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Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, Diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil Pode Ser um País de Leitores? Política para a Cultura, Política para o Livro, pela Summus Editorial.

CACHAÇA E LITERATURA BRASILEIRA

A literatura é uma cachaça, alguns podem até dizer que. É um dos tantos sinônimos da branquinha: algo que não se pode largar. A literatura brasileira é uma cachaça para muita gente.

Mas, além de “ser uma cachaça” para leitores, a branquinha aparece nas obras de muitos autores, e essa presença reflete e retrata muitas coisas.,

Não é de se admirar. A cachaça é a bebida mais popular do país. Estranho seria se não estivesse presente na obra de nossos grandes escritores. (Talvez esteja ausente – definitivamente – nos escrevinhadores classe média que só olham para o próprio umbigo e só bebem cerveja, ou uísque). Mas, de José Lins do Rego aos poetas cancioneiros atuais, de João Cabral a Chico Buarque, e passando por Graciliano, Guimarães Rosa, Mário de Andrade e muitos outros, a cachaça está presente no enredo, na construção do romance (ou das poesias) e na anima de várias obras primas de nossa literatura.

Esse é o tema do curso organizado pelo professor Maurício Ayer, escritor, tradutor, pesquisador de literatura e música e especialista em cachaça. Doutor e pós-doutor em literatura francesa pela FFLCH/USP, especializou-se na Universidade de Paris 8 e formou-se em Música/Composição na Faculdade Santa Marcelina. O curso, “Literatura Brasileira e Cachaça”, é organizado sob os auspícios do site Outras Palavras – Comunicação Compartilhada e Pós Capitalismo. Aqui o link para informações sobre o curso, e aqui uma apresentação do Maurício Ayer

A primeira “aula” – se é que se pode chamar assim – foi sobre José Lins do Rego, em especial sobre o ciclo da cana de açúcar, no último dia 3 de março. Na verdade, tudo se estrutura em leituras e conversas sobre trechos dos livros do autor selecionado, e a – naturalmente imprescindível – degustação de cachaças da região do autor. Zé Lins, paraibano, foi degustado na companhia de duas cachaças locais – a Rainha e a Volúpia. Cachaças com personalidade própria do brejo paraibano, envelhecidas em barris de freijó. E, no final, mais degustação de duas versões da mineira Tiê, que apoia a iniciativa.

O mais notável é que todos saímos satisfeitos, levemente – muito levemente, porque degustação é de pouquinho – alcoolizados. Aprendemos como Zé Lins faz referências à cachaça, aos contrabandistas, vendeiros e produtores (o Engenho Santa Rosa, onde se desenrola a ação dos romances), desde a perspectiva do neto do coronelzão, do “moleque” da usina, dos trabalhadores “moradores” do engenho e do trabalhador artesão semi-autônomo, Mestre Amaro, o seleiro, a chegada do cangaço… e da polícia.

Zé Lins é um escritor realista. Chegou a ser ministro do Getúlio, mas era também amigo do Graciliano, a quem hospedou logo que este saiu da prisão (veja o relato interessante no romance-tese do Silviano Santiago, “Em Liberdade”, no qual ele (re)inventa os primeiros dias de Graciliano quando deixa o presídio da Ilha Grande.

O realismo de Zé Lins do Rego é da perspectiva do senhor de engenho. É curioso como romances que hoje vemos claramente escritos desde o ponto de vista dos patrões é aceito e elogiado pelo comunista Graciliano Ramos. O realismo e o ciclo do nordeste, do qual fazem parte os dois – e mais tantos outros, como Rachel de Queiroz, José Américo de Almeida, Jorge Amado – foi acompanhado por outros ciclos “regionais” no Sul e na Amazônia, que não é o caso de falar aqui.

O fato de serem realistas (ou “neorrealistas”, como se costuma qualificar) era o passe comum entre todos. As narrativas transcendem posições de classe e revelam um Brasil que era “desconhecido” pelas elites intelectuais do sul, especialmente a carioca e a paulista. Essa característica de certa forma dilui oposições políticas, ideológicas e estilísticas muito diferenciadas.


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AS DIFICULDADES PARA A INTERNACIONALIZAÇÃO DA LITERATURA BASILEIRA

A internacionalização da literatura brasileira enfrenta uma série de dificuldades. Algumas dessas são estruturais, outras derivadas de problemas de políticas públicas (ou ausência delas) para que esse processo ocorra de modo mais eficaz.

Vejamos algumas dessas dificuldades.

IDIOMA DA ESCRITA E CENTRALIDADE DOS AUTORES

Existe um campo farto de discussões sobre a existência de uma literatura mundial, a chamada “República Mundial das Letras”. Na formulação original, que veio do Iluminismo, o diálogo entre escritores, através de suas obras, comporia esse mundo da inteligência, no qual a filosofia e a literatura teriam papel primordial. Hoje, essa “República Mundial das Letras” é um campo de disputas em torno do que se pode chamar de “capital literário”. O que se supunha ser uma circulação livre, internacional, das ideias, na verdade é uma disputa que parte de “posições de força”, que incluem o idioma original do trabalho de cada escritor.

Por isso mesmo, analisar a posição do idioma português nesse contexto é uma das condicionantes para que se compreenda como a literatura produzidas nesse idioma – principalmente de Portugal e do Brasil, e a partir dos anos 1970, das ex-colônias lusitanas em África, tem uma posição fraca no contexto da República Mundial das Letras.

Thomas Jefferson, um dos que acreditava que a circulação de ideias era essencial para a “República Mundial das Letras”.
Didretor, o da Enciclopédie, era outro que acreditava no diálogo internacional.
René Descartes, outro ilumininista.

Um dos poucos indicadores para verificar essa questão é o Index Translationum. Este é um banco de dados que compila informações sobre traduções de todos os países membros da UNESCO. Melhor, dizendo, compilava. O Index foi criado em 1932, ainda pela Liga das Nações. Herdado pela UNESCO, a compilação foi interrompida em 2012, a pretexto de dificuldades econômicas da organização internacional. O banco de dados era composto por informações enviadas pelas Bibliotecas Nacionais dos países membros, encarregados da compilação das respectivas bibliografias nacionais. Não era completíssimo, pois muitas vezes as respectivas bibliotecas deixavam de informar. A própria Biblioteca Nacional do Brasil atrasava sistematicamente o envio. Era, no entanto, a fonte de informações mais abrangente disponível. A partir de 1979 os dados foram computadorizados, e podem ser vistos aqui, compilados até 2012:

Um primeiro quadro extraído do Index mostra o idioma de origem das traduções compiladas:

Idiomas de Origem
1 Inglês 1.265.835
2 Francês 225.996
3 Alemão 208.178
4 Russo 103.618
5 Italiano 69.549
6 Espanhol 54.576
7 Sueco 39.980
8 Japonês 29.246
9 Dinamarquês 21.251
10 Latim 19.967
11 Holandês 19.667
12 Grego antigo (até 1453) 18.073
13 Tcheco 17.159
14 Polonês 14.661
15 Norueguês 14.276
16 Chinês 14.070
17 Árabe 12.410
18 Português 11.581
19 Húngaro 11.297
20 Hebreu 10.279

Pelo quadro já constatamos algumas evidências: a) Predominância esmagadora do inglês, seguido de longe pelo francês, alemão e russo, como o idioma de origem das traduções; 2) O português está na 18ª. Posição, logo abaixo do chinês e do árabe; 3) Idiomas com populações muito menores, como os nórdicos (sueco, dinamarquês e norueguês), os da Europa Oriental (húngaro, tcheco), etc., são idiomas originais de mais traduções que o português. Até línguas mortas (latim e grego antigo) são mais traduzidos que a última flor do Lácio.

