FLICRISTINA, FESTIVAL DE LITERATURA NO SUL DE MINAS

O Estandarte da FLICRISTINA

Na gestão do Galeno Amorim na Biblioteca Nacional, foi feito um levantamento de quantas feiras e festivais literários existiam no país, de modo a dimensionar o programa de apoio a essas iniciativas, com recursos do Fundo Nacional de Cultura. Galeno deixou a presidência da BN em 2013, mas até 2014 foi lançado o edital convocando inscrições para o problema.

Tudo isso, desde então, foi desaparecendo, e se esvai na fumaça do tempo.

Infelizmente perdi a tabela com os dados levantados. Mas lembro que estavam na casa das centenas, espalhados por todo o Brasil, com o maior número delas no Rio Grande do Sul.
Felizmente, entretanto, apesar desse descaso para com essas importantíssimas atividades de apoio ao livro e à leitura, as pequenas feiras e festivais continuam florescendo no que é o Brasil (enquanto o Bananão assume tantos outros aspectos desse antigo país). Não apenas as grandes manifestações, como a FLIP, mas também as pequenas e médias. Infelizmente, algumas terminaram, como o Festival da Mantiqueira, exterminado pela própria entidade que o criou, a Secretaria de Estado da Cultura de S. Paulo.

A FLICRISTINA é uma dessas que nasceu e continua depois da extinção desse programa. Começa na noite desta quarta-feira e prossegue até domingo.

Sexta-feira à tarde estarei lá, conversando com o público sobre Leitura e Mercado Editorial. É um tema recorrente no que escrevo: a importância dos autores do mercado editorial (editores, distribuidores, vendedores do porta-a-porta e livreiros) na difusão do hábito da leitura em nosso país. A programação da FLICRISTINA está aqui:

Ninil Gonçalves, promove o Festival junto com sua irmã Rai Gonçalves. Ninil é fotógrafo, e eu e a maria José Silveira o conhecemos quando ele veio fotografá-la para um projeto que desenvolve, de retratar os autores em seu ambiente de trabalho. Produziu um livro sobre Cristina, sua cidade natal.

Sua irmã, Rai Gonçalves, tem uma cafeteria na cidade, e é uma batalhadora pelo fortalecimento da vida cultural em Cristina. A cidade está no Sul de Minas, na área que abrange Itajubá, Delfim Moreira, Santa Rita do Sapucaí e outras. É uma região produtora de cafés finos, alguns dos quais já foram classificados como entre os melhores do mundo.

A história da iniciativa de Ninil e Rai é contada pelo próprio Ninil, no texto abaixo:

“Pequena História da Flicristina
A Flicristina foi idealizada há 3 anos atrás pelos irmãos Ninil Gonçalves e Rai Gonçalves numa conversa sobre a falta de opção em Cristina para aqueles que gostam de literatura e precisam de um espaço para desenvolver tais diálogos. A ideia inicial era fazer algo como um pequeno “café com Letras” ou Café filosófico” na cafeteria que a Rai tinha acabado de abrir na praça Santo Antonio e num sábado fazer alguns diálogos com professores universitários que conhecemos. Essa necessidade também se deu por motivos relacionados ao passado. Somos de uma família de avós e pais trabalhadores rurais e todos analfabetos. Nunca tivemos livros em casa. Rompemos com o analfabetismo e começamos a encher a casa de livros. Hoje todos os irmãos são professores e essa relação com a Educação nos conduziu a rever essas questões do passado e tentar fazer algo que levasse a literatura a muitos que não têm contato com ela e a Educação se tornou a bandeira da feira. Não tínhamos ideia que aquele pequenino “café com letras” se tornaria uma feira. Talvez a forma artesanal e o projeto sem fins lucrativos tenham conquistado alguns corações que nos apoiaram. Essa parceria e o trabalho coletivo é que dá sentido à feira, tudo isso voltado para formação de leitores e disseminação da literatura como ferramenta transformadora do mundo, pelo menos ao redor de nós, se possível. A Flicristina continuará com essa intencionalidade de ter a Educação como carro-chefe da feira e também na divulgação de trabalhos de autores da região e obviamente trazer os grandes autores para legitimar a grandiosidade transformadora da literatura. A secretaria de Educação da gestão anterior apoiou e possibilitou o crescimento da Flicristina. O mesmo aconteceu com a secretaria de Educação atual, que não poupou esforços para que a feira se tornasse ainda melhor. A secretaria conseguiu reunir as professoras e todos os alunos da cidade para participarem da feira, inclusive da zona rural. Isso traz uma felicidade imensa aos organizadores porque esse é o espírito da feira: levar a literatura a todos. A prefeitura da cidade está nos apoiando de todas as formas possíveis. Essa participação do poder público mostra o quanto a gestão atual é responsável em relação à Educação e isso nos anima a ter um empenho ainda mais intenso. Realmente não é fácil organizar uma feira literária, pois os problemas são 10 vezes maiores que as soluções, mas criamos isso e somos responsáveis pelo que ela tem a oferecer a todos. Estamos empenhados em fazer o melhor para todos os participantes e visitantes. Pedimos desculpas por qualquer deslize ou erro. Os organizadores agradecem de coração a todos os envolvidos, direta e indiretamente na luta, que é de todos e para todos”.

