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ESTATÍSTICA… QUE PROBLEMÃO

Já se disse que a estatística é uma forma pseudocientífica de contar mentiras. Outros a idolatram, como se os números refletissem “fatos” de forma mais precisa que qualquer outra coisa. E as evidências abundam sobre as manipulações estatísticas que realmente existem, ainda que a ciência, ou “arte” continue florescente e muito utilizada. O que seria da física quântica e das tecnologias “fuzzy” se não fossem as probabilidades, filhas diletas da estatística?

O terreno mais pantanoso, sem dúvida mora na área das humanidades. Usam-se estatísticas para “provar” qualquer coisa, tratando de modo ligeiro conceitos e definições bem estabelecidas. É o caso, por exemplo da utilização do conceito de censo (análise do conjunto de uma população) com o de survey, que procura retratar uma amostra, – constituída a partir de várias técnicas -, que possa “representar” o conjunto da população, ou pelo menos uma parcela bem definida dessa população. O censo estatístico por excelência é o demográfico, no qual os recenseadores efetivamente contam a população, casa por casa, cobrindo o país inteiro, recolhendo um conjunto de observações que, trabalhadas estatisticamente, permitem estabelecer conjuntos de dados específicos para cada segmento delimitado.

Quando a pesquisa estatística recolhe dados bem definidos em um universo igualmente bem definido, revela-se um valioso instrumento de análise para aquilo que foi perguntado.

A GfK, uma empresa internacional de pesquisa de mercado divulgou em 2017 uma pesquisa que recolheu dados, no verão de 2016 (verão do hemisfério norte), de (1) consumidores, com (2) idade acima de 15 anos que preencheram dados online sobre (3) seus hábitos de leitura, em 17 países, reduzidos a uma mostra estruturada que refletia a (4) composição demográfica dessa população online. Os interessados podem acessar a pesquisa e fazer o download aqui.

A tabela apresentada pela GfK foi a seguinte:

Ou seja, a empresa definiu cuidadosamente o momento da pesquisa, a população objeto da pesquisa (referência aos censos demográficos nacionais), estruturando sua amostra segundo cada um deles e dando o número “n” de entrevistados, e o tipo de pesquisados. Ou seja, uma amostra da população acima de 15 anos de idade, online, que eram consumidores, e responderam a um conjunto predeterminado de perguntas. Restringiu, portanto, de modo inequívoco, o que estava pesquisando, quando e como. O resultado apresentado como “Frequency of reading books – Global GfK survey” pretendia retratar os hábitos de leitura (definidos bem precisamente) de uma população específica.

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LITERATURA E DITADURAS – COMBINAM?

Nos dias 4 e 5 de junho passados aconteceu, na UnB, a III Jornada de Crítica Literária, cujo tema era precisamente esse – Literatura e Ditaduras -, com o objetivo de provocar o debate sobre as relações estre estética e política, pondo em evidência situações históricas do passado para reflexão da cultura contemporânea, lembrando que o processo democrático tem sido alvo de constantes golpes ao longo da história política do continente latino-americano.

Coordenado pelos professores Paulo C. Thomas (UnB), Regina Delcastagne (UnB) e Rejane Pivetta (UPF), a jornada mostrou em onze mesas com escritores e professores, (duas das quais de estudantes da UnB que apresentaram trabalhos em desenvolvimento), como se desenvolve essa difícil relação. Relação que, em diversos momentos, tem sido muito marcada pela negação, disfarçada na afirmação de que as duas coisas não podem (ou não devem) se misturar.

Como disse a escritora Maria José Silveira em sua intervenção, “O ‘não’ é um dos problemas de quem se aventura a escrever sobre política. No momento da ditadura pura-e-nua, era o ‘não’ da censura. Depois e sempre, é a crítica pseudo-não-ideológica que propugna uma literatura sem política, como se isso pudesse existir, ou a adesão até inconsciente à política do esquecimento: ‘Por que falar dessa época?’ ou ‘Todo mundo é contra a ditadura, que bom que ela passou, agora vamos falar de outro assunto?’”

No debate, um dos professores presentes reconheceu que haviam até discutido o romance “O Fantasma de Luís Buñuel”, da mesma Maria José, que tem Brasília, a própria UnB (e a ditadura civil-militar de 1964-1988) como pano de fundo, mas que o desenvolvimento do assunto não aconteceu. De certa forma, foi também um exemplo do “Para que falar dessa época? Todo mundo é contra a ditadura, que bom que ela passou, agora vamos falar de outro assunto?”

Até que o golpe em decurso (sabemos como um golpe começa, mas não como se desenvolve ou termina, assim vale lembrar: cave, canem) recolocou o assunto brutalmente em pauta. Mais uma vez. De onde não deveria ter saído.

Na verdade, esses “nãos” também escondem algumas armadilhas, nas quais muitas vezes caem escritores que se atrevem a tratar desses assuntos. Uma delas é a confusão, muitas vezes deliberada, da crítica e dos bem-pensantes, que trata a abordagem literária como um simples documentário da “verdade”. Ora, a “verdade” que não é transfigurada pelo trabalho literário não chega nem a ser documentário: é uma chatice. Mas a solução para esse problema não é simplesmente olhar para o próprio umbigo e elevar isso à suprema categoria literária.

Como diz também a Maria José Silveira: “É arriscado escrever sobre o que nos atinge tão de perto. O tempo da ditadura é um passado que não passou. Embora por alguns curtos anos tenhamos vivido no wishful thinking de acreditar que estávamos em uma democracia, hoje vemos como a ditadura e seus restolhos estão se fazendo presente, emergindo sem pejo dos subterrâneos, loucos para respirar ar fresco. Ao escrever sobe tantos horrores ainda tão presentes, é preciso uma atenção enorme para não cair no perigo fatal de ser panfletário. Se isso acontece, a literatura morre. De morte matada por nossas boas intenções”.

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LEIS… ORA, AS LEIS

A aprovação definitiva no Congresso do projeto de Lei da senadora Fátima Bezerra (PT), criando a Política Nacional de Leitura e Escrita poderá provocar resultados, digamos, motivacionais, no panorama de incentivo à leitura e à escrita no país.

Entretanto, sem criar instrumentos e mecanismos explícitos para sua execução, coloca a lei – ou seja, para efetivamente aplicar uma política pública na área, – que certamente será promulgada (e com fanfarra) pelo presidente usurpador, na categoria

daquelas que são “para inglês ver”.
A proliferação de projetos de lei sobre livro, leitura, promoção de autores e concursos continua ativa. Já em 2012 publiquei aqui, comentário sobre várias leis inúteis ou perigosas em tramitação. Mais recentemente estamos com as parolagens da “Escola Sem Partido”, iniciativa originada de Instituto Millenium, que me abstenho de comentar para não ficar deprimido, e porque tantos já o fizeram, denunciando essa perigosíssima tentativa de censurar e impor limites à liberdade de cátedra e à liberdade de opinião.

A iniciativa da Senadora Fátima Bezerra, que encaminhou o anteprojeto preparado pelo professor José Castilho Neto (então secretário executivo do PNLL) e Volnei Canonica (então titular da Diretoria de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas, do MinC), mostra o compromisso da senadora e de todos os relatores que encaminharam a lei, tanto no Senado como na Câmara, com a questão do livro e da leitura em nosso país. Por isso, parabéns a todos esses parlamentares, e aos idealizadores da legislação.

