Todos os posts de Felipe Lindoso

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, Diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil Pode Ser um País de Leitores? Política para a Cultura, Política para o Livro, pela Summus Editorial.

AMAZON TENTA ATRAIR LIVRARIAS INDEPENDENTES – VENDENDO GUILHOTINAS?

A Amazon lançou dia 6 de novembro passado o programa Amazon Source, através do qual livrarias e outras lojas de varejo podem vender toda a linha Kindle (e-readers e tablets), além de acessórios, e em troca recebem 10% das vendas de livros feitas através desses aparelhos por um período de dois anos.

Na verdade o programa tem dois formatos: encomendar Kindles com 9% der desconto do preço oficial e 35% dos acessórios, ou receber 6% de desconto nos aparelhos e 30% nos acessórios e ganhar os tais 10% sobre as vendas de livros. Não conheço os porcentuais, mas essa segunda opção parece ser a existente aqui no Brasil, onde os leitores Kindle podem ser adquiridos na Livraria da Vila e no Ponto Frio.

Segundo Russ Grandinetti, Vice-Presidente da Amazon para o Kindle, citado pelo Publishers Weekly, o programa resulta do sucesso da experiência com a rede Waterstones, do Reino Unido, iniciado há dois anos. O Amazon Source foi testado com duas livrarias localizadas perto de sua sede em Seattle – a livraria do campus da University of Puget Sound, e uma livraria independente, JJ Books. Ambas, é claro, afirmaram no press release da Amazon que estavam felicíssimas com o acordo.

Mas a reação dos livreiros independentes do resto do país foi majoritariamente negativa. A newsletter da Publishers Weekly, a revista do mercado editorial dos EUA, diz que “centenas de livrarias já se apresentaram para participar do programa”, mas não cita nenhuma declaração destas.
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Para deixar de tomar decisões “pelo cheiro”

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Vagarosamente, muito vagarosamente, a prática de acompanhar os dados de vendas online começa a ser implantada na indústria editorial brasileira. Já atuam no Brasil as duas principais empresas de acompanhamento da movimentação no varejo que possuem sistemas de registro e acompanhamento das vendas online: a GfK, alemã, e a Nielsen BookScan, anglo-americana.

A GfK está no Brasil desde aproximadamente um ano, e sua implementação parece andar a passos lentos. Não consegui marcar um encontro com a empresa, mas no próximo dia 7 estarei na apresentação que farão de um panorama do varejo no Brasil na qual devem falar também sobre o mercado editorial.

A BookScan é sem dúvida a mais conhecida, até porque atua no maior mercado editorial no mundo, o dos EUA, e em mais nove países (Reino Unido, Irlanda, Austrália, Nova Zelândia, Índia, África do Sul, Itália, Espanha e agora no Brasil, desde julho).

Os sistemas de acompanhamento de vendas no varejo não são novidades em vários segmentos, e são intensamente usados na chamada “linha branca” e em eletro-eletrônicos. Registram a venda no fechamento do caixa nas lojas conveniadas (inclusive eventuais devoluções ou trocas) e geram relatórios com uma impressionante quantidade de informações.

O busílis está em interpretar e usar essas informações. E essa é uma prática completamente alheia ao mercado editorial brasileiro. Aqui, no máximo, se dispõe dos dados da pesquisa de produção e vendas de livros, iniciada pela CBL e pelo SNEL em 1990, e hoje operada pela FIPE. Essa pesquisa foi iniciada em um momento em que não havia outros meios de levantar esse tipo de informação a não ser que fossem fornecidas diretamente pelas editoras. Acompanhei o processo desde o início, sei das dificuldades de coleta e compilação, e o quanto a análise de dados ainda é pouco usada pelas editoras e livrarias. Recentemente passei a desacreditar da seriedade do levantamento, por razões que explicitei em um post, e voltei várias vezes a esse tipo de assunto, salientando a incompreensão acerca dos metadados e de como poderiam ser úteis para aperfeiçoar o movimento das editoras.
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AmazonCrossing descobre o Brasil pela Machado de Assis Magazine