E aqui estão os idiomas “alvo” (aqueles que recebem mais traduções). Coloco apenas os TOP 10, que inclui o português:


“TOP 50” Idiomas alvo
1 Alemão 301.934
2 Francês 240.044
3 Espanhol 228.558
4 Inglês 164.505
5 Japonês 130.649
6 Holandês 111.270
7 Russo 100.806
8 Português 78.905
9 Polonês 76.706
10 Sueco 7.120

Essa tabela revela, de certo modo, o nível de “internacionalização” na absorção da cultura mundial pelos falantes dos diferentes idiomas. Note-se, no caso, que o inglês vale para inúmeros países (EUA, GB, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul), além de ser, como atual “língua franca”, habitualmente lido pelas elites cultas de dezenas de outros países, principalmente as publicações técnico-científicas.
Mais interessante ainda é a tabela que mostra o número de traduções por países, onde fica ainda mais claro esse nível de internacionalização cultural:


“TOP 19” Países
1 Alemanha 269.724
2 Espanha 232.853
3 França 198.574
4 Japão 130.496
5 URSS (até 1991) 92.734
6 Holanda 90.560
7 Polônia 77.716
8 Suécia 73.230
9 Dinamarca 70.607
10 China, República popular 67.304
11 República Tcheca 62.480
12 Federação Russa 58.491
13 Hungria 56.868
14 Itália 54,072
15 EUA 52.515
16 Finlândia 51.710
17 Brasil 50.183
18 Noruega 46.314
19 Reino Unido 42.647

Estados Unidos e Reino Unido, os dois maiores fornecedores de traduções, somados (95.162), publicam juntos apenas pouco mais de traduções que a Holanda. Mas é importante notar que, se há uma concentração na origem, há uma grande dispersão no destino. Isso confirma a hipótese do predomínio da produção em inglês no mercado internacional.
A tabela inclui todos os tipos de traduções. Não apenas as de literatura. A circulação da literatura técnico-científica é importantíssima. E se é verdade que a maioria dos cientistas pelo menos lê em inglês, não se pode dizer que os dos EUA leem em outros idiomas. Por isso, o conhecimento produzido no resto do mundo tem que ser traduzido para ser acessado pelos monolíngues de lá.

Um último quadro para podermos chegar a conclusões, é o que mostra os dez autores que escrevem em português e o número de traduções dos mesmos:

Os autores brasileiros mais lidos

Os cinquenta autores mais traduzidos no mundo podem ser consultados no Index. Nenhum escreveu originalmente em português. Escrevendo originalmente em espanhol só o Garcia Marquez, que aparece em 48º. lugar.

Enquanto nosso Mago tem 1.077 traduções registradas, a autora mais traduzida de língua inglesa (Agatha Christie) marcou 7.216 traduções. Note-se que Paulo Coelho só começou a ser traduzido em meados da década de 1980

Machado tem poucas traduções.
Comparado com Agatha Christie, por exemplo, Paulo Coelho fica bem atrás.

Machado de Assis registra apenas 99 traduções de 1979 a 2012.

Dizer, portanto, que nossos escritores partem para a luta a partir de uma posição extremamente frágil é eufemismo. E cada país consegue resultados diferentes para conseguir os “créditos” para seus autores.

A importância dos autores, seu “crédito” no mercado internacional de traduções é extremamente desigual, no que diz respeito ao prestígio crítico que usufruem em seus países de origem. Como sabemos, há muita gente escandalizada com a posição do Paulo Coelho e do José Mauro Vasconcelos, e injuriada pela ausência de outros.

Certamente podemos ficar felizes pelos grandes clássicos do idioma português que estão na lista, e por Jorge Amado e pela Clarice Lispector. A presença de Leonardo Boff abre outra pista para que se entenda essa distribuição de “créditos”, ou seja, a valorização de escritores: depende também do segmento para o qual escrevem. Astrid Lindgren é autora de livros para jovens, assim como Enyd Blyton, (conhecida como Mary Pollock – não localizei traduções aqui) que é a quarta mais traduzida no mundo. E quem for examinar a lista dos 50 Mais encontrará autores como Barbara Cartland e Danielle Steel, mas também Lênin, Marx, Tolstoi, Dostoievski. Enfim, para todos os gostos, e prato cheio para qualquer tipo de análise.

Assim, se determinados autores são centrais nessa desigualíssima distribuição de créditos da República Mundial das Letras, é sempre bom lembrar que as forças que condicionam essa presença não são facilmente domáveis, ou detectáveis.

OS FATORES DA PRESENÇA DE AUTORES QUE ESCREVEM EM PORTUGUÊS NO MERCADO INTERNACIONAL

Um dos fatores que contribuem de modo decisivo para que autores que escrevem em idiomas que disputam com o inglês a presença na República Mundial das Letras é, sem dúvida, a existência de políticas públicas consistentes de apoio à tradução e difusão desses autores.

Como melhorar a presença da literatura brasileira no exterior?

O questionário do Mapeamento Internacional da Literatura Brasileira fornece algumas indicações.

A primeira pergunta sobre o assunto questiona se escrever em português é, ou não, um obstáculo para a difusão da literatura brasileira no exterior.

As respostas são, definitivamente, inconclusivas:

As MESMAS justificativas foram usadas por quem, na pergunta anterior, havia respondido sim, não ou em termos.
Ou seja, havia uma grande coincidência nas justificativas, por exemplo:

– as traduções eram a solução;

– outros idiomas, particularmente o espanhol, eram mais divulgados.

Os mapeados, portanto, entendiam que o idioma português sofria de um certo tipo de “subalternidade”, ou “falta de reconhecimento” vis-à-vis outros idiomas.

Ou, como poderia dizer Pascale Casanova, o português tinha “menos valor” no capital literário internacional. Esse “valor menor” do idioma é certamente um dos fatores que dificultam a difusão internacional da literatura brasileira.

Entretanto, a principal razão apresentada, sobre a importância da tradução, é amplamente reiterada nas respostas a outra questão, que pergunta “Como difundir a literatura brasileira no exterior?

As duas principais respostas são bem diretas:

  • Apoio para a tradução (178 respostas);
  • Criação de um Instituto para difusão da literatura e da língua portuguesa (O modelo do Camões e dos demais é evidente): 108 respostas.

