Todos os posts de Felipe Lindoso

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, Diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil Pode Ser um País de Leitores? Política para a Cultura, Política para o Livro, pela Summus Editorial.

Laura passou no vestibular para a UnB.

PM e Exército Invadem a UnB em 1968
PM e Exército Invadem a UnB em 1968

Este blog é sobre o mercado editorial.

Mas hoje, no primeiro post do ano, trago a notícia de que minha neta, Laura Fraiz-Grijalba Lindoso, passou no vestibular para a Faculdade de Artes da UnB. Universidade que faz parte também da minha história.

Eu e Maria José estudamos lá e lá nos conhecemos. Ainda estudantes, já trabalhávamos como jornalistas, ela na sucursal do JB, sob a batuta do Castellinho, e eu na sucursal do Estadão, dirigida então pelo Evandro Carlos de Andrade. Ela se formou em comunicação e eu tive a honra de estar na primeira leva de alunos expulsos das universidades federais pelo famigerado decreto 477 – outro que vai na conta dos “escrúpulos ao lixo” do Jarbas Passarinho.

Estávamos na UnB em um período em que, embora já abalada pelas intervenções da ditadura, a universidade ainda refletia muito do espírito do Darcy Ribeiro. Em 68 estávamos lá, nesse que foi o período mais criativo e ativo da história moderna brasileira. Participamos da efervescência do movimento estudantil – a porrada do cassetete da PM na invasão do campus em 68 ainda dói até hoje. E nos divertimos, namoramos, cantamos e vivemos com muita intensidade.

O ambiente daquela Brasília e daquela UnB estão retratados de forma emocionante no primeiro capítulo de “O Fantasma de Luís Buñuel”, da Maria José.

Da nova geração, a Galiana foi a primeira a passar por lá, fazendo o mestrado em ecologia (e como ficamos orgulhosos com sua aprovação com louvor). Depois meus sobrinhos Alex(que estudou filosofia, mas eu nem sei que filosofia ensinam hoje na UnB) e Maria Cris, que agita o Centro Acadêmico de Direito, aporrinhando os sabichões que ostentam o títulos de professores da UnB e não aparecem para dar aulas ou chegam sistematicamente atrasados. Na boa tradição dos tios. Outros sobrinhos também passaram por lá: Ana Amélia na psicologia, e Serginho experimentou fazer economia (como o pai) e desistiu. Acabou fazendo direito.

Agora a Laura. Quarenta e tantos anos depois daquela época maravilhosa, depois da nossa militância, da prisão, do exílio e da volta e da vida.

Espero que ela encontre a participe da retomada da UnB como um foco de diálogo, de pensamento crítico e criativo.
E viva seu período na UnB tão bem quanto nós vivemos.

Livros contra a ditadura

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O ano de 2013 foi especialmente movimentado quanto à discussão da repressão política no período da ditadura civil-militar instaurada em 1964. O golpe que derrubou Jango, em 1964, ano que vem completará cinquenta anos, e passou por uma nova etapa de estudos e crítica. Foram instauradas Comissões da Verdade – não apenas a de âmbito nacional, como também em vários estados e mesmo em municípios, como é o caso de São Paulo.

A tortura, os assassinatos e desaparecimentos, a Operação Condor, que uniu as ditaduras do Cone Sul nas atividades de repressão, voltaram ao noticiário, às análises e à descoberta de novos documentos e articulações. Mesmo quando a ação da justiça tarde (e falhe), vimos jovens “esculachando” torturadores e outros agentes da repressão.

Houve também a publicação de estudos e análises de aspectos específicos da resistência à ditadura. No final do ano foi lançado o “Livros Contra a Ditadura. Editoras e Oposição no Brasil – 1974-1984”, escritor por Flamarion Maués e publicado pela Publisher.

Pelo tema, merece esta coluna de final de ano. Flamarion Maués é doutor e mestre em História pela USP e foi coordenador da Editora da Fundação Perseu Abramo por onze anos. Une, portanto, a formação acadêmica com a mão na massa da condução de uma editora eminentemente política (a Perseu Abramo é a Fundação de estudos do PT).

Cada vez mais se conhece hoje os múltiplos aspectos da luta contra a ditadura. As organizações que se empenharam na resistência armada, os movimentos de massa que foram surgindo e se estruturando em bairros e favelas, o movimento sindical e a resistência civil encarnada na frente política que foi o MDB/PMDB.

