Um abril para não esquecer

Essa coisa dos anos “redondos” às vezes é muito chata. Mas há momentos em que se torna importantíssimo lembrar de coisas, principalmente por aqui na Pindorama, com essa história de que se esquece tudo.

Outro dia, na academia, meu instrutor, que é um jovem aí dos trinta e poucos anos, acabou puxando pelo assunto da Ditadura. Acontece que eu tenho a coluna detonada, já operei uma hérnia de disco e agora apareceu outra. Uma nutricionista iridóloga, Célia Mara Melo Garcia, depois de me examinar, perguntou se, aí pelos meus vinte anos, eu havia sofrido uma queda, um “trauma forte”. Respondi que sim, mas que não havia sido queda. Foi tortura, por eu ter sido preso político precisamente entre os 21 e os 23 anos. Isso aparece na minha íris, segundo ela, como um achatamento.

Bom, contei essa história para o instrutor, e comentei que achava que pelo menos uma parte dos problemas da minha postura e de má articulação corporal vinham dessa época. Para que ele entendesse o que, talvez, fosse parte do meu problema e das dores que eventualmente aparecem. Bom, a aula inteira seguiu nessa toada, ele querendo saber detalhes não sobre minha vida, mas sobre a Ditadura. Claro que falei o que pude naquele tempo, e tenho certeza de que o assunto vai voltar.

É um exemplo da importância da Comissão da Verdade e, a propósito, do tanto que o assunto apareceu na imprensa nesses dias. A maior parte da população do país não viveu aqueles anos, ou era criança na época. Ótimo para eles não terem passado pelo que minha geração sofreu.

Foi bom não terem passado pelos sofrimentos, pelo medo, pela alienação brutal do “milagre econômico” e as ilusões do Brasil Grande. Mas pena que também não tenham vivido a efervescência cultural, principalmente de 1968. Isso também merece ser lembrado, até para se entender o nojo que provocaram as atitudes de algumas pessoas que foram fantásticas naquela época, e ano passado se uniram ao obscurantismo lavignesco. Mas isso, deixa pra lá.

Mas para quem, como dizem os espanhóis, já estava “vivito e coleante” em 1964 e nos anos seguintes, o que aconteceu há cinquenta anos – meio século – e nas décadas seguintes, é algo que transcende a simples experiência pessoal.

Em 1964 eu tinha quatorze anos. Na minha casa política sempre foi um assunto cotidiano, seguida, discutida e, de certa maneira, vivida. Nos anos seguintes, mais vivida ainda. Lembro de acompanhar as marchas do golpe pelo rádio (como as passeatas das madames e o comício do dia 13. Naquela época não havia TV em Manaus) e o ambiente de tensão na cidade. O governo do Amazonas era do PTB e legalista, mas toda a reculhamba das forças armadas que havia participado das quarteladas de Aragarças e Jacareacanga estava servindo na Amazônia. O fato é que o Plínio Coelho, o governador, sobreviveu às primeiras ondas de cassações.

Mas, em junho, fei assistir ao Festival Folclórico, que acontecia em um campo diante do quartel do BC, a principal guarnição do exército na cidade. Lá pelas tantas, começou o discurso do governador. Era de despedida.

Foi o que comentei com meu pai quando voltei para casa. Ele estava na calçada, conversando com vizinhos e me viu, ao longe, fumando um cigarrinho enquanto subia a ladeira. Joguei o cigarro fora, mas quando cheguei, ele me disse que não se importava que eu fumasse. Respondi que o Plínio havia sido cassado e se despediu lá no Festival. “Mas ainda não saiu no rádio!”. Meia hora mais tarde, na Voz do Brasil, era anunciada a cassação.

Meses depois eu já estava envolvido com o PCB, que era a única organização de esquerda na cidade, que teve alguns de seus principais dirigentes presos logo depois do golpe, mas se rearticulou facilmente. Discutiam-se os documentos do chamado VI Congresso do PCB. Ora, o Partidão alegava que Jango havia sido fraco, mas todo mundo sabia que existia o tal “dispositivo militar” que fora montado por militares ligados ou influenciados pelo PCB. Uma contradição difícil de explicar e de engolir para quem queria saber o que se podia fazer para acabar com a ditadura recém implantada.

Nem vou tratar aqui de como minhas posições foram se radicalizando. Quatro anos depois eu entrava na UnB, para estudar Antropologia. A inspiração já vinha de Nunes Pereira, Eduardo Galvão e Darcy Ribeiro. Achava que era o melhor meio de conhecer o Brasil.