 

De fato, quando se observa o que outros países fazem para oferecer às respectivas literaturas uma oportunidade de entrar no mercado internacional, os programas de tradução assumem sempre um papel de importância. Os programas de apoio às traduções desenvolvidas por instituições como o Institut de France, o Goethe Institut, a Fundación Cervantes e outras têm suas ações focadas tanto no ensino do idioma como no apoio às traduções. Portugal, cujo tamanho e importância econômica no cenário internacional é menor que a do Brasil, mantém de forma globalizada o Instituto Camões, com programas de apoio à tradução, além de doutorados e cursos de português em todos os continentes, Portugal chega à sofisticação de apoiar a publicação de autores portugueses no Brasil, além de manter extensos programas de publicações nos países africanos.

Os países escandinavos, e mesmo a Grã-Bretanha e vários outros, possuem tais programas de apoio à tradução.

Recentemente os países escandinavos tomaram a resolução de incentivar explicitamente um nicho onde seus autores começaram a ter maior destaque, o da literatura policial. Não tiveram pudor de incentivar esse tipo de tradução, que foge de outras mais antigas, como os romances de Lars Gustaffson ou Selma Lagerlöff (esta ganhou o Nobel).

A grande exceção são os EUA, que agem integralmente a partir da enorme força comercial da sua indústria editorial, ainda que esta seja hoje, em grande medida, controlada por capitais alemães.

O Brasil tem, desde 1993, um Programa de Apoio à Tradução, dentro da Biblioteca Nacional. No decorrer desse período, já ajudou na tradução de cerca de 900 títulos, em diferentes países. Em 2013 a sistemática de análise e liberação dos apoios foi simplificada e agilizada, mas o programa sempre sofre com as variações orçamentárias.

O programa é bem conhecido por agentes literários, mas a sua percepção entre os mapeados é muito baixa, como mostram os gráficos a seguir:

Solicitou apoio para os programas de apoio à tradução da FBN?
Se não solicitou, por que razão?
Se solicitou, recebeu o apoio solicitado?

O segundo ponto destacado pelos mapeados é o da criação de uma instituição similar ao Instituto Camões, ou Instituto Cervantes.

Nesse caso, a situação é bem pior. O Departamento Cultural do Itamaraty não tem uma política proativa de promoção da cultura brasileira. O número de CEBs foi muito reduzido no governo FHC. Voltou a crescer nos mandatos do Lula, principalmente na África. Entretanto, o Itamaraty responde principalmente às demandas dos chefes de missão. Se o embaixador gosta de música, pede concertos; se gosta de artes plásticas, pede exposições; se gosta de literatura, empreende ações na área.

Há alguns anos, a APEX- Agência Brasileira de Exportação, estabeleceu um convênio com a CBL para um programa, “Brazilian Publishers”, com o objetivo de estimular a exportação de livros e direitos autorais de autores brasileiros. O programa tem tido sucesso no aumento da participação em feiras internacionais, e também tem convidado agentes literários para visitar alguns dos festivais e Bienais brasileiros (FLIP e Bienais de São Paulo e do Rio). É um esforço continuado que já obteve algum sucesso, e é importante a manutenção da presença em feiras e festivais internacionais, o que aliás é outra das demandas dos mapeados.

O que se constata, entretanto, são iniciativas descontinuadas e sem a necessária profundidade e ação sistemática.

Ao constatar o ponto de partida extremamente difícil para promover a divulgação de nossos autores no exterior, parece claro que seria necessário ter uma ação internacional de promoção cultural integrada, consistente e continuada. E isso não apenas em relação à literatura, claro.

O diagnóstico existe, os problemas são conhecidos. Tudo depende, portanto, da decisão de efetivamente desenvolver uma política cultural consistente e continuada de promoção da cultura e, em especial, da literatura brasileira no exterior. Os esforços que são feitos têm produzido resultados, mas são muito pequenos diante da magnitude do problema – e de suas consequências, inclusive para o reconhecimento internacional do país.

Dito seja, como ponto final, que o Departamento Cultural do Itamaraty nem respondeu ao convite feito para participar do X Encontro Internacional do Conexões Itaú Cultural.
São lacunas que, como vimos, se expressam em todos os níveis.


Este post foi produzido para o X Encontro do Conexões Itaú Cultural, que aconteceu nos dias 8 a 10 de novembro em S. Paulo, com modificações.

E FUI PARA O FLICRISTINA

Como anunciei semana passada, fui participar do II FLICRISTINA, o Festival Literário da pequena cidade do Sul de Minas, a convite dos irmãos Ninil e Ray Gonçalves, seus animadores e organizadores.

Cristina é uma dessas pequenas cidades do sul de Minas, produtora de cafés de qualidade e leite, com pouco mais de 10.000 habitantes (metade na zona urbana e metade nas zonas rurais). Está perto de Itajubá, Santa Rita do Sapucaí e Piranguinho, conhecida pelos doces. É alcançada pela Fernão Dias e depois por estradas menores. No caminho, desde grandes distritos industriais em Pouso Alegre e Santa Rita do Sapucaí, passando pelas fazendas que alternam rebanhos de gado nelore e fazendas de café. Bucólicas como sói acontecer pela região, com estátuas de S. Sebastião ao lado do sinal da loja maçônica na entrada de Pedralva, e localidades com nomes que só se vê… em Minas Gerais, como esse Bairro Despropósito.

São Sebastião ao lado do símbolo maçônico em Pedralva, a caminho de Cristina.
despropósito, bairro rural de Cristina.

A FLICRISTINA, em sua segunda edição, estava organizadíssima. Na praça central da cidade, uma tenda abrigando o espaço para as mesas e palestras (também foi usado o plenário da Câmara Municipal e um dos colégios públicos da rede municipal para oficinas), um palco para os espetáculos musicais, área de alimentação (destaque para um foodtruck de alunos da Engenharia de Itajubá, bem estocada de cervejas e outros líquidos calóricos e inebriantes, e também para a barraca da APAE local, com ótimo café coado e um livrinho de receitas jóia). Mais adiante, outra tenda abrigava a FLICRISTININHA, com atividades para crianças durante todos os dias. Os professores e professoras da rede foram convocados e levaram os alunos para atividades mesmo no feriado e na sexta-feira “enforcada”. Havia também uma mini-feira de livros, sobre a qual comentarei mais adiante.

Os convidados foram hospedados em pousadas da região e faziam as refeições em um restaurante perto da praça.

Isso foi possível graças ao apoio da Prefeitura, em especial da Secretaria de Educação, que reservou recursos para cobrir a maioria dos gastos. Nenhuma grande empresa, banco ou coisa parecida se dispôs a colocar alguns caraminguás no evento. Do comércio local, um cafeicultor, Sr. Sebastião Afonso da Silva, produtor de um café bicampeão mundial de qualidade de grãos. A Valcan, empresa local que comercializa produtos de proteção individual, foi outra  que ajudou o Festival.

Um cafeicultor premiado ajudou a fazer o Festival.
O apoio para a Flicristina foi totalmente local.