Maués estuda outra faceta dessa resistência, expressada por algumas dezenas de editoras, em sua maioria micro ou pequenas empresas, que ele caracteriza como “editoras de oposição”. Além de editoras já conhecidas e de maior porte que estiveram desde o início contra a ditadura, como é particularmente o caso da Civilização Brasileira sob a direção do Ênio Silveira, além da Brasiliense, da Vozes e da Paz e Terra (essa fundada nos primeiros anos depois do golpe), a partir do início da “distensão” do governo Geisel surgiram algumas dezenas de editoras de caráter eminentemente político, que representavam iniciativas de oposição.

“O que caracterizava o conjunto das editoras de oposição era seu perfil e sua linha editorial claramente oposicionistas, sem que isso implicasse que essas empresas tivessem necessariamente vinculados a políticas explícitas. O fundamental é que elas deram expressão a iniciativas de oposição. E houve e casos, inclusive, de editoras de oposição surgidas nos anos 1970 e 1980 que foram criadas por partidos e grupos políticos, alguns deles na clandestinidade e na semiclandestinidade”. A essas Maués caracteriza como um subcampo de editoras “engajadas” dentro do conjunto maior das editoras de oposição.

Flamarion Maués divide o livro em duas partes bem distintas. A primeira é de caráter mais geral e procura mostrar a situação em seu conjunto. A segunda parte estuda três casos específicos, o das editoras Ciências Humanas, Kairós Livraria e Editora, e a Editora Brasil Debates. Todas do grupo das engajadas e fundadas por militantes respectivamente do PCB, dos trotskistas da Libelu (Organização Socialista Internacionalista – OSI, braço de uma das frações da Quarta Internacional) e do PCdoB. Esses três “estudos de caso” são reveladores também de táticas diferenciadas e de formas de vinculação também distintas dos três grupos políticos com seus “braços editoriais”.

Maués levanta a existência de cerca de quarenta editoras de oposição que surgiram ou aturam no período estudado. Destaca que, como usou o “parâmetro temporal [d]a década de 1970 e parte da de 1980, ou seja, o período já posterior ao AI-5, algumas editoras que tiveram importante atuação na edição de obras políticas nos anos 1960 não aparecem no meu levantamento, tais como as editoras Saga, Fulgor, Felman-Rego, José Álvaro Editor, Laemmert, GRD, entre outras”. Noto eu que algumas dessas e outras não citadas, como a Vitória, eram também vinculadas organicamente a partidos de esquerda, especialmente o PCB.

O livro também foca exclusivamente em quatro estados, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Se existiram ou não editoras com esse perfil em outros estados (desconfio que pelo menos em Pernambuco e Bahia isso pode ter acontecido) o seu estudo se torna difícil também pelo fato das bibliotecas brasileiras, e em especial a Biblioteca Nacional, não terem um trabalho de catalogação de editoras e estudo da bibliografia presente em seus acervos por temas. Aliás, quando existe essa separação, geralmente esta se dá na constituição dos famosos “Infernos”, as seções de livros de acesso restrito, principalmente por serem classificados como pornográficos, embora haja também a inclusão de livros políticos.

As desventuras dessas editoras com a censura é abordada no livro. Analisando a lista dos 434 livros proibidos durante a ditadura, levantada por Deonisio da Silva já em 1984, o autor constata que a maior parte das obras censuradas se enquadra no critério de “afronta à moral e aos bons costumes”, embora 16% dos livros proibidos o fossem por razões políticas. O autor cita também um dado do levantamento feito por funcionários do Arquivo Nacional de Brasília, apresentados no livro de Sandra Reimão (Repressão e Resistência, Edusp/Fapesp, 2011) no qual se mencionam 492 livros submetidos à análise do DCDP, o órgão oficial da censura do Ministério de Justiça, dos quais 313 foram vetados, na sua maioria obras “eróticas/pornográficas”. Mais uma vez se nota o problema da desorganização dos arquivos primários brasileiros.

Maués considera que “a censura aos livros políticos parece ter sido mais seletiva do que a feita aos livros considerados “imorais” ou “indecentes””. A impressão que eu tenho é que a censura aos livros era decorrente principalmente a partir de denúncias, e as “senhoras de Santana” estavam mais preocupadas com a indecência. A censura a músicas e ao teatro, ao contrário, foi muito mais atenta à questão política.

O livro de Maués, aqui brevemente recenseado, tem a virtude de mostrar um lado importante da resistência à ditadura no campo da cultura. Feita principalmente a partir de micro e pequenas empresas, com editores que entendiam sua tarefa como missão política e cultural. Embora tivessem consciência da importância de manter a lucratividade das empresas, esses editores entendiam sua missão de um modo muito mais amplo e especificamente político.