Vou para Cristina e para a FLICRISTINA.

Aproveite o feriadão e vá também!

O “censo” do Livro Digital

Cortesia da Simplíssimo

A divulgação do “Censo do Livro Digital”, pesquisa feita pela FIPE, sob encomenda da CBL e do SNEL, suscitou muitas reações, como previsível. Algumas bastante irritadas pela ausência do que, evidentemente, são dois componentes importantíssimos desse mercado: os dados da Amazon e os dos chamados autores auto publicados. Estes, por sua vez, em parte abrigados na própria Amazon, através do programa KDP; outros, por conta própria ou através de agregadoras, que publicam tanto livros impressos quanto e-books, seja por encomenda, seja com a contribuição de autores.
Os dados da Amazon relativos às editoras tradicionais não são tão importantes, já que, em princípio, estas informaram o quanto venderam por este canal, assim como pelas outras empresas que vendem livros eletrônicos – Kobo, Google, Apple iTunes, Saraiva, Cultura, etc.

Essa pesquisa, tal como a de produção e vendas do mercado editorial, não se propõe a verificar o total das vendas no varejo.

Explico. Na produção e vendas de livros impressos, as editoras informam o quando produziram e venderam naquele ano determinado. Ora, o varejo trabalha também com estoques de livros produzidos em outros anos e já comprados (supõe-se que as vendas de reposições no ano sejam informadas pelas editoras). Nesse sentido, o livro digital leva uma vantagem de precisão, já que não existe estoque. Os varejistas faturam e pagam apenas os livros vendidos. O problema óbvio é que a Amazon, dominante nesse mercado, não fornece nenhum dado.

Isso mostra um problema constante a quem analisa dados de pesquisa. É preciso ter clareza sobre o que está sendo perguntado e respondido. Se a pesquisa for tecnicamente bem-feita, ela responderá (por amostragem) aquilo que foi perguntado. NUNCA é um retrato total do objeto pesquisado.

Analogamente, as pesquisas do tipo das feitas pela Nielsen e pela GfK, que detalham a movimentação dos pontos de venda, revelam um determinado tipo de realidade do varejo, e não outras. Não respondem, por exemplo, pelas vendas feitas diretamente pelas editoras aos governos e outras instituições do gênero (por exemplo, as compras de livros infantis eventualmente feitas pelo Itaú e por outros programas similares, ou pelas escolas, etc.). E estão restritas aos varejistas que aceitaram pagar pela implantação do software da Nielsen ou da GfK em seus pontos de venda.

Desse modo, temos que considerar, em primeiro lugar, o que foi perguntado e a quem.

O tal censo (que não é censo, exatamente porque não abarca todo o universo, e a palavra só é usada, pela FIPE e por seus financiadores, como um instrumento de mercado, para sugerir uma abrangência e precisão que simplesmente não existe), perguntou, a uma amostra, selecionada com critérios especificados (mas não divulgados na apresentação), quantos e-books foram vendidos e qual o faturamento obtido por isso.

