Todos os posts de Felipe Lindoso

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, Diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil Pode Ser um País de Leitores? Política para a Cultura, Política para o Livro, pela Summus Editorial.

SNEL DIVULGA PESQUISA SOBRE MERCADO EDITORIAL – ÓTIMA INICIATIVA

Capturar

O Sindicato Nacional de Editores de Livros – SNEL, divulgou pesquisa fruto de bolsa de estudo financiada pela entidade junto ao Instituto Coppead de Administração. Esse apoio resultou em uma tese de mestrado, de autoria de Leonardo Bastos da Fonseca, “Crescimento da Indústria Editorial de Livros do Brasil e seus Desafios”, orientado pela professora Denise Lima Fleck.

É uma iniciativa importante, até pela escassez de estudos analíticos e sistemáticos sobre o tema. A própria bibliografia apresentada no trabalho mostra uma abundância de matérias jornalísticas vis à vis a produção mais extensa e pesquisada.
Continue lendo SNEL DIVULGA PESQUISA SOBRE MERCADO EDITORIAL – ÓTIMA INICIATIVA

UMA PROPOSTA MODESTA

Em recente painel na Câmara dos Deputados para discutir a questão da extensão da desoneração tributária constitucionalmente outorgada aos livros e ao papel de sua impressão (assim como ao papel para periódicos), delineou-se outra frente de discussão sobre a extensão da desoneração também para os leitores de livros eletrônicos.

Leitor Kobo. Todos os leitores baseados em e-ink têm praticamen.er as mesmas funcionalidades
Leitor Kobo. Todos os leitores baseados em e-ink têm praticamen.er as mesmas funcionalidades

Uma boa parte da discussão se deu em torno do projeto de lei do Senador Acir Gurgacz que, além de propor a desoneração do conteúdo (os livros eletrônicos), deseja estendê-la para os leitores digitais, em particular o Kindle e o Kobo, que enviaram representantes para a discussão.
As entidades do livro presentes no evento se declararam, todas, contrárias a essa extensão. A representante do SNEL, Amarylis Manole, declarou que a posição de sua entidade não era ser contra a desoneração, mas que não desejava misturar a desoneração do conteúdo com a dos leitores. Posição semelhante à manifestada pela presidente da CBL, Karine Pansa, “Não existe dúvida em relação à isenção do conteúdo, mas existe preocupação no que se refere ao suporte, que deve ser discutido de maneira mais ampla e menos rápida, em outro momento, de forma mais profunda”.

Kindl evolui, mas o rteclado, o e-touch e a iluminação. As funcionalidades são sempre as mesmas
Kindl evolui, mas o rteclado, o e-touch e a iluminação. As funcionalidades são sempre as mesmas

Ednilson Xavier, presidente da ANL, foi mais contundente: “Estamos dando um passo maior que a perna ao aceitar esta avalanche do livro digital”, afirmou. E terminou sua fala de forma objetiva, contra a desoneração do leitor digital e criticando especialmente os modelos proprietários como aqueles da Amazon e Apple. “A ANL concorda com o conteúdo digital isento, mas no que se refere aos aparelhos de leitura ela se preocupa com dois riscos: o arquivo digital ser refém de quem possui o software e o aparato tecnológico acabar por limitar o acesso ao conteúdo”.
São bem baratos, Muitos com tecnologia e-reader.  http://www.ebookbr.com/2011/11/e-os-e-readers-chineses.html
São bem baratos, Muitos com tecnologia e-reader.
http://www.ebookbr.com/2011/11/e-os-e-readers-chineses.html

Ou seja, todos a favor da desoneração do conteúdo e, salvo os representantes dos fabricantes e vendedores dos leitores, todos contra a extensão da desoneração para estes.

Ednilson Xavier foi quem mais se aproximou o cerne da questão, que se resume, simplesmente, na questão de tecnologias proprietárias.
Tentarei examinar mais de perto esses pontos antes de falar da minha modesta proposta.

A ANL, apesar de centrar nas tecnologias proprietárias, tem no fundo o receio de que os livros eletrônicos (e o comércio eletrônico em geral), acabem por colocar as livrarias físicas para fora do mercado.
Continue lendo UMA PROPOSTA MODESTA

AMAZON PÕE AS MANGUINHAS PRA FORAII

Capturar
Faz meses que a Amazon vem pressionando a Hachette, a menor dos grandes grupos editoriais dos EUA (mas que faz parte do Hachette Livres, do grupo Lagardère, que faturou mais de dois bilhões de euros em 2012), com o objetivo de conseguir melhores condições comerciais.

