O Brasil em Frankfurt em 1994 – 1

No logotipo da participação brasileira, a esperança de um país de leitores

A participação do Brasil como “País Tema” da Feira do Livro de Frankfurt, em 1994, representou para mim e para a equipe que coordenou o evento durante quase três anos de trabalho, empenhados em que o país fizesse uma bela figura. O núcleo central da equipe foi coordenado por Alfredo Weizsflog, representando a CBL, Regina Bilac Pinto, o SNEL, o Embaixador Wladimir Murtinho, do MinC, Embaixador Sérgio Telles, Chefe do Departamento Cultural do Itamaraty e Márcio Souza, representando a Biblioteca Nacional. Na área executiva estávamos com Júlio Heilbron e Gilberta Mendes, da EMC – Empresa de Marketing Cultural, na área de produção, juntamente com Heloísa Alves. Eu era o encarregado de relações institucionais, ajudando na convergência das ações. Essa equipe, mais um punhado de curadores das exposições, respondia junto aos órgãos e instituições integrantes e colaboradoras do projeto, mais de vinte no Brasil e outro tanto na Alemanha.

O resultado foi um evento muito bem estruturado, com resultados que avaliamos, na época, como muito bons: uma enorme porta se abria para a difusão não apenas dos autores brasileiros, mas da nossa cultura e da vitalidade do país, que se expressava no lema “Um Encontro de Culturas”.

Começo aqui uma série de posts sobre isso, seu contexto, seus problemas e o que se pode aprender com a experiência de 1994 para que, em 2013, a literatura e a cultura brasileira brilhem em Frankfurt.

Paradoxalmente, no entanto, começarei por uma avaliação publicada anos depois do evento por Peter Weidhaas, o Diretor da Feira do Livro de Frankfurt, em seu livro “See you in Frankfurt”, pois os aspectos negativos ali mencionados nos proporcionarão informações do contexto que cercou nossa presença.

Transcrevo:

“O Brasil, por sua vez, não foi como eu esperava. Três bons amigos trabalharam para esse país convidado. Na frente estava Alfredo Weiszflog, o editor brasileiro de ascendência alemã de São Paulo, que, como presidente da Câmara Brasileira do Livro foi o responsável por toda a participação de seu país. Depois havia a agente literária Ray Güde-Mertin, de Bad Homburg, uma aglutinadora, que era especialmente dedicada à literatura em língua portuguesa. Eu a conheci já em 1971 quando fiz a exposição de livros alemães em S. Paulo, quando ela ainda estava nessa cidade. A última pessoa era o livreiro de Frankfurt especializado em literatura em língua portuguesa, Teo Mesquita, nascido na antiga colônia portuguesa de Goa, agora Índia, que por mais de 20 anos procurava construir em Frankfurt uma base de clientes para autores brasileiros e portugueses.
Tinha grandes expectativas na equipe brasileira baseado no empenho dessas três maravilhosas pessoas do livro. É também verdade que os brasileiros não pouparam investimento. Como Alfredo me contou mais tarde, houve inclusive um déficit de US 750.000 que a Câmara do Livro teve que honrar e pagou em alguns anos. Tudo foi realmente bombástico – o pavilhão brasileiro, e a meia dúzia de livros ilustrados cuidadosamente editados sobre o Brasil, parte dos quais só chegou a Frankfurt depois da Feira. Esses livros, cada um em uma edição de mais de 1.000 cópias, devem ter custado o resgate de um rei. As apresentações de autores brasileiros tiveram também um bom público. Havia interesse, mas não se conseguiu nenhum destaque, seja em algum aspecto particular do conteúdo ou com algum autor em particular. Havia Paulo Coelho, logo em seguida ao enorme sucesso de seu livro de 1988, O Alquimista, traduzido em 40 países, com mais de cinco milhões de exemplares vendidos, alcançando o topo das listas de best-sellers pelo mundo afora. Ainda assim, as pessoas não foram capazes de concordar quanto a um autor realmente cintilante para falar na abertura. Terminaram trazendo um autor bem desinteressante, o professor Josué de Souza Montello, que pronunciou um discurso acadêmico sobre a influência de Goethe na literatura brasileira e seus autores. O orador era um cavalheiro bem amável, que com voz suave contou esse tipo de anedota: … “naquele mesmo instante uma senhora me encontrou na entrada da Biblioteca Nacional e, com mãos trêmulas, queria me entregar um embrulho enorme. Disse ela, “Sou alemã, viúva do Dr. Juliano Moreira. Ouvi falar dessa exposição e estou trazendo esse presente – um busto de Goethe, que ficava na mesa do meu marido”.
Tudo isso era bem intencionado, mas não era adequado para quem queria inspirar o público alemão com as coisas brasileiras. Estou convencido que a escolha do orador foi feita pelo governo brasileiro, que estava muito envolvido financeiramente. Aprendemos que é a abertura da Feira do Livro que determina a força da conquista do público para um tópico”. (págs. 239/240)