Para ilustrar o tipo de questões que esses projetos representam, gostaria de lembrar que a Lei nº 12.244, de maio de 2010,  está em pleno vigor. Para quem não se lembra, ou reconhece, é uma lei que obriga a todas as escolas públicas do país ter biblioteca à disposição dos alunos e professores, com um acervo mínimo de um título por aluno matriculado. Sancionada pelo Presidente Lula (Fernando Haddad era o Ministro da Educação), é um egrégio exemplo de lei inútil. Estabelece um prazo de dez anos – que terminará em 2020 – para ser cumprida, mas nenhuma punição para os prefeitos ou governadores – respectivamente responsáveis pelo ensino básico e médio – que não a cumprirem. E muito menos indica que recursos poderiam ser usados para isso. Nem ao menos considera a possibilidade de uso das transferências constitucionais para a educação, com esse objetivo.

Seria educativo se o MEC se dispusesse a demonstrar quantas escolas abriram bibliotecas nestes já oito anos de vigência da lei. Pelo que sei, salvo alguns poucos municípios onde representantes do Ministério Público induziram os prefeitos a fazer um TAC – Termo de Ajuste de Conduta, – para implementar as bibliotecas nas escolas, e algumas escolas particulares, deram pelota para a tal lei, que em breve será sepultada na fossa da boa vontade inútil.

Outro exemplo, agora de lei ainda em tramitação, é o do PL do Senado 1321/2011, apresentado pelo então Senador (e Presidente do Senado), José Sarney. O projeto tentou um atalho, que foi o de complementar a Lei 10.753, de 30 de outubro de 2003, que institui a Política Nacional do Livro (que, aliás, é a mesma lei que foi emendada pelo projeto da Senadora Fátima Bezerra). A intenção é especificar melhor um crucial detalhe dessa importante legislação, que previa a instituição desse fundo para financiamento dos objetivos previstos na Lei do Livro, usando recursos do Fundo Nacional de Cultura (art. 17), a ser substituído por esse novo Fundo Nacional Pró-Leitura (FNPL).

Diga-se de passagem, e ilustrativamente, que na época da tramitação da Lei do Livro (10.753), eu era consultor do Cerlalc e acompanhei o processo. Adverti e insisti que a criação do mecanismo de financiamento das ações da Lei deveria ser concomitante. Caso contrário, como os fatos infelizmente provam, não sei quantos ministros da cultura depois, isso iria ficar no limbo. Tenho ou não razões para ser pessimista?

Tal como o projeto recém aprovado do PNLL, o do Sarney já passou pelo Senado e está na Câmara, podendo ser aprovado em caráter conclusivo após tramitação nas Comissões. Atualmente, depois de ser aprovado na Comissão de Educação, está na Comissão de Cultura, desde abril, com relatoria do Deputado Thiago Peixoto, que certamente dará parecer positivo. De lá passa para a Comissão de Constituição e Justiça e poderá ser aprovado sem passar pelo plenário, tal como foi o da Senadora Fátima Bezerra.

O FNPL seria um fundo de natureza contábil, com prazo indeterminado de duração, que funcionará sob as formas de apoio a fundo perdido ou de empréstimos reembolsáveis,  constituído por recursos: I – do Tesouro Nacional; II – doações, nos termos da legislação vigente; III – legados; IV – subvenções e auxílios de entidades de qualquer natureza, inclusive de organismos internacionais; V – reembolso das operações de empréstimo realizadas por meio do Fundo, a título de financiamento reembolsável, observados critérios de remuneração que, no mínimo, lhes preserve o valor real; VI – resultado das aplicações em títulos públicos federais, obedecida a legislação vigente sobre a matéria; VII – saldos de exercícios anteriores; VIII – recursos de outras fontes.

Curiosamente, o projeto prevê que o FNPL será gerido pelo órgão encarregado da Política Nacional do Livro, conforme regulamento. Ou seja, pela ex-diretoria ocupada pelo Volnei Canonica, que foi rebaixada na hierarquia do MinC.

Ou seja, trata de autorizações para que o executivo faça – sem obrigação de fazer – um monte de coisas ótimas, que continuam desamarradas do ponto de vista da execução.

Os parlamentares estão constitucionalmente impedidos de apresentar projetos que criem órgãos e estabeleçam compromissos financeiros do Executivo. Podem apresentar, na discussão da Lei Orçamentária, emendas destinando recursos para órgãos, instituições e programas existentes, mas não criar nenhum. Essa castração da prerrogativa legislativa é antiga, e até hoje não faz parte da pauta de ninguém eliminá-la.

O Presidente Lula já declarou, aliás em várias ocasiões, que o que fez realmente foi “colocar os pobres no orçamento”. Sem isso, as iniciativas permanecem sempre no campo das boas intenções. Que, ao contrário do que diz a sabedoria popular, nem sempre calçam o caminho do inferno, mas correm o risco de permanecer piedosamente bem-intencionadas para sempre.

De qualquer modo, mostra o crescimento, no parlamento, do interesse pelo assunto. Resta saber como aproveitar melhor isso, pois não há criatividade que resolva o fato básico: fora o livro didático, o Governo Federal não colocou o livro e a leitura no orçamento. O livro e a leitura, infelizmente, continuam sendo vistos apenas como um instrumento da educação, e não como parte integral dos direitos cidadãos de acesso à cultura, informação e lazer. E sem entrar no orçamento.

CACHAÇA E LITERATURA BRASILEIRA

A literatura é uma cachaça, alguns podem até dizer que. É um dos tantos sinônimos da branquinha: algo que não se pode largar. A literatura brasileira é uma cachaça para muita gente.

Mas, além de “ser uma cachaça” para leitores, a branquinha aparece nas obras de muitos autores, e essa presença reflete e retrata muitas coisas.,

Não é de se admirar. A cachaça é a bebida mais popular do país. Estranho seria se não estivesse presente na obra de nossos grandes escritores. (Talvez esteja ausente – definitivamente – nos escrevinhadores classe média que só olham para o próprio umbigo e só bebem cerveja, ou uísque). Mas, de José Lins do Rego aos poetas cancioneiros atuais, de João Cabral a Chico Buarque, e passando por Graciliano, Guimarães Rosa, Mário de Andrade e muitos outros, a cachaça está presente no enredo, na construção do romance (ou das poesias) e na anima de várias obras primas de nossa literatura.

Esse é o tema do curso organizado pelo professor Maurício Ayer, escritor, tradutor, pesquisador de literatura e música e especialista em cachaça. Doutor e pós-doutor em literatura francesa pela FFLCH/USP, especializou-se na Universidade de Paris 8 e formou-se em Música/Composição na Faculdade Santa Marcelina. O curso, “Literatura Brasileira e Cachaça”, é organizado sob os auspícios do site Outras Palavras – Comunicação Compartilhada e Pós Capitalismo. Aqui o link para informações sobre o curso, e aqui uma apresentação do Maurício Ayer

A primeira “aula” – se é que se pode chamar assim – foi sobre José Lins do Rego, em especial sobre o ciclo da cana de açúcar, no último dia 3 de março. Na verdade, tudo se estrutura em leituras e conversas sobre trechos dos livros do autor selecionado, e a – naturalmente imprescindível – degustação de cachaças da região do autor. Zé Lins, paraibano, foi degustado na companhia de duas cachaças locais – a Rainha e a Volúpia. Cachaças com personalidade própria do brejo paraibano, envelhecidas em barris de freijó. E, no final, mais degustação de duas versões da mineira Tiê, que apoia a iniciativa.