Um bom livro para encerrar o ano. Que o próximo nos traga mais e melhores notícias sobre a política cultural, são meus votos.

NATAL DE LIVROS DA COOPERIFA

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natal cooperifa
Domingo, dia 15 de dezembro participei da festa do Natal de Livros da Cooperifa – Cooperativa Cultural da Periferia. Iniciativa do poeta Sérgio Vaz, a instituição fez seu terceiro Natal de Livros no Largo do Piraporinha, no Jardim São Luís, na Zona Sul de S. Paulo. Das dez da manhã à uma da tarde foram distribuídos milhares de livros para quem passava por ali, indo ou vindo da feira do bairro. Quem passava nos ônibus ou estava nas lojas do comércio popular da região era também abordado por quase cinquenta voluntários que ofereciam gratuitamente exemplares de livros novos e de todos os gêneros: ficção, ensaios, livros para crianças e jovens.

Foi uma experiência emocionante que me fez lembrar anos de militância cultural nos subúrbios do Rio de Janeiro, em Parada de Lucas, quando, com um grupo de amigos e militantes de várias organizações de esquerda e da igreja progressista fundamos o Centro Cultural dos Trabalhadores, o CECUT, e o “Jornal da Baixada”, lá pelos anos 70/80.

Mas a Cooperifa tem um caráter diferente. É uma iniciativa local, liderada pelo Sérgio Vaz, que faz um trabalho de valorização da produção cultural da periferia paulistana. Desde o ano 2.000, o exemplo da Cooperifa já frutificou em quase duas dezenas de iniciativas semelhantes em outros bairros da metrópole.
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Amazon vira instituição de caridade?

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Achei curiosa a notícia que saiu na newsletter da Publishers Weekly, o jornal da indústria editorial americana, no último dia 4 de dezembro: “As Editoras Não Lucrativas estão Sorrindo?” Era um jogo de palavras com um novo programa da Amazon, o AmazonSmiles, que permite aos clientes doarem 0,5% do valor de suas compras (de uma lista extensa, mas selecionada) para alguma instituição não lucrativa que houvesse se cadastrado como possível beneficiária do programa.

E a Island Press, uma editora sem fins lucrativos do estado de Washington se cadastrou e passou a ser mais uma dentre quase um milhão de “charities” que vão atrás dos caraminguás do programa. A editora fez uma campanha de e-mail entre seus clientes. Detalhe: são todas as compras feitas no AmazonSmile (da lista) que valem para a contagem dos 0,5%.

Quem reclamou no ato foram as livrarias independentes. A ingrata da Island Press havia caído no canto da sereia amazônica e diminuía os clientes das independentes, que sempre a haviam apoiado. A editora jurou amor eterno às livrarias e informou que nem sabia do programa até que um de seus doadores chamou atenção para ele. “Já que o programa existe, nos inscrevemos”. Lógico.

Mandei um e-mail para a assessoria de imprensa da Amazon no Brasil, perguntando se o programa valia aqui também e, se não, se sabiam quando chegaria por aqui. A resposta foi um link para o press release americano e uma frase curta: “Não, não temos nada para anunciar sobre isso e não comentamos planos futuros, desculpe”. Como é do estilo da casa.
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BREVE HISTÓRIA DA AUTOAJUDA, O GÊNERO MAIS VENDIDO NO MUNDO

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Jessica Lamb-Shapiro

Publicada originalmente no Publishing Perspectives

A autoajuda anda por aqui há milhares de anos, amada e odiada por todo esse tempo. O mais antigo progenitor de livros de autoajuda foi um gênero egípcio chamado “Sebayt”, uma literatura de instruções sobre a vida (“Sebayt” quer dizer “ensinar”). Uma carta de um pai para o filho com conselhos. “As Máximas de Ptahotep”, escrita certa de 2.800 a.C., propugnava um comportamento moral e autocontrole. Antigos textos gregos ofereciam meditações, aforismos e máximas sobre a melhor maneira de viver.

