MAIS UMA ENTIDADE?

Ao ler, no dia 24 de agosto, a notícia da formalização da criação da Associação Brasileira de Licenciamento Coletivo (Abralc), tive duas reações. A primeira, um tanto irônica, de satisfação por saber que finalmente os editores fizeram autocrítica do ato insensato que perpetraram há quase quinze anos, quando fundiram a ABDR – Associação Brasileira de Direitos Reprográficos, com a ABPDEA – Associação Brasileira de Proteção dos Direitos Editoriais e Autorais.

Ato insensato porque a ABDR havia sido fundada precisamente para usar a prática do licenciamento para o combate da pirataria, enquanto a ABPDEA surgiu em contraposição a isso, defendendo a exclusividade de ações repressoras no combate ao que então se chamava de “xeroqueiros” (o que desagradava profundamente a Xerox, que apoiou a fundação da ABDR).

A segunda reação foi ao anúncio de que a CCR – Copyrigth Clearance Center fora a escolhida como modelo operacional da nova entidade, como se praticamente fosse a única alternativa tecnológica disponível. Isso não é verdade.

Mas, vamos por partes, pois acompanhei boa parte dessa discussão, nos seus inícios.

Já em 2012, aqui no PublishNews, publiquei um post intitulado REPROGRAFIA, DIREITO AUTORAL E LICENCIAMENTO – PARA LEMBRAR DA HISTÓRIA, do qual publico alguns trechos em seguida:

“No começo dos anos 90, a CBL – Câmara Brasileira do Livro, instalou uma Comissão para debater e apresentar propostas relacionadas com o assunto [reprografia]. A partir das informações da IPA, essa Comissão, que foi presidida por Raul Wassermann, da Summus, propôs a criação da Associação Brasileira de Direitos Reprográficos – ABDR. A ABDR foi fundada em 1992 e Raul Wassermann foi seu primeiro presidente”.

Como já disse, alguns editores rejeitaram a perspectiva de cobrar pelo licenciamento, e defendiam, na época, a exclusividade das ações de repressão.

“O resultado foi que, no ano 2000, esses editores, seguindo uma das mais lamentáveis e tradicionais tendências do mercado editorial brasileiro, resolveram fundar mais uma associação. E assim nasceu a ABPDEA – Associação Brasileira de Proteção dos Direitos Editoriais e Autorais, com sede no Rio de Janeiro. A ABPDEA deixava claro que considerava a solução da repressão como a mais correta, e divulgou amplamente o fechamento de copiadoras, prisão de “xeroqueiros”, etc.

A divisão obviamente não facilitou a vida de ninguém.

Pior, a questão acabou entrando na disputa da sucessão de Raul Wassermann na presidência da CBL, em 2002. O Sr. Oswaldo Siciliano, adversário de José Henrique Grossi, o candidato apoiado por Wassermann, comprometeu-se com a ABPDEA a apoiar suas posições, caso eleito. E foi, como se sabe.

O resultado foi que já em meados de 2003 as duas associações foram “fundidas”. Na verdade, da ABDR só sobrou o nome. As formas e métodos de atuação que passaram a ser executadas desde então foram as da antiga ABPDEA, que não faziam inveja aos da RIIA [Recording Industry Association of America – o órgão das gravadoras] a não ser pela menor capacidade econômica dos brasileiros: apreensões, prisões, fechamento de copiadoras, e liquidação dos contratos de licenciamento.

O resultado, lamentavelmente, também foi parecido com o da indústria musical: foi oferecido de bandeja ao moribundo movimento estudantil um prato feito, o da “luta contra os gananciosos editores, que pouco se importam com a formação dos jovens universitários”.

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SÉRGIO MACHADO, EDITOR

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A morte do Sérgio Machado, para além do sentimento de perda de um amigo – pois assim o considerava – suscita algumas reflexões sobre a nossa indústria editorial, a partir da sua vida.

Estava no comando do grupo Record, o maior grupo editorial “trade” do país, desde 1991, quando da morte de seu pai e fundador da editora, Alfredo Machado. Sérgio, economista de formação, já estava há alguns anos trabalhando na empresa da família. A Record, fundada por Alfredo e seu cunhado, Décio Abreu, morreu naquele ano, deixando a editora nas mãos de três filhos: Sérgio, Alfredo Jr. e Sonia. A editora, fundada no âmbito e com as características de empresa familiar, continuava sob controle da família, sem capital aberto.

Um dos grandes desafios das empresas familiares, de todos os ramos, é a solução da sucessão do fundador. Todos os irmãos trabalhavam na editora, mas Sérgio e Alfredo tinham pontos de vista diferentes sob vários pontos. As divergências entre herdeiros provocam turbulência e podem mesmo por a pique a empresa. Sérgio comprou a parte de Alfredo e, com a irmã, assumiu o controle total do grupo.