O mais notável é que todos saímos satisfeitos, levemente – muito levemente, porque degustação é de pouquinho – alcoolizados. Aprendemos como Zé Lins faz referências à cachaça, aos contrabandistas, vendeiros e produtores (o Engenho Santa Rosa, onde se desenrola a ação dos romances), desde a perspectiva do neto do coronelzão, do “moleque” da usina, dos trabalhadores “moradores” do engenho e do trabalhador artesão semi-autônomo, Mestre Amaro, o seleiro, a chegada do cangaço… e da polícia.

Zé Lins é um escritor realista. Chegou a ser ministro do Getúlio, mas era também amigo do Graciliano, a quem hospedou logo que este saiu da prisão (veja o relato interessante no romance-tese do Silviano Santiago, “Em Liberdade”, no qual ele (re)inventa os primeiros dias de Graciliano quando deixa o presídio da Ilha Grande.

O realismo de Zé Lins do Rego é da perspectiva do senhor de engenho. É curioso como romances que hoje vemos claramente escritos desde o ponto de vista dos patrões é aceito e elogiado pelo comunista Graciliano Ramos. O realismo e o ciclo do nordeste, do qual fazem parte os dois – e mais tantos outros, como Rachel de Queiroz, José Américo de Almeida, Jorge Amado – foi acompanhado por outros ciclos “regionais” no Sul e na Amazônia, que não é o caso de falar aqui.

O fato de serem realistas (ou “neorrealistas”, como se costuma qualificar) era o passe comum entre todos. As narrativas transcendem posições de classe e revelam um Brasil que era “desconhecido” pelas elites intelectuais do sul, especialmente a carioca e a paulista. Essa característica de certa forma dilui oposições políticas, ideológicas e estilísticas muito diferenciadas.


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E FUI PARA O FLICRISTINA

Como anunciei semana passada, fui participar do II FLICRISTINA, o Festival Literário da pequena cidade do Sul de Minas, a convite dos irmãos Ninil e Ray Gonçalves, seus animadores e organizadores.

Cristina é uma dessas pequenas cidades do sul de Minas, produtora de cafés de qualidade e leite, com pouco mais de 10.000 habitantes (metade na zona urbana e metade nas zonas rurais). Está perto de Itajubá, Santa Rita do Sapucaí e Piranguinho, conhecida pelos doces. É alcançada pela Fernão Dias e depois por estradas menores. No caminho, desde grandes distritos industriais em Pouso Alegre e Santa Rita do Sapucaí, passando pelas fazendas que alternam rebanhos de gado nelore e fazendas de café. Bucólicas como sói acontecer pela região, com estátuas de S. Sebastião ao lado do sinal da loja maçônica na entrada de Pedralva, e localidades com nomes que só se vê… em Minas Gerais, como esse Bairro Despropósito.

São Sebastião ao lado do símbolo maçônico em Pedralva, a caminho de Cristina.
despropósito, bairro rural de Cristina.

A FLICRISTINA, em sua segunda edição, estava organizadíssima. Na praça central da cidade, uma tenda abrigando o espaço para as mesas e palestras (também foi usado o plenário da Câmara Municipal e um dos colégios públicos da rede municipal para oficinas), um palco para os espetáculos musicais, área de alimentação (destaque para um foodtruck de alunos da Engenharia de Itajubá, bem estocada de cervejas e outros líquidos calóricos e inebriantes, e também para a barraca da APAE local, com ótimo café coado e um livrinho de receitas jóia). Mais adiante, outra tenda abrigava a FLICRISTININHA, com atividades para crianças durante todos os dias. Os professores e professoras da rede foram convocados e levaram os alunos para atividades mesmo no feriado e na sexta-feira “enforcada”. Havia também uma mini-feira de livros, sobre a qual comentarei mais adiante.

Os convidados foram hospedados em pousadas da região e faziam as refeições em um restaurante perto da praça.

Isso foi possível graças ao apoio da Prefeitura, em especial da Secretaria de Educação, que reservou recursos para cobrir a maioria dos gastos. Nenhuma grande empresa, banco ou coisa parecida se dispôs a colocar alguns caraminguás no evento. Do comércio local, um cafeicultor, Sr. Sebastião Afonso da Silva, produtor de um café bicampeão mundial de qualidade de grãos. A Valcan, empresa local que comercializa produtos de proteção individual, foi outra  que ajudou o Festival.

Um cafeicultor premiado ajudou a fazer o Festival.
O apoio para a Flicristina foi totalmente local.

É importante destacar que, dessa maneira, a FLICRISTINA foi realizada por esforço próprio, mostrando a capacidade de organização e mobilização do Ninil e da Ray, que mobilizaram os recursos locais de uma pequena cidade para fazer um evento cultural importante para a comunidade e para toda a região. É um exemplo.

Quando cheguei em Cristina e dei meu primeiro passeio pelo centro da cidade, notei uma ausência quase completa de negros circulando. Depois perguntou a Ninil se não houve mineração ou grande lavouras na região. Ele respondeu que havia um bairro habitado principalmente por negros na periferia da cidade. Ninil já fazia um trabalho de aproximação, explicando a eles que o Festival era para todos. Disse que tem como missão atrair, cada vez mais, essa população a participar da FLICRISTINA. E mostrou um detalhe do Pavilhão tecido e preparado para o desfile de abertura. Ali, mais ou menos no meio, nos dois lados, um detalhe. “Os negros são conhecidos como pés de chinelo, e para mostrar que a FLICRISTINA é deles, colocamos os dois chinelinhos no Pavilhão”.

O Pavilhão da FLICRISTINA. Notem os chinelinhos.

A FEIRA DE LIVROS

A feirinha era modestíssima. Uma livraria de Itajubá e algumas barracas da infatigável infantaria do mercado editorial: os vendedores de porta-a-porta. Nenhuma rede, nenhuma das editoras do segmento trade.

O que eu questiono?

Existem centenas de feiras e festivais literários acontecendo durante o ano, em boa parte dos Estados. À exceção das badaladas, a oferta de livros nesses eventos é exclusivamente feita pelos vendedores de porta-a-porta. Não preciso que me repitam a litania que são eventos muito pequenos e que não compensa deslocar equipes de venda, montar estandes, etc. etc. etc. Já ouvi esse blá-blá-blá centena de vezes.

Fiz um filmete da feira, aqui.

Existem centenas de feiras e festivais literários acontecendo durante o ano, em boa parte dos Estados. À exceção das badaladas, a oferta de livros nesses eventos é exclusivamente feita pelos vendedores de porta-a-porta. Não preciso que me repitam a litania que são eventos muito pequenos e que não compensa deslocar equipes de venda, montar estandes, etc. etc. etc. Já ouvi esse blá-blá-blá centena de vezes.

Depois reclamam.

Vimos recentemente a Livraria da Editora da UNESP dar por encerrada a iniciativa (premiada!) do Caminhão Livraria. Nem vou especular se outras razões, além da litania habitual, pesaram na decisão da editora, que pertence a uma Fundação Universitária, a encerrar essa importante inciativa.

O fato é que o caminhão, já adaptado, deve estar estacionado em algum depósito entre S. Paulo e algum extremo do estado onde haja um campus da UNESP. Mas pergunto: por que razão entidades como a CBL, a ANL ou mesmo a LIBRE não se ORGANIZAM para colocar esse caminhão rodando pelas feiras do interior, de S. Paulo e do resto do Brasil? É falta de visão, incapacidade organizativa ou pura e simplesmente preguiça de pensar e inovar?

