Fogos de artifício pré Frankfurt

No período imediatamente anterior à inauguração da Feira de Frankfurt, na qual este ano o Brasil será o país homenageado, sempre se ouvem críticas, e as manifestações diversas de incompreensão e oportunismo.

É claro que críticas são legítimas, e longe de mim ser contra quem critica. Mas uma coisa é reconhecer o direito de crítica e outra é achar que qualquer uma é válida. Principalmente quando são feitas por personagens de renome que usam de sua posição para coloca-las sem uma justificativa arrazoada. No mundo acadêmico isso é conhecido como usar o critério de autoridade para validar o que se fala. Abdica-se, na verdade, da análise e da demonstração dos fatos para expressar opiniões de caráter estritamente pessoal que nem sempre estão fundados na realidade.

Dessa maneira se constroem pseudo argumentos de caráter estritamente ideológico, ou que simplesmente escondem estratégias de marketing pessoal.

São exemplos disso dois acontecimentos desse final de semana pré Frankfurt.

O primeiro protagonizado pelo nosso mago titular, autor que vende milhões de exemplares de livros pelo mundo todo e, para muitos, é epítome do escritor brasileiro bem sucedido. Paulo Coelho declinou de participar da delegação “oficial” de escritores brasileiros convidados, alegando que autores de sucesso popular não haviam sido convidados.

Com isso, viu gastar muita tinta para expor e comentar as virulentas críticas feitas ao governo brasileiro e à Biblioteca Nacional. Nem vou entrar no mérito dessas críticas. Concordo com algumas delas e discordo de outras.

Mas o que está evidente no pseudo ex-abrupto do mago não são as críticas. Trata-se mais de uma operação de marketing, como tantas outras que ele já fez. Observem que ele mesmo criou “furos”. A entrevista deveria ser publicada no domingo na Alemanha, mas Paulo Coelho providenciou traduções da mesma em inglês e português para divulgação seletiva e escalonada do conteúdo pelos jornais do mundo afora, e particularmente no Brasil. Note-se que o fato de ser escalonada também faz parte da operação de marketing. A entrevista foi enviada com embargo de data para vários meios, enquanto outros a receberam sem essa advertência. Ou seja, ele criou “furos” artificiais entre vários meios de imprensa, com o singelo objetivo de fazer render mais a notícia. É claro que pediu desculpas aos embargados-furados depois. Fácil.

Vários dos autores que Peter Rabbit mencionou também estarão lá na feira. A convite de seus editores. Que sabem muito bem que a Feira de Livros de Frankfurt, além – repito, além – do lado cultural, é uma feira de negócios editoriais. E os editores aproveitam a oportunidade para colocar seus autores. Como sempre fizeram e continuarão fazendo caso o governo desista de apoiar a presença de um estande brasileiro, nesta e em outras. Normal.

Além da manipulação, nosso Peter Rabbit “desenfatizou” – para não dizer ocultou, o fato de que estará na Feira, cumprindo os compromissos marcados com suas editoras. E ainda deixou o MinC na defensiva. O resultado foi conseguir uma exposição ainda maior que teria – e que certamente já seria enorme – às custas de criticar a bendita lista de convidados.

Faço questão de repetir aqui. Fosse eu quem organizasse a lista, provavelmente usaria outros critérios e escolheria outros autores. Na minha opinião, por qualquer critério adotado, a lista tem omissões difíceis de entender. Mas, fosse minha a lista, ou fosse a de qualquer outra pessoa, grupo ou coletivo que a organizasse, as críticas, em qualquer caso, são inevitáveis. Pois não há
não há como evitar: quem foi escolhido acha isso simplesmente natural e merecido, e quem não foi se considera vítimas de complôs e panelinhas. Assim caminha a humanidade, per omnia omnia secula.

Mas devo dizer que esse fuzuê todo é mais uma amostra da imensa capacidade do mago de se promover, e não é à toa que tratamos de um dos escritores mais vendidos do mundo. No mercado editorial, quem não se promove não vende. Pode conseguir glória crítica e literária, mas para vender tem que mercadejar muito. E nisso Paulo Coelho é, sem nenhuma dúvida, nosso gênio particular.

Outro tipo de crítica é a que foi expressa – não pela primeira vez – pelo jornalista Élio Gaspari em sua coluna dominical n’O Globo. Eventos como o de Frankfurt são apenas oportunidade para mandriões mamarem nas tetas da vaca estatal, segundo ele. E que se alguém tem que tratar da divulgação da literatura brasileira no exterior, que sejam os próprios autores e seus editores.

É uma posição política e ideológica da qual discordo frontalmente. Essa critica do sr. Élio Gaspari confunde os negócios editoriais com a projeção da cultura brasileira (não e
apenas literária, mas em todas suas formas). Como diria nosso prezado Conselheiro Acácio, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Os editores vendem eventualmente alguns autores por questão de prestígio, e aproveitam o fato de comprar muitos direitos internacionais para empurrar um que outro de seus editados.

A literatura brasileira não se apresenta com mais força no concerto universal das ideias simplesmente porque o português é um idioma que está em um gueto: somos nós, os portugueses e a camada de cima da elite dos chamados PALOPs – Países de Língua Oficial Portuguesa. A predominância do inglês é avassaladora e nossas condições de trocas nessa imperfeitíssima República Mundial das Letras é extremamente desigual

Essa atitude, na minha opinião, combina duas posições ideológicas dominantes no pensamento contemporâneo: o culto ao deus mercado e a louvação da dita iniciativa privada.

Mas, no fundo, é também uma manifestação contemporâneo daquele famoso espírito de vira-latas cunhado por Nelson Rodrigues.

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