Em 1997, um evento abalou a família Machado e o mercado editorial brasileiro. Sonia Machado Jardim foi sequestrada, e permaneceu semanas em poder dos seus captores. Sérgio estava nos EUA, onde fazia um curso – coincidentemente sob negociações – e voltou ao Brasil. Junto com o irmão e o marido de Sonia, Antonio Carlos, conduziram as negociações que resultaram na libertação de Sonia, em troca do pagamento de um resgate de valor não especificado.

Durante todos esses anos, o processo de concentração do setor editorial avançou muito, principalmente com a chegada de grupos editorais estrangeiros, que investiram pesadamente, seja na aquisição de empresas já existentes (Santillana comprou a Moderna; a Planeta se instalou por aqui, assim como outras espanholas, como a SM e a Oceano, e portuguesas, como a Leya). Sérgio sempre afirmava que, como comerciante, estava sempre aberto para negociações, pois comprar e vender era o que sabia fazer.

Só que, em vez de esperar que sua editora fosse comprada, Sérgio e Sonia partiram para o crescimento, adquirindo eles mesmo várias editoras nacionais. Desse modo, foram incorporadas ao grupo a Bertrand Brasil (que já era controladora da Civilização Brasileira e da Difel), a José Olympio (que faliu com os sucessores do patriarca e fundador e passou pelas mãos do BNDES e de Henrique Gregory um executivo da Xerox do Brasil), a BestSeller, comprada de Richard Civita, e mais recentemente a Paz & Terra, comprada dos herdeiros de seu fundador, Fernando Gasparian, e a Rosa dos Tempos, fundada por Rose Marie Muraro e Ruth Escobar. Paralelamente, fundou outras editoras/selos, como a Galera e a Galerinha Record, a Nova Era, BestBolso, BestBusiness e a Verus. Com isso, a Record foi firmando seu pé em vários segmentos do mercado, como o de livros infantis e juvenis, a literatura feminista, negócios, esotérica e de fantasia.

Ao robustecer sua empresa, usou a mesma tática das estrangeiras, ampliando sua ação.

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LIVROS DEMAIS – PRAZER E DEVER

Moramos em um apartamento grande, comprado quando os filhos ainda estavam conosco. Agora grande demais. Então, decidimos tentar vender e comprar algo um pouco menor, mais manejável. Com as atuais circunstâncias de mercado, não está fácil. Mas queremos fazer isso.

Mudar de uma casa maior para outra menor significa desapegar, diminuir o peso e o tamanho da carga.

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A verdade é que, nesses anos todos, o que mais cresceu foi nossa biblioteca. Como eu e Maria José somos ligados ao mercado editorial, digo sempre que livro, na nossa casa, não dá filhote: dá ninhada. Só na semana passada, por exemplo, o correio entregou dois novos livros do filósofo Gabriel Zaid, gentilmente enviados por ele. Como sou um admirador (e tradutor) do Zaid, “Cronología del Progreso” e “El Secreto de la Fama” saltam para o topo da pilha. Some-se ainda o exemplar de “O exílio do Homem Cordial”, ensaio sobre Sérgio Buarque de Hollanda escrito pelo meu amigo João Cézar de Castro Rocha. Também para o alto da pilha, além do romance “Cabo de Guerra”, da Ivone Benedetti, que tem como tema os “cachorros” infiltrados pelos militares nas organizações de esquerda durante a ditadura.

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Os livros se espalham pela casa inteira

Assim, apesar da tentativa sempre presente de esvaziá-las, as prateleiras vão se enchendo, e todos os cômodos da casa acabam tendo que ceder espaço para os livros. Apesar de sermos leitores compulsivos, desde a adolescência, e sempre termos orgulho de nossos livros, não temos “espírito de colecionador” e muito menos disposição de construir uma biblioteca de modo sistemático.

Dessa maneira, no decorrer dos anos, várias “baixas” foram sendo dadas. Os livros de antropologia, por exemplo. Fiz uma lista de tudo que sabia que não mais leria ou releria, e mandei para a biblioteca do PPGAS – Programa de Pós Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional/UFRJ, onde fiz o mestrado. Falei com a bibliotecária que escolhesse os que queria. Só tinham que conseguir mandar buscar. Foi quase tudo, salvo os muito comuns, dos quais já havia vários exemplares por lá. Depois fiz uma grande lista de livros para Maria Zenita, bibliotecária que na época chefiava o Departamento de Bibliotecas Públicas da PMSP, escolher os que achava úteis para incorporar ao acervo do sistema de bibliotecas públicas da cidade. Quis todos.