Quem quiser responder ou pensar a respeito que responda. Eu sou apenas uma pessoa que faz perguntas. E pergunto porque, em outra era, a CBL já promoveu, junto com a Imprensa Oficial, o Circuito Paulista de Feiras Literárias. Mudaram as duas administrações e o projeto naufragou. Mas as grandes bienais (onde a presença da ponta de estoque é cada vez mais significativa) continuam nos calendários.

Depois, todos reclamam do mito de que o brasileiro lê pouco e o resto do lamento. E meu comentário será sempre: quem não tem imaginação e competência para desenvolver mercados fora dos grandes centros que sente na margem de um Rio Piedra qualquer e chore as pitangas.

livraria mais próximas está em São Lourenço, mais de meia hora de carro de Cristina.

A BIBLIOTECA

Cristina tem uma biblioteca municipal, que homenageia um ilustre filho da terra, D. Marcos Barbosa, monge beneditino, escritor, poeta e tradutor (O Pequeno Príncipe, O Menino do Dedo Verde, e obras de Paul Claudel e François Mauriac). A biblioteca, entretanto, não faz jus ao homenageado.

Estava fechada havia muito tempo, servindo inclusive de depósito de materiais (o que não deixa de ser uma promoção utilitária diante do fato de muitas serem simples depósito de livros…). Foi reaberta e recondicionada por ocasião da I FLICRISTINA. A Secretaria de Educação do município comprou recentemente obras de Carlos Drummond de Andrade, que este ano foi o patrono do festival. No entanto, o acervo é pobre e defasado. Apesar de ter alguns computadores enviados pelo MinC há anos, não tem o acervo informatizado, e as condições de uso são precárias. Minha intervenção na FLICRISTINA abordou esse assunto, com o Secretário de Educação presente.

Esperamos que D. Marcos Barbosa mexa os pauzinhos junto ao Espírito Santo para a graça de colocar a biblioteca com seu nome à altura de sua missão e do homenageado. Sim, porque diante da tragédia que são as bibliotecas públicas brasileiras, até um ateu convicto e militante como eu pede ajuda a qualquer santo disponível.

Mexa-se, D. Marcos Barbosa, que sua cidade precisa.

Enquanto isso, note-se que a determinação do Ninil e da Ray pelo menos fez reviver a pequena e insuficiente biblioteca municipal.

UMA EXPERIÊNCIA DE PROMOÇÃO DA LEITURA

Alunos de escola pública de Cristina e a professora. A camiseta foi feita especialmente para o festival.

Contrastando com a inércia da biblioteca municipal, encontrei no sistema de educação de Cristina experiências muito interessantes de promoção da leitura entre as crianças.

Quando ia para a E.M. Carneiro de Rezende, onde eram feitas as oficinas programadas pelo Festival, encontrei a Coordenadora da área de Educação Infantil, prof. Luciana dos Santos, que me informou o rumo, e aproveitou para me dar um exemplar do que é o resultado do programa Diciolhares, desenvolvido pela coordenação, com ajuda de todas as professoras da rede. É uma espécie de dicionário analógico inspirada no que faz o autor colombiano Javier Naranjo, publicado no Brasil como “Casa das Estrelas”, pela Foz. As crianças, mobilizadas, ainda não alfabetizadas, falam para as professoras sua definição das palavras. Vejam amostras.

Segui até a E.M. Carneiro de Rezende, procurei a diretora, Elizabeth Cardoso e, com ela, pedi para ver a biblioteca escolar e a encarregada.

A professora Beatriz Barbosa, da biblioteca, nos recebeu em uma sala ampla, iluminada… e com poucos livros.

“Ano passado, uma enchente excepcional inundou a sala e destruiu todos os livros que tínhamos aqui”, explicou. Depois acrescentou que a escola vem fazendo, por iniciativa da diretora, festas para conseguir dinheiro e comprar novos livros. “Pedir doações só faz que as pessoas tragam o lixo de casa para a biblioteca”. Concordo, desde sempre.

A história da atuação da profa. Beatriz começa do modo mais comum a quem se vê encarregada da biblioteca. Depois de uma enfermidade grave, não podia mais exercer a regência de classes. Aposentou-se da Secretaria Estadual de Educação (onde havia trabalhado também, há anos, no programa Cantinho da leitura) e, na Carneiro de Rezende, começou ajudando na administração da escola. Depois foi designada para a biblioteca.

No primeiro ano ficou no papel tradicional, esperando que os alunos a procurassem para ajuda nas pesquisas e no uso da biblioteca. “Mas a Beatriz não é de ficar parada e logo mudou isso”, informou a diretora.

De fato, a professora Beatriz passou a organizar um programa dinâmico de incentivo à leitura no horário em que cada turma devia ir à biblioteca. Sim, na Carneiro Rezende agora tem “aula de biblioteca”, substituindo a passividade anterior. Começa com leituras sobre a dengue e outras epidemias. “Era um problema muito grave na região. Agora está melhor, mas conseguimos material de leitura, e os alunos são excelentes multiplicadores”. Depois são organizados ciclos de leitura fora da escola. “Café com Letras” faz leituras na casa dos alunos cujas famílias se dispõem a recebê-los para um lanche. “Gosto muito de trabalhar com contação de histórias, mas não sei contar. As mães sim, contam casos da família, leem com os meninos, é muito produtivo”. Há programas de “Leitura na Cachoeira”, já que Cristina tem uma bela queda d’água praticamente dentro da cidade. “A ideia é mostrar para as crianças que leitura não é coisa apenas de dentro da escola, pode e deve ser feita em qualquer lugar”.

Na FLICRISTINA do ano passado, durante uma das atividades na praça, uma criança circulou ressabiada e foi abordada por ela. Não estava matriculada, mas passou a integrar as atividades da biblioteca.

Perguntei se essas ações eram estendidas às outras unidades do município. Tanto Beatriz como a Beth informaram que a rede municipal é bem extensa (Cristina é o município de maior extensão da região), com escolas rurais e urbanas. Mas essas atividades, quando existem, são de iniciativas de cada escola.

Como a FLICRISTINA tratou da obra do Drummond, todo o colégio fez atividades relacionadas com a obra do itabirano. Desenhos, colagens, montagens, até guaches recortados e transformados em quebra-cabeças. Eles se divertiram muito reinterpretando os poemas. Achei particularmente divertido o desenho de uma garota por conta do “Tinha uma pedra no meio do caminho”. A garotinha se retratou… dando uma topada na bendita pedra.

A aluna não apenas encontrou a pedra no meio do caminho. Deu uma topada no verso dummondiano
Drummond entre os canteiros de flores da escola.

Na minha palestra, fui direto. Experiências como essas podem e devem ser generalizadas pelas escolas do sistema. Na infinidade de propostas de incentivo à leitura que existem por aí, cada uma dela tem defensores ferrenhos. Como não sou especialista nisso, sempre digo que a pedra de toque é avaliar as experiências bem-sucedidas e generalizá-las.

O Secretário de Educação estava lá.

Quem sabe D. Marcos Barbosa dá uma cutucada nele para avançar mais ainda nas boas coisas que faz?

FLICRISTINA

Em resumo, foram dois dias de uma experiência muito gratificante. Nem vou falar aqui das mesas que assisti, dos espetáculos musicais apresentados. Aprendi coisas, conheci excelentes pessoas e revi amigos. Não há mais espaço.