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AmazonCrossing, o braço editorial do poderoso sistema global de venda de livros pela internet, anunciou um programa de publicação de autores brasileiros em inglês que promete ser ambicioso. Alguns títulos terão apenas uma versão digital – principalmente os contos – mas os romances terão versão impressa e em áudio-books. A Amazon teve seu interesse pelos autores brasileiros despertado pela homenagem na Feira de Frankfurt, e a Machado de Assis Magazine – a revista de literatura brasileira em tradução, co-editada pela Biblioteca Nacional e o Itaú Cultural – foi o principal instrumento para a descoberta dos autores que participam do programa.

A história é a seguinte:

Os primeiros livros a serem publicados pela AmazonCrossing, ainda em 2013 são de contos, em versão para Kindle. Beatriz, livros de contos de Critóvão Tezza; uma seleção dos contos de Falo de Mulher, de Ivana Arruda Leite; dois contos de Ana Paula Maia (“Desmedido Roger” e “Esporo”); uma seleção de contos de Paloma Vidal, “Fantasmas”, extraído de sua coletânea Mais ao Sul. Além desses, ainda este ano serão lançados uma seleção de contos de Tércia Montenegro, extraídos do livro O Tempo em Estado Sólido, e o conto “A Pequena Morte”, de Cláudia Lage.

A partir de 2014 a AmazonCrossing passa a lançar também romances, e os primeiros quatro selecionados são Breve Espaço Entre Cor e Sombra, de Cristóvão Tezza, que venceu o Prêmio Machado de Assis da FBN em 1998; Eles Eram Muitos Cavalos, de Luiz Ruffato, que também recebeu o prêmio da FBN; o romance de estreia da jornalista Eliane Brum, Uma, Duas; o romance histórico do jornalista Sérgio Rodrigues, Elza, a Garota; e um dos títulos da saga Qua4tro Elementos, Marcada a Fogo, da escritora independente Josy Stoque.
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Programa ajuda a detectar conteúdo erótico nas autopublicações.

Em novembro de 2011 publiquei um post aqui dando notícia de um programa chamado BookLamp, que detectava o “genoma” dos livros analisados. O programa permitia às editoras analisar o conteúdo de originais por tipos de temas, citações, etc., mencionados no texto. Na época o BookLamp já recebia material de algumas grandes editoras, inclusive os originais enviados sem solicitação, de modo a permitir que, posteriormente, fossem analisados mais detidamente aqueles que tivessem abordagens semelhantes a de outros livros de sucesso. Era uma ferramenta de análise e permitia também que, no site da empresa, fossem selecionados, para leitura, títulos com temas e outros elementos de conteúdo similares aos de algum romance recentemente lido. O post pode ser lido aqui.

Pois bem, o pessoal do BookLamp resolveu colocar esse instrumental para analisar a questão dos livros pornográficos autopublicados, assunto que tem provocado controvérsia no meio editorial dos EUA e da Inglaterra. A rede W. H. Smith resolveu retirar do ar o site alimentado pela Kobo até que todos os livros passagem por uma avaliação para eliminar aqueles que tratassem de pedofilia, bestialismo e incesto.

A coisa é quente.

Hoje o site Digital Book World publicou o post que reproduzo abaixo. Lembro sempre que a distinção entre hipocrisia e o veto de crianças a conteúdos questionáveis é sempre um assunto delicado, e que o moralismo anglo-saxão, unido aos evangélicos e outros ultramoralistas de plantão pode também prejudicar a liberdade de expressão na ficção. O texto está em inglês.

FJL
A publicação original foi feita aqui.

The Literary Darknet of Independent Publishing
Categories: Expert Publishing Blog
October 20, 2013 | Aaron Stanton | 7

The independent and self-publishing space recently found itself with a cascading bit of drama, eventually escalating to impact everyone from Amazon to Barnes & Noble, to WHSmith and Kobo. It began with an article on The Kernel about how Amazon sells incest, rape, and underage erotica in their online book stores. This is not mild content.