(Diga-se de passagem, fico sempre com pena das pobres bibliotecárias que fazem campanhas de doação de livros, diante da penúria de recursos para adquiri-los. Na maioria absoluta dos casos, o que as pessoas fazem – conscientes ou não – é tirar o livro velho e inútil, o lixo, de casa, e deixar na porta das bibliotecas. Já vi cada coisa…). Mas não era esse o caso. Modestamente, os livros eram bons e tive o cuidado de perguntar se seriam bem-recebidos.

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Livros eletrônicos, mercado tradicional e etc.

A polêmica suscitada pelo artigo do Paulo Tedesco continua, e isso é muito bom. A última contribuição foi do Haroldo Ceravalo, que procura evitar maniqueísmos.

Mas merece alguns reparos.

1- A questão do capital das editoras pequenas e médias. Sinto dizer, mas o problema não é de agora e está longe de se referir ao livro eletrônico. No meu livro “O Brasil pode ser um país de leitores”, que é de 2004, já assinalava que dois grandes problemas da nossa indústria editorial (entre outros, certamente) eram a falta de capital e a capacitação profissional dos editores. Quem quiser acompanhar o raciocínio completo pode comprar o livro e buscar o trecho em questão – afinal, a Summus e eu vivemos de vender livros. Aliás, o Gabriel Zaid, no seu “Livros Demais”(também editado pela Summus, com minha tradução) assinalava isso: “entrar” no mercado editorial é mais fácil que montar uma quitanda. O problema é o capital para aguentar o tranco. Acrescente-se a isso o fato de que os mecanismos tradicionais do mercado fazem as editoras financiarem as livrarias. Está lá no livro também.

2- Nenhum desses dois problemas foi equacionado até hoje. Portanto, continuam existindo. Ou alguém acredita que a maioria das editoras pequenas e médias dispõe de pessoal capacitado tanto do ponto de vista editorial como de marketing, administração e quejandos? Nem nas grandes a capacitação profissional é generalizada… Quanto à questão da capitalização, quem leu o livro do schiffrin Schiffrin sabe bem do que falo.

3- Ler um PDF na tela é um saco. Para imprimir, haja papel e toner. Mesmo as versões mais atuais da Adobe não têm nem fração das facilidades de navegação que o ePub mais chinfrim tem. Para ler com algum conforto é preciso imprimir. Se é para rabiscar e fazer anotações, devo dizer que faço isso com a maior facilidade no Kindle ou no Kobo, e posso arquivar minhas marcações sem precisar ficar folheando a papelada. Sinceramente, para mim o PDF não serve mais nem para garantir a integridade dos textos, já que atualmente é totalmente editável, e acho que o PDF é que é carroça. Mas de gosto não se discute.

4- A Amazon e a Kobo realmente só aceitam arquivos de editoras comerciais em ePub (os auto publicados podem ir em Word). Mas a Saraiva e o Google, o Wook (português) aceitam o envio de arquivos em PDF e eles mesmo os transformam (a Árvore de Livros também). Ou seja, existe preguiça até mesmo de experimentar…

5- É verdade que os leitores de livros eletrônicos são caros. Só que, segundo o Retratos da Leitura no Brasil, a maioria dos que leem livros eletrônicos o faz em tablets e celulares, e todas as lojas divulgam os respectivos apps.

6- Acho que o DRM é um problema muito maior. Especialmente para quem não tem familiaridade com os truques. Da minha parte, quebro tudo e guardo na minha máquina, que dessa história de arquivar na “nuvem” é que não sou lá muito fã.

7- Já escrevi tantas vezes sobre a impressão sob demanda que me abstenho de comentar mais, por enquanto. Tanto no PublishNews quanto aqui no O Xis do Problema deve ter bem uns vinte posts sobre o assunto, quantidade que só perde para os posts sobre metadados.

De qualquer maneira, o artigo do Haroldo é bem ponderado e revela algumas das preocupações mais urgentes dos pequenos e médios editores.

Só para finalizar. Hoje leio tudo que posso no formato eletrônico. Mesmo livros complexos, como a série do Gaspari, a Cindy Leopoldo provou que o ePub 3 aguenta o tranco muitíssimo bem, e valorizou os livros com o material adicional. Livros de arte e infantis sim, não ficam bem (os infantis estão virando apps, e são muitas vezes bem ruinzinhos).

Mas continuo lendo e comprando livros em papel, e ninguém tasca a mão na minha edição da Pléyade da Comedie Humaine, balzac pléyadeou na do Don quijoteQuijote da Alfaguara. Mas essa polêmica de se o eletrônico vai “acabar” com o impresso é das coisas mais ociosas que já apareceram.