O importante a destacar é que experiências como a de CRISTINA estão se multiplicando. Todas as semanas ficamos sabendo de alguma iniciativa. Desde 2013, quando Galeno Amorin, na BN, abriu um edital cadastrando feiras de livros e festivais como essas para concorrer a uma modesta contribuição com fundos do FNC, e mostrou que já havia centenas de atividades semelhantes espalhadas pelo Brasil, podemos especular que algumas dessas devem ter se encerrado. Mas muitas outras vêm surgindo e as substituindo.

É uma esperança.

 

 

O “censo” do Livro Digital

Cortesia da Simplíssimo

A divulgação do “Censo do Livro Digital”, pesquisa feita pela FIPE, sob encomenda da CBL e do SNEL, suscitou muitas reações, como previsível. Algumas bastante irritadas pela ausência do que, evidentemente, são dois componentes importantíssimos desse mercado: os dados da Amazon e os dos chamados autores auto publicados. Estes, por sua vez, em parte abrigados na própria Amazon, através do programa KDP; outros, por conta própria ou através de agregadoras, que publicam tanto livros impressos quanto e-books, seja por encomenda, seja com a contribuição de autores.
Os dados da Amazon relativos às editoras tradicionais não são tão importantes, já que, em princípio, estas informaram o quanto venderam por este canal, assim como pelas outras empresas que vendem livros eletrônicos – Kobo, Google, Apple iTunes, Saraiva, Cultura, etc.

Essa pesquisa, tal como a de produção e vendas do mercado editorial, não se propõe a verificar o total das vendas no varejo.

Explico. Na produção e vendas de livros impressos, as editoras informam o quando produziram e venderam naquele ano determinado. Ora, o varejo trabalha também com estoques de livros produzidos em outros anos e já comprados (supõe-se que as vendas de reposições no ano sejam informadas pelas editoras). Nesse sentido, o livro digital leva uma vantagem de precisão, já que não existe estoque. Os varejistas faturam e pagam apenas os livros vendidos. O problema óbvio é que a Amazon, dominante nesse mercado, não fornece nenhum dado.

Isso mostra um problema constante a quem analisa dados de pesquisa. É preciso ter clareza sobre o que está sendo perguntado e respondido. Se a pesquisa for tecnicamente bem-feita, ela responderá (por amostragem) aquilo que foi perguntado. NUNCA é um retrato total do objeto pesquisado.

Analogamente, as pesquisas do tipo das feitas pela Nielsen e pela GfK, que detalham a movimentação dos pontos de venda, revelam um determinado tipo de realidade do varejo, e não outras. Não respondem, por exemplo, pelas vendas feitas diretamente pelas editoras aos governos e outras instituições do gênero (por exemplo, as compras de livros infantis eventualmente feitas pelo Itaú e por outros programas similares, ou pelas escolas, etc.). E estão restritas aos varejistas que aceitaram pagar pela implantação do software da Nielsen ou da GfK em seus pontos de venda.

Desse modo, temos que considerar, em primeiro lugar, o que foi perguntado e a quem.

O tal censo (que não é censo, exatamente porque não abarca todo o universo, e a palavra só é usada, pela FIPE e por seus financiadores, como um instrumento de mercado, para sugerir uma abrangência e precisão que simplesmente não existe), perguntou, a uma amostra, selecionada com critérios especificados (mas não divulgados na apresentação), quantos e-books foram vendidos e qual o faturamento obtido por isso.

A GfK, empresa alemã que faz um trabalho de pesquisa no varejo basicamente semelhante ao da Nielsen, inclusive o Nielsen BookScan (tanto uma como outra pesquisam vários tipos de produtos), publicou em março passado um survey, feito online, em dezessete países, sobre a frequência de leitura online de livros. Na descrição (em inglês), dos objetivos do levantamento, a GfK declara: “A GfK entrevistou, no verão de 2016 [no hemisfério norte, suponho], mais de 22.000 consumidores com idade igual ou superior a 15 anos, online, em 17 países. Os dados foram ponderados para refletir a composição demográfica da população online em cada mercado”.

Ou seja, a descrição expõe as condicionantes: idade igual ou superior a 15 anos dos pesquisados, ponderados para refletir a população online de cada mercado. Vejam bem, não se tratava da população total de cada país, e sim da chamada “população online”, o que supõe outra pesquisa (não divulgada no mesmo local), que mostraria o percentual da população total que a GfK considera como online.

E a pesquisa (que não vou comentar aqui em detalhes) mostra exatamente isso. Quem quiser vê-la pode acessar aqui .

Só para informação, a pesquisa mostra que 26% da população online brasileira lê e-books todos os dias. Mais 27% lê pelo menos uma vez por semana e apenas 6% nunca lê.

Evidentemente, esses dados, que parecem muito promissores, dependem de que se conheça qual é essa população online e mostram tão somente a frequência de leitura. Não indicam quantos títulos são lidos e muito menos a origem do que é lido (comprados, emprestados, pirateados, clubes de assinatura, etc.), o valor de mercado que isso representa, nem que tipos de livros são lidos.

Vejamos como foi feita a pesquisa FIPE-CBL/SNEL.

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ABRALIC, A UNIVERSIDADE EM PERIGO E A LITERATURA BRASILEIRA

Semana passada estive no Rio de Janeiro participando da XV Reunião da ABRALIC – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LITERATURA COMPARADA, que aconteceu no campus da UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Mesa sobre as dificuldades da difusão da literatura brasileira na ABRALIC – 2017 (#UERJ resiste)

Foi um encontro admirável. A UERJ é o alvo, a ponta de lança da tentativa de desmonte da universidade pública brasileira, empreendida pelos usurpadores que perpetraram o golpe de estado parlamentar-judiciário que nos atinge hoje. É a primeira vítima, por conta da calamitosa situação do estado do Rio de Janeiro, unidade da Federação que foi amplamente beneficiada por investimentos públicos e privados nos últimos anos: a indústria naval renascida (e agora destruída, passando de 80.000 trabalhadores para menos de 20.000); os investimentos urbanos em função da Copa do Mundo e das Olimpíadas, o transporte urbano, entre outros. O funcionalismo do Rio de Janeiro está há meses sem receber os salários, exceção, é claro, das forças de segurança, reconhecidamente mal treinadas e estupidamente brutais daquele estado, mas que garantem o mínimo de proteção para o governo, e que contam agora, com o emprego a contragosto de um contingente de forças federais. A UERJ está sem contrato de manutenção, limpeza e segurança há quase um ano, e professores e funcionários estão com os salários atrasados há quatro meses, além de não terem recebido o 13º salário.

Diante dessa situação, o esforço que esses professores e funcionários, com a participação dos alunos (quase duzentos monitores voluntários) fizeram para organizar e executar um evento de grande porte, com convidados nacionais e estrangeiros foi simplesmente monumental. A UERJ resiste ao descalabro, a duras penas e com grandes sacrifícios.

ABRALIC, como já disse, é a associação que reúne professores e especialistas em literatura comparada. E é isso que a faz importante para a nossa literatura e, por extensão, ao mercado editorial. A mesa da qual fiz parte tratava, precisamente, das dificuldades de expansão internacional da literatura brasileira.

Comparar os diferentes aspectos da literatura significa, precisamente, entender as relações do que os nossos escritores produzem vis-à-vis o que é produzido nesse grande concerto que é a República Mundial das Letras. Como nossa literatura se confronta e contribui para esse diálogo civilizatório – essencial para o entendimento entre os povos – que se expressa através da produção literária.

A difusão da literatura brasileira no exterior enfrenta enormes dificuldades. E isso tem a ver com a nossa indústria editorial.

