-o, lembrei-me de vários outros eventos que sei que aconteceram, e de autores que foram por conta de suas editoras, e alguns por conta própria. Mas não pretendo aqui fazer listagem de tudo que foi feito, nem me preocupar com o nome de todos que foram a Frankfurt. Vou me ater aos processos, tal como os acompanhei como parte da organização do evento.

Assim como havíamos feito com o programa na Haus der Kulturen der Welt, nossa primeira preocupação era levar os autores que fossem requisitados pelos promotores dos mais diferentes eventos, principalmente os que se desenrolariam na Literaturhaus Frankfurt, local tradicional de debates literários da cidade. Foi produzida uma exposição sobre João Guimarães Rosa e Clarice Lispector para aquele local, assim como um videodocumentário sobre autores brasileiros.

Tal como na programação da Literaturhaus, tivemos também a preocupação de levantar e anunciar a presença dos autores que estavam traduzidos ou sendo traduzidos não apenas para o alemão, mas para outros idiomas, e cujas editoras estivessem na Feira.

Naquela altura dos acontecimentos já tínhamos grandes preocupações com o déficit financeiro que – acreditávamos – viria a ser coberto no final pelo governo brasileiro (afinal, tudo era feito com o acompanhamento e o assentimento dos representantes do MinC), e que acabou nas costas da Câmara Brasileira do Livro. Por isso mesmo estabelecemos um padrão: passagens classe econômica e hospedagens e hotéis de padrão médio em Frankfurt e arredores. A cidade fica superlotada na época da Feira do Livro e muitos visitantes são obrigados a se hospedar nas cidades vizinhas, usando o excelente sistema de transporte ferroviário. As editoras, obviamente, podiam solicitar um upgrade das passagens de seus autores, com os preços especiais que a VARIG estava fazendo para o evento.

Josué Montello, que faria o discurso de abertura, era convidado especial da Messe-und-Ausstelungs e, nessa condição, teria sua passagem e hospedagem pagas por eles em hotel de luxo.

Intermezzo.

Moacy Scliar, Márcio Souza e Antonio Olinto conversam com leitores

Em todas as feiras, a questão da presença e dos convites feitos a autores é problemática. Não apenas com relação a quem faz o discurso de abertura, como foi o caso do México. O convite para ir à Feira de Frankfurt por conta da organização é, naturalmente, visto como um sinal de prestígio para os convidados. E os não convidados, também naturalmente, muitas vezes se sentem injustiçados.

É sempre uma sinuca de bico, e as razões são evidentes. Não se pode convidar todo mundo que publicou literatura – nem vários Titanics (sem ameaça de choque com icebergs, diga-se de passagem) seriam suficientes.

Sempre me vem à lembrança o poema de Carlos Drummond de Andrade:

Política literária

O poeta municipal
discute com o poeta estadual
qual deles é capaz de bater o poeta federal.
Enquanto isso o poeta federal
tira ouro do nariz.

Existem também as preferências instituídas pela imprensa. Diante de cada lista, seja lá qual for, cada jornal se esmera para assinalar as “ausências irreparáveis”, a “falta de critério nas escolhas”, e assim por diante.

Paciência.

Em todas as notícias sobre a Feira de Frankfurt sempre aparecem matérias sobre essas ausências.

Agora, vou contar um segredo (sem nomear os santos, porque não quero ir para o inferno em que não acredito). Tenho certeza de que muitas dessas ausências se devem simplesmente à falta de interesse e à recusa do “esquecido” em ir para Frankfurt. Às vezes por problemas de saúde, às vezes por questão de temperamento. Não é todo mundo que gosta de se envolver na muvuca.

Mas…

Os egos são grandes, e sempre há a possibilidade do convidado que recusou depois dizer, por conta própria ou fazer chegar à imprensa pelos mais diferentes meios, que não foi convidado. Ocasionalmente é uma promoção pessoal tão eficiente quanto ir à Frankfurt… e sem o desconforto de participar de mesas-redondas, fazer leituras, dar entrevistas, etc. Aí a imprensa faz a festa.