A GfK, empresa alemã que faz um trabalho de pesquisa no varejo basicamente semelhante ao da Nielsen, inclusive o Nielsen BookScan (tanto uma como outra pesquisam vários tipos de produtos), publicou em março passado um survey, feito online, em dezessete países, sobre a frequência de leitura online de livros. Na descrição (em inglês), dos objetivos do levantamento, a GfK declara: “A GfK entrevistou, no verão de 2016 [no hemisfério norte, suponho], mais de 22.000 consumidores com idade igual ou superior a 15 anos, online, em 17 países. Os dados foram ponderados para refletir a composição demográfica da população online em cada mercado”.

Ou seja, a descrição expõe as condicionantes: idade igual ou superior a 15 anos dos pesquisados, ponderados para refletir a população online de cada mercado. Vejam bem, não se tratava da população total de cada país, e sim da chamada “população online”, o que supõe outra pesquisa (não divulgada no mesmo local), que mostraria o percentual da população total que a GfK considera como online.

E a pesquisa (que não vou comentar aqui em detalhes) mostra exatamente isso. Quem quiser vê-la pode acessar aqui .

Só para informação, a pesquisa mostra que 26% da população online brasileira lê e-books todos os dias. Mais 27% lê pelo menos uma vez por semana e apenas 6% nunca lê.

Evidentemente, esses dados, que parecem muito promissores, dependem de que se conheça qual é essa população online e mostram tão somente a frequência de leitura. Não indicam quantos títulos são lidos e muito menos a origem do que é lido (comprados, emprestados, pirateados, clubes de assinatura, etc.), o valor de mercado que isso representa, nem que tipos de livros são lidos.

Vejamos como foi feita a pesquisa FIPE-CBL/SNEL.

Continue lendo O “censo” do Livro Digital

ABRALIC, A UNIVERSIDADE EM PERIGO E A LITERATURA BRASILEIRA

Semana passada estive no Rio de Janeiro participando da XV Reunião da ABRALIC – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LITERATURA COMPARADA, que aconteceu no campus da UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Mesa sobre as dificuldades da difusão da literatura brasileira na ABRALIC – 2017 (#UERJ resiste)

Foi um encontro admirável. A UERJ é o alvo, a ponta de lança da tentativa de desmonte da universidade pública brasileira, empreendida pelos usurpadores que perpetraram o golpe de estado parlamentar-judiciário que nos atinge hoje. É a primeira vítima, por conta da calamitosa situação do estado do Rio de Janeiro, unidade da Federação que foi amplamente beneficiada por investimentos públicos e privados nos últimos anos: a indústria naval renascida (e agora destruída, passando de 80.000 trabalhadores para menos de 20.000); os investimentos urbanos em função da Copa do Mundo e das Olimpíadas, o transporte urbano, entre outros. O funcionalismo do Rio de Janeiro está há meses sem receber os salários, exceção, é claro, das forças de segurança, reconhecidamente mal treinadas e estupidamente brutais daquele estado, mas que garantem o mínimo de proteção para o governo, e que contam agora, com o emprego a contragosto de um contingente de forças federais. A UERJ está sem contrato de manutenção, limpeza e segurança há quase um ano, e professores e funcionários estão com os salários atrasados há quatro meses, além de não terem recebido o 13º salário.

Diante dessa situação, o esforço que esses professores e funcionários, com a participação dos alunos (quase duzentos monitores voluntários) fizeram para organizar e executar um evento de grande porte, com convidados nacionais e estrangeiros foi simplesmente monumental. A UERJ resiste ao descalabro, a duras penas e com grandes sacrifícios.

ABRALIC, como já disse, é a associação que reúne professores e especialistas em literatura comparada. E é isso que a faz importante para a nossa literatura e, por extensão, ao mercado editorial. A mesa da qual fiz parte tratava, precisamente, das dificuldades de expansão internacional da literatura brasileira.