 

LIVROS DE COLORIR, LIVROS DIGITAIS, LIVROS. SER OU NÃO SER UM LIVRO?

Hamlet-05 Um dos blogs que costumo seguir é o do catalão Bernat Ruiz, Verba Volant, Scripta Manent (nada a ver com a epístola do usurpador). O post desta semana, Libros que nunca lo fueron, coincidentemente, saiu no mesmo dia em que o PublishNews publicou post do Paulo Tedesco, Um e-book de fracasso,  no qual se dedica a desvalorizar os e-books (a polêmica prossegue com a resposta do André Palme e uma intensa discussão no Facebook).

Na verdade, os dois artigos tangenciam o tema que marca este texto. O do Bernat Ruiz está muito mais focado na questão de se os livros de colorir para adultos podem ou não ser considerados livros.

Mas vamos, lá, começando pelo Ruiz.

Ele anuncia que a HMRC britânica, mais ou menos equivalente à nossa Receita Federal, enviou correspondência às editoras do Reino Unido exigindo o pagamento de IVA para “los cuadernos de colorear para adultos”. Nossos populares (no ano passado) livros de colorir.

O Reino Unido não cobra IVA de livros, livros infantis de pinturas e gravuras, mapas e cartas geográficas, revistas, Jornais, música impressa ou copiada (partituras) e publicações (alguns tipos de publicações, como livros de exercícios e cartazes, pagam a taxa padrão). Existe uma discussão pendente (na União Europeia em conjunto e em cada país, e também por aqui, sobre os livros eletrônicos).

E Sua Majestade anunciou que vai cobrar o imposto dos livros de colorir para adultos. Esse o tema do post do Bernat Ruiz.

Livros de colorir são livros?

Uma polêmica que existiu aqui também, e se esvaneceu. Os livros para colorir foram aceitos como livros e, portanto, imunes à tributação.

Barnat, entretanto, esmiúça a polêmica. Cita a definição de livro da UNESCO (a famosa que define livro como publicação de pelo menos quarenta e nove páginas fora a capa), a Lei do Livro Espanhola; cita a Wikipédia e outros quetais. No final, lamenta que sejam as autoridades fiscais que definam o que é livro e aí, sim, entra na seara do livro digital.

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“LES PUF” EM PARIS – UMA LIVRARIA DE NOVO TIPO

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A nova livraria da PUF – Presses Universitaires de France, ocupa um espaço de menos de 80m2. Não está longe do local onde existiu entre 1921 e 2006, na Place da la Sorbonne, e que era um ponto de encontro dos estudantes e da intelectualidade francesa. No entanto, a nova livraria disponibiliza aos clientes todos os 5.000 títulos da editora (mais 2.000 títulos anteriormente fora do catálogo nos próximos meses) e três milhões de outros títulos, que incluem os publicados pelas maiores editoras dos EUA, e um crescente número de títulos franceses.

puf 1E ainda tem um café, onde os clientes esperam a impressão do livro.

Tudo isso é possível porque a livraria usa a Expresso Book Machine, que imprime e faz o acabamento de um livro a cada cinco minutos, em média. Veja detalhes sobre a inauguração, acontecida no último dia 12 de março aqui e aqui.

Publiquei anteriormente três posts sobre a Expresso Book Machine. O primeiro, em setembro de 2012,  contava como a máquina foi desenvolvida a partir de uma ideia de Jason Epstein, lendário editor de Nova York, um dos fundadores da New York Book Review e visionário da indústria editorial. A máquina de livros é fabricada pela On Demand Books.

No meu segundo post sobre a Expresso Book Machine tratei do avanço na solução de um dos gargalos para o sucesso da máquina, que é a disponibilização, pelas editoras, dos arquivos para que a EBM possa produzir seus livros sob demanda em cada máquina licenciada. Em janeiro de 2013, a Penguin USA (antes da fusão com a Random House), anunciou que faria isso.

Alexandre Gaudefroy, gerente da livraria, e os tablets que permitem a consulta dos títulos à venda.
Alexandre Gaudefroy, gerente da livraria, e os tablets que permitem a consulta dos títulos à venda.

Em 2015, quando estive no Salon du Livre de Paris, na edição em que o Brasil foi homenageado, vi pela primeira vez duas dessas máquinas operando, e publiquei mais um post sobre o assunto. Uma no estande da On Demand Books, onde entrevistei Jason Beatty, Vice-Presidente Senior de vendas e desenvolvimento de negócios, e outra precisamente no estande da PUF. Na ocasião, fiz questão de levar aos dois estandes o então presidente da FBN, Renato Lessa, o Presidente da CBL, Luís Antonio Torelli e o então presidente da Editora da Unesp e Secretário Executivo do PNLL, prof. José Castilho.