Com essas cambalhotas que damos na vida, logo no primeiro semestre comecei a trabalhar na sucursal de Brasília do Estadão, contratado pelo Evandro Carlos de Andrade. E conheci a mulher que vai se tornar o ponto central da minha vida. Maria José Silveira era repórter do concorrente, o JB. Também estava na UnB. Em certo momento éramos, os dois, setoristas dos Ministérios do Exército, Marinha e Aeronáutica. De manhã, universidade, assembleias, política. À tarde, ouvir as diatribes dos milicos. À noite, reuniões, pichações, Clube de Cinema de Brasília, barzinhos, namoro. No começo de 1969, minha primeira prisão, depois que participei de uma demonstração contra o interventor da Marinha na UnB, o Azevedo. O engraçado é que eu evitei que dessem uma surra nele, argumentando com a multidão que já o havia cercado. Mas fiquei identificado e à tarde foram me pegar. Quinze dias, até que Rockefeller, que visitava o Brasil para “solidificar a amizade Brasil-EUA” passasse por Brasília e fosse embora. Não fui torturado na ocasião. Mas logo em seguida fui expulso da UnB, na primeira aplicação do recém editado Decreto 477, que facultava ao Ministro da Educação a expulsão sumária dos “subversivos” na universidade.

Para encurtar uma longa história, estamos juntos, eu e Maria José, desde 1969. Militamos, eu fui preso em 1971 e solto no final de 1972, e Maria José ficou clandestina fazendo trabalho de base no ABC. Exílio no Peru, primeiro filho, Universidad de San Marcos e reencontro com a Antropologia, volta ao Brasil em 1976. Mestrado de Antropologia para mim no PPGAS da UFRJ, e de Ciências Políticas na USP para a Maria José.

Em 1981, a Marco Zero. Já falei sobre a editora em outros momentos e contei toda essa história que já se faz longa para chegar ao depois, com a Maria José finalmente começando a cumprir o sonho pelo qual se preparou a vida inteira: ser escritora.
E essa história é contada aqui por uma razão bem simples. O escritor – aliás, todos os seres humanos – traz dentro de si a sua história pessoal vivida em um lugar e em um momento específicos. Essa vida, no caso, deixa marcas indeléveis em tudo que fazemos. No caso da Maria José, em sua literatura.

Não apenas na dela, é claro. De todos, e a cada um segundo suas opções na história de suas vidas. Inclusive nas dos que, nos anos 1970, optaram pelo “desbunde”, ou como diz (involuntariamente cômico?) o Wisnik em crônica n’O Globo, pela “guerrilha existencial”.

Mas é dos romances da Maria José que quero falar aqui nesse “memorando” dos cinquenta anos do golpe. Todos são marcados, profundamente marcados, por esse interesse pela política e pela história. Laivos de autobiografia só aparecem, levemente, no primeiro capítulo do Fantasma de Luís Buñuel, que conta a história de um grupo de amigos na UnB, apaixonados por cinema e política, e especialmente pelo cineasta espanhol.

O primeiro romance, A Mãe de Sua Mãe e Suas Filhas, publicado pela Globo em 2002, surgiu do conhecimento de uma pesquisa feita pela UFMG com o estudo do DNA mitrocondrial da população brasileira, mostrando que dois terços de nós temos ascendência materna de origem indígena ou africana. O romance tenta mostrar como isso poderia acontecer, com uma genealogia que descreve as filhas de uma indiazinha que nasce no dia da chegada do Cabral e segue até a virada do milênio. Índios, marinheiros, espanhóis, escravos, holandeses, todos vão aparecendo na história de 22 gerações femininas, que vivem a saga da nossa história, da chegada dos portugueses, a colonização do sertão, a independência, a república, Brasília e a ditadura. Nosso DNA é uma bela salada. Resultado dos movimentos migratórios, das comoções sociais e também políticas do Brasil.

O segundo romance, Eleanor Marx, filha de Karl, resulta de uma perplexidade. Eleanor, a filha mais nova de Marx, foi a única delas realmente militante, e foi executora do testamento literário do pai, juntamente com Engels. No entanto, se suicida com cianureto aos quarenta e poucos anos. Qual a razão disso? Desilusão ao descobrir que casou com um canalha. Essa intersecção entre política e desilusão amorosa é o eixo do romance. Questão de hoje.

