AMAZON TENTA ATRAIR LIVRARIAS INDEPENDENTES – VENDENDO GUILHOTINAS?

A Amazon lançou dia 6 de novembro passado o programa Amazon Source, através do qual livrarias e outras lojas de varejo podem vender toda a linha Kindle (e-readers e tablets), além de acessórios, e em troca recebem 10% das vendas de livros feitas através desses aparelhos por um período de dois anos.

Na verdade o programa tem dois formatos: encomendar Kindles com 9% der desconto do preço oficial e 35% dos acessórios, ou receber 6% de desconto nos aparelhos e 30% nos acessórios e ganhar os tais 10% sobre as vendas de livros. Não conheço os porcentuais, mas essa segunda opção parece ser a existente aqui no Brasil, onde os leitores Kindle podem ser adquiridos na Livraria da Vila e no Ponto Frio.

Segundo Russ Grandinetti, Vice-Presidente da Amazon para o Kindle, citado pelo Publishers Weekly, o programa resulta do sucesso da experiência com a rede Waterstones, do Reino Unido, iniciado há dois anos. O Amazon Source foi testado com duas livrarias localizadas perto de sua sede em Seattle – a livraria do campus da University of Puget Sound, e uma livraria independente, JJ Books. Ambas, é claro, afirmaram no press release da Amazon que estavam felicíssimas com o acordo.

Mas a reação dos livreiros independentes do resto do país foi majoritariamente negativa. A newsletter da Publishers Weekly, a revista do mercado editorial dos EUA, diz que “centenas de livrarias já se apresentaram para participar do programa”, mas não cita nenhuma declaração destas.

Ao contrário, todos os entrevistados pela PW declaram não desejar participar do Amazon Source. Desde Oren Teicher, que é o executivo da ABA – American Booksellers Association – e Steve Bercu, atual presidente da entidade, até livreiros independentes conhecidos, como Roxanne Coady e Richard Howorth, da Square Books, de Oxford, no Missouri (a terra de Faulkner). “Maria Antonieta pode gostar de entrar no negócio de vender guilhotinas, mas nós não”, disse Dick Howorth, que foi presidente da ABA.

(Howorth esteve no Brasil em um encontro de editores e livreiros da CBL e contou que Jeff Bezos fez o curso de formação de livreiros da ABA, no qual ele era professor. “Se eu soubesse por que ele estava aprendendo…”, lembrou Howorth durante o encontro).

As livrarias independentes (e a Barnes & Noble também) boicotam e não estocam livros dos programas editoriais da Amazon, e sdó aceitam encomendas de seus clientes. A varejista gigante paerece começar a sentir que sua ausência do mundo das lojas “de cimento e tijolo” é um problema.

Para agravar a questão, o site Source Web, segundo a PW, descobriu que a escolha não é uma opção simples para os livreiros. A Amazon tem uma longa história de luta contra o pagamento de impostos por suas operações na Internet. Assim, nos estados onde a empresa recolhe impostos, a única opção para os livreiros é a de receber a comissão pela venda dos aparelhos, mas não a que inclui a comissão sobre os livros vendidos.

E-BOOKS E A SOBREVIVÊNCIA DAS LIVRARIAS

O problema é que o e-commerce, e em particular os e-books, são uma ameaça muito real para a existência das livrarias independentes, principalmente nos EUA. Mesmo aqui no Brasil, recente pesquisa sobre hábitos de consumo feito pela GfK constatou que quase um terço do público pesquisado declarou preferir comprar livros pelo comércio eletrônico.

Dessa maneira, estabelecer sistemas de e-commerce passou a ser uma necessidade premente para as livrarias. As grandes cadeias brasileiras (Saraiva, Livrarias Curitiba, Cultura) e outras menores, concorrem com Submarino, Lojas Americanas e um número crescente de outros varejistas que montam livrarias online (o Magazine Luísa está em vias de inaugurar a sua).

Mas além da venda de livros impressos online, o aumento do segmento de e-books apresenta um desafio adicional. A grande façanha da Amazon foi montar um sistema que praticamente “prende” o consumidor. Dentro da Amazon – particularmente nos EUA – é possível comprar praticamente de tudo. Mas a coisa funciona porque a informática montada pela varejista cerca o consumidor-leitor por todos os lados. Basta fazer uma consulta para que se seja bombardeado por e-mails com ofertas de “livros semelhantes”, ou “quem comprou este livro também comprou esses outros”. Eu recebo pelo menos meia dúzia de e-mails diários, e não tenho coragem de bloquear a empresa, pois aí fico sem acompanhar meus próprios pedidos. Sim, sou cliente da Amazon desde que a empresa foi fundada.

A Kobo, talvez a única rival significativa da Amazon, ofereceu há dois anos um acordo para a ABA, pagando comissão sobre a venda de aparelhos e de livros, sem limitação de tempo: enquanto as compras forem feitas nos leitores vendidos nas livrarias, esta recebe a comissão sobre os livros vendidos.

A adesão das livrarias independentes ao programa da Kobo, nos EUA, foi grande, embora não haja declarações de livrarias que tenham conseguido receber quantias significativas através dele. Mas a adesão também tem um caráter ideológico: a Amazon é considerada arqui-inimiga dos livreiros e a Kobo uma alternativa para refrear seu crescimento.

No Brasil, entretanto, a Kobo optou por fazer um acordo exclusivamente com a Livraria Cultura. Ao que eu saiba, nem chegou a procurar a ANL para propor algo do gênero. Talvez isso tenha a ver com a fragilidade do comércio eletrônico das livrarias brasileiras, em relação às quais a Cultura oferece um contraste marcante.

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