O Brasil em Frankfurt em 1994 – 4 – Autores antes da Feira

Como Burle Marx não é autor, teve quem reclamasse dessa exposição...

Uma das preocupações da organização da presença do Brasil em Frankfurt em 1994 era a de ampliar da melhor maneira possível o esforço que culminaria em outubro, a data da Feira. A Feira do Livro de Frankfurt é um evento profissional e de caráter internacional. As pessoas sabem disso, falam disso, mas tirar todas as consequências do significado desse fato não é tão simples.

Os cinco dias de funcionamento da feira são uma máquina de moer. Os encontros acontecem a cada quinze minutos ou meia-hora, e são marcados com meses de antecedência, e às vezes é preciso andar muito, mas muito mesmo, de um encontro para o outro. O tamanho dos pavilhões e a distância entre eles torna extremamente exaustiva a atividade dos profissionais que a frequentam.

Por outro lado, o burburinho em torno do país convidado começa bem antes, realmente. Mas só se alcançam efeitos práticos do ponto de vista profissional – isto é, de venda de direitos autorais para a tradução – se o trabalho começa a ser feito bem antes, para que editores e agentes se interessem pelos autores.

Por essa razão é que o programa de apoio à tradução tem tanta importância. Um idioma como o português, insular, competindo com o espanhol e o francês (dentre outros), tem que facilitar o acesso dos editores e agentes internacionais ao conteúdo disponível.

Mas existem outras razões pelas quais o trabalho antes da Feira é importante.

A primeira delas é que a Feira de Frankfurt – como todas as outras, aliás – é um evento, com data predeterminada. Em um evento se consegue um máximo de exposição durante um período curto de tempo, e é necessário desenvolver ações prévias de preparação para que a população em geral seja receptiva quanto manter a continuidade das ações. A tristeza do desperdício do esforço na realização de grandes eventos é a falta de continuidade de políticas públicas de divulgação da nossa literatura e da nossa cultura.

A segunda é que os autores e os livros são a porta de entrada não apenas para as demais manifestações culturais do país, como para o conhecimento do próprio país. E, mais uma vez, não se pode focar exclusivamente no evento para conseguir o maior impacto.
Finalmente, sendo a Feira de Frankfurt um evento profissional, com o público basicamente de editores, livreiros e agentes literários, consideramos importante abrir um espaço fora e antes da Feira para os autores brasileiros.

A Haus der Kulturen der Welt – Casa das Culturas do Mundo é uma instituição de Berlim que tem como missão apresentar e divulgar a produção artística do mundo, com especial ênfase para as culturas não europeias, incluindo artes visuais, música, literatura, teatro, cinema, discussões acadêmicas e as mídias digitais, em uma perspectiva multidisciplinar.

A área de literatura da HKW era então dirigida pelo Dr. Kurt Scharf, estudioso e tradutor da literatura brasileira, que nos ajudou a montar um programa muito interessante para fazer circular autores brasileiros na Alemanha antes da Feira de Frankfurt.

Era um esquema muito simples. O Dr. Scharf contratou um jovem administrador alemão que havia morado no Brasil e era casado com uma brasileira, Carl Peter Rees, que se encarregaria de entrar em contato com as instituições culturais das cidades alemãs para estimulá-las a receber escritores brasileiros em sua programação.

O Projeto Frankfurt 1994 pagaria a passagem dos autores até Berlim, onde participariam de leituras e encontros na sede da HKW. Dali em diante, cada cidade pagava a passagem de trem, reservava e pagava a hospedagem do autor, pagava um cachê ao próprio e preparava uma programação de encontro deste com o público, seja em uma biblioteca, escola, livraria. Enfim, onde achasse interessante.

O autor não precisava ter livros traduzidos para o alemão. Uma das características mais interessantes e simpáticas do público alemão que gosta de literatura é o interesse que tem em ouvir a voz do autor lendo seus textos. Querem sentir a modulação, as ênfases, etc., mesmo que não entendam o texto. Obviamente, em todos os casos, a cidade providenciava um tradutor. Se o autor já tivesse algum livro traduzido, o trecho escolhido era também lido pelo intérprete.

O autor fazia sua apresentação, geralmente no final da tarde ou começo da noite (ou durante o dia, no caso dos autores de livros infantis), jantava, dormia e no dia seguinte era levado ao trem (com a passagem comprada pela cidade seguinte), para continuar o programa. No final do périplo, em Berlim ou Frankfurt, pegava o avião de volta para casa.
A questão era: que autores enviar para a Alemanha?

As pessoas da comissão organizadora vinculadas ao mercado editorial, Alfredo Weiszflog, Regina Bilac Pinto e eu, tinham o maior cuidado para evitar que as preferências pessoais pesassem na definição da programação de autores. Esse era um terreno minado – eu voltarei a falar sobre isso – e a isenção, mais do que nunca, se fazia necessária.

Roman Herzog, Presidente da Alemanha, inaugurou a exposição e conversa aqui com Alfredo Weiszflog. O Ministro da Cultura do Brasil presta atenção.

Resolvemos adotar um método similar ao da escolha das exposições.

