Um mercado opaco

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Tomei a iniciativa de escrever a coluna no PublishNews e o blog Oxisdoproblema pensando no público bem focado, e restrito, dos interessados no mercado editorial. Fico muito satisfeito, como sempre dizem os colunistas, com minha meia dúzia de leitores (ou um pouco mais, na média, tá bem…).

Qual minha surpresa, portanto, quando a coluna que publiquei na última quinta-feira, Literatura brasileira no exterior: problema dos editores? teve cinquenta vezes mais acessos que a média do blog, e foi replicada em muitos sites, no Facebook e no Tweeter. O Google Analytics – ferramenta de análise dos acessos – registrou uma dispersão muito grande em suas origens, com países em que eu jamais pensaria encontrar algum leitor. Entre os que comentaram ou replicaram nas redes sociais, pelo que pude perceber, havia uma substancial parcela de escritores.

Parece que o post mexeu com preocupações e sensibilidades das pessoas sobre a posição da literatura brasileira no exterior, sobre as dificuldades e os causantes da situação.

Como disse naquele post, meu interesse pelas políticas para o livro e leitura nasceu quando me fiz a pergunta, quando era sócio da Marco Zero, sobre a razão pela qual nossos ótimos livros não vendiam o que esperávamos. Como sabem os cientistas sociais, o funcionamento das sociedades é sempre opaco.

Desvendar o que há por detrás da opacidade do mercado editorial, é o que procuro fazer. Tentar analisar as diferentes formas de desenvolvimento, e a conexão que possa existir entre os diferentes fenômenos do mundo editorial.

Até porque, mesmo em um plano anedótico, os êxitos encobrem os fracassos, obscurecem as dificuldades e mitificam a si mesmos. E, consequentemente, não permitem compreender a dinâmica real que ocorre entre os diferentes atores desse segmento da sociedade que é o mercado editorial, a escrita e o acesso ao livro e à leitura.

A nossa indústria editorial é realmente pujante?

Sim, mas, ao analisa-la de perto, observa-se que quase a metade das vendas é feita para programas governamentais, particularmente os do livro didático. E fazer isso significa procurar entender os mecanismos de escolha, o processo de seleção dos títulos e de negociação das vendas. Assim, alguns detalhes se tornam mais evidentes e organizados para o pesquisador. O FNDE, que comanda os processos de seleção e compras do MEC, é um negociador duríssimo, e os preços por unidade compensam pelo volume, pois não incluem os custos editoriais. Os autores de livros didáticos passam o ano todo viajando, dando cursos gratuitos, isto é, patrocinados pelas editoras, para professores, etc., para que seus livros sejam conhecidos e, por isso, escolhidos nos processos seletivos. A expressão “o MEC compra”, portanto, oculta um complexo processo até que os livros cheguem às mãos dos alunos.

Na área dos livros gerais (literatura e ensaios), os problemas são variados. Vão desde a dependência extrema das editoras em relação aos livros de grande sucesso, os problemas de descontos para as grandes cadeias de livrarias, e como isso prejudica as livrarias menores (e as editoras menores também), as dificuldades que as editoras brasileiras têm para desenvolver mercados e ocupar todos os nichos possíveis, as deficiências nos metadados, que dificultam a descoberta dos livros pela Internet, e os problemas de logística.

Para dar um pequeno e sugestivo exemplo desse último tipo de problema, conto uma historinha. Meu pai nasceu em uma cidade do interior do Amazonas, Manicoré, que está na bacia do rio Madeira. Sabem quanto custa e quanto tempo leva para que os correios entreguem uma encomenda de 300 gramas lá? R$ 16,20 (um quilo custa R$ 21,90) e leva 24 dias úteis depois do dia da postagem. Ou seja, o morador de Manicoré – e de centenas de municípios brasileiros – precisa querer muuuiiito comprar um livro, ter recursos e também muuuiiita paciência para recebê-lo!

Evidentemente, além dos livros escolares entregues pelo MEC, poucos livros chegam em Manicoré.

E nem vou falar aqui dos segmentos dos livros religiosos e dos livros técnico-científicos, com suas questões específicas e soluções também próprias.

Nesse quadro, quando se vê o sucesso de grandes editoras, é fácil esquecer as que ficaram no caminho, e perceber também os condicionantes e as dificuldades do sucesso. Quando se entra, no Rio de Janeiro em S. Paulo ou em algumas outras cidades, em livrarias que despertam admiração até em visitantes estrangeiros, não fica evidente a carência de livrarias, de qualquer tamanho, na maioria dos municípios, ou de quantas livrarias pequenas e médias fecharam, nas grandes cidades, nos últimos anos. E muitas vezes não se percebe o fenômeno (relativamente recente), de centenas de feiras e festivais de livros que aumentam o contato entre autores e seus leitores. Onde levará essa interação de questões?

Volta e meia se fazem campanhas publicitárias de “estímulo à leitura”. Mobilizam-se artistas para posar de graça nessas campanhas, veiculam-se spots na TV e se colocam cartazes nas ruas, nos metrôs, nos ônibus. Há alguns anos, uma autoridade municipal se chateou quando comentei, ao ser perguntado por um jornal sobre o que achava da campanha, que, quando as bibliotecas tivessem acervos atualizados, as pessoas iriam até elas com mais prazer, e voltariam. Mas que, se não encontram novidades e livros novos, simplesmente não voltam mais. Sentem-se rejeitados – e com toda razão – pelo sistema de bibliotecas, e não adianta campanha se as bibliotecas não oferecem o que os possíveis leitores desejam.

E por aí vai.

As questões colocadas para o fomento do livro e da leitura certamente são complexas. E vão desde os problemas gerais de educação (e as grandes editoras internacionais se interessam pelo mercado brasileiro porque nossa população de estudantes crescerá significativamente ainda por mais vinte ou trinta anos, pelo menos), até as de acesso (bibliotecas e fomento às livrarias), as feiras nacionais (e o contato que proporcionam entre os escritores e leitores), os desafios de logística, do livro eletrônico. Enfim, a listagem é muito maior do que a que me disponho fazer aqui.

Mas o importante é saber que são problemas interligados. Não é possível resolvê-los contrapondo-os uns aos outros, tipo mercado nacional versus mercado internacional, educação versus logística, ou seja lá o que se queira.

E é importante que se compreenda que vivemos processos continuados de construção de políticas. Já se avançou muito desde os anos 1990, depois do brutal retrocesso que foi o governo Collor e seu desmonte das instituições culturais do país. Apesar de ziguezagueante, é um processo acumulativo. E é sempre necessário não se jogar fora o bebê com a água do banho. E continuar avançando.

Com mais de trinta anos de vivência no mercado editorial, eu busco mais aprender a fazer as perguntas certas do que qualquer outra coisa. Fazer as perguntas certas para as várias personas sociais, e procurar verificar se os paradigmas (no conceito de Thomas Kuhn) se sustentam ou não. Até porque, ao contrário das ciências físicas, a sociedade muda ao mesmo tempo em que são feitas as perguntas e se elaboram os discursos. E, nessa situação de mudanças e incertezas, sobra pouco espaço para afirmações taxativas, e necessidade de muito empenho para começar a vislumbrar o que se deseja compreender.

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