Encerra-se a transcrição.

Analisemos primeiro a questão substantiva levantada por Weidhaas que é, de fato, a escolha de Josué Montello para o discurso da abertura.

Visto em retrospectiva, realmente observamos que os autores convidados para a abertura da Feira de Frankfurt quase sempre tiveram um papel de destaque, seja porque eram estrelas do universo literário, ou porque sua escolha fora objeto de polêmicas no país homenageado. Alguns exemplos: 1988 – Itália – Umberto Eco (logo depois de O Nome da Rosa); 1989, França: a estrela foi Jack Lang, Ministro da Cultura “popstar”; México, 1992 – Grande disputa entre dois egos gigantescos, o de Carlos Fuentes e Octávio Paz. Ganha Paz e Fuentes fica em casa, amuado; 1993 – Flandres (Bélgica) e Holanda: outra briga, deste vez entre Cees Notteboom e Harry Mulisch, com o último ganhando a distinção.

A organização do evento brasileiro, com a concordância do Affonso Romano de Sant’Anna, então Presidente da Fundação Biblioteca Nacional, optou por uma “solução institucional”: Josué Montello era o Presidente da Academia Brasileira de Letras e, nessa condição, seria o orador da abertura.

Pela avaliação de Weidhaas, cometemos grande erro.

Cometemos?

Lembrem-se: em pelo menos dois casos (México e Holanda), a escolha de quem faria o discurso de abertura provocou polêmicas amargas que deixaram sequelas nos respectivos países.

A razão é muito simples: ego. Ego de escritor (e dos artistas em geral) é monumental. A preocupação de Weiszflog e da organização brasileira era a de minimizar a possibilidade de polêmicas desagregadoras, principalmente porque isso não interessava aos editores. No final, não se conseguiu isso, e tivemos disputas de ego muito significativas não em relação à escolha de quem discursaria na abertura (a escolha do presidente da ABL acalmou os ânimos nesse sentido), mas sim quanto a quem faria parte das “delegações oficiais”. Veremos mais adiante.

Mas, do episódio Montello e da avaliação de Peter Weidhaas fica uma advertência: Frankfurt espera – ainda que de modo subjacente – um nome polêmico que atraia atenção do público e da mídia para fazer o discurso de abertura.

Os organizadores da participação brasileira em 2013 terão que enfrentar esse dilema, tanto maior quanto pela ausência de um nome de repercussão internacional na literatura brasileira, salvo o já mencionado por Weidhaas: Paulo Coelho.

Fora Coelho, qualquer outro nome ligado à literatura contemporânea se revela pequeno no contexto internacional. Digo isso independentemente dos méritos literários de vários grandes escritores brasileiros contemporâneos, mas há que reconhecer que sua projeção internacional e – consequentemente – a capacidade de chamar atenção do público alemão e da mídia internacional são, na melhor das hipóteses, muito reduzidas.

Como gosto de provocar, deixo logo minha sugestão: convidar o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva para fazer o discurso de abertura da feira. E não lhe faltam méritos no âmbito da indústria editorial e da educação que o credenciem: Plano Nacional do Livro e Leitura; Desoneração da cadeia produtiva do livro; Mais Cultura; aumento do número de universidades e escolas técnicas e do investimento na educação e na cultura.

E, com certeza, vai chamar toda a atenção que precisamos para as dezenas de autores que lá estarão.

***

Amanhã, em outro post, além de comentar outras observações de Weidhaas, tratarei de como foi elaborado o programa da participação brasileira.

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