Às vezes a comissão organizadora provoca mesmo polêmica. Quando a Catalunha foi “País Tema”, a organização não apenas não convidou autores de outras comunidades autônomas espanholas, como também excluiu alguns autores catalões que só escreviam em castelhano.

Fim do intermezzo.

Tínhamos plena consciência, portanto, que é impossível haver unanimidade na lista dos autores presentes em um evento do porte da Feira de Frankfurt.

Não contávamos também com a generosidade da Biblioteca Nacional, que não apenas fez sua lista de convidados oficiais como anunciou que estes viajariam em primeira classe e iriam para um hotel de categoria superior.

Aí a coisa pegou fogo: havia lista de “primeira classe”, lista de “segunda classe”, os que foram por conta própria e os excluídos. Um ruído adicional e desnecessário. Mas, de alguma maneira, previsível.

O que importa é que a movimentação em torno da literatura, das artes e, mais amplamente, do Brasil, foi formidável.

A Literaturhaus estava sempre lotada, a exposição central na Messegelande também. Tínhamos quatro horas de transmissão de entrevistas com autores feitas pela Deutsche Welle, além de outras transmissões radiofônicas de rádios do Hesse (estado onde está Frankfurt), de Berlim e de outras cidades. Além das transmissões diretamente do recinto da feira, a Hessischer Rundfunk (principalmente), mas também a Westdeutscher Rundfunk, a Deutschland Radio Berlin, a Süddeutscher Rundfunk e outras transmitiam leituras de autores, seja pelos próprios, com tradução consecutiva, ou produzidas por leitores alemães, além de entrevistas. As leituras e encontros com autores estavam sempre cheias, e sempre fiquei espantado de como os alemães gostam de ouvir a voz dos autores, mesmo sem entender patavina. Tanto na Feira como em outros locais da cidade aconteciam discussões sobre os mais variados temas relacionados com o Brasil, desde meninos de rua à floresta amazônica; do carnaval a outras manifestações populares. Havia para todos os
gostos.

TV alemã transmitindo ao vivo do estande brasileiro.

Claudiney Ferreira e Jorge Vasconcellos fizeram a cobertura de toda a Feira com o programa Certas Palavras transmitindo diretamente do estande brasileiro.

Além das exposições levadas pela organização brasileira, várias outras foram feitas por iniciativa de instituições alemãs: houve exposições de Cícero Dias, instalação de Alex Fleming, fotografias jornalísticas de Evandro Teixeira. Os encontros de autores infantis com as crianças (entre 6 e 10) anos, na Biblioteca Infantil de Frankfurt foram o maior sucesso.

A Alte Öper Frankfurt – onde meses antes a abertura da temporada de música de câmara havia sido feita pelo Quarteto de Cordas da Cidade de S. Paulo – apresentou vários concertos de música brasileira, com compositores populares, como Egberto Gismonti, Hermeto Paschoal e Marlui Miranda, como também um concerto com Maria Vischnia, Cláudio Cruz (violinos), Marcelo Jaffé (viola) Robert Suetholz (violoncelo) e Everton Gloeden (violão). Além disso, na Alte Öper também foi apresentada uma cantata, Der Fluß, baseada no poema O Rio, de João Cabral de Mello Neto, que aliás fez turnê por várias cidades alemãs. No embalo, Marisa Monte fazia uma turnê pela Alemanha.

O Mousonturm apresentou vários espetáculos de dança, seja com solistas brasileiros ou com temas sobre o Brasil, entre os quais o grupo EnDança. O teatro também se fez presente, com a apresentação da Valsa no. 6, do Nelson Rodrigues, o grupo A Nossa Cara, de teatro de rua de Salvador, que apresentou Straßen Hamlet, uma divertida e crítica adaptação de Hamlet, que em português se chamava O Rei do Trono de Barro, não apenas em Frankfurt como em várias cidades alemãs, antes e depois da Feira.

De propósito não vou citar os nomes de autores. Nem dos famosos, nem dos que começavam, nem dos que desapareceram, nem dos que ficaram famosos. Deixo essa curiosidade – que acho, afinal, meio mórbida – para quem quiser pesquisar no Google. Vai encontrar muita coisa.

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