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MEC IRÁ MODIFICAR O PNBE – PARA PIOR

Notícia desta quarta-feira 10 de maio no PublishNews anuncia que o MEC, através do FNDE, estuda a retomada do Programa de Biblioteca nas Escolas, mas com modificações.

Segundo a notícia, o FNDE constatou a subutilização de livros nas salas de aula, e irá propor modificações para enviar livros diretamente aos alunos – tal como no PNBE – e “que as compras estariam alinhadas aos conteúdos da BNCC”.

Ora, se os livros estão subutilizados, cabe ao MEC desenvolver, ou estimular, programas de formação de professores para seu uso. Induzir os municípios a cumprir a legislação (quase uma declaração de boa vontade, por não prever punição para o prefeito que não a cumpre) que diz que deve haver biblioteca em todas as escolas do país.

Mas não, em vez de atacar o problema, prefere-se a máscara da “adequação” e da distribuição dos livros para cada aluno, estimulando o individualismo e a não discussão coletiva dos conteúdos, vivacidade indispensável para que a leitura se arraigue na vida das crianças e jovens. O que é hábito solitário não é a leitura, e sim outra coisa, que os meninos e meninas aprendem nos banheiros das escolas.

O formato anterior tinha vários problemas, é certo. Mas, ao que parece, o que irá ser adotado ainda é pior.

O formato anterior, embora fosse mais amplo, estava ainda longe de constituir um programa de acervos para as bibliotecas escolares. Ao contrário do PNLD, que apresentava livros avaliados para serem escolhidos pelos professores, as coleções eram formadas por comissões nomeadas pelo MEC. Já cansei de dizer que – independentemente da qualidade profissional e honestidade pessoal dos membros das comissões – a simples existência delas confere um poder desproporcional, antidemocrático e autoritário a essas pessoas. Esse grupo – sempre pequeno – decide o que é ”bom” e o que é “ruim” para ler, castrando professores e alunos.

O que já tinha seus problemas, repito, independentes da qualidade dos membros das comissões, pode ficar muito pior.

A proposta parece se encaminhar para a escolha dos tais livros alinhados à base curricular. O que parece bom, na cabeça dos tecnocratas de plantão, é, repito, simplesmente castrador. Onde fica o estímulo à descoberta? O incentivo à crítica, que deve ser desenvolvido desde as primeiras letras?

Essa história tem muito mais a ver com as propostas de “Escola sem Partido”, a famosa proposta do Frota, Holliday et caterva, do que com o estabelecimento de um programa de biblioteca nas escolas.

O melhor modelo que já vi, e faz vários anos, quando eu ainda trabalhava na CBL, foi o de um programa chileno. O ministério da educação de lá elaborou um vasto catálogo, que era ampliado a cada ano, com resenhas e indicações de livros, por idade, por tema, etc. Alunos e professores, juntos, escolhiam os livros dentro de uma cota financeira destinada a cada escola.

E os livros iam para a biblioteca.

Essa nova proposta ressuscita uma ideia do Paulo Renato. Para quem não se lembra, a primeira experiência foi uma “Biblioteca para os Professores”. Uma comissão de notáveis escolheu obras como “O Uraguai” do Basílio da Gama e as obras completas do Padre Vieira (vinte e tantos volumes), além, é claro de livros dos próprios sábios, para enviá-los aos professores de cinquenta mil escolas. Uma farsa.

Depois, com as primeiras edições da Biblioteca Escolar, foram selecionados livros, que eram reimpressos fora de seu formato original, uns livros em p&B de formato reduzido, que eram entregues diretamente aos alunos, com o pretexto que “estimulariam” a leitura das famílias. Livros feios, deturpados em suas ilustrações e formatos, que até hoje podem ser encontrados aos montes nas bancas/sebos do centro das cidades. Essa ideia “brilhante” foi repetida mais uma vez pelo Paulo Renato e, pior ainda, copiada pelo Cristovam Buarque. Na minha opinião, só isso seria um bom pretexto para sua defenestração, com uma administração que era mera continuidade do Paulo Renato.

Agora aparece essa pérola, bem ao gosto dos “gestores” modernosos. Como o atual alcaide de S. Paulo, que elimina bibliotecas, brinquedotecas e salas de leitura para entochar mais alunos nas escolas já superlotadas.

As bibliotecas, se não forem os locais da diversidade, do estímulo à curiosidade e ao espírito crítico simplesmente não são bibliotecas. São maquininhas de censura e castração.

É certo que acervos para bibliotecas escolares devem ser avaliados, mas com critérios bem definidos: adequação de cada livro para cada faixa etária; eliminação de textos que contenham preconceitos e erros factuais (o que é difícil de definir em termos de ficção, mas as bibliotecas incluem também o material de apoio). E os livros devem ficar nas bibliotecas, ou nas salas, com livre acesso pelos alunos. Distribuir livros para levar para casa, na minha opinião, é mera demagogia. O local público, com acesso a todos, é a biblioteca, e é nela que se estimula a bibliodiversidade.

A propósito, vale citar um trecho do artigo do Sérgio Augusto sobre o Fahrenheit 451, do Ray Bradbury, na abertura da revista Quatro Cinco Um:

“A uma reedição de Fahrenheit 451, lançada em 1979, Bradbury, ainda mordido com a retirada de palavras como “diabos” e “infernos” de uma versão juvenil encomendada pela Ballantine Books, acrescentou comentários sobre a censura, a intolerância e a secular perseguição aos livros. ‘Há mais de um jeito de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas com caixas de fósforos por aí’, lastimou, enumerando uma dúzia de minorias que se achavam no direito, ou dever, de dosar o querosene e acender o fogo.”

Agora o MEC quer queimar de vez as bibliotecas nas escolas.

“DISCOVERABILITY”, “EMPOWERMENT” E OS PROBLEMAS DE TRADUZIR NEOLOGISMOS.

“Discoverability” tem a ver com achar agulha no palheiro.

Há alguns dias, a autora Rosa Amanda Strauz postou no FB uma nota acerca de matéria publicada no PublishNews, assim:

“Matéria do PublishNews de 18/04 tem o seguinte subtítulo:
“Kobo adquire tecnologia que utiliza uma foto para ajudar na ‘descobertabilidade’ de e-books”.
Cuma???? DESCOBERTABILIDADE??? Onde foram parar os dicionários de sinônimos???” Veja aqui.

Os comentários que seguiram foram de vários tipos. Desde os que desprezavam o problema tradutório/sociológico levantado pela questão, até os que conversavam e davam sugestões sobre como resolver essa questão.

“Danielle Sales Tudo porque querem usar o “discoverability” do inglês… Tsc, tsc, tsc
Olivio Petit imagina Cabral justificando a calmaria.
Renato Kress Em breve seus netos entrarão na dirigibilidade-escola para improvar sua guiabilidade. Aguarde e confie
Maria Valéria Rezende Isso agora é “linguagem acadêmica” rsrs”

A matéria do PN é esta.

Como o uso de “descoverability” é muito comum no tratamento das questões relacionadas com metadados, meti minha colher de pau torta no assunto: “A questão é que os dois termos em inglês cobrem um conceito mais amplo que descoberta, por exemplo (trata-se de “tornar possível de ser descoberto”, ou “forçar ser descoberto”. O mesmo acontece com “empowerment”. Tenho absoluta certeza que podemos achar termos corretos em português, mas até hoje não consegui”.

Como a lista de palpites e comentários é grande, quem quiser acompanhar tudo vá no FB e procure os posts da Rosa Amanda. Que, aliás, sugeriu “Como minhas sugestões ficaram escondidas no meio da discussão, repito aqui: Kobo adquire tecnologia que facilita a descoberta de e-books por meio de fotos.”