Minha esperança era que algum deles (ou os três em conjunto), encontrassem um meio de trazer uma dessas máquinas para a Bienal do Livro de S. Paulo, este ano. Fiquei na esperança, pelo visto.

Não seria um empreendimento fácil. A máquina custa caro (cerca de cem mil dólares). Segundo Beatty, isso não impede que mais de trezentas já estejam instaladas nos EUA, várias das quais em livrarias independentes. Na Europa, o país que mais as importou é precisamente a França.

Na França, a Espresso Book Machine é explorada por um consórcio constituído pelo IRENÉO,  um programa de pesquisas sobre a impressão de livros sob demanda, que faz parte do  IDEP (Institut de développement et d’expertise plurimédia)  e pela UNIIC (Union nationale des industries de l’impression et de la communication),  que seria mais ou menos o equivalente da ABIGRAF brasileira. Esse consórcio adquiriu seis máquinas para uso em escolas e universidades. Uma delas está alugada pela PUF por dois anos, o que reduz substancialmente o investimento fixo inicial. A editora, que é essencialmente uma casa de publicações universitárias (inclusive a famosa coleção “Que sais-je?”), qualificou-se assim para receber uma das máquinas importadas.

puf 3Essas informações deixam claro que a implantação desse tipo de máquina exigiria um esforço combinado de entidades públicas e privadas que estivesse voltada para o desenvolvimento da indústria editorial e livreira. Certamente isso se enquadraria em uma política de promoção do livro e da leitura, com os benefícios adicionais de melhorar substancialmente o lado logístico da distribuição de livros no Brasil.

Hélas¸ diriam os franceses, essa é uma tarefa particularmente difícil no Brasil de hoje: crise econômica, políticas de “salve-se quem puder” também na área editorial, e uma crônica incapacidade dos segmentos de editores, livreiros e gráficos para pensar e atuar coordenadamente em benefício comum, tudo se compõe para aumentar as dificuldades.

Certamente a Expresso Book Machine não é uma solução mágica para a indústria editorial e muito menos para as livrarias. Mas certamente é um esforço em busca de construir um conjunto de soluções para os problemas do setor, e que interferem diretamente nos índices de leitura dos brasileiros. As dificuldades de logística, o preço dos livros, a situação vergonhosa dos sistemas de bibliotecas públicas são componentes dos baixos índices de leitura.

Com o abandono muito provável pelos próximos dois anos dos programas de aquisição de livros de literatura para as escolas públicas (e oxalá o do livro didáticos também não seja reduzido), agravando uma situação que já se desenhava como ruim desde o ano passado, pensar na Expresso Book Machine por aqui é, como diria o Millor Fernandes, apenas um exercício de livre pensar. Que é só pensar e como tal não custa nada.

O que ainda dá um sopro de esperança nesse caso é que eu soube da livraria da PUF pela notícia publicada na edição do dia 13 de junho do New York Times. E lembrei da época do Henfil nos EUA, e o bordão que ele usava nos “Diários de um Cucaracha” no Pasquim (depois virou livro, hoje só em sebos, já que não temos uma Expresso Book Machine por aqui…), dizendo que uma coisa só ficava importante quando era publicada no jornalão da Grande Maçã. Como isso aconteceu, quem sabe… (apesar do NYT ser financiado pelo PT, segundo o Fiúza, colunista de O Globo e da revista Época).

PACTO NA CADEIA DO LIVRO – ENTRE FALAR E AGIR

No Seminário sobre a experiência francesa de aplicação do sistema de preço fixo, no último dia 3 de maio, no auditório da Livraria Martins Fontes Paulista, os presidentes das entidades ligadas ao livro – Bernardo Gurbanov (ANL), Marcos Pereira (SNEL) e Luis Antonio Torelli expressaram uma posição comum, mencionando a necessidade de “um pacto” das entidades para que, mesmo antes da eventual aprovação do projeto da senadora Fátima Bezerra, essa medida de defesa da cadeia produtiva entrasse em vigor.

Não é a primeira vez que se fala no tal pacto. Mas, até agora, que se saiba, tudo não passou de vento quente. Não há nenhuma proposta concreta na mesa. E pactos se fazem a partir de propostas, colocadas preto no branco, em torno das quais as partes possam chegar a um consenso.