É importante destacar que, dessa maneira, a FLICRISTINA foi realizada por esforço próprio, mostrando a capacidade de organização e mobilização do Ninil e da Ray, que mobilizaram os recursos locais de uma pequena cidade para fazer um evento cultural importante para a comunidade e para toda a região. É um exemplo.

Quando cheguei em Cristina e dei meu primeiro passeio pelo centro da cidade, notei uma ausência quase completa de negros circulando. Depois perguntou a Ninil se não houve mineração ou grande lavouras na região. Ele respondeu que havia um bairro habitado principalmente por negros na periferia da cidade. Ninil já fazia um trabalho de aproximação, explicando a eles que o Festival era para todos. Disse que tem como missão atrair, cada vez mais, essa população a participar da FLICRISTINA. E mostrou um detalhe do Pavilhão tecido e preparado para o desfile de abertura. Ali, mais ou menos no meio, nos dois lados, um detalhe. “Os negros são conhecidos como pés de chinelo, e para mostrar que a FLICRISTINA é deles, colocamos os dois chinelinhos no Pavilhão”.

O Pavilhão da FLICRISTINA. Notem os chinelinhos.

A FEIRA DE LIVROS

A feirinha era modestíssima. Uma livraria de Itajubá e algumas barracas da infatigável infantaria do mercado editorial: os vendedores de porta-a-porta. Nenhuma rede, nenhuma das editoras do segmento trade.

O que eu questiono?

Existem centenas de feiras e festivais literários acontecendo durante o ano, em boa parte dos Estados. À exceção das badaladas, a oferta de livros nesses eventos é exclusivamente feita pelos vendedores de porta-a-porta. Não preciso que me repitam a litania que são eventos muito pequenos e que não compensa deslocar equipes de venda, montar estandes, etc. etc. etc. Já ouvi esse blá-blá-blá centena de vezes.

Fiz um filmete da feira, aqui.

Existem centenas de feiras e festivais literários acontecendo durante o ano, em boa parte dos Estados. À exceção das badaladas, a oferta de livros nesses eventos é exclusivamente feita pelos vendedores de porta-a-porta. Não preciso que me repitam a litania que são eventos muito pequenos e que não compensa deslocar equipes de venda, montar estandes, etc. etc. etc. Já ouvi esse blá-blá-blá centena de vezes.

Depois reclamam.

Vimos recentemente a Livraria da Editora da UNESP dar por encerrada a iniciativa (premiada!) do Caminhão Livraria. Nem vou especular se outras razões, além da litania habitual, pesaram na decisão da editora, que pertence a uma Fundação Universitária, a encerrar essa importante inciativa.

O fato é que o caminhão, já adaptado, deve estar estacionado em algum depósito entre S. Paulo e algum extremo do estado onde haja um campus da UNESP. Mas pergunto: por que razão entidades como a CBL, a ANL ou mesmo a LIBRE não se ORGANIZAM para colocar esse caminhão rodando pelas feiras do interior, de S. Paulo e do resto do Brasil? É falta de visão, incapacidade organizativa ou pura e simplesmente preguiça de pensar e inovar?

Quem quiser responder ou pensar a respeito que responda. Eu sou apenas uma pessoa que faz perguntas. E pergunto porque, em outra era, a CBL já promoveu, junto com a Imprensa Oficial, o Circuito Paulista de Feiras Literárias. Mudaram as duas administrações e o projeto naufragou. Mas as grandes bienais (onde a presença da ponta de estoque é cada vez mais significativa) continuam nos calendários.

Depois, todos reclamam do mito de que o brasileiro lê pouco e o resto do lamento. E meu comentário será sempre: quem não tem imaginação e competência para desenvolver mercados fora dos grandes centros que sente na margem de um Rio Piedra qualquer e chore as pitangas.

livraria mais próximas está em São Lourenço, mais de meia hora de carro de Cristina.

A BIBLIOTECA

Cristina tem uma biblioteca municipal, que homenageia um ilustre filho da terra, D. Marcos Barbosa, monge beneditino, escritor, poeta e tradutor (O Pequeno Príncipe, O Menino do Dedo Verde, e obras de Paul Claudel e François Mauriac). A biblioteca, entretanto, não faz jus ao homenageado.

Estava fechada havia muito tempo, servindo inclusive de depósito de materiais (o que não deixa de ser uma promoção utilitária diante do fato de muitas serem simples depósito de livros…). Foi reaberta e recondicionada por ocasião da I FLICRISTINA. A Secretaria de Educação do município comprou recentemente obras de Carlos Drummond de Andrade, que este ano foi o patrono do festival. No entanto, o acervo é pobre e defasado. Apesar de ter alguns computadores enviados pelo MinC há anos, não tem o acervo informatizado, e as condições de uso são precárias. Minha intervenção na FLICRISTINA abordou esse assunto, com o Secretário de Educação presente.

Esperamos que D. Marcos Barbosa mexa os pauzinhos junto ao Espírito Santo para a graça de colocar a biblioteca com seu nome à altura de sua missão e do homenageado. Sim, porque diante da tragédia que são as bibliotecas públicas brasileiras, até um ateu convicto e militante como eu pede ajuda a qualquer santo disponível.

Mexa-se, D. Marcos Barbosa, que sua cidade precisa.

Enquanto isso, note-se que a determinação do Ninil e da Ray pelo menos fez reviver a pequena e insuficiente biblioteca municipal.

UMA EXPERIÊNCIA DE PROMOÇÃO DA LEITURA

Alunos de escola pública de Cristina e a professora. A camiseta foi feita especialmente para o festival.

Contrastando com a inércia da biblioteca municipal, encontrei no sistema de educação de Cristina experiências muito interessantes de promoção da leitura entre as crianças.

Quando ia para a E.M. Carneiro de Rezende, onde eram feitas as oficinas programadas pelo Festival, encontrei a Coordenadora da área de Educação Infantil, prof. Luciana dos Santos, que me informou o rumo, e aproveitou para me dar um exemplar do que é o resultado do programa Diciolhares, desenvolvido pela coordenação, com ajuda de todas as professoras da rede. É uma espécie de dicionário analógico inspirada no que faz o autor colombiano Javier Naranjo, publicado no Brasil como “Casa das Estrelas”, pela Foz. As crianças, mobilizadas, ainda não alfabetizadas, falam para as professoras sua definição das palavras. Vejam amostras.

Segui até a E.M. Carneiro de Rezende, procurei a diretora, Elizabeth Cardoso e, com ela, pedi para ver a biblioteca escolar e a encarregada.

A professora Beatriz Barbosa, da biblioteca, nos recebeu em uma sala ampla, iluminada… e com poucos livros.

“Ano passado, uma enchente excepcional inundou a sala e destruiu todos os livros que tínhamos aqui”, explicou. Depois acrescentou que a escola vem fazendo, por iniciativa da diretora, festas para conseguir dinheiro e comprar novos livros. “Pedir doações só faz que as pessoas tragam o lixo de casa para a biblioteca”. Concordo, desde sempre.