A tática da Amazon é simples. Dá menos descontos para os livros do HBG e avisa que só há disponibilidade para entrega semanas após o pedido ser feito. Todos os outros sites de comércio eletrônico estão dando descontos maiores e entregando mais rapidamente os títulos de autores como James Patterson, Michael Connelly e outros também muito conhecidos.

A Amazon alegou inicialmente que a HBG estava atrasando as entregas, o que foi peremptoriamente negado pela editora (e confirmado pelos competidores da Amazon).

Não é a primeira vez que a Amazon emprega táticas intimidatórias contra editoras que não aceitam melhorar os termos comerciais. A McMillam aguentou pouco mais de uma semana quando o gigante varejista retirou de seus livros a opção “Compre com um clique”, e acabou cedendo. Despois, a McMillam liderou o movimento para modificar os termos gerais de venda, com o “modelo de agenciamento” (a editora fixa o preço e paga à Amazon uma comissão sobre isso, impedindo descontos), graças à providencial ajuda do Departamento de Justiça dos EUA, que acusou as editoras e a Apple de atentar contra a livre concorrência (que está ajudando a Amazon a consolidar sua posição semi-monopolista no mercado de livros). E a McMillam perdeu novamente.

Algumas peculiaridades da situação devem ser anotadas:
Continue lendo AMAZON PÕE AS MANGUINHAS PRA FORAII

SOBRE ADAPTAÇÕES, INCENTIVOS FISCAIS, DEBATE E CENSURA

Nos últimos dias uma polêmica correu na Internet acerca da publicação de uma “versão simplificada” de O Alienista, do Machado de Assis, pela escritora Patrícia Secco, e patrocinada pelo Instituto Brasil Leitor. O projeto foi incentivado pela Lei Rouanet, e terá uma edição de 600.000 exemplares, a ser distribuída por essa instituição em seus vários programas.

Já escrevi no FaceBook e repito aqui. Acho esse tipo de “simplificação” uma bobagem. Se fosse reconto, ou recriação em outro gênero (peça de teatro, roteiro, série televisiva, história em quadrinho), nada a objetar. Ou, como fizeram os Lamb com Shakespeare – escrevendo versões em prosa das peças, em um trabalho autoral, que não pretendia “simplificar” o Bardo – também tudo bem.

Mas as “simplificações” já têm uma história complicada. A mais notória foi a que um professor dos EUA fez com o Mark Twain. Tirou do “Tom Sawyer” e do “Huckleberry Finn”, por que considerava ofensivo para os negros americanos do Século XXI ler palavras típicas do vocabulário do Século XIX, como “nigger”, e resolveu fazer as versões politicamente corretas. Fez, vendeu e continua vendendo, já que encontra apoio em várias áreas da sociedade dos EUA para isso. O autor da proeza foi Alan Gribben, professor de inglês da Auburn University, que escreveu, em um artigo no New York Times, “que promoveu o projeto como meio de tornar o texto modificado mais acessível aos leitores mais jovens e ao público em geral”. Uma discussão sobre o assunto está no The Harvard Crimson.
Continue lendo SOBRE ADAPTAÇÕES, INCENTIVOS FISCAIS, DEBATE E CENSURA

AS LIVRARIAS QUEREM SE ATUALIZAR?

Capturar

Matéria publicada nesta segunda-feira no Estado de S. Paulo relata que as grandes livrarias (no caso, as paulistanas Cultura, Saraiva e Livraria da Vila) estão desenvolvendo um esforço especial para a melhoria de suas operações na internet, em detrimento da expansão da rede física.

Vamos tentar ver isso mais de perto.

Quando a Amazon foi lançada, anunciava-se como a maior livraria do mundo, disponibilizando mais de um milhão de títulos. Certamente não tinha nada disso em seu estoque. Jeff Bezos constatou o óbvio: as livrarias podem trabalhar com o estoque das editoras, que lhes dão prazo e o desconto que proporciona a margem.

Só que, no caso das livrarias físicas, o livreiro deve sempre fazer o balanço entre os títulos que vendem com mais rapidez, os best-sellers, e uma seleção, dentro do milhão de títulos disponíveis nos catálogos das editoras, daqueles que acham que pode dar a “cara” da loja. E aí, sim, montar o sortimento da livraria, seu estoque.

A Amazon não precisava disso. O investimento foi dirigido basicamente para permitir que os clientes achassem os livros que desejavam no meio da cornucópia de títulos oferecidos. O resto é história. Até hoje a Amazon só mantem em seus centros de distribuição a quantidade de títulos que seus cálculos determinam que podem ser vendidos no período que vai entre o pedido do comprador e a entrega do exemplar pela distribuidora ou pela editora.

Continue lendo AS LIVRARIAS QUEREM SE ATUALIZAR?