Comparar os diferentes aspectos da literatura significa, precisamente, entender as relações do que os nossos escritores produzem vis-à-vis o que é produzido nesse grande concerto que é a República Mundial das Letras. Como nossa literatura se confronta e contribui para esse diálogo civilizatório – essencial para o entendimento entre os povos – que se expressa através da produção literária.

A difusão da literatura brasileira no exterior enfrenta enormes dificuldades. E isso tem a ver com a nossa indústria editorial.

Continue lendo ABRALIC, A UNIVERSIDADE EM PERIGO E A LITERATURA BRASILEIRA

AMAZON CHARTS – UMA LISTA COM NOVO FORMATO

A loja dos EUA da Amazon lançou, nesta semana, uma lista dos “mais vendidos e mais lidos”, que será renovada semanalmente.

O lançamento foi geralmente bem recebido pelos editores (os livreiros, ao que eu saiba, não se manifestaram até o momento em que escrevia este post).

No dia em que a notícia foi divulgada (18 de maio) perguntei à Amazon.br se a iniciativa também seria adotada pela loja brasileira. A resposta foi não, como também não havia previsão disso acontecer aqui.

Listas de “mais vendidos” (nunca vi uma lista de “mais lidos” antes) são uma presença constante nos jornais, e uma disputa permanente nas editoras para aparecer nelas. Não é à toa. Aparecer em uma das listas aumenta imediatamente a procura dos livros nos pontos de venda. Os leitores de cada meio (como detesto vários desses meios, não dou o nome de nenhum) se guiam pelo que essas listas revelam. E, como qualquer um pode verificar, as listas nem sempre são coincidentes entre si, em todos os títulos.

A resposta para essa questão é decorrente do método como é elaborada cada lista.

Lá pelos anos setenta e oitenta, quando essa onda se espalhou por aqui, a mídia perguntava quais eram os mais vendidos a um número de livrarias selecionadas por ela mesma, geralmente concentradas no eixo Rio-São Paulo (com ênfase maior na cidade onde se situava o jornal ou revista), e as livrarias mandavam suas respostas.

A janela de manipulação era óbvia, não tardou muito a ser descoberta, e a mídia procurou meios de verificar isso com métodos de pesquisa na porta das lojas. Não havia nenhuma estatística metódica nisso tudo, e assim foram aparecendo listas para todos os gostos. O grande questionamento vinha exatamente da opacidade da formação dessas listas, sem critérios específicos para determinar quais lojas forneceriam a informação. Hoje, vários jornais e revistas deixaram de publicar qualquer lista.

Em alguns países, a informação é dada pelas editoras, diretamente. Aí a questão é de outra ordem. “Vendas” de editoras às livrarias e distribuidoras não significa que os livros terminem vendidos ao público. Em alguns casos (como o brasileiro), muitas saídas das editoras são em consignação. Em outros, como os EUA, praticamente todas as vendas são com direito a devolução, e há muito essa é uma preocupação do mercado editorial, pois há casos que os retornos são altos demais. A tentativa de remediar isso, às vezes, é fazer uma checagem com outras fontes, como as próprias livrarias e o BookScan ou o sistema similar que a GfK tem em outros países.

Quando a PublishNews começou a elaborar sua lista, aperfeiçoou o mecanismo de pesquisa, ainda com consulta às livrarias, embora ampliando.  A metodologia explicitada está aqui. Mais tarde, passaram a elaborar, desta vez junto com a Nielsen, Lista Nielsen PublishNews que apura só os autores nacionais.

Existe também listas e informações compiladas através da Nielsen BookScan, um mecanismo que registra a venda de cada exemplar na caixa do varejista. Isso foi explicitado desde o começo. O problema central dessa lista é o fato do BookScan não cobrir as livrarias independentes, o que vale também para as análises de exemplares vendidos e faturamento que são mensalmente divulgados em parceria com o SNEL. Entretanto, na questão “transparência”, a Nielsen BookScan não informa que livrarias ou redes estão fornecendo os dados.  Informação posterior da Nielsen à PublishNews diz que são coletados dados dos seguintes varejistas: Livraria Cultura, Livrarias Curitiba, Livraria Leitura, Saraiva, FNAC, Shoptime, Americanas, Cia dos Livros, Amazon, Submarino, Livraria da Vila, Nobel, Disal, CNova, Escariz, Grupo Pão de Açúcar, Walmart, Coop, Big, Supermercados Imperatriz, Nacional, Carrefour, Extrabom, Mercadorama, Angeloni e Bom Preço.