A história da atuação da profa. Beatriz começa do modo mais comum a quem se vê encarregada da biblioteca. Depois de uma enfermidade grave, não podia mais exercer a regência de classes. Aposentou-se da Secretaria Estadual de Educação (onde havia trabalhado também, há anos, no programa Cantinho da leitura) e, na Carneiro de Rezende, começou ajudando na administração da escola. Depois foi designada para a biblioteca.

No primeiro ano ficou no papel tradicional, esperando que os alunos a procurassem para ajuda nas pesquisas e no uso da biblioteca. “Mas a Beatriz não é de ficar parada e logo mudou isso”, informou a diretora.

De fato, a professora Beatriz passou a organizar um programa dinâmico de incentivo à leitura no horário em que cada turma devia ir à biblioteca. Sim, na Carneiro Rezende agora tem “aula de biblioteca”, substituindo a passividade anterior. Começa com leituras sobre a dengue e outras epidemias. “Era um problema muito grave na região. Agora está melhor, mas conseguimos material de leitura, e os alunos são excelentes multiplicadores”. Depois são organizados ciclos de leitura fora da escola. “Café com Letras” faz leituras na casa dos alunos cujas famílias se dispõem a recebê-los para um lanche. “Gosto muito de trabalhar com contação de histórias, mas não sei contar. As mães sim, contam casos da família, leem com os meninos, é muito produtivo”. Há programas de “Leitura na Cachoeira”, já que Cristina tem uma bela queda d’água praticamente dentro da cidade. “A ideia é mostrar para as crianças que leitura não é coisa apenas de dentro da escola, pode e deve ser feita em qualquer lugar”.

Na FLICRISTINA do ano passado, durante uma das atividades na praça, uma criança circulou ressabiada e foi abordada por ela. Não estava matriculada, mas passou a integrar as atividades da biblioteca.

Perguntei se essas ações eram estendidas às outras unidades do município. Tanto Beatriz como a Beth informaram que a rede municipal é bem extensa (Cristina é o município de maior extensão da região), com escolas rurais e urbanas. Mas essas atividades, quando existem, são de iniciativas de cada escola.

Como a FLICRISTINA tratou da obra do Drummond, todo o colégio fez atividades relacionadas com a obra do itabirano. Desenhos, colagens, montagens, até guaches recortados e transformados em quebra-cabeças. Eles se divertiram muito reinterpretando os poemas. Achei particularmente divertido o desenho de uma garota por conta do “Tinha uma pedra no meio do caminho”. A garotinha se retratou… dando uma topada na bendita pedra.

A aluna não apenas encontrou a pedra no meio do caminho. Deu uma topada no verso dummondiano
Drummond entre os canteiros de flores da escola.

Na minha palestra, fui direto. Experiências como essas podem e devem ser generalizadas pelas escolas do sistema. Na infinidade de propostas de incentivo à leitura que existem por aí, cada uma dela tem defensores ferrenhos. Como não sou especialista nisso, sempre digo que a pedra de toque é avaliar as experiências bem-sucedidas e generalizá-las.

O Secretário de Educação estava lá.

Quem sabe D. Marcos Barbosa dá uma cutucada nele para avançar mais ainda nas boas coisas que faz?

FLICRISTINA

Em resumo, foram dois dias de uma experiência muito gratificante. Nem vou falar aqui das mesas que assisti, dos espetáculos musicais apresentados. Aprendi coisas, conheci excelentes pessoas e revi amigos. Não há mais espaço.

O importante a destacar é que experiências como a de CRISTINA estão se multiplicando. Todas as semanas ficamos sabendo de alguma iniciativa. Desde 2013, quando Galeno Amorin, na BN, abriu um edital cadastrando feiras de livros e festivais como essas para concorrer a uma modesta contribuição com fundos do FNC, e mostrou que já havia centenas de atividades semelhantes espalhadas pelo Brasil, podemos especular que algumas dessas devem ter se encerrado. Mas muitas outras vêm surgindo e as substituindo.

É uma esperança.

 

 

FLICRISTINA, FESTIVAL DE LITERATURA NO SUL DE MINAS

O Estandarte da FLICRISTINA

Na gestão do Galeno Amorim na Biblioteca Nacional, foi feito um levantamento de quantas feiras e festivais literários existiam no país, de modo a dimensionar o programa de apoio a essas iniciativas, com recursos do Fundo Nacional de Cultura. Galeno deixou a presidência da BN em 2013, mas até 2014 foi lançado o edital convocando inscrições para o problema.

Tudo isso, desde então, foi desaparecendo, e se esvai na fumaça do tempo.

Infelizmente perdi a tabela com os dados levantados. Mas lembro que estavam na casa das centenas, espalhados por todo o Brasil, com o maior número delas no Rio Grande do Sul.
Felizmente, entretanto, apesar desse descaso para com essas importantíssimas atividades de apoio ao livro e à leitura, as pequenas feiras e festivais continuam florescendo no que é o Brasil (enquanto o Bananão assume tantos outros aspectos desse antigo país). Não apenas as grandes manifestações, como a FLIP, mas também as pequenas e médias. Infelizmente, algumas terminaram, como o Festival da Mantiqueira, exterminado pela própria entidade que o criou, a Secretaria de Estado da Cultura de S. Paulo.

A FLICRISTINA é uma dessas que nasceu e continua depois da extinção desse programa. Começa na noite desta quarta-feira e prossegue até domingo.

Sexta-feira à tarde estarei lá, conversando com o público sobre Leitura e Mercado Editorial. É um tema recorrente no que escrevo: a importância dos autores do mercado editorial (editores, distribuidores, vendedores do porta-a-porta e livreiros) na difusão do hábito da leitura em nosso país. A programação da FLICRISTINA está aqui:

Ninil Gonçalves, promove o Festival junto com sua irmã Rai Gonçalves. Ninil é fotógrafo, e eu e a maria José Silveira o conhecemos quando ele veio fotografá-la para um projeto que desenvolve, de retratar os autores em seu ambiente de trabalho. Produziu um livro sobre Cristina, sua cidade natal.

Sua irmã, Rai Gonçalves, tem uma cafeteria na cidade, e é uma batalhadora pelo fortalecimento da vida cultural em Cristina. A cidade está no Sul de Minas, na área que abrange Itajubá, Delfim Moreira, Santa Rita do Sapucaí e outras. É uma região produtora de cafés finos, alguns dos quais já foram classificados como entre os melhores do mundo.