Durante a Alta Idade Média, na Idade Média e no Renascimento, livros do tipo “Espelho dos Príncipes” contavam histórias de reis cujo comportamento devia ser imitado ou evitado. Eram semelhantes às histórias inspiracionais de hoje, como a série “Canja de Galinha para a Alma”, só que também incluíam contos de advertência. A literatura de aperfeiçoamentos pessoal deu um grande salto depois de 1455, quando Gutemberg barateou a impressão e tornou esses livros disponíveis para uma distribuição mais ampla. De repente, qualquer um podia escrever suas receitas sobre a melhor maneira de viver.
Jessica-Lamb-Shapiro No decorrer dos anos 1600 e 1700, livros de comportamento ensinavam aos homens como se comportar polidamente em sociedade, e foram populares na Itália, França e Inglaterra. Na França, eram conhecidos como livros de “savoir vivre”. O historiador Jacques Carre argumenta que “seu espírito se perdeu, e apenas aplicações mecânicas de algumas recomendações isoladas, supostamente destinadas a proporcionar refinamento imediato, era apresentadas aos leitores insuspeitos”. Os tópicos abordados incluíam, “Coisas Odiosas e Imundas”, “Assoando o Nariz”, “Cabelos Cortados como uma Tigela”, e “Barbas de Comprimento Assustador”.

Pode haver muito desprezo pelos livros de autoajuda de hoje, mas estes fazem parte de um mercado de melhoria pessoal em crescente expansão que não mostra nenhum sinal de esquecimento. A autoajuda é tão popular agora quanto foi no tempo de Chesterton, e como indústria, cresceu exponencialmente.

Muitos dos textos mais antigos de autoajuda ainda estão no mercado. “A Arte da Guerra”, de SunTzu, um antigo tratado militar chinês, é popular entre os homens de negócio dos Estados Unidos; as “Meditações”, de Marco Aurélio é um best-seller na China contemporânea. Livros de autoajuda criados em uma cultura podem ser muito populares em outras: Wayne Dyer (“Seus pontos fracos”, entre outros) é popular na Holanda. “O Segredo”, de Rhonda Byrne, autora australiana, é best-seller no Irã.

A despeito de sua ubiquidade, é difícil dizer se os livros de autoajuda ajudam ou não alguém. Há pouquíssima pesquisa acadêmica sobre o assunto. As estatísticas do mercado editorial alegam que 80% dos leitores de livros de autoajuda são compradores que repetem suas compras, o que poderia indicar que os livros não estão ajudando. Alguns sugerem que os leitores de livros de autoajuda não leem mais que as primeiras vinte páginas, se é que chegam a abrir o livro. O simples ato de comprar um livro de autoajuda é relatado como algo que fez alguém sentir-se melhor.

Aristóteles acreditava que a leitura tinha capacidades curativas. Ao mesmo tempo em que os compradores de livros de autoajuda talvez não curem o que os aflige, sentir-se melhor não é algo a ser inteiramente descartado. As pessoas odeiam seus trabalhos, se apaixonam, temem envelhecer e se preocupam com o peso, e os livros de autoajuda tratam e tentam atenuar esses problemas. A vida machuca, e a promessa feita pelos livros de autoajuda é um alívio dessa dor.

O colapso de outros sistemas de crenças, sistemas que, em algum momento, proporcionaram direção e significado, permitiram que a autoajuda a se tornasse ainda mais valiosa. A autoajuda proporciona um sentido de comunidade para os solitários; mas também pode isolá-los ainda mais. A autoajuda proporciona uma linguagem com a qual discutir problemas particulares e difíceis; mas às vezes essa linguagem desliza para um discurso sem sentido. É um mundo cheio de charlatões e boas pessoas, e um no qual nem sempre é fácil separar a escumalha do ouro.

Um anúncio no metrô de New York para a Marble Colegiate Church, onde o autor de autoajuda, Norman Vincent Peale já foi pregador, explica a ansiedade básica que alimenta essa indústria mamute: “A vida não vem com um manual de instrução”. Nossos seres racionais sabem que esse manual de instrução não existe, mas nossos seres ansiosos continuarão tentando comprar um.

Para deixar de tomar decisões “pelo cheiro” II – A GfK e suas informações

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Estive na sede brasileira da GfK para conhecer os dados e os métodos de coleta de informações de seu sistema de acompanhamento do varejo de livros no Brasil. Atendido pela Cláudia Bindo, diretora da unidade, tive oportunidade de ter uma visão mais ampla das informações processadas pela empresa alemã. Em post recente havia abordado a chegada do Nielsen BookScan por estas plagas, e quero, desde logo, me desculpar por uma avaliação ali feita de que a implementação dos serviços da GfK andava “a passos lentos”.