The story quickly spread through larger news channels to include virtually every major online retailer, though somehow, the Google Play Store escaped notice, despite having the exact same content. WHSmith, the respected online book seller, responded by shutting down their entire site to categorically remove all independent books until they could be verified “clean.” In case it’s back up by the time this article goes up, the image below is what a major site looks like when the universe implodes.
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FOI BONITA A FESTA

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Passada a feira, o que restou?

A festa foi bonita. A programação diversificada uma presença de público significativa. Não consegui acompanhar as atividades com os autores fora de feira, mas me consta que foram várias e bem recebidas pelo público. Também não consegui visitar os museus onde havia exposições de artistas brasileiros, mas também soube que estavam bonitas, bem organizadas e com presença de público.

A quantidade de traduções de autores brasileiros, principalmente – mas não exclusivamente – na Alemanha foi muito expressiva, e deve continuar ainda. Na medida em que continue o programa de bolsas de tradução. O programa da Amazon Crossings, anunciado já no final da feira, foi uma surpresa interessante. O braço editorial da Amazon já é a editora com mais títulos traduzidos para o inglês, sinal da determinação de Jeff Bezos de investir na área editorial, dando a volta na resistência de autores americanos e ingleses, temerosos da ausência de seus livros nas livrarias, seja nas grandes cadeias, seja nas livrarias independente. A Amazon afirma que distribui e distribuirá os títulos nas livrarias, mas isso vai depender da demanda dos leitores que por eles se interessarem e não quiserem aproveitar as facilidades para aquisição que o gigante do e-varejo oferece.

No âmbito mais geral, a palestra/entrevista coletiva de Markus Dohle, o chefão da Penguin Randon House foi muito significativa. Nada mais de guerras com a Amazon e os demais integradores de e-books, disse ele, mandando a pombinha da paz para Seattle. Afirmou a importância do livro impresso, notando a diminuição do crescimento dos e-books no mercado dos EUA e na Inglaterra. Mas ninguém sabe realmente qual será o destino das livrarias independentes, lá, aqui e alhures.

As duas empresas de rastreamento eletrônico de vendas, a GfK e a Nielson BookScan fizeram apresentações de seus produtos, com enfoques diferentes. É notável o fato do Brasil ser um dos poucos países onde as duas já rastreiam a venda de livros. Ambas faziam levantamento de um grande número de produtos vendidos no varejo, mas livros não.

A reduzida presença dos editores nessas apresentações pode ser explicada pelas agendas apertadas da Feira de Frankfurt, e estou curioso para ver quem estará presente na conferência que a GfK fará no começo de novembro, em S. Paulo, sobre as tendências de vendas no varejo, inclusive de livros. Continuo com a forte impressão de que os editores – e as livrarias – não compreendem a importância dos metadados e do tratamento estatístico das vendas. A riqueza dos dados para o planejamento estratégico e tático de vendas ainda não entrou realmente no campo de visão da indústria editorial brasileira, e a maioria das empresas ainda considera isso tudo como gasto e não como investimento. Vamos ver a evolução disso nos próximos meses.

O prof. Renato Lessa, presidente da Biblioteca Nacional, matizou mais a importância do programa de bolsas de tradução, afirmando sua boa relação “custo benefício”.

Mas…

Não há certeza de que o programa de promoção da literatura brasileira se firme como uma política pública. Ainda depende da vontade dos dirigentes da BN e do Ministério da Cultura.

Dois fatos foram significativos para mostrar a precariedade da situação.

O primeiro foi a ausência de dirigentes da nova Diretoria do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (aliás, nem sei mais qual o nome oficial da repartição) na Feira. Supostamente devem estar se preparando para assumir as ações que a Fundação Biblioteca Nacional, através de seu presidente, afirma não serem de sua alçada: presença nas feiras internacionais e ações outras da área. Já comentei que não se tem notícias da continuidade do programa de bolsas de residência para tradutores nem do intercâmbio dos escritores.