A história da iniciativa de Ninil e Rai é contada pelo próprio Ninil, no texto abaixo:

“Pequena História da Flicristina
A Flicristina foi idealizada há 3 anos atrás pelos irmãos Ninil Gonçalves e Rai Gonçalves numa conversa sobre a falta de opção em Cristina para aqueles que gostam de literatura e precisam de um espaço para desenvolver tais diálogos. A ideia inicial era fazer algo como um pequeno “café com Letras” ou Café filosófico” na cafeteria que a Rai tinha acabado de abrir na praça Santo Antonio e num sábado fazer alguns diálogos com professores universitários que conhecemos. Essa necessidade também se deu por motivos relacionados ao passado. Somos de uma família de avós e pais trabalhadores rurais e todos analfabetos. Nunca tivemos livros em casa. Rompemos com o analfabetismo e começamos a encher a casa de livros. Hoje todos os irmãos são professores e essa relação com a Educação nos conduziu a rever essas questões do passado e tentar fazer algo que levasse a literatura a muitos que não têm contato com ela e a Educação se tornou a bandeira da feira. Não tínhamos ideia que aquele pequenino “café com letras” se tornaria uma feira. Talvez a forma artesanal e o projeto sem fins lucrativos tenham conquistado alguns corações que nos apoiaram. Essa parceria e o trabalho coletivo é que dá sentido à feira, tudo isso voltado para formação de leitores e disseminação da literatura como ferramenta transformadora do mundo, pelo menos ao redor de nós, se possível. A Flicristina continuará com essa intencionalidade de ter a Educação como carro-chefe da feira e também na divulgação de trabalhos de autores da região e obviamente trazer os grandes autores para legitimar a grandiosidade transformadora da literatura. A secretaria de Educação da gestão anterior apoiou e possibilitou o crescimento da Flicristina. O mesmo aconteceu com a secretaria de Educação atual, que não poupou esforços para que a feira se tornasse ainda melhor. A secretaria conseguiu reunir as professoras e todos os alunos da cidade para participarem da feira, inclusive da zona rural. Isso traz uma felicidade imensa aos organizadores porque esse é o espírito da feira: levar a literatura a todos. A prefeitura da cidade está nos apoiando de todas as formas possíveis. Essa participação do poder público mostra o quanto a gestão atual é responsável em relação à Educação e isso nos anima a ter um empenho ainda mais intenso. Realmente não é fácil organizar uma feira literária, pois os problemas são 10 vezes maiores que as soluções, mas criamos isso e somos responsáveis pelo que ela tem a oferecer a todos. Estamos empenhados em fazer o melhor para todos os participantes e visitantes. Pedimos desculpas por qualquer deslize ou erro. Os organizadores agradecem de coração a todos os envolvidos, direta e indiretamente na luta, que é de todos e para todos”.

Vou para Cristina e para a FLICRISTINA.

Aproveite o feriadão e vá também!

O “censo” do Livro Digital

Cortesia da Simplíssimo

A divulgação do “Censo do Livro Digital”, pesquisa feita pela FIPE, sob encomenda da CBL e do SNEL, suscitou muitas reações, como previsível. Algumas bastante irritadas pela ausência do que, evidentemente, são dois componentes importantíssimos desse mercado: os dados da Amazon e os dos chamados autores auto publicados. Estes, por sua vez, em parte abrigados na própria Amazon, através do programa KDP; outros, por conta própria ou através de agregadoras, que publicam tanto livros impressos quanto e-books, seja por encomenda, seja com a contribuição de autores.
Os dados da Amazon relativos às editoras tradicionais não são tão importantes, já que, em princípio, estas informaram o quanto venderam por este canal, assim como pelas outras empresas que vendem livros eletrônicos – Kobo, Google, Apple iTunes, Saraiva, Cultura, etc.

Essa pesquisa, tal como a de produção e vendas do mercado editorial, não se propõe a verificar o total das vendas no varejo.

Explico. Na produção e vendas de livros impressos, as editoras informam o quando produziram e venderam naquele ano determinado. Ora, o varejo trabalha também com estoques de livros produzidos em outros anos e já comprados (supõe-se que as vendas de reposições no ano sejam informadas pelas editoras). Nesse sentido, o livro digital leva uma vantagem de precisão, já que não existe estoque. Os varejistas faturam e pagam apenas os livros vendidos. O problema óbvio é que a Amazon, dominante nesse mercado, não fornece nenhum dado.

Isso mostra um problema constante a quem analisa dados de pesquisa. É preciso ter clareza sobre o que está sendo perguntado e respondido. Se a pesquisa for tecnicamente bem-feita, ela responderá (por amostragem) aquilo que foi perguntado. NUNCA é um retrato total do objeto pesquisado.

Analogamente, as pesquisas do tipo das feitas pela Nielsen e pela GfK, que detalham a movimentação dos pontos de venda, revelam um determinado tipo de realidade do varejo, e não outras. Não respondem, por exemplo, pelas vendas feitas diretamente pelas editoras aos governos e outras instituições do gênero (por exemplo, as compras de livros infantis eventualmente feitas pelo Itaú e por outros programas similares, ou pelas escolas, etc.). E estão restritas aos varejistas que aceitaram pagar pela implantação do software da Nielsen ou da GfK em seus pontos de venda.

Desse modo, temos que considerar, em primeiro lugar, o que foi perguntado e a quem.

O tal censo (que não é censo, exatamente porque não abarca todo o universo, e a palavra só é usada, pela FIPE e por seus financiadores, como um instrumento de mercado, para sugerir uma abrangência e precisão que simplesmente não existe), perguntou, a uma amostra, selecionada com critérios especificados (mas não divulgados na apresentação), quantos e-books foram vendidos e qual o faturamento obtido por isso.

A GfK, empresa alemã que faz um trabalho de pesquisa no varejo basicamente semelhante ao da Nielsen, inclusive o Nielsen BookScan (tanto uma como outra pesquisam vários tipos de produtos), publicou em março passado um survey, feito online, em dezessete países, sobre a frequência de leitura online de livros. Na descrição (em inglês), dos objetivos do levantamento, a GfK declara: “A GfK entrevistou, no verão de 2016 [no hemisfério norte, suponho], mais de 22.000 consumidores com idade igual ou superior a 15 anos, online, em 17 países. Os dados foram ponderados para refletir a composição demográfica da população online em cada mercado”.

Ou seja, a descrição expõe as condicionantes: idade igual ou superior a 15 anos dos pesquisados, ponderados para refletir a população online de cada mercado. Vejam bem, não se tratava da população total de cada país, e sim da chamada “população online”, o que supõe outra pesquisa (não divulgada no mesmo local), que mostraria o percentual da população total que a GfK considera como online.

E a pesquisa (que não vou comentar aqui em detalhes) mostra exatamente isso. Quem quiser vê-la pode acessar aqui .

Só para informação, a pesquisa mostra que 26% da população online brasileira lê e-books todos os dias. Mais 27% lê pelo menos uma vez por semana e apenas 6% nunca lê.

Evidentemente, esses dados, que parecem muito promissores, dependem de que se conheça qual é essa população online e mostram tão somente a frequência de leitura. Não indicam quantos títulos são lidos e muito menos a origem do que é lido (comprados, emprestados, pirateados, clubes de assinatura, etc.), o valor de mercado que isso representa, nem que tipos de livros são lidos.

Vejamos como foi feita a pesquisa FIPE-CBL/SNEL.