Minha surpresa, no decorrer do encontro, foi verificar que os franceses, além da legislação, já avançaram muito para que as práticas comerciais entre os membros da cadeia do livro ocorram de forma mais harmônica e tendo como parâmetro – para além da imprescindível necessidade de cada setor ganhar dinheiro – o desenvolvimento do mercado e a promoção do livro e da leitura junto ao grande público.

O evento foi realizado pelo Escritório Internacional da Edição Francesa (BIEF) e pelo Escritório do Livro da Embaixada da França no Brasil, com patrocínio das três entidades.

Dados seus recados, antes do intervalo para almoço, os três dirigentes foram cuidar da vida, enquanto o seminário continuava com uma plateia menos concorrida.

A sessão matutina já havia destacado alguns pontos importantes na experiência de aplicação da chamada Loi Lang. Jean-Guy Boin, do BIEF (Bureau International de l’Édition Française), assinalou que “em um mercado maduro, como o francês”, ao contrário do que diziam os detratores da lei, os preços subiram menos que a inflação em todo o período de vigência da legislação. Esse, evidentemente, é um ponto importante a ser sempre destacado. Entretanto, assinalou M. Boin, a necessidade de explicar isso para o público é permanente. Até hoje (e particularmente depois do crescimento da Amazon) aparecem clientes que perguntam aos livreiros porque não existem descontos, como em outros países.

Quando a lei foi aprovada (1981), tanto o Ministério da Cultura francês quanto as entidades de editores e livreiros desenvolveram campanhas explicando a medida, com a presença de formadores de opinião, não apenas escritores, como personalidades de várias áreas. Foi muito enfatizada a importância da lei para a garantia de bibliodiversidade e para uma oferta mais ampla de títulos, que escapassem da lógica imediata dos best-sellers. A concorrência se transferiu para a qualidade do serviço prestado pelas livrarias.

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OS MEMBROS DO MERCADO EDITORIAL, A CRISE E MANIFESTOS

Semana passada, em ótima iniciativa, o PublishNews publicou duas opiniões sobre o recente manifesto “Escritores e profissionais do livro pela democraciaque, pela contagem que acabei de fazer, já tem quase nove mil assinaturas. Luís Maffei defende a necessidade do manifesto, e Henrique Farinha escreve que “a luta política não pode contaminar as pautas profissionais”.

Com o devido – e sincero – respeito às posições pessoais do Henrique Farinha, não posso deixar passar a oportunidade de comentar o assunto.

Para deixar claro: assinei o manifesto, votei na Dilma em 2014 – e votaria novamente, apesar das inúmeras e imensas críticas que tenho ao seu governo. Trabalhei pela legalização do PT, lá pelos anos 1980, mas não sou afiliado ao partido e nem tenho nenhuma militância partidária estrictu senso.

Mas me considero um homo politicus, inclusive no sentido aristotélico da palavra. Eu não sou fora da polis onde vivo. E minha relação com a polis (ou com a societas, como queiram), é que me conforma como cidadão, como profissional. Como ser humano, em suma.

É esse o cerne da questão.

Não vivo em Marte nem em etéreos mundos isolados dessa polis. Vivo neste Brasil de 2016, com sessenta e seis anos. Vivi a ditadura em sua integridade. Combati-a como pude, fui preso, torturado, e tive que me exilar. Meu primeiro filho nasceu no exterior.

Assim, além do mais, é minha história que me define.

Mas isso é genérico.

O fato é que ser editor hoje, e ter sido editor nos estertores da ditadura me ensinou uma diferença fundamental: a importância da legalidade democrática. Que não se expressa tão somente nas formalidades. O ambiente político social em que vivemos marca indelevelmente nossa atividade profissional. Ter a garantia de que um tira não pode me prender pela minha cara ou pelo que faço que não seja criminalmente definido por lei é algo inestimável para quem viveu os anos sombrios. Por isso, não bastam os formalismos, mas a forma é também fundamental.

Pensam que é fácil?

Uma anedota ilustrativa.

Na Marco Zero, a editora que Maria José Silveira, Márcio Souza e eu tivemos entre os anos 1980 e 1990, fomos os primeiros a publicar no Brasil um certo autor português, então muito jovem. Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes, foi publicado por nós nos anos oitenta. Pois bem, um belo dia vimos uma resenha do livro ocupando quase uma página no então prestigiadíssimo Caderno B. Só com um pequeno detalhe: o título não era mais o original. Para o JB passara a ser “Os Cafundós do Judas”.

Não havia mais censura explícita. Mas o ambiente da ditadura ainda perpassava tudo. Cu, nem no singular nem no plural, podia ser impresso em um jornal de circulação nacional. Hoje virou imprecação de estádio na Copa do Mundo….

E o ambiente que vivemos hoje me evoca isso – com dor no coração.