O argumento usado é que as livrarias (cadeias, supermercados e grandes varejistas online, exceto a própria Amazon) que usam o BookScan cobrem a maioria do mercado. É verdade. Mas o que deixa de fora é o registro da bibliodiversidade da produção editorial, que se concentra principalmente nas pequenas e médias editoras. Isso pode não prejudicar uma apreciação dos “mais vendidos”, mas não deixa de ser um buraco negro de interrogações.

O importante, sempre, é saber qual o escopo abrangido por listas, pesquisas, etc.

Dito isso, voltemos à Amazon Chart.

Continue lendo AMAZON CHARTS – UMA LISTA COM NOVO FORMATO

MEC IRÁ MODIFICAR O PNBE – PARA PIOR

Notícia desta quarta-feira 10 de maio no PublishNews anuncia que o MEC, através do FNDE, estuda a retomada do Programa de Biblioteca nas Escolas, mas com modificações.

Segundo a notícia, o FNDE constatou a subutilização de livros nas salas de aula, e irá propor modificações para enviar livros diretamente aos alunos – tal como no PNBE – e “que as compras estariam alinhadas aos conteúdos da BNCC”.

Ora, se os livros estão subutilizados, cabe ao MEC desenvolver, ou estimular, programas de formação de professores para seu uso. Induzir os municípios a cumprir a legislação (quase uma declaração de boa vontade, por não prever punição para o prefeito que não a cumpre) que diz que deve haver biblioteca em todas as escolas do país.

Mas não, em vez de atacar o problema, prefere-se a máscara da “adequação” e da distribuição dos livros para cada aluno, estimulando o individualismo e a não discussão coletiva dos conteúdos, vivacidade indispensável para que a leitura se arraigue na vida das crianças e jovens. O que é hábito solitário não é a leitura, e sim outra coisa, que os meninos e meninas aprendem nos banheiros das escolas.

O formato anterior tinha vários problemas, é certo. Mas, ao que parece, o que irá ser adotado ainda é pior.

O formato anterior, embora fosse mais amplo, estava ainda longe de constituir um programa de acervos para as bibliotecas escolares. Ao contrário do PNLD, que apresentava livros avaliados para serem escolhidos pelos professores, as coleções eram formadas por comissões nomeadas pelo MEC. Já cansei de dizer que – independentemente da qualidade profissional e honestidade pessoal dos membros das comissões – a simples existência delas confere um poder desproporcional, antidemocrático e autoritário a essas pessoas. Esse grupo – sempre pequeno – decide o que é ”bom” e o que é “ruim” para ler, castrando professores e alunos.

O que já tinha seus problemas, repito, independentes da qualidade dos membros das comissões, pode ficar muito pior.

A proposta parece se encaminhar para a escolha dos tais livros alinhados à base curricular. O que parece bom, na cabeça dos tecnocratas de plantão, é, repito, simplesmente castrador. Onde fica o estímulo à descoberta? O incentivo à crítica, que deve ser desenvolvido desde as primeiras letras?

Essa história tem muito mais a ver com as propostas de “Escola sem Partido”, a famosa proposta do Frota, Holliday et caterva, do que com o estabelecimento de um programa de biblioteca nas escolas.

O melhor modelo que já vi, e faz vários anos, quando eu ainda trabalhava na CBL, foi o de um programa chileno. O ministério da educação de lá elaborou um vasto catálogo, que era ampliado a cada ano, com resenhas e indicações de livros, por idade, por tema, etc. Alunos e professores, juntos, escolhiam os livros dentro de uma cota financeira destinada a cada escola.

E os livros iam para a biblioteca.