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ABRALIC, A UNIVERSIDADE EM PERIGO E A LITERATURA BRASILEIRA

Semana passada estive no Rio de Janeiro participando da XV Reunião da ABRALIC – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LITERATURA COMPARADA, que aconteceu no campus da UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Mesa sobre as dificuldades da difusão da literatura brasileira na ABRALIC – 2017 (#UERJ resiste)

Foi um encontro admirável. A UERJ é o alvo, a ponta de lança da tentativa de desmonte da universidade pública brasileira, empreendida pelos usurpadores que perpetraram o golpe de estado parlamentar-judiciário que nos atinge hoje. É a primeira vítima, por conta da calamitosa situação do estado do Rio de Janeiro, unidade da Federação que foi amplamente beneficiada por investimentos públicos e privados nos últimos anos: a indústria naval renascida (e agora destruída, passando de 80.000 trabalhadores para menos de 20.000); os investimentos urbanos em função da Copa do Mundo e das Olimpíadas, o transporte urbano, entre outros. O funcionalismo do Rio de Janeiro está há meses sem receber os salários, exceção, é claro, das forças de segurança, reconhecidamente mal treinadas e estupidamente brutais daquele estado, mas que garantem o mínimo de proteção para o governo, e que contam agora, com o emprego a contragosto de um contingente de forças federais. A UERJ está sem contrato de manutenção, limpeza e segurança há quase um ano, e professores e funcionários estão com os salários atrasados há quatro meses, além de não terem recebido o 13º salário.

Diante dessa situação, o esforço que esses professores e funcionários, com a participação dos alunos (quase duzentos monitores voluntários) fizeram para organizar e executar um evento de grande porte, com convidados nacionais e estrangeiros foi simplesmente monumental. A UERJ resiste ao descalabro, a duras penas e com grandes sacrifícios.

ABRALIC, como já disse, é a associação que reúne professores e especialistas em literatura comparada. E é isso que a faz importante para a nossa literatura e, por extensão, ao mercado editorial. A mesa da qual fiz parte tratava, precisamente, das dificuldades de expansão internacional da literatura brasileira.

Comparar os diferentes aspectos da literatura significa, precisamente, entender as relações do que os nossos escritores produzem vis-à-vis o que é produzido nesse grande concerto que é a República Mundial das Letras. Como nossa literatura se confronta e contribui para esse diálogo civilizatório – essencial para o entendimento entre os povos – que se expressa através da produção literária.

A difusão da literatura brasileira no exterior enfrenta enormes dificuldades. E isso tem a ver com a nossa indústria editorial.

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AMAZON CHARTS – UMA LISTA COM NOVO FORMATO

A loja dos EUA da Amazon lançou, nesta semana, uma lista dos “mais vendidos e mais lidos”, que será renovada semanalmente.

O lançamento foi geralmente bem recebido pelos editores (os livreiros, ao que eu saiba, não se manifestaram até o momento em que escrevia este post).

No dia em que a notícia foi divulgada (18 de maio) perguntei à Amazon.br se a iniciativa também seria adotada pela loja brasileira. A resposta foi não, como também não havia previsão disso acontecer aqui.

Listas de “mais vendidos” (nunca vi uma lista de “mais lidos” antes) são uma presença constante nos jornais, e uma disputa permanente nas editoras para aparecer nelas. Não é à toa. Aparecer em uma das listas aumenta imediatamente a procura dos livros nos pontos de venda. Os leitores de cada meio (como detesto vários desses meios, não dou o nome de nenhum) se guiam pelo que essas listas revelam. E, como qualquer um pode verificar, as listas nem sempre são coincidentes entre si, em todos os títulos.

A resposta para essa questão é decorrente do método como é elaborada cada lista.

Lá pelos anos setenta e oitenta, quando essa onda se espalhou por aqui, a mídia perguntava quais eram os mais vendidos a um número de livrarias selecionadas por ela mesma, geralmente concentradas no eixo Rio-São Paulo (com ênfase maior na cidade onde se situava o jornal ou revista), e as livrarias mandavam suas respostas.

A janela de manipulação era óbvia, não tardou muito a ser descoberta, e a mídia procurou meios de verificar isso com métodos de pesquisa na porta das lojas. Não havia nenhuma estatística metódica nisso tudo, e assim foram aparecendo listas para todos os gostos. O grande questionamento vinha exatamente da opacidade da formação dessas listas, sem critérios específicos para determinar quais lojas forneceriam a informação. Hoje, vários jornais e revistas deixaram de publicar qualquer lista.

Em alguns países, a informação é dada pelas editoras, diretamente. Aí a questão é de outra ordem. “Vendas” de editoras às livrarias e distribuidoras não significa que os livros terminem vendidos ao público. Em alguns casos (como o brasileiro), muitas saídas das editoras são em consignação. Em outros, como os EUA, praticamente todas as vendas são com direito a devolução, e há muito essa é uma preocupação do mercado editorial, pois há casos que os retornos são altos demais. A tentativa de remediar isso, às vezes, é fazer uma checagem com outras fontes, como as próprias livrarias e o BookScan ou o sistema similar que a GfK tem em outros países.

Quando a PublishNews começou a elaborar sua lista, aperfeiçoou o mecanismo de pesquisa, ainda com consulta às livrarias, embora ampliando.  A metodologia explicitada está aqui. Mais tarde, passaram a elaborar, desta vez junto com a Nielsen, Lista Nielsen PublishNews que apura só os autores nacionais.

Existe também listas e informações compiladas através da Nielsen BookScan, um mecanismo que registra a venda de cada exemplar na caixa do varejista. Isso foi explicitado desde o começo. O problema central dessa lista é o fato do BookScan não cobrir as livrarias independentes, o que vale também para as análises de exemplares vendidos e faturamento que são mensalmente divulgados em parceria com o SNEL. Entretanto, na questão “transparência”, a Nielsen BookScan não informa que livrarias ou redes estão fornecendo os dados.  Informação posterior da Nielsen à PublishNews diz que são coletados dados dos seguintes varejistas: Livraria Cultura, Livrarias Curitiba, Livraria Leitura, Saraiva, FNAC, Shoptime, Americanas, Cia dos Livros, Amazon, Submarino, Livraria da Vila, Nobel, Disal, CNova, Escariz, Grupo Pão de Açúcar, Walmart, Coop, Big, Supermercados Imperatriz, Nacional, Carrefour, Extrabom, Mercadorama, Angeloni e Bom Preço.

O argumento usado é que as livrarias (cadeias, supermercados e grandes varejistas online, exceto a própria Amazon) que usam o BookScan cobrem a maioria do mercado. É verdade. Mas o que deixa de fora é o registro da bibliodiversidade da produção editorial, que se concentra principalmente nas pequenas e médias editoras. Isso pode não prejudicar uma apreciação dos “mais vendidos”, mas não deixa de ser um buraco negro de interrogações.

O importante, sempre, é saber qual o escopo abrangido por listas, pesquisas, etc.

Dito isso, voltemos à Amazon Chart.

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MEC IRÁ MODIFICAR O PNBE – PARA PIOR

Notícia desta quarta-feira 10 de maio no PublishNews anuncia que o MEC, através do FNDE, estuda a retomada do Programa de Biblioteca nas Escolas, mas com modificações.