Era de se esperar que os novos diretores da DLLLB estivessem em Frankfurt, quando nada para participar da avaliação e ver como a coisa funciona. O professor Castilho, secretário executivo do PNLL – e usuário de outros chapéus, como o da ABEU e o da própria Fundação Editora da UNESP – estava lá, mas não os dirigentes dos seus meios de ação dentro do MinC.

E, nos jornais, já se fala que as programadas presenças do Brasil nas feiras de Bolonha e Paris, por exemplo, teriam restrições no âmbito do governo. Não se fez – ainda nem houve tempo para isso – uma avaliação sistemática dos resultados de Frankfurt, mas já se fala que sem dinheiro das editoras não se vai fazer mais nada significativo. Escrevi sobre isso e repito: as editoras não têm grande interesse na venda de direitos autorais. Já deveriam estar apostando mais na venda de livros de formato eletrônico para a grande diáspora brasileira, esses milhões de brasileiros espalhados pelo mundo, que podem ter acesso aos e-books, mas nem isso é levado a sério.

OS DISCURSOS

Comentei em outro post os discursos da abertura da Feira, e reitero minhas observações.

Cabe mencionar aqui o discurso do Paulo Lins na “transmissão do bastão”, no encerramento da Feira. Foi muito bonito e significativo. A distinção feita entre a constatação de que vivemos em uma sociedade racista – foi muito oportuna a menção que o Paulo Lins fez de o racismo ser uma constante no Brasil e nos países europeus – mas que a composição da lista dos escritores não refletiu nenhuma posição desse tipo, e sim expressou as “condições do mercado”.

“Tudo é mercado”, disse Paulo Lins. E, certamente, um dos critérios na elaboração da lista foi o posicionamento dos autores diante do mercado editorial. Seja por sua presença atual, seja no que os curadores consideraram como potencialidades de mercado. No mais, a análise da composição da lista necessariamente deve ter um toque panglossiano: é a melhor lista possível no mundo dos curadores. Outros fossem esses, a lista seria diferente. E sofreria a mesma crítica.

Tragédia e palhaçada foi a presença do Vice-Presidente Michel Temer. As gafes – grosserias – se sucederam. Depois de chamar Marta Suplicy de Ministra da Educação, Temer pespegou a presepada do discurso propriamente dito. Bem diz Paulo Lins que isso de querer bancar o poeta é algo perigoso.

Quanto ao discurso do Luís Rufatto, já o comentei e mantenho o que disse.

Mas acrescento duas observações.

A primeira sobre a reação das autoridades brasileiras, expressadas no comportamento do Temer e em comentários da Ministra da Cultura. Não entendi. A estrutura do discurso corresponde exatamente ao que o Lula sempre disse: depois de 500 anos de opressão “pela primeira vez na história desse país”, se fazia algo para mudar a condição da população mais pobre. Acho que deviam era faturar a coincidência do discurso do Rufatto com o do Lula, da Presidente Dilma e da propaganda oficial.

O segundo ponto a ser observado no discurso do escritor, e de forma negativa, foi o uso exclusivo da primeira pessoa do singular. É até compreensível que Rufatto quisesse destacar sua experiência pessoal. Mas é bom lembrar que essas angústias expressadas no discurso, a responsabilidade dos escritores diante de uma realidade angustiante, não é exclusividade dele.

A verdade é que a literatura brasileira contemporânea tem uma quantidade excessiva de escritores solipsistas. Fazem literatura de alto nível técnico, mas o que lhes importa é seu eu e sua experiência.

Rufatto faz parte de outra tendência, a dos escritores que olham o Brasil, se colocam dentro da nossa realidade para transcender a si e às suas experiências pessoais. Essa é a turma do Rufatto. Mas este, ao reduzir as suas preocupações ao nível individual, perdeu a oportunidade de afirmar que não está solitário, e que essa posição do escritor em um país no qual a expressão “capitalismo selvagem” não é uma metáfora, não se reduz a experiência individual, por mais dura que esta seja. Nem mesmo entre seus colegas de delegação. Muitos outros escritores e escritoras compartilham dessas preocupações, sejam lá quais forem suas trajetórias individuais, e o discurso na primeira pessoa do singular de certa forma perde força ao se esquecer disso. Até porque essa experiência da transcendência da literatura inclui os leitores e mobiliza forças muito mais profundas em nossa sociedade.