A deterioração do ambiente político do país é simplesmente assustadora. Quando as pessoas têm que pensar qual a cor da roupa que vestem, porque isso pode provocar uma agressão, é uma tragédia. E isso aconteceu muito rapidamente.

Apesar da dureza da campanha de 2014, ainda se mantinha um nível de civilidade que, de lá para cá, perdeu-se completamente. Nas eleições de 2014 saí de casa para votar no Colégio São Luís, na Paulista (onde o Aécio deve ter tido uns 80% dos votos), com uma camiseta vermelha, comprada em Leningrado, em homenagem à Revolução de Outubro na Rússia. Depois, fiquei observando o movimento e uma senhora me pediu ajuda para saber como votar no Aécio. Ensino o beabá para ela, que saiu toda pimpona para votar no seu candidato.

Isso, há pouco mais de dois anos. Hoje seria, literalmente, impensável. Se eu aparecer para votar com camiseta vermelha, no Colégio São Luís, a possibilidade de ser agredido é altíssima, como se tem visto. E que haja alguém que me pergunte como votar em candidato que não seja o meu… sem palavras.

É a ruptura da liberdade vestir de qualquer cor, de dizer o que quero, publicar o que desejo e que os leitores leiam o que lhes dê na gana que vejo ameaçada nessa quadra de proposição de métodos ilegais para depor a Presidenta Dilma Roussef, eleita com a maioria absoluta dos votos em 2014.

Juízes e outras cabeças falantes arrotam declarações na imprensa dizendo que o “impeachment é legal”. Ora, até nosso prezado Conselheiro Acácio iria se ruborizar com tal platitude. O pedido em tramitação foi feito com base na acusação de que a Presidenta fez “pedaladas” fiscais – adiantou recursos para pagar as contas. Ou seja, usou o cheque especial. Está na companhia de mais dezessete governadores, de todo o espectro partidário, que fizeram a mesma coisa. Vários dos quais, lépidos e fagueiros, engrossam o coro da deposição. Só que nem se fala mais nas tais “pedaladas”, e se imputa à Presidenta acusações que nunca foram nem mesmo mencionadas, sequer dentro desse sistema inquisitorial de prender para delatar, inaugurado quinhentos anos atrás por Torquemada e colegas.

A justiça funciona, a polícia investiga – ainda que muito seletivamente – e já houve condenações também correndo a membros de todos os partidos. Todos.

Só que a solução para os imensos e profundos problemas que afetam nosso país não é apelar para pesquisas de opinião para “decidir” o que a “maioria” deseja. A maioria decide na hora de votar. Quatro anos depois isso é julgado pelos eleitores, e ponto parágrafo.

Tudo isso afeta, sim, nosso trabalho profissional. Não apenas como cidadãos, como também como membros dessa comunidade que vive do intercâmbio de ideias, do contraditório de opiniões. Quem acha que é possível dar uma de avestruz e enfiar a cabeça no seu mundinho supostamente profissional pode, mais tarde, se arrepender. Como alguns órgãos de imprensa que apoiaram o golpe de 1964, “contra a corrupção”, e pagaram caro por isso.

Evidentemente, todo o direito é devido a quem acha o contrário. Mas considero que, quem está no mercado editorial, editor, escritor, ilustrador – enfim, toda a gama de ofícios – e for favorável à deposição da Presidenta deve dizê-lo com todas as letras, e não se escudar em uma irreal neutralidade profissional, que não existe. Podem (devem) ir à luta e arregimentar assinaturas para suas posições, sem desqualificar os demais. E, diga-se de passagem, defender o mandato e a democracia não significa nem ser conivente com crimes e muito menos apoiar as políticas aplicadas.

A expressão de posições não prejudica – necessariamente – relações pessoais nem profissionais. Meu quadro de relacionamentos, e acredito que o de muita gente – inclui pessoas (parentes, inclusive), de todos os quadrantes políticos. Com firmeza, mas sem argumentos ad hominem e destemperos, não só podemos, como temos obrigação de nos colocarmos no mundo. E convivermos.

 

 

 

“UM MERCADO MUITO COMPLEXO”

A frase é de Michael Cader, o organizador da Digital Book World Conference que recém terminou. Cader, que é um dos mais renomados especialistas em análise de dados do mercado editorial, marcou vários pontos nos últimos dias.

O primeiro é o reconhecimento da complexidade do mercado e, principalmente, das sérias inconsistências dos dados disponíveis para análise de seu desempenho (em geral e de cada livro, ou editora, em particular). E isso, vindo de alguém que é dos mais dedicados defensores da importância dos metadados, não é pouca coisa.