Não é certo. A GfK avançou bastante no estabelecimento do serviço. Se algo pode ser dito a respeito da presença das duas multinacionais de pesquisa de mercado no Brasil é que isso denota não apenas o interesse crescente que o setor editorial vem despertando. O Brasil e a Espanha, aliás, são os únicos mercados em que as duas empresas competem diretamente. A Nielsen acompanha o mercado dos EUA, mas a GfK tem uma presença mais abrangente na Europa.

É certo que, para os respectivos clientes, o que importa fundamentalmente são os dados do mercado local. Entretanto, as duas empresas têm condições de oferecer algumas análises comparativas. Nesse sentido, a GfK apresentou algumas informações bastante interessantes sobre a presença de autores brasileiros em outros países.
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Vargas Llosa e David Grossman em Guadalajara: a literatura e o mundo ao redor.

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Vargas Llosa não é santo da minha devoção. Admiro muitos de seus romances, mas na maioria das vezes detesto suas opiniões políticas. E, na literatura, ele é autor de algumas barbaridades, como o tratamento de desprezo que deu para a obra de seu conterrâneo José Maria Arguedas, que é um escritor muito mais importante e seminal que ele. Coisa de inveja e despeito.

Mas, sem maniqueísmos, devo reconhecer quando ele fala bem e diz coisa com coisa.

fil logotipo Llosa e David Grossman debateram juntos na abertura da Feira de Guadalajara. Segundo a matéria do Publishing Perspectives falaram coisas muito interessantes, com as quais concordo. Acho extremamente importante o posicionamento contra o que eu gosto de chamar de “literatura de olhar o próprio umbigo”. Infelizmente, anda muito na moda falar do seu euzinho sem olhar o mundo ao redor. Esteticismo e politicamente correto são coisas que andam me aporrinhando cada vez mais. Passo.

David Grossman, na Feira de Guadalajara: “Os Palestinos têm o direito natural de ter um estado e uma sociedade, uma pátria, e gostaria que tivessem uma vida normal sem o peso da ocupação. Não posso tolerar o pensamento de que Israel intervém em suas vidas, e isso lança uma sombra. A paz é essencial para a futura sobrevivência de Israel. E neste momento não temos confiança em um futuro.”

Vargas Llosa: “A literatura não é simplesmente uma busca gratuita. As apalavras deixam uma marca e provocam mudança, e portanto o escritor tem uma grande responsabilidade, não apenas de criar uma bela obra de arte, mas também de influenciar a realidade. Qualquer jovem latino-americana dos anos 1950 teria pensado qual a razão de se importar em escrever, com tanta pobreza e analfabetismo, mas também escrevemos ara os analfabetos, na esperança que, ao fazer isso, possamos influenciar uma mudança na sociedade.”

Mais na Internet

Ainda no Publishing Perspectives, uma longa lista de comentários sobre a presença de Jeff Bezos em um programa de entrevistas no qual exibiu um filmete com um futuro drone de entregas da Amazon. Gozações e preocupações. E assinalam o desprezo total do Bezos para com as livrarias independentes: “Queixar-se não é estratégia”. Como quem diz, vão se catar, loosers!

A tradução é parte integral da vida literária na Índia, diz o artigo de Dennis Abrams sobre a importância dos livros traduzidos na construção de uma identidade literária em um país com dúzias de idiomas e dialetos.
Não apenas na Índia, digo eu. A tradução é o que garante a existência de uma República Mundial das Letras.

Barueri quer ser Uma Cidade de Leitores

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A cidade de Barueri, na região metropolitana de S. Paulo, quer se transformar em “Uma Cidade de Leitores”. A proposta apareceu durante a campanha que elegeu o prefeito Gil Arantes, e João Palma, atual Secretário de Cultura e Turismo, está decidido a fazer isso acontecer.

Barueri tem aproximadamente 250.000 habitantes e é muito conhecida na região metropolitana por abrigar os complexos conhecidos como Alphaville – uma série de condomínios residenciais e comerciais – que teve um enorme crescimento nos últimos anos. Nessas áreas existe já uma grande concentração de empresas de serviços, inclusive no setor de finanças. O município também é a sede de grandes complexos de logística localizados nas margens da Rodovia Castelo Branco. É uma cidade rica, embora seja evidente que os contrastes entre os moradores da Alphaville e de áreas urbanas nas periferias do município sejam tão grandes quanto em outras cidades brasileiras.

A cidade já dispõe de uma estrutura significativa na área de livros e leitura, com onze bibliotecas públicas, e um Ônibus Biblioteca circulante.