Com a ajuda do Márcio Souza, então diretor do Departamento Nacional do Livro da Biblioteca Nacional, organizamos uma lista de aproximadamente trezentos (eu disse t-r-e-z-e-n-t-o-s) nomes de autores que incluía, obviamente, todos os que sabíamos ter livros traduzidos para o alemão e mais autores de todos os gêneros literários, de todos os sexos (sem discriminação!), de todos os estados brasileiros. Foi preparado um resumo biobibliográfico do autor – trajetória, gêneros publicados, títulos editados, minibiografia, etc. – traduzidos para o alemão e enviados para a HKW.

Certamente não esperávamos levar trezentos autores para a Alemanha. A Feira do Livro de Frankfurt é apenas uma oportunidade para se lançar cartas no jogo do mercado internacional de traduções. Ir à Frankfurt não é garantia de ter livros traduzidos. A experiência que tenho tido no projeto Conexões – Mapeamento Internacional da Literatura Brasileira, no Itaú Cultural, já mostrou várias surpresas. Quem poderia imaginar, por exemplo, que José Mauro Vasconcelos é um dos autores brasileiros mais traduzidos
internacionalmente? Para não falar do Paulo Coelho, hoje membro da ABL e citado por estadistas e pensadores em seus discursos…

Com esse material em mãos começava o trabalho de Carl Peter Rees, pelo telefone, correio (não existia internet nem e-mail, jovens), consultando sobre o interesse das cidades, enviando o material, explicando as condições para a participação no programa.

Cada cidade escolhia quem queria receber a partir do “cardápio” enviado. Tínhamos feito nossa parte ampliando ao máximo a possibilidade de escolha. A decisão final cabia a quem iria receber os autores.

O resultado foi que enviamos 20 autores na primeira leva do evento, para cerca de 30 participações em mais de dez cidades. Na segunda etapa foram cerca de 40 autores em cerca de 100 apresentações em mais de trinta cidades. Sessenta autores em quarenta cidades alemãs. Vinte por cento do total dos autores listados.

O mais importante é que a tática de deixar os alemães escolherem dentro de um amplo cardápio funcionou para levar para lá tanto autores conhecidos como alguns que, na época, eram praticamente estreantes. Alguns desses estreantes se firmaram no nosso universo literário. Outros não. Outros, famosos na época, foram esmaecendo sua presença no cenário literário. Outros continuam com presença relevante.

Infelizmente não tenho comigo a lista completa. Não sou arquivista, guardei algumas coisas, mas não tudo. Solicitei à CBL ter acesso aos arquivos da entidade há quase dois meses. O “vou examinar o que tem” do funcionário responsável continua até hoje e não pude ver o que há disponível por lá. Não me perguntem a razão dessa inércia, porque não sei.

Com a ajuda do Carl Peter Rees, que hoje trabalha em Doha, recuperei alguns dos nomes de escritores que participaram dessa iniciativa. Por ordem alfabética, e quem quiser que perceba quem era e não é mais, quem continua sendo e quem já foi importante no cenário da literatura brasileira:

Affonso Romano de Sant’Anna
Ana Maria Machado
Deonísio da Silva
Domingos Pellegrini Júnior
Guido Guerra
Haroldo Maranhão
Ignácio de Loyola Brandão
João Moura Jr.
João Ubaldo Ribeiro
Luís Antônio de Assis Brasil
Luiz Vilella
Marcelo Rubens Paiva
Márcio Souza
Mariana Colasanti
Marilene Felinto
Milton Hatoum
Moacyr Scliar
Nélida Piñón
Renata Pallotini
Ruth Rocha
Suzana Vargas
Ziraldo

Infelizmente só consegui menos da metade dos nomes. Quando e se a atual diretoria da CBL me enviar a relação completa, publico aqui.

Quero terminar este post com duas observações. A primeira, sobre os egos dos escritores.

Marilene Felinto, na época muito conhecida pelo romance As Mulheres de Tijucopapo, fazia frequentemente resenhas na Folha de S. Paulo. No domingo anterior à viagem do primeiro grupo para a Alemanha, do qual ela fazia parte, publicou uma resenha extremamente crítica – e, na minha opinião, injusta – de um romance do Assis Brasil, que viajaria com ela nesse mesmo grupo. Lá tive eu que administrar uma saia justa desnecessária. Claro que ela tinha todo direito de dizer o que quisesse do livro, mas seria o caso de simples boa educação não fazer isso dias antes de viajar com o criticado, com quem teria que conviver. Os outros autores se sentiram incomodados e se solidarizaram com o nosso afável gaúcho, que não passou recibo.

A segunda, sobre a cobertura da imprensa. A revista Veja, com seu correspondente em Berlim – William Waack – presente na coletiva onde, na Casa das Culturas do Mundo, o programa, sua metodologia e seus participantes foram anunciados – publica matéria dizendo que a programação tinha “letras de menos”, com “poucos escritores de peso e muito folclore”. Aliás, nem falou do programa da HKW.

Esse tom se repetiria. A imprensa, e alguns jornalistas em particular, achavam – e vão continuar achando, Galeno, prepare-se! – que só merece ser convidado quem eles gostam. E desqualificam tudo o mais, nessa mistura de “complexo de vira-latas” de que falava Nelson Rodrigues com a arrogância do salto alto de quem não se aprofunda mais no tema sobre o qual está tratando e só escuta a quem lhe interessa.

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