A definição do público alvo leitor: como dados também complicam

O ambiente editorial norte-americano vive imerso em uma enorme quantidade de dados sobre vendas, que definem quem compra, onde compra, quem indica, quais as bibliotecas e escolas que indicam livros, etc., como indiquei no post de ontem.
O New York Times Sunday Book Review, que recebo por e-mail nas sextas-feiras, trouxe hoje um interessante artigo de Robert Lypsite, intitulado 404 — Not Found

blacktroop.com

404

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Boys and Reading: Is There any Hope?
que aborda dois problemas interessantes. O artigo é publicado nessa edição do NY Times Sunday Book Review porque na próxima semana se inicia o semestre letivo nos EUA.



O primeiro problema levantado pelo autor diz respeito à relutância dos rapazes para a leitura, comparativamente às garotas. E lista alguns dos problemas constatados: os testes escolares enfatizam os clássicos, os rapazes preferem livros de não-ficção e os professores nãos sabem o que indicar para os garotos lerem. Tudo isso é certo no ambiente escolar americano. E Lypsite acrescenta mais alguns problemas: a maioria tem professoras (sexo feminino) e as bibliotecárias também são mulheres, o que leva os rapazes a não encontrar com facilidade modelos masculinos de conduta que incentivem a leitura.
Diz Lypsite que até os anos cinquenta não havia o gênero “literatura juvenil” (Young Adults Literature), e os alunos passavam direto dos livros infantis para os autores adultos. Nos anos sessenta se inicia o boom da literatura juvenil, mas os principais autores do período não escreviam livros focados no gênero dos jovens leitores. Algumas autoras inclusive usavam iniciais ou pseudônimos que “neutralizavam” o seu gênero como escritoras. E mais, os temas também ratavam dos problemas dos jovens, e não das questões que interessassem especificamente as adolescentes mulheres ou aos adolescentes rapazes. Eram pontos de interesse para a faixa etária em geral.
Dos anos oitenta em diante as pesquisas começaram a mostrar que as garotas liam mais ficção – pelo menos em um certo período – que os garotos, mas que no final da adolescência os dois gêneros liam a mesma quantidade e o mesmo tipo de livros.
Como a maioria dos editores do segmento YA são mulheres, as professoras e as bibliotecárias são mulheres e as pesquisas diziam que as meninas liam mais, as editoras começaram a dar preferência e a encomendar títulos focados no público adolescente feminino.
A retroalimentação provocada por essa atitude foi acentuada por outro fato: os livros aparentemente destinados aos jovens rapazes, em sua maioria, tratavam temas que já estavam presentes nos videogames e nos programas de televisão e cinema para esse grupo: fantasia, capa e espada em planetas distantes e entre seres alienígenas e coisas do gênero. Os rapazes preferem jogar os videogames que ler versões requentadas do que dispõem em outros canais.
As meninas, por sua vez, se satisfazem com um tipo de literatura que responde a seu universo particular: fofocas, amizades-inimizades, histórias românticas e ao mesmo tempo apavorantes (vampiros e lobisomens).
Mas Lypsite cita outro problema, que considero também gravíssimo: censura.
Diretores e bibliotecários não querem problemas com os pais e tratar ficcionalmente de algumas questões presentes no universo masculino é altamente problemático. E cita alguns exemplos, inclusive um livro de autoria dele que trata das difíceis relações de competição nos esportes, entre os jovens, e como os treinadores manipulam e exercem um poder às vezes francamente maligno sobre o grupo de rapazes. São problemas enfrentados pelos jovens e que, além de pouco abordados ficcionalmente, sofrem ainda esse fator censura, que se imiscui com maior facilidade na definição do que é colocado à disposição dos adolescentes. Afinal, eles são “imaturos”…
Como se vê, não é apenas o acúmulo de dados disponibilizados pelos instrumentos cada vez mais sofisticados de coleta de informação que condicionam as decisões editoriais. O ambiente social e político e a censura também tem seu papel.
Aliás, e para terminar, é importante notar que a censura para livros vive e prospera muito nos EUA. A intolerância religiosa, o fanatismo criacionista, os preconceitos e os ódios pululam diariamente nas comissões escolares, com exemplos chocantes de proibição de livros. Até o Harry Potter pagou o pato: magia é coisa do demônio e os fundamentalistas cristãos barraram a série em muitas escolas.
Mas essas histórias de censura, aqui e alhures, ficam para outra ocasião.

Uma ideia sobre “A definição do público alvo leitor: como dados também complicam”

  1. Felipe, o artigo é muito oportuno. Seu comentário está exelente.
    Quero lembrar que a censura sempre existiu para todos os
    jovens, em qualquer época. O velho problema do acesso as obras é
    a grande questão das gerações e dos generos.

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