Mas a festa foi bonita.

Esperemos que não traga ressaca.

Frankfurt – ices 2 – O Pavilhão do Brasil estava bonito

Minha primeira impressão, no dia da inauguração, não foi muito boa. Era necessário entrar pelo lado, por uma porta (uma de cada lado, certo). E na minha cabeça uma exposição sobre o Brasil deveria estar escancarada desde o começo;

Quando voltei para visitar com mais detalhe, vi que o conceito estava funcionando. As “ilhas” boladas pela Daniela Thomas mostravam diferentes aproximações ao país. Havia pessoas lendo. A seção dos totens com personagens da literatura brasileira ficou bem bolada.

Eram totens com nomes de alguns dos personagens de livros formados por pilhas de impressos que apresentavam o livro, o personagem e um pequeno trecho da obra. Olhem o Policarpo Quaresma (infelizmente não consegui escanear a página inteira, pelo formato, mas dá para ver o conteúdo):

Texto do totem do Policarpo Quaresma
Texto do totem do Policarpo Quaresma

E outras fotos de totens:
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Os painéis sobre as várias facetas do país, com colagem de textos em uma face e, atrás, projeção de um filme/documentário, sempre baseados em textos literários: Metrópole, subúrbio, sertão, floresta, mar e terra também ficaram bonitos.

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As redes onde as pessoas escutavam arquivos sonoros:

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As tais “bicicletas” que faziam projetar documentários sobre vários aspectos da vida nacional. Nem sei se funcionavam só com a pedalada, mas todo mundo estava pedalando…

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Tinha até gente lendo…

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E, desculpem todos, mas não consegui manipular as fotos para evitar as distorções. Quando aprender, conserto…

Museu Gutenberg me faz virar artista gráfico – e outras Frankfurt – ices

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Desde as primeiras vezes que visitamos a Feira de Frankfurt, então pela falecida Marco Zero – Maria José Silveira, Márcio Souza e eu – sempre fizemos questão de visitar os outros pavilhões.

O simples percorrer toda aquela imensidão proporciona um panorama das tendências que a indústria editorial assume naquele ano. Além disso, os pavilhões de artes gráficas, de equipamentos (e hoje de softwares também) para editoras e livrarias, abriam nossos olhos para o que se faz de mais avançado na indústria editorial.

Este ano, quando visitei a feira como curador do Conexões Itaú Cultural – Mapeamento Internacional da Literatura Brasileira, não deixei de dar meu rolê pela feira.

No Pavilhão 4, das editoras alemãs, está também o estande do Museu Gutenberg, de Mainz, onde nosso patrono inventou a prensa com tipos móveis e desencadeou a criação da Galáxia que leva seu nome.

Ali sempre está uma réplica da prensa na qual imprimiu os primeiros livros, e um impressor vestido a caráter tira cópias de uma página da sua Bíblia usando a mesma tecnologia que ele usou.

Mas lá estão professores e aprendizes da escola de artes gráficas anexa ao Museu, demonstrando algumas técnicas. E hoje eu experimentei uma. O jovem coloca umas espécies de moldes sob uma folha de papel branco, e o candidato a artista gráfico usa rolos com tintas básicas para criar faixas por cima, de cada cor. Ressalta assim o molde do fundo com um padrão colorido.

Assim, graças ao Museu Gutenberg, hoje me qualifiquei como artista gráfico… É o que está no alto do post.

Fiquei orgulhosíssimo…

MOSTRA SIMPÁTICA

Uma das áreas do setor de artes gráficas e desliga da feira apresentou uma mostra de trabalhos de artistas brasileiros inspirados em livros e seus formatos – ou “desformatos” talvez. Algumas fotos.

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PAULO LINS TODO PIMPÃO

A Feira de Frankfurt prepara posts com fotos de autores presentes. O pai do primo da minha neta Ana, o único escritor negro presente, ficou todo pimpão na foto.