Cader estava falando dos dados sobre o mercado dos Estados Unidos. Se olhasse os daqui, teria um faniquito.

A razão, explicou ele, é que o mercado é tão complicado “que é quase impossível ter uma apreciação clara dele”. E as razões enumeradas se resumem ao fato de que “as três fontes primárias de dados sobre vendas não pintam nada que se assemelhe a uma visão geral”.

Quais são essas três fontes? A Association of American Publishers (AAP)  monitora vendas de livros impressos e digitais a partir de números fornecidos pelos editores. Só que, como a AAP registra basicamente as vendas de editoras grandes e médias, é impossível saber “o desenho total da paisagem” que esses números representam. (Existe outro fator complicador, tratado mais adiante).

A outra fonte é o Nielsen Bookscan, que monitora as vendas de livros impressos. Mas essa, como sabemos, lá e aqui, só monitora a venda de grandes clientes: redes de livrarias (e nem todas), a parte do segmento de “linha branca” que vende também livros (Americanas, Ponto Frio e congêneres). Lá, como aqui, o Bookscan é preciso nesse registro no que diz respeito a unidades vendidas e o preço de venda de cada unidade. Mas não tem condições de informar sobre o faturamento total da indústria editorial. Acompanha com precisão – como aliás temos visto nos relatórios divulgados aqui pelo SNEL – aquilo que é vendido nos pontos de venda que eles acompanham. Quem não está ligado ao sistema da Nielsen está fora. E isso inclui não apenas todas as livrarias independentes, como também a segmentação de vendas que é feita através das distribuidoras. Das vendas ao poder público, então, nem falar.

Finalmente, a PubTrack, que cobre apenas ebooks. Originalmente fundada pelo Bowker, hoje é controlada também pela Nielsen, e divulga seus dados a cada três meses.

Entretanto, o problema é ainda maior. Os grandes varejistas eletrônicos não fornecem nenhum dado agregado. Amazon, Apple, Google e Kobo informam as editoras sobre suas vendas, é claro. E essas informam o PubTrack, na periodicidade acertada.

Mas a discrepância continua: qual a parcela das vendas das grandes editoras no conjunto do mercado editorial dos EUA?

O grupo Author Earnings  que congrega especialmente os autores independentes, ou seja, os auto-publicados, já há muito contesta furiosamente os dados apresentados por essas três fontes. Sustenta que o segmento da auto-publicação é muito maior do que as editoras estabelecidas pensam, e que esses dados estão simplesmente errados.

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NORMAS E METADADOS – PANORAMA

No dia 16 passado, aqui no PublishNews, Eduardo Cunha (o da BookPartners, não o outro), publicou um excelente post, Mudar as atitudes, estabelecer padrões: um bem para toda a cadeia livreira no qual abordava, com a perspectiva de distribuidor, alguns temas que venho tratando em várias ocasiões por aqui.

O ponto mais importante para mim, é que foi a primeira vez, em minha memória, que alguém diretamente envolvido na cadeia produtiva do livro trata do assunto, mostrando a urgência do estabelecimento de padrões e o aperfeiçoamento dos metadados usados pela indústria editorial e livreira do nosso país.

O post do Eduardo motivou algumas reflexões que gostaria de compartilhar com vocês.

O que primeiro chamou minha atenção foi a constatação de que “infelizmente não vejo nenhum esforço das nossas entidades de classes em criar padrões melhores para indústria”.

De fato, para criar padrões, é preciso haver alguma instituição normativa para isso, que consolide exigências de vários tipos, de modo a que sistematicamente possam ser aplicados em toda a cadeia de produção e venda de livros. As entidades do livro passam ao largo disso.

Exigem exigências de ordem fiscal – e ele chama atenção para vários problemas decorrentes da nossa estrutura tributária – de produção e de comercialização a serem obedecidas.

Muitas dessas normas (que são metadados), já estão codificados e existentes. As regras fiscais, por exemplo, são estabelecidas pela legislação e pelas normas da Receita Federal. Infelizmente, porém, nem todas as editoras seguem as normas. E ficam vulneráveis à eventual fiscalização. O Eduardo Cunha dá o exemplo do manejo das consignações.

E cita várias questões de produção e de identificação dos livros. Um exemplo hilário é o da “liberdade” que capistas tomam (com a conivência, e aplauso, dos editores), de colocar fundos por baixo da identificação do ISBN, dificultando a leitura do código de barras. E outros exemplos que tais.

Bom, a questão começa pelo seguinte: muitos dos padrões existem. Só que são completamente ignorados pelos editores e pelos capistas, diagramadores e outros envolvidos na produção desse objeto físico ou virtual que é o livro.

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Políticas públicas para o livro e o mercado editorial