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Fui até Barueri atraído por uma notícia publicada na semana passada no Blog do Galeno, que anunciava o início de um censo da leitura na cidade. Funcionários das bibliotecas públicas percorrem casas e escritórios da cidade com um questionário a ser respondido pelos moradores. Quem responde pode ser cadastrado nos “Clubes de leitura” da cidade, com acesso à rede de bibliotecas. E quem quiser recebe uma placa de acrílico para colocar na porta da casa com a frase “Aqui tem gente que lê!”
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Google ganha a parada contra os autores e outros temas na Internet hoje

Alguns links de matérias sobre livros e leituras na Internet. Manhã de feriado aqui. Mas o resto do mundo não dá nem tchuns para nossa combalida república.

Amazon esmaga a competição

Dados do Book Industry Study Group sobre o mercado de e-books nos EUA mostra que a parcela da Amazon é ainda maior do que se supunha: 67%. Com a ajuda do Departamento de Justiça e da juíza Denise Coote, é Claro. Isso ainda vai dar chabu.

Livrarias independentes se movimentam no mundo inteiro: IndieBound nos EUA e uma grande campanha na Europa.

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O crescimento das grandes redes e das vendas online (no caso, principalmente pela Amazon) é uma preocupação que se espalha pelo mundo. O IndieBound é uma iniciativa da ABA – American Booksellers Association. Este fim de semana na Europa uma grande campanha para que as pessoas comprem pelo menos um livro físico nas livrarias (lá vale qualquer livraria, não apenas as independentes).

Mas a ABA funciona. Outros por aqui só fazem cartas chorando as pitangas…

Na Argentina, livrarias seguem firmes e fortes

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Não é verdade que Buenos Aires tem mais livrarias que o Brasil todo. Isso é um mito. Mas tem belas livrarias (como a Ateneo Splendid) e os livreiros de lá conseguiram uma lei do preço fixo para se defender da febre de descontos das cadeias (que conta com a cumplicidade das editoras, é claro).

Revista sobre livros, literatura. Texturas

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Uma publicação espanhola online, muito interessante. Pode ser recebida por email.

E o Google ganhou a parada

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O juiz Denny Chin nem levou para o júri. Decidiu que o Google presta um grande serviço ao escanear os livros do mundo inteiro. Depois de seis anos, o processo recebeu ontem a sentença em primeira instância em New York. Os autores que promoveram e a Author’s Guild dizem que vão recorrer, mas há dúvidas se um tribunal superior aceitará a apelação.

Distribuição – Impasses e perspectivas

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A distribuição sempre foi um dos grandes entraves para a circulação de livros no Brasil. A enorme extensão territorial e a precariedade da logística encarecem de modo evidente a circulação dos livros (não apenas deles, é claro), e a rarefação e concentração da rede de livrarias contribui para não dar densidade nem permitir maiores investimentos na área.

Some-se a isso a política de aquisição de livros do Governo Federal. As compras do MEC, chegam perto de um quarto de todas as vendas de livros no Brasil, com especial ênfase para o livro escolar. O MEC compra diretamente das editoras e o transporte fica por conta dos Correios. A alegação de que esse procedimento diminui os custos da aquisição dos livros é contestável em vários aspectos: a) o MEC não contabiliza os custos de desenvolvimento editorial, que são portanto transferidos para os demais segmentos destinados ao mercado das escolas particulares e, dessa forma provocam a constituição de uma espécie de subsídio cruzado; b) também não se contabiliza os custos todo o aparato burocrático do FNDE, dedicado ao sofisticado sistema de seleção dos títulos, avaliação da execução do programa, etc c) e não se leva em conta o custo social da destruição da rede de livrarias, processo para o qual as escolas particulares também contribuem ao adquirir e revender diretamente para seus alunos os livros adotados.

Tudo isso é custo real que jamais é claramente explicitado pelo governo. E há modelos alternativos para todo esse processo que não são sequer considerados, como os aplicados em vários países europeus.

O curioso é que o MEC, através do mesmo FNDE, executa políticas diferentes para outros produtos e serviços oferecidos às escolas, como o Programa de Merenda Escolar, além do Dinheiro Direto na Escola.

Some-se a isso as deficiências das próprias livrarias, incapazes de cooperar entre si para minimizar alguns desses custos, desenvolver o mercado, participar do e-commerce. Também não faltam exemplos, como as ações da American Booksellers Association – ABA e seu programa Indie Commerce, ou as várias iniciativas dos Groupements de Libraires franceses.
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