Essa nova proposta ressuscita uma ideia do Paulo Renato. Para quem não se lembra, a primeira experiência foi uma “Biblioteca para os Professores”. Uma comissão de notáveis escolheu obras como “O Uraguai” do Basílio da Gama e as obras completas do Padre Vieira (vinte e tantos volumes), além, é claro de livros dos próprios sábios, para enviá-los aos professores de cinquenta mil escolas. Uma farsa.

Depois, com as primeiras edições da Biblioteca Escolar, foram selecionados livros, que eram reimpressos fora de seu formato original, uns livros em p&B de formato reduzido, que eram entregues diretamente aos alunos, com o pretexto que “estimulariam” a leitura das famílias. Livros feios, deturpados em suas ilustrações e formatos, que até hoje podem ser encontrados aos montes nas bancas/sebos do centro das cidades. Essa ideia “brilhante” foi repetida mais uma vez pelo Paulo Renato e, pior ainda, copiada pelo Cristovam Buarque. Na minha opinião, só isso seria um bom pretexto para sua defenestração, com uma administração que era mera continuidade do Paulo Renato.

Agora aparece essa pérola, bem ao gosto dos “gestores” modernosos. Como o atual alcaide de S. Paulo, que elimina bibliotecas, brinquedotecas e salas de leitura para entochar mais alunos nas escolas já superlotadas.

As bibliotecas, se não forem os locais da diversidade, do estímulo à curiosidade e ao espírito crítico simplesmente não são bibliotecas. São maquininhas de censura e castração.

É certo que acervos para bibliotecas escolares devem ser avaliados, mas com critérios bem definidos: adequação de cada livro para cada faixa etária; eliminação de textos que contenham preconceitos e erros factuais (o que é difícil de definir em termos de ficção, mas as bibliotecas incluem também o material de apoio). E os livros devem ficar nas bibliotecas, ou nas salas, com livre acesso pelos alunos. Distribuir livros para levar para casa, na minha opinião, é mera demagogia. O local público, com acesso a todos, é a biblioteca, e é nela que se estimula a bibliodiversidade.

A propósito, vale citar um trecho do artigo do Sérgio Augusto sobre o Fahrenheit 451, do Ray Bradbury, na abertura da revista Quatro Cinco Um:

“A uma reedição de Fahrenheit 451, lançada em 1979, Bradbury, ainda mordido com a retirada de palavras como “diabos” e “infernos” de uma versão juvenil encomendada pela Ballantine Books, acrescentou comentários sobre a censura, a intolerância e a secular perseguição aos livros. ‘Há mais de um jeito de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas com caixas de fósforos por aí’, lastimou, enumerando uma dúzia de minorias que se achavam no direito, ou dever, de dosar o querosene e acender o fogo.”

Agora o MEC quer queimar de vez as bibliotecas nas escolas.

A HISTÓRIA DA AIA – ILUSTRAÇÕE DE ANNA E ELENA BALBUSSO PARA A EDIÇÃO DA FOLIO

Anna e Elena Balbusso, ilustradoras

A História da Aia, da escritora canadense Margaret Atwood, voltou às listas dos best-sellers nos EUA (aqui a Rocco não fez nada para promover o livro), em grande medida pela sociedade machista e retrógada retratada no romance, que lembra muito a retórica da extrema direita que chega ao poder lá, com a eleição de Donald Trump.

Além da edição da Houghton Mifflin Harcourt, existe também uma edição especial da Folio (US$ 74), ilustrada pelas irmãs Anna e Elena Balbusso, italianas com grande reputação na área.
O portal Publishing Perspectives publicou, em duas partes, entrevista com as duas irmãs (em inglês). Nos dois posts também reproduzem as ilustrações dessa edição.

A entrevista das irmãs está aqui  e aqui.

Comentei o primeiro post sugerindo que fizessem uma edição autônoma das ilustrações. Como as ilustrações estão lá, tomei a liberdade de copiar todas e reproduzi-las aqui, enquanto a edição não vem. A edição da Folio é muito cara (setenta e quatro dólares, só impressa).

Agora, a capa e as ilustrações da edição da Folio.