O Fantasma de Luís Buñuel foi o terceiro – e o que mais me emociona até hoje. O grupo de amigos na UnB. A estrutura do romance foi sugerida por um trecho da autobiografia do cineasta, ditada ao Carrière, Mon Dernier Soupir. No finalzinho, o espanhol diz que não se importa em morrer, mas que gostaria, a cada vez anos, de sair da tumba, ir até a banca de jornais mais próxima e olhar como andava o mundo. O primeiro capítulo do romance da Maria José é narrado pelo personagem que se despede da turma, conta sua infância misturada com a história da construção de Brasília, faz amor pela primeira e única vez com a colega pela qual estava apaixonado, e parte para outro país para um treinamento de guerrilha. Segue-se a visão de Tonho, o homossexual enrustido ainda na universidade e que depois se realiza como artista plástico e acaba morrendo de AIDS. Dina, que acaba exilada no Chile, vive os horrores pinochetianos, termina ecologista e produz documentários com Tadeu, o que queria ser cineasta, esmagado pela história de suas origens que não consegue superar e pela tragédia do casamento com uma mulher rica da qual é obrigado a se separar, e que finalmente se encontra como documentarista, trabalhando com aquela com quem sempre manteve uma relação de admiração e rejeição. Depois, Esmeralda, “alheia, lá no alto, no seu ar rarefeito, sempre na dela, Esmeralda, nossa Passionária Libertária, nossa Anita Garibaldi, nossa Krupskaya, nossa Madame Mao. Minha Anna Karina”, diz Tadeu nas suas lembranças. E um final realmente buñuelesco inspirado diretamente no Cet Obscur Objet du Désir (Antes, na Marco Zero, publicamos o livro de Pierre Louÿs, La Femme et le Pantin, que deu origem ao filme).

É um romance da nossa geração, com os diferentes caminhos, impasses, tragédias e fortunas.

Guerra no Coração do Cerrado retoma, sob forma completamente diferente, alguns temas do primeiro romance. No caso, a presença do índio na nossa cultura. Mas, dessa vez, a história de Damiana, personagem histórico, desvenda a tragédia das dificuldades da convivência entre as culturas, quando a dominante quer, a todo custo, fazer que a dominada mimetize seus valores e aceite passivamente a dominação. Tema que Darcy Ribeiro havia trabalhado, de modo diferente, em Maíra, em que mostra a impossibilidade real da conversão sincera de um índio que deseja manter sua cultura e aceitar o catolicismo.

Com Esse Ódio e com Esse Amor, parte para abordar ficcionalmente parte de nossa experiência de exílio e de política. Uma engenheira brasileira vai trabalhar na Colômbia na construção de uma ponte, empregada por uma empreiteira brasileira. Acaba sequestrada pelas FARC, essa vetusta e ainda ativa guerrilha. A história é entrelaçada com um roteiro que seu namorado colombiano está escrevendo, contando a história do Túpac Amaru, o líder da grande revolta indígena contra a dominação espanhola, a primeira nas Américas. As ligações entre luta armada no presente e no passado, os dilemas e dramas da engenheira, é que estão entrelaçados no romance.

O último romance, Pauliceia dos Mil Dentes, é um retrato panorâmico com personagens que habitam a metrópole onde, depois de muita ciganagem (Manaus, para mim, Goiânia para a Zezé, Brasília, Nova York e Paris também para a Zezé, Lima e Rio de Janeiro), decidimos morar. Somos, há quase trinta anos, paulistanos de coração. A megalópole contraditória, com personagens que se entrelaçam sem saber como isso acontece, é o personagem central desse último e belíssimo romance.

Finalmente, para encerrar, a Maria José tem um livro de contos preparado, A Boa Vida, e alguns deles já apareceram em antologias. São contos que ficcionam a militância, o exílio, a violência e a esperança desses últimos cinquenta anos. Em um deles, há esta passagem: “Pega um livro que quer deixar à mão. Caso tenha clima, quer mostrar um artigo de John Elster para Olavo. Abre na página marcada e lê um trecho: “No coração do marxismo há uma concepção específica da boa vida”. No lugar da ilusão do consumo passivo, a alegria vem do objetivo conquistado pelo indivíduo com seus projetos no trabalho ou na luta política. Sua felicidade pode-se dizer, vem disso. Da auto realização. Como quando ela se senta ao piano e consegue tocar como queria.”

Sim. Apesar da Ditadura. Fomos felizes. Somos felizes.

3 thoughts on “Um abril para não esquecer”

  1. É primo, a vida nunca foi fácil, este lado horrível nunca será esquecido, porem as marcas que ficaram para trás, serviram para nos fortalecer. abs Antonio Carlos

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