“Eu tinha tirado a foto, mas nem sabia para o que era”, me disse, com sua modéstia característica…

Olhem só.

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A abertura da feira – discursos

Em 1994, quando o Brasil foi pela primeira vez convidado de honra da Feira de Frankfurt, uma das críticas feitas foi a de que o orador oficial teve um péssimo desempenho. Foi Josué Montello, então presidente da ABL. Escolhido exatamente por ser uma alternativa institucional, para evitar polêmicas sobre que nome representaria melhor nosso país na ocasião.

Na verdade, foi uma escolha infeliz da Comissão Organizadora de então. Montello passou o tempo falando de suas leituras de Goethe e de como amava a cultura alemã.

Peter Weidhaas, que inventou esse formato atual da Feira de Frankfurt, no qual, a cada ano, um país ou um tema servia de pretexto para centralizar discussões, debater problemas, apontar rumos para a cultura, deixou claro em seu livro sobre a história da feira, “See you in Frankfurt”, que a escolha não fora adequada.

Este ano tivemos dois discursos excelentes de autores e uma palhaçada do Vice-Presidente Michel Temer.

Devo dizer aqui que sempre me sinto insultado quando brasileiros se apresentam com o discurso do país vira-lata, como dizia Nelson Rodrigues. Essa síndrome acomete personagens de todas as estirpes: políticos, jornalistas e também escritores, é claro. Mas me sinto igualmente ofendido e irritado com o discurso ufanista. Vade retro, Afonso Celso e epígonos.

Escrevo isso porque ecoam, na Internet e nos corredores da feira, até por quem não é ufanista, críticas ao discurso do Rufatto na abertura. Enquanto o escritor era ovacionado depois do discurso, já o Ziraldo se levantava gritando que não era para aplaudir, e que se ele, Rufatto, não gostasse do Brasil, que se mudasse.

Foi um discurso tão forte que o Michel Temer tentou responder no ato, deixando transparecer uma ameaça velada, ao comentar sobre a liberdade de expressão garantida em nosso país desde a redemocratização em um tom que queria assinalar que havia limites para isso.

Mas, o que disse o romancista?

Fundamental é lembrar a pergunta retórica inicial da fala: “o que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem não é uma metáfora?”

Essa a questão fundamental levantada pelo escritor e cidadão Luis Rufatto. Diz respeito a todos nós. O que significa ser cidadão em um país tão selvagem?

Em várias matérias publicadas por ocasião das comemorações dos 25 anos da Constituição de 1988 transpareceu, de modo evidente, que a cidadania não é usufruída plenamente por todos os brasileiros. Que direitos são negados. Que injustiças são cometidas cotidianamente. Que temos, em uma palavra, muito pela frente até podermos nos considerar um país minimamente justo. Rufatto nada mais fez que reafirmar isso. E foi importante que o fizesse. Não para desmerecer ou definir o Brasil. Muito pelo contrário. No caso, não fez mais que se integrar a uma honrosa tradição da nossa literatura, que é a de pensar o Brasil enquanto se está olhando de longe.

A história de 500 anos de iniquidade começa a se modificar, com todas as dores do parto. “A maior vitória da minha geração – diz ele no discurso – foi o estabelecimento da democracia. – são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na ultima década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para o ingresso nas universidades públicas.”

Rufatto tem uma história pessoal admirável. Nascido em família pobre, foi de pipoqueiro a operário antes de virar jornalista e escritor. E sua obra procura desvendar nosso país e o mundo ao seu redor a partir dessa inserção. Não está, ao contrário de tantos, à procura de seu próprio umbigo.

Diz ele: “Acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. […] Tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso nos deveria despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro – seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual – como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à sólidas e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso, escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de una utopia, eu sei, más me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora.”

Considerar esse discurso como sendo “contra o Brasil”, me desculpem, é não saber ler. Ou preferir ser do tipo de escritor que se alimenta do próprio umbigo.

Sou mais Rufatto.

