Comunidades de leitores ligadas a editoras estão explodindo? Aqui, não

No post de ontem, publiquei um artigo de Jane Tappuni, publicado originalmente no Publishing Perspectives, a excelente newsletter dirigida pelo Ed Nawotka. Hoje, comento um pouco sobre o assunto.

Apesar de ser uma novidade em si, e estar se expandindo, essas comunidades de leitores têm origem em uma iniciativa mais antiga das editoras, principalmente dos EUA: o material para uso dos clubes de leitura.

Uma boa parte dos romances publicados nos EUA trazia no final, até pouco tempo (tanto na edição hardcover quanto em paperback) material preparado pela editora para ajudar nas discussões em torno do livro nos clubes de leitura. Esse é um fenômeno que persiste, espalhado pelos EUA, e que nunca foi muito comum aqui, embora recentemente se tenha notado um certo crescimento dessa atividade de conversas sobre livros lidos por todos os membros. Para uma percepção da situação atual nos EUA, veja aqui.

Esses clubes de leitura se organizavam tanto espontaneamente – grupos de amigas (as mulheres, lá como aqui, são mais leitoras que os homens) – como por iniciativa de clubes, tipo Rotary, Lyons e congêneres, e bibliotecas. Alguns desses clubes – como as comunidades online – se especializavam em determinados gêneros, e tem uma origem comercial ainda mais antiga.

O Book of the Month Club, uma iniciativa da Doubleday, teve seu início em 1926, e seu princípio de funcionamento era simples: os sócios concordavam em receber um livro selecionado cada mês, além de poder adquirir outros títulos de um catálogo especialmente preparado para os membros. A fórmula proliferou, com inúmeras versões de gêneros oferecidos, e enfrentou crises como consequência das dificuldades de cancelar assinaturas. Entretanto, o clube original ainda existe e oferece lançamentos de modo simultâneo ao mercado de livrarias e online: Inferno, do Dan Brown, já está em oferta lá.

A Doubleday mais tarde foi adquirida pela Bertellsman, que hoje controla também a Simon & Schuster (editora original do Dan Brown). A Bertellsmann manteve uma série de clubes de livros, na Alemanha e em Portugal, e, por vários anos, foi sócia do Grupo Abril no falecido Clube do Livro. A experiência aqui foi liquidada pela inflação, pois era impossível fazer o negócio funcionar prevendo preços de capa com vários meses de antecedência e mantendo-o por três meses.

O que vale a pena assinalar, disso tudo, são três pontos:

1 – O desenvolvimento do mercado de livros é uma prática de quase um século nos EUA. Clubes do livro, formatos diferentes de edições, cadeias de venda diferenciadas, são processos continuadamente usados, aperfeiçoados (e eventualmente descartados). As editoras dos EUA criam mercado, e não ficam passivamente esperando os leitores comprar seus livros.

2 – O contraste com nosso mercado editorial. As editoras brasileiras engatinham (e, muitas vezes, de modo errado) no desenvolvimento de novos formatos. Louve-se a iniciativa da L&PM e sua linha de livros de bolsos vendidos em bancas, como uma das poucas exceções. A Avon – com a Melhoramentos no começo e agora já com outras editoras – inovou no processo de distribuição e comercialização, mobilizando milhares de vendedoras para oferecer títulos selecionados. É caso único.

3 – Existem comunidades de leitores online no Brasil. A própria GoodReads já tem uma base de membros brasileiros e existem outras, como grupos no FaceBook ou em sites próprios. Mas nada de iniciativa das editoras. Algumas bibliotecas promovem discussões, cada uma de um formato diferente (A Mário de Andrade, em S. Paulo, tem um encontro aos sábados em que um professor apresenta um romance ou a obra de algum escritor). Em Portugal, a Direção Geral do Livro e das Bibliotecas chegou a estimular a criação de “Comunidades de leitores”, que seriam lideradas por personalidades públicas . Como o Ministério da Cultura de lá nem mais existe, não sei se a iniciativa continua.

Existem autores – já muitos, é verdade – que mantem blogs, às vezes hospedados no site das editoras, como é o caso da Companhia das Letras. Mas não descobri nada similar às comunidades de leitores online como as descritas por Jane Tappuni.

Por isso, não sabemos se esse tipo de coisa pode ou não funcionar aqui. Não há experiências.

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