DIA MUNDIAL DO LIVRO, LEITURA E DIREITO AUTORAL – A FRUSTRAÇÃO

Capturar
O dia 23 de abril foi declarado pela UNESCO o Dia Mundial do livro, da leitura e do Direito Autoral. Essa é a data do nascimento de Shakespeare, morte de Cervantes e do Inca Garcilaso de la Vega, assim como data do nascimento ou morte de outros autores proeminentes, como Maurice Druon, Vladimir Nabokov, Josep Pla e Manuel Mejía Vallejo, e sabe-se lá de quantos outros escritores. Mas esses nomes foram o pretexto para que, em 1995, a Assembleia Geral da UNESCO decidisse que o dia celebraria livros, autores, direito autoral, e serviria como encorajamento para que todos, e em particular os jovens, descobrissem o prazer de ler e renovassem seu respeito pela contribuição inestimável do livro e seus autores para o progresso social e cultural da humanidade.

Foi uma iniciativa que partiu da Catalunha (que , como os ingleses e os cariocas, têm S. Jorge como patrono). Em Barcelona, há décadas, as livrarias instalam bancas nas calçadas, com ofertas especiais e, para cada livro comprado, dão uma flor de presente.

Essa iniciativa vem, a cada ano, aumentando seu alcance. As editoras e livrarias de muitos países compreendem perfeitamente que, sob o pretexto da celebração, as ações de marketing podem resultar em seu benefício.

worldbook day
Assim, alguns exemplos: nos EUA, vinte e cinco mil voluntários distribuem, pelo país inteiro, meio milhão de exemplares de livros doados pelas editoras, tendo como alvo preferencial pessoas e comunidades onde o hábito de leitura é escasso. A mesma iniciativa acontece no Reino Unido e na Irlanda. No Reino Unido, adicionalmente, são distribuídos quatorze milhões de fichas para crianças e jovens com menos de 18 anos de idade, para sejam trocadas nas livrarias por um exemplar de um dos 10 títulos selecionados para o programa. Na Índia, os editores colaboram com ONGs locais para distribuir livros em favelas e promover sessões de leitura de livros. Na Islândia, editores colaboram por duas semanas com ações feitas por um dos principais jornais do país para promoção de sessões de leitura e discussões de livros.

São apenas alguns exemplo. Como podemos ver, todos muito significativos.
Continue lendo DIA MUNDIAL DO LIVRO, LEITURA E DIREITO AUTORAL – A FRUSTRAÇÃO

ENTIDADES DO LIVRO: É POSSÍVEL TRABALHAREM JUNTAS?

Capturar
O PublishNews publicou, faz alguns dias, matéria relatando que a ABDL – Associação Brasileira de Difusão do livro “sugeriu” à CBL, ANL e ABEU “promover encontros periódicos para discutirem juntas assuntos do setor”. E anunciou para esta terça-feira, 15 de abril, a primeira reunião do grupo.

Alvíssaras. Espero que a reunião aconteça e produza alguma coisa. Qualquer coisa. Pelo menos marque uma próxima reunião…

Mas, a essas alturas, depois de quilômetros rodados na observação das questões de políticas do livro, permito-me tecer algumas observações.
A primeira, uma simples curiosidade: o SNEL não se qualifica? A ABRELIVROS tampouco? Talvez isso não haja sido noticiado e essas entidades tenham sido convidadas. Oxalá.

Já tratei anteriormente dessa multiplicidade de entidades ligadas ao livro. Tantos dos editores quanto dos autores. As desses últimos, coitados, muito mais anêmicas. Dá pena qualquer comparação quando se vê a Author’s Guild dos EUA peitando o Google, parando Hollywood, etc.

Mas, fiquemos nas entidades do livro.
Continue lendo ENTIDADES DO LIVRO: É POSSÍVEL TRABALHAREM JUNTAS?

AMAZON – Abominada, detestada e amplamente usada

Capturar
Esta semana a Amazon anunciou (nos EUA) o lançamento de um acessório de streaming de programas de televisão, para competir com a Apple e outros fabricantes desse tipo de coisas. Mais barato. E soube-se também, extraoficialmente, que a loja brasileira vai começar a vender livros físicos nas próximas semanas. A empresa nem confirmou nem comentou a notícia sobre a filial brasileira, como é seu hábito. Jamais faz isso e sempre parte para os fatos consumados.

Já escrevi por aqui alguns posts comentando determinados aspectos da operação “amazoniana”. Depois de ler, em inglês, The Everything Store- Jeff Bezos and the Age of Amazon, do Brad Stone, soube também que a tradução brasileira acabou de ser lançada, pela Intrínseca (olhem só, a edição brasileira é mais barata que a original na loja Kindle, o que não é algo muito frequente), e resolvi consolidar algumas observações.