O discurso da Ana Maria Machado, em tom muito diferente, condicionado também por sua posição oficial, não deixou de apontar as questões que deveriam afligir todos os escritores e todos os brasileiros. Diz ela aos ouvintes: “estejam certos que vão encontrar o reverberar dos problemas brasileiros nas obras de vários autores de percepção aguda. A sociedade e a política brasileira estão sempre nos rondando, por perto, por baixo do que se publica entre nós. Esse substrato político na escrita é uma dês nossas marcas. Em seu conjunto, nossos livros levantam indagações, reflexões, diálogos críticos com o real, hipóteses do imaginário, a partir de fatos do nosso cotidiano e de sabores por eles despertados em cada um de nós.”

Infelizmente, há também os que pretendem, ou fingem, escrever em um mundo imaginário que tem como única referência o próprio umbigo. Boa companhia lhes fará Paulo Coelho e outros do imaginado Parnaso da autoindulgencia.

A nota de rodapé patética foi o discurso do Temer. Coitado. Não merece mais que isso.

Felizmente para honra de nossa participação como Convidados de Honra da Feira de Livros de Frankfurt, os dois escritores fizeram uma bela homenagem à literatura e seu poder transformador.

Fogos de artifício pré Frankfurt

No período imediatamente anterior à inauguração da Feira de Frankfurt, na qual este ano o Brasil será o país homenageado, sempre se ouvem críticas, e as manifestações diversas de incompreensão e oportunismo.

É claro que críticas são legítimas, e longe de mim ser contra quem critica. Mas uma coisa é reconhecer o direito de crítica e outra é achar que qualquer uma é válida. Principalmente quando são feitas por personagens de renome que usam de sua posição para coloca-las sem uma justificativa arrazoada. No mundo acadêmico isso é conhecido como usar o critério de autoridade para validar o que se fala. Abdica-se, na verdade, da análise e da demonstração dos fatos para expressar opiniões de caráter estritamente pessoal que nem sempre estão fundados na realidade.

Dessa maneira se constroem pseudo argumentos de caráter estritamente ideológico, ou que simplesmente escondem estratégias de marketing pessoal.

São exemplos disso dois acontecimentos desse final de semana pré Frankfurt.

O primeiro protagonizado pelo nosso mago titular, autor que vende milhões de exemplares de livros pelo mundo todo e, para muitos, é epítome do escritor brasileiro bem sucedido. Paulo Coelho declinou de participar da delegação “oficial” de escritores brasileiros convidados, alegando que autores de sucesso popular não haviam sido convidados.

Com isso, viu gastar muita tinta para expor e comentar as virulentas críticas feitas ao governo brasileiro e à Biblioteca Nacional. Nem vou entrar no mérito dessas críticas. Concordo com algumas delas e discordo de outras.

Mas o que está evidente no pseudo ex-abrupto do mago não são as críticas. Trata-se mais de uma operação de marketing, como tantas outras que ele já fez. Observem que ele mesmo criou “furos”. A entrevista deveria ser publicada no domingo na Alemanha, mas Paulo Coelho providenciou traduções da mesma em inglês e português para divulgação seletiva e escalonada do conteúdo pelos jornais do mundo afora, e particularmente no Brasil. Note-se que o fato de ser escalonada também faz parte da operação de marketing. A entrevista foi enviada com embargo de data para vários meios, enquanto outros a receberam sem essa advertência. Ou seja, ele criou “furos” artificiais entre vários meios de imprensa, com o singelo objetivo de fazer render mais a notícia. É claro que pediu desculpas aos embargados-furados depois. Fácil.

Vários dos autores que Peter Rabbit mencionou também estarão lá na feira. A convite de seus editores. Que sabem muito bem que a Feira de Livros de Frankfurt, além – repito, além – do lado cultural, é uma feira de negócios editoriais. E os editores aproveitam a oportunidade para colocar seus autores. Como sempre fizeram e continuarão fazendo caso o governo desista de apoiar a presença de um estande brasileiro, nesta e em outras. Normal.