Certo, traduzir uma palavra em um conceito pode resolver, em muitos casos.

Mas para entender a compreensão e as dificuldades do problema, particularmente na questão do “discoverability”, é preciso saber o que gerou o uso desse neologismo em inglês.

Note-se que não sou contra a incorporação de neologismos ao nosso português. Para além da moda atual dos anglicismos, já tivemos a época dos galicismos e outras. Em alguns casos, considero ótimos achados, até porque remetem também a raízes latinas: deletar, por exemplo, que não vejo nenhum problema em usar como sinônimo de apagar ou obliterar, para ficarmos em um exemplo.

Voltando às origens do problema.

Classificar coleções é algo bastante antigo na humanidade. E muito especialmente no que diz respeito a livros. Matthew Battles, autor do divertido e altamente informativo “Library, an Unquiet History” (há uma tradução aqui, da Planeta, infelizmente fora do catálogo) chama atenção que já a Biblioteca de Nínive, sob o reino de Asurbanípal II, os 25.000 tabletes de argila colecionados por ordem do Rei, estavam unidos por tema, cada grupo com marcação específica. As bibliotecas gregas e latinas, inclusive a famosa de Alexandria, tinham marcações coladas no umbilicus (o pedaço de madeira em torno do qual eram enrolados ao papiros), com o título e o nome do autor.

A saga prossegue, e a classificação começa a envolver censura, a definição dos livros “bons” e aqueles cuja leitura não era condizente com o saber instituído (a ideia por trás da seção “inferno” da Biblioteca Vaticana e de várias outras). A própria instauração de um método de classificação que apelava para o alfabeto (ordenamento por título ou autor pela ordem das letras) foi objeto de intensa discussão. Para a mentalidade escolástica do medievo, a classificação era “racional”, segundo as áreas de conhecimento que se ligavam harmonicamente. E la nave va

Achar livros, mesmo em uma biblioteca menor, já é um problema. Nas gigantescas, então…

Já no início da idade moderna, as grandes bibliotecas (como a Vaticana e a British), batalhavam com o estabelecimento de sistemas de classificação. De vez em quando brinco com bibliotecários dizendo que alguns são capazes de assassinar por conta de como classificar um livro, como mostra a trama do divertido romance do Umberto Eco, “O Nome da Rosa”.

A primeira grande virada começa a ser desenhada por Antonio Panizzi, revolucionário italiano condenado à morte em Módena e que acaba como bibliotecário do British Museum. Panizzi foi o primeiro a estabelecer que “o primeiro e principal objetivo do Catálogo”, diz Battles descrevendo seu trabalho, citando o relatório que ele preparou, “é o acesso fácil às obras que fazem parte da coleção”. E esse não era simplesmente uma ferramenta para os bibliotecários, mas um instrumento “que o público tem o direito de esperar em tal instituição”. (Battles, pg, 130). Os livros deixavam de ser o domínio dos eruditos e seu acesso passava a ser um “direito do público”. Era uma tarefa monumental, ainda baseada na ordem alfabética, com as relações temáticas dos livros especificadas. Só a catalogação da letra “A” demorou onze anos. E despertou polêmicas.

Para encurtar a história, o sistema de indexação adquiriu sua forma final nas mãos de Melville Dewey, e a invenção do Sistema Decimal de Classificação. Não vou me estender aqui sobre o assunto, de amplo conhecimento geral, e constante desenvolvimento por parte das associações de bibliotecários. De qualquer modo, o eixo da catalogação era a indexação dos títulos. Que permitia aos bibliotecários localizar os livros por temas específicos ou relacionados. Era uma ferramenta eficiente, mas muito dependente do trabalho especializado dos bibliotecários (ou conhecimento dos interessados), mesmo quando os cartões de catalogação foram colocados online.

O problema se complicou geometricamente com duas questões: a) o aumento também exponencial dos livros publicados e colocados à venda; b) além do aumento ainda mais vertiginoso dos títulos disponíveis, com a digitalização e os livros eletrônicos, apareceu também a questão dos “livros órfãos”. A própria digitalização das bibliotecas, processo iniciado pelo Google, deixou acessíveis milhões de títulos previamente confinados em coleções impressas em bibliotecas já de por si gigantescas, espalhados pelo mundo inteiro.

Pelo lado da indústria editorial, alguns problemas já eram sentidos há muito. Uma primeira questão enfrentada foi a da identificação de cada edição. Na distribuição, a identificação correta de um título é crucial para os mais diversos controles. Diferentes livros, de autores distintos, com o mesmo título; edições diferentes do mesmo título; identificação de cada tradução ou formato de um título, e por aí vai. Daí nasceu o ISBN, lá pelos anos sessenta. ISBN, para os que ainda não sabem, é o acrônimo de International Standard Book Number. É um código que usa uma identificação para cada país, para cada editora e para cada título publicado, diferenciando de forma unívoca um livro de outro, seja lá por qual fator seja (nova edição – modificações da primeira; formatos diferentes; traduções, etc. etc.).

O aumento do número de edições, formato, meios de acesso, etc. é que complicou mais e mais o problema. Imaginemos que desde a biblioteca de Nínive e seus 25.000 tabletes, até a nossa Biblioteca Nacional (com seus cerca de oito milhões de títulos), e outras bem maiores, como a questão se complicou. A nossa Biblioteca Nacional, ainda tem gargalos de catalogação, incorporação do depósito legal e outros probleminhas, mas avançou na digitalização do acervo, particularmente de obras raras, dentro de um programa da UNESCO. No que diz respeito ao mercado editorial, o número de títulos disponíveis no catálogo, aqui no Brasil, chega a várias centenas de milhares de títulos. No mundo inteiro… São vários bilhões de títulos, entre os disponíveis no mercado e os disponíveis nas bibliotecas virtuais.

Os livros estão lá. Como descobrir o texto que desejo, seja para leitura ou para pesquisa? Se fosse ler todas as fichas catalográficas para achar tudo que se refira, por exemplo, a “sistema político brasileiro”, a correlação de temas seria gigantesca, mesmo com sistemas eletrônicos, porque cada “tema” não estaria vinculado aos demais como tags de metadados.

Uma parte do problema foi solucionado com os sistemas booleanos de busca, que usa operadores lógicos para organizar as pesquisas (veja aqui uma descrição simples do uso ). Mas esses sistemas de busca ainda exigem um certo preparo técnico para serem produtivos.

É preciso um mapa de navegação pelo labirinto

Foi então que começou a preocupação com o conceito de metadados. Já escrevi vários posts sobre o assunto, que podem ser consultados no meu blog , aqui. Nem vou lista-los aqui. Basta olhar na coluna da esquerda, na seção “tags”, e poderão achar “metadados” e muitos outros “tags” semelhantes. O que é isso? É a forma pelo qual indico aos eventuais leitores quais os temas (ou o tema) que está tratado em cada post. E posso colocar quantos “tags” queira em um post, já que cada um deles pode eventualmente se referir também outros assuntos relacionados.

Pois bem, os metadados é que abriram caminho para a criação do conceito de “discoverability”. Parece que a palavra foi importada das teorias de marketing para indicar o “tempo de exposição” de um determinado produto nas prateleiras. Os marquetólogos que confirmem ou não isso.