No discurso inaugural da London Book Fair, esta semana , o autor Anthony Horowitz (autor de uma série infanto-juvenil muito popular em inglês, com alguns títulos em português, e de um romance em que faz renascer Sherlock Holmes), disse em seu discurso que eles são “realmente uns cretinos do mal, que eu abomino e temo, mas que, é claro, uso o tempo todo”. Talvez tenha dado, com a frase, uma definição sucinta do sentimento de muita gente que trabalha e pensa sobre a indústria editorial. Os clientes que não são dessas categorias simplesmente “usam o tempo todo” a Amazon.
Continue lendo AMAZON – Abominada, detestada e amplamente usada

Um abril para não esquecer. A Ditadura e a indústria editorial

Capturar
O golpe civil-militar que instalou a ditadura no dia 1. de abril de 1964 teve profundas repercussões na indústria editorial brasileira. Em vários níveis.

A mais evidente e comentada foi a censura a livros, e os ataques a algumas editoras, com a prisão dos seus responsáveis. O mais conhecido desses é o caso da Civilização Brasileira.

Ênio Silveira era ligado ao PCB. Mas sempre atuou com uma independência intelectual admirável, e editou muitos livros que seriam abominados pelo partidão. Pagou caro por isso, com a bomba que foi jogada na sede da editora e da livraria, na Rua Sete de Setembro, no Rio de Janeiro, o incêndio do depósito e o estrangulamento do crédito. A Civilização Brasileira é um exemplo paradigmático da resistência dos editores. Não foi a única, mas a verdade é que a censura violenta contra a Civilização Brasileira deixou muitos e muitos editores em estado de “auto-censura”, com raras exceções.

É bom lembrar que o maior volume de livros censurados o foi por conta da “moral e dos bons costumes”. Nesse sentido, o caso do Rubem Fonseca é paradigmático. O autor fez parte do grupo civil que deu respaldo “intelectual” ao golpe de 1964, no IPES fundado e dirigido pelo general Golbery do Couto e Silva, o fundador do SNI. Era advogado da Light e suas credenciais de direitistas sempre foram impecáveis. Mas, excelente escritor que é, Rubem Fonseca mostrou um retrato cáustico da burguesia carioca, em particular em alguns contos do Feliz Ano Novo. A reação foi fulminante, e o livro foi fazer companhia aos escritos por Adelaide Carraro e Cassandra Rios.
Continue lendo Um abril para não esquecer. A Ditadura e a indústria editorial

Um abril para não esquecer

Essa coisa dos anos “redondos” às vezes é muito chata. Mas há momentos em que se torna importantíssimo lembrar de coisas, principalmente por aqui na Pindorama, com essa história de que se esquece tudo.

Outro dia, na academia, meu instrutor, que é um jovem aí dos trinta e poucos anos, acabou puxando pelo assunto da Ditadura. Acontece que eu tenho a coluna detonada, já operei uma hérnia de disco e agora apareceu outra. Uma nutricionista iridóloga, Célia Mara Melo Garcia, depois de me examinar, perguntou se, aí pelos meus vinte anos, eu havia sofrido uma queda, um “trauma forte”. Respondi que sim, mas que não havia sido queda. Foi tortura, por eu ter sido preso político precisamente entre os 21 e os 23 anos. Isso aparece na minha íris, segundo ela, como um achatamento.

Bom, contei essa história para o instrutor, e comentei que achava que pelo menos uma parte dos problemas da minha postura e de má articulação corporal vinham dessa época. Para que ele entendesse o que, talvez, fosse parte do meu problema e das dores que eventualmente aparecem. Bom, a aula inteira seguiu nessa toada, ele querendo saber detalhes não sobre minha vida, mas sobre a Ditadura. Claro que falei o que pude naquele tempo, e tenho certeza de que o assunto vai voltar.

É um exemplo da importância da Comissão da Verdade e, a propósito, do tanto que o assunto apareceu na imprensa nesses dias. A maior parte da população do país não viveu aqueles anos, ou era criança na época. Ótimo para eles não terem passado pelo que minha geração sofreu.

Foi bom não terem passado pelos sofrimentos, pelo medo, pela alienação brutal do “milagre econômico” e as ilusões do Brasil Grande. Mas pena que também não tenham vivido a efervescência cultural, principalmente de 1968. Isso também merece ser lembrado, até para se entender o nojo que provocaram as atitudes de algumas pessoas que foram fantásticas naquela época, e ano passado se uniram ao obscurantismo lavignesco. Mas isso, deixa pra lá.
Continue lendo Um abril para não esquecer