Além da manipulação, nosso Peter Rabbit “desenfatizou” – para não dizer ocultou, o fato de que estará na Feira, cumprindo os compromissos marcados com suas editoras. E ainda deixou o MinC na defensiva. O resultado foi conseguir uma exposição ainda maior que teria – e que certamente já seria enorme – às custas de criticar a bendita lista de convidados.

Faço questão de repetir aqui. Fosse eu quem organizasse a lista, provavelmente usaria outros critérios e escolheria outros autores. Na minha opinião, por qualquer critério adotado, a lista tem omissões difíceis de entender. Mas, fosse minha a lista, ou fosse a de qualquer outra pessoa, grupo ou coletivo que a organizasse, as críticas, em qualquer caso, são inevitáveis. Pois não há
não há como evitar: quem foi escolhido acha isso simplesmente natural e merecido, e quem não foi se considera vítimas de complôs e panelinhas. Assim caminha a humanidade, per omnia omnia secula.

Mas devo dizer que esse fuzuê todo é mais uma amostra da imensa capacidade do mago de se promover, e não é à toa que tratamos de um dos escritores mais vendidos do mundo. No mercado editorial, quem não se promove não vende. Pode conseguir glória crítica e literária, mas para vender tem que mercadejar muito. E nisso Paulo Coelho é, sem nenhuma dúvida, nosso gênio particular.

Outro tipo de crítica é a que foi expressa – não pela primeira vez – pelo jornalista Élio Gaspari em sua coluna dominical n’O Globo. Eventos como o de Frankfurt são apenas oportunidade para mandriões mamarem nas tetas da vaca estatal, segundo ele. E que se alguém tem que tratar da divulgação da literatura brasileira no exterior, que sejam os próprios autores e seus editores.

É uma posição política e ideológica da qual discordo frontalmente. Essa critica do sr. Élio Gaspari confunde os negócios editoriais com a projeção da cultura brasileira (não e
apenas literária, mas em todas suas formas). Como diria nosso prezado Conselheiro Acácio, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Os editores vendem eventualmente alguns autores por questão de prestígio, e aproveitam o fato de comprar muitos direitos internacionais para empurrar um que outro de seus editados.

A literatura brasileira não se apresenta com mais força no concerto universal das ideias simplesmente porque o português é um idioma que está em um gueto: somos nós, os portugueses e a camada de cima da elite dos chamados PALOPs – Países de Língua Oficial Portuguesa. A predominância do inglês é avassaladora e nossas condições de trocas nessa imperfeitíssima República Mundial das Letras é extremamente desigual

Essa atitude, na minha opinião, combina duas posições ideológicas dominantes no pensamento contemporâneo: o culto ao deus mercado e a louvação da dita iniciativa privada.

Mas, no fundo, é também uma manifestação contemporâneo daquele famoso espírito de vira-latas cunhado por Nelson Rodrigues.

FRANKFURT VEM AÍ

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Na próxima semana acontecerá a Feira de Livros de Frankfurt, o maior evento mundial da indústria editorial, e na qual o Brasil será, pela segunda vez o país Convidado de Honra.

Há dois anos escrevi uma série de posts sobre a primeira experiência do gênero, em 1994, quando fui um dos participantes da organização. Não vou voltar sobre o tema, e muito menos sobre o conteúdo da programação deste ano. Tenho certeza de que será uma bela festa, com muito espaço na imprensa europeia, tanto para os autores presentes quanto para os demais eventos paralelos.

A minha preocupação continua sendo o pós feira. Com o risco de parecer redundante e cansativo, volto ao essencial: o esforço só vale a pena se estiver no contexto de uma política continuada – “de Estado”, como virou moda dizer – de difusão da cultura brasileira no exterior. Não apenas de nossa literatura e de nossos escritores, mas da cultura brasileira, vista inclusive na perspectiva de desenvolvimento do tal “soft power” do qual tanto se tem falado.

Nos últimos dois anos muito se fez na criação de condições para o aumento da presença da nossa literatura e de nossos autores – que não são necessariamente literários, pois livros são escritos sobre tudo – no exterior. O programa de bolsas da Fundação Biblioteca Nacional é um bom exemplo disso.
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