Segundo a notícia, o FNDE constatou a subutilização de livros nas salas de aula, e irá propor modificações para enviar livros diretamente aos alunos – tal como no PNBE – e “que as compras estariam alinhadas aos conteúdos da BNCC”.

Ora, se os livros estão subutilizados, cabe ao MEC desenvolver, ou estimular, programas de formação de professores para seu uso. Induzir os municípios a cumprir a legislação (quase uma declaração de boa vontade, por não prever punição para o prefeito que não a cumpre) que diz que deve haver biblioteca em todas as escolas do país.

Mas não, em vez de atacar o problema, prefere-se a máscara da “adequação” e da distribuição dos livros para cada aluno, estimulando o individualismo e a não discussão coletiva dos conteúdos, vivacidade indispensável para que a leitura se arraigue na vida das crianças e jovens. O que é hábito solitário não é a leitura, e sim outra coisa, que os meninos e meninas aprendem nos banheiros das escolas.

O formato anterior tinha vários problemas, é certo. Mas, ao que parece, o que irá ser adotado ainda é pior.

O formato anterior, embora fosse mais amplo, estava ainda longe de constituir um programa de acervos para as bibliotecas escolares. Ao contrário do PNLD, que apresentava livros avaliados para serem escolhidos pelos professores, as coleções eram formadas por comissões nomeadas pelo MEC. Já cansei de dizer que – independentemente da qualidade profissional e honestidade pessoal dos membros das comissões – a simples existência delas confere um poder desproporcional, antidemocrático e autoritário a essas pessoas. Esse grupo – sempre pequeno – decide o que é ”bom” e o que é “ruim” para ler, castrando professores e alunos.

O que já tinha seus problemas, repito, independentes da qualidade dos membros das comissões, pode ficar muito pior.

A proposta parece se encaminhar para a escolha dos tais livros alinhados à base curricular. O que parece bom, na cabeça dos tecnocratas de plantão, é, repito, simplesmente castrador. Onde fica o estímulo à descoberta? O incentivo à crítica, que deve ser desenvolvido desde as primeiras letras?

Essa história tem muito mais a ver com as propostas de “Escola sem Partido”, a famosa proposta do Frota, Holliday et caterva, do que com o estabelecimento de um programa de biblioteca nas escolas.

O melhor modelo que já vi, e faz vários anos, quando eu ainda trabalhava na CBL, foi o de um programa chileno. O ministério da educação de lá elaborou um vasto catálogo, que era ampliado a cada ano, com resenhas e indicações de livros, por idade, por tema, etc. Alunos e professores, juntos, escolhiam os livros dentro de uma cota financeira destinada a cada escola.

E os livros iam para a biblioteca.

Essa nova proposta ressuscita uma ideia do Paulo Renato. Para quem não se lembra, a primeira experiência foi uma “Biblioteca para os Professores”. Uma comissão de notáveis escolheu obras como “O Uraguai” do Basílio da Gama e as obras completas do Padre Vieira (vinte e tantos volumes), além, é claro de livros dos próprios sábios, para enviá-los aos professores de cinquenta mil escolas. Uma farsa.

Depois, com as primeiras edições da Biblioteca Escolar, foram selecionados livros, que eram reimpressos fora de seu formato original, uns livros em p&B de formato reduzido, que eram entregues diretamente aos alunos, com o pretexto que “estimulariam” a leitura das famílias. Livros feios, deturpados em suas ilustrações e formatos, que até hoje podem ser encontrados aos montes nas bancas/sebos do centro das cidades. Essa ideia “brilhante” foi repetida mais uma vez pelo Paulo Renato e, pior ainda, copiada pelo Cristovam Buarque. Na minha opinião, só isso seria um bom pretexto para sua defenestração, com uma administração que era mera continuidade do Paulo Renato.

Agora aparece essa pérola, bem ao gosto dos “gestores” modernosos. Como o atual alcaide de S. Paulo, que elimina bibliotecas, brinquedotecas e salas de leitura para entochar mais alunos nas escolas já superlotadas.

As bibliotecas, se não forem os locais da diversidade, do estímulo à curiosidade e ao espírito crítico simplesmente não são bibliotecas. São maquininhas de censura e castração.

É certo que acervos para bibliotecas escolares devem ser avaliados, mas com critérios bem definidos: adequação de cada livro para cada faixa etária; eliminação de textos que contenham preconceitos e erros factuais (o que é difícil de definir em termos de ficção, mas as bibliotecas incluem também o material de apoio). E os livros devem ficar nas bibliotecas, ou nas salas, com livre acesso pelos alunos. Distribuir livros para levar para casa, na minha opinião, é mera demagogia. O local público, com acesso a todos, é a biblioteca, e é nela que se estimula a bibliodiversidade.

A propósito, vale citar um trecho do artigo do Sérgio Augusto sobre o Fahrenheit 451, do Ray Bradbury, na abertura da revista Quatro Cinco Um:

“A uma reedição de Fahrenheit 451, lançada em 1979, Bradbury, ainda mordido com a retirada de palavras como “diabos” e “infernos” de uma versão juvenil encomendada pela Ballantine Books, acrescentou comentários sobre a censura, a intolerância e a secular perseguição aos livros. ‘Há mais de um jeito de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas com caixas de fósforos por aí’, lastimou, enumerando uma dúzia de minorias que se achavam no direito, ou dever, de dosar o querosene e acender o fogo.”

Agora o MEC quer queimar de vez as bibliotecas nas escolas.

A HISTÓRIA DA AIA – ILUSTRAÇÕE DE ANNA E ELENA BALBUSSO PARA A EDIÇÃO DA FOLIO

Anna e Elena Balbusso, ilustradoras

A História da Aia, da escritora canadense Margaret Atwood, voltou às listas dos best-sellers nos EUA (aqui a Rocco não fez nada para promover o livro), em grande medida pela sociedade machista e retrógada retratada no romance, que lembra muito a retórica da extrema direita que chega ao poder lá, com a eleição de Donald Trump.

Além da edição da Houghton Mifflin Harcourt, existe também uma edição especial da Folio (US$ 74), ilustrada pelas irmãs Anna e Elena Balbusso, italianas com grande reputação na área.
O portal Publishing Perspectives publicou, em duas partes, entrevista com as duas irmãs (em inglês). Nos dois posts também reproduzem as ilustrações dessa edição.

A entrevista das irmãs está aqui  e aqui.

Comentei o primeiro post sugerindo que fizessem uma edição autônoma das ilustrações. Como as ilustrações estão lá, tomei a liberdade de copiar todas e reproduzi-las aqui, enquanto a edição não vem. A edição da Folio é muito cara (setenta e quatro dólares, só impressa).

Agora, a capa e as ilustrações da edição da Folio.

Capa

Detalhe da ilustração 1
Detalhe da ilustração 6

O filme de 1990, que não é excepcional, mas é bom. Dirigida por Volker Schlöndorf, roteiro da Margaret Atwood e Harold Pinter, com Natasha Richardson, Faye Dunaway, Robert Duvall.
Consegui baixar o filme, mas a MFM bloqueou a exibição pelo YouTube. Lamento.