O fato é que, aplicado ao mercado editorial, esse conceito de “tempo de exposição” torna-se extremamente elástico. Mesmo quando um determinado título saiu do catálogo, ainda pode ser localizado por um dos “tags/metadados” que estejam embutidos lá dentro. Daí que, para identificar a disponibilidade do título, existem “tags” específicos para informar isso em relação a cada título.

A questão da “discoverability” aparece, portanto, da necessidade de “deixar um título com a possibilidade de ser descoberto” com certa facilidade. Um dos meus posts que estão sob a “tag” de metadados oferece um exemplo prático de como isso poderia funcionar (o condicional é por conta do desprezo com que os metadados são ainda tratados por editoras e livrarias por aqui, comparados com os de alhures (veja aqui esse post, e repita a experiência se quiser). Evidentemente, ainda que não seja um trabalho especificamente “técnico”, a qualidade dos tags e metadados pode melhorar significativamente a “discoverability” de um determinado título.

Particularmente, considero isso fundamental para as pequenas e médias editoras. É um modo de permitir que os livros que editem tenham a possibilidade de ser descobertos por leitores interessados, para além da máquina de marketing das grandes editoras e do espaço cada vez menos nos jornais.

Essa história começou mesmo a tomar corpo com a entrada da Amazon no mercado livreiro. O Bezos descobriu (porque foi fazer o curso de livreiro da ABA – American Booksellers Association) que os livros podem ser disponibilizados através das editoras e das distribuidoras, e que a livraria não precisa tê-los em estoque para vende-los (e ainda tem mais prazo para pagar). O que fez? Contatou a Ingram e a Baker & Taylor, as duas maiores distribuidoras, incorporou o catálogo delas no seu projeto de site e investiu o que podia em tecnologia de “discoverability”, primeiro colocando os metadados disponíveis, depois aperfeiçoando isso, e praticamente fazendo as editoras desenvolveram padrões mais consistentes de metadados. É o que faz até hoje: mantém estoques mínimos, medidos pela demanda registrada no sistema e pareadas com os prazos de entrega de distribuidores e editoras, e apresenta seu imenso catálogo ao público. Isso foi o que tornou possível seu slogan inicial “A livraria com mais de um milhão de títulos disponíveis”.

Não foi ele quem descobriu essa possibilidade, mas certamente foi dos que levou essa questão à perfeição, refinando cada vez mais os metadados e manipulando-os na construção de listas de “mais vendidos”, atuando proativamente junto aos clientes/leitores (e depois aos que compram qualquer coisa na loja da Amazon), como bem sabe quem já fez uma compra nessa varejista.

Os metadados são o farol que permite a descobertabilidade dos livros

Por essas e algumas outras razões fundamentais que o conceito de “discoverability” passou a circular e a ser cada vez mais importante. Não por um modismo acadêmico, mas como fruto do desenvolvimento da indústria editorial. E que tem repercussões TAMBÉM para as bibliotecas e aumento da leitura em geral: melhores mecanismos de busca geram demandas e ampliação de leitores… e pressão sobre as bibliotecas que têm verba para compras. O que não acontece por aqui, tanto pela falta de verbas como pela mania de encomendar a “especialistas” as listas de aquisições de acervo. Mas isso já é outro papo.

Por tudo isso é que a possível tradução do termo inglês fica longe de ser preciosismo ou subserviência. É uma questão de terminologia (técnica, que seja) que, tenho certeza, irá adquirir cada vez mais relevância.

Estou usando, por enquanto, descobertabilidade. Acho a palavra feia, não gosto, mas é a disponível no momento. Por isso mesmo, aceito sugestões.

Aliás, só para brincar. Outro dia sonhei (juro!) com uma tradução melhor para esse outro horror que é o “empowerment”. Quando acordei, lembrei do que tinha sonhado, mas não da palavra. E fico pensando se Hipnos, Morfeu, e os Oneiroi (os benignos) voltarão a me ajudar. Espero que o ôneiro do pesadelo não se faça presente.

SARAIVA, CULTURA, AMAZON E AS LIVRARIAS INDEPENDENTES

Um dos temas mais permanentes nas discussões do mercado editorial e livreiro – aqui e alhures – é o papel e destino das livrarias independentes e das grandes cadeias. Essa discussão se intensificou com o surgimento da Amazon (e olhem que a varejista foi fundada em 1994, com início das atividades de comércio eletrônico em 1995 – já são 22 anos).

Naquele momento era observado o auge do crescimento das grandes cadeias de livrarias nos EUA. As livrarias independentes as tinham como inimigo principal, e as notícias contabilizavam o fechamento de inúmeras lojas nas grandes e médias cidades.

É bom lembrar que, por aqui, a cadeia dominante era a Siciliano (que provocou polêmicas, discussões e gritos ao exigir maiores descontos, na voz de seu controlador, exatamente depois do Plano Real, com a sincera alegação de que ganhava dinheiro com a inflação e que agora as editoras tinham que ajuda-los a recuperar suas margens…). Hoje, comprada a preço de xepa de feira pela Saraiva, o nome da rede é história.

História como nos EUA é o nome da Borders e outras cadeias menores, que não conseguiram concorrer com a Amazon. A própria Barnes&Noble anda mal das pernas há anos, embora seu controlador jure que resistirá. E as livrarias independentes voltaram a florescer na gringolândia, graças a estratégias empresariais e institucionais, através da ABA – American Booksellers Association, como já mencionei várias vezes por aqui.

Na Europa, por sua vez, a Amazon enfrenta problemas, com um severo escrutínio das autoridades reguladoras do continente. E, surpreendentemente, a W. H. Smith, uma cadeia de livros que andou tropeçando, mostrou lucros no ano passado.

Na França e outros países do continente, a lei do preço fixo demonstra sua força e mantém vivas as livrarias independentes. Mas, também como já mostrei aqui, por trás da lei existe um sólido aparato que reúne editores, livreiros, e as “grandes superfícies”, em um comitê que supervisiona a aplicação da lei. Um dos aspectos importantes dessa legislação é que parte dos descontos concedidos pelas editoras às livrarias está condicionado a ações de promoção da leitura.

No entanto, a Amazon continua lépida e fagueira em seu crescimento. Já abriu algumas lojas físicas (modo de dizer, já que as lojas aplicam uma tecnologia muito mais avançada que a disponível em outros varejistas). Além da loja inicial em Seattle, a varejista tem outras em Boston, San Diego, Portland e New York – onde já são várias. E essas são livrarias – a Amazon já experimenta com verduras e alimentos, e agora saiu a notícia que fará o mesmo com eletrodomésticos e roupas. Mike Shatzkin, aqui  levanta a possibilidade de que a Amazon se torne a maior varejista – de tudo – nos EUA, e a prazo relativamente curto. Veremos.

Uma das características das lojas da Amazon é a seleção de livros em exibição. De onde veio essa seleção? Bidu: do histórico de compras acumulados pelo site naquela região. Nada de livreiros que “conhecem” seus clientes e mantêm uma seleção de acordo com os gostos dos seus frequentadores. Bezos não se dá a esse luxo, e tudo é definido por algoritmos. Para ele, os dados são mais preciosos que qualquer subjetividade, e definem cada passo a ser dado.

Dito seja de passagem e fora do tema imediato: Amazon já é a maior editora de livros traduzidos dos EUA, e há muito o KDP é o dominante na autopublicação, embora aí ainda tenha concorrentes sérios, tanto de propriedade de outras editoras como independentes.

Voltando à nossa questão inicial.

Todo essa aparente cabeça de cera para voltar à questão inicial. O que acontece por aqui e será que se abre uma janela de oportunidade para as livrarias independentes do Bananão?

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