Capa

Detalhe da ilustração 1
Detalhe da ilustração 6

O filme de 1990, que não é excepcional, mas é bom. Dirigida por Volker Schlöndorf, roteiro da Margaret Atwood e Harold Pinter, com Natasha Richardson, Faye Dunaway, Robert Duvall.
Consegui baixar o filme, mas a MFM bloqueou a exibição pelo YouTube. Lamento.

“DISCOVERABILITY”, “EMPOWERMENT” E OS PROBLEMAS DE TRADUZIR NEOLOGISMOS.

“Discoverability” tem a ver com achar agulha no palheiro.

Há alguns dias, a autora Rosa Amanda Strauz postou no FB uma nota acerca de matéria publicada no PublishNews, assim:

“Matéria do PublishNews de 18/04 tem o seguinte subtítulo:
“Kobo adquire tecnologia que utiliza uma foto para ajudar na ‘descobertabilidade’ de e-books”.
Cuma???? DESCOBERTABILIDADE??? Onde foram parar os dicionários de sinônimos???” Veja aqui.

Os comentários que seguiram foram de vários tipos. Desde os que desprezavam o problema tradutório/sociológico levantado pela questão, até os que conversavam e davam sugestões sobre como resolver essa questão.

“Danielle Sales Tudo porque querem usar o “discoverability” do inglês… Tsc, tsc, tsc
Olivio Petit imagina Cabral justificando a calmaria.
Renato Kress Em breve seus netos entrarão na dirigibilidade-escola para improvar sua guiabilidade. Aguarde e confie
Maria Valéria Rezende Isso agora é “linguagem acadêmica” rsrs”

A matéria do PN é esta.

Como o uso de “descoverability” é muito comum no tratamento das questões relacionadas com metadados, meti minha colher de pau torta no assunto: “A questão é que os dois termos em inglês cobrem um conceito mais amplo que descoberta, por exemplo (trata-se de “tornar possível de ser descoberto”, ou “forçar ser descoberto”. O mesmo acontece com “empowerment”. Tenho absoluta certeza que podemos achar termos corretos em português, mas até hoje não consegui”.

Como a lista de palpites e comentários é grande, quem quiser acompanhar tudo vá no FB e procure os posts da Rosa Amanda. Que, aliás, sugeriu “Como minhas sugestões ficaram escondidas no meio da discussão, repito aqui: Kobo adquire tecnologia que facilita a descoberta de e-books por meio de fotos.”

Certo, traduzir uma palavra em um conceito pode resolver, em muitos casos.

Mas para entender a compreensão e as dificuldades do problema, particularmente na questão do “discoverability”, é preciso saber o que gerou o uso desse neologismo em inglês.

Note-se que não sou contra a incorporação de neologismos ao nosso português. Para além da moda atual dos anglicismos, já tivemos a época dos galicismos e outras. Em alguns casos, considero ótimos achados, até porque remetem também a raízes latinas: deletar, por exemplo, que não vejo nenhum problema em usar como sinônimo de apagar ou obliterar, para ficarmos em um exemplo.

Voltando às origens do problema.

Classificar coleções é algo bastante antigo na humanidade. E muito especialmente no que diz respeito a livros. Matthew Battles, autor do divertido e altamente informativo “Library, an Unquiet History” (há uma tradução aqui, da Planeta, infelizmente fora do catálogo) chama atenção que já a Biblioteca de Nínive, sob o reino de Asurbanípal II, os 25.000 tabletes de argila colecionados por ordem do Rei, estavam unidos por tema, cada grupo com marcação específica. As bibliotecas gregas e latinas, inclusive a famosa de Alexandria, tinham marcações coladas no umbilicus (o pedaço de madeira em torno do qual eram enrolados ao papiros), com o título e o nome do autor.

A saga prossegue, e a classificação começa a envolver censura, a definição dos livros “bons” e aqueles cuja leitura não era condizente com o saber instituído (a ideia por trás da seção “inferno” da Biblioteca Vaticana e de várias outras). A própria instauração de um método de classificação que apelava para o alfabeto (ordenamento por título ou autor pela ordem das letras) foi objeto de intensa discussão. Para a mentalidade escolástica do medievo, a classificação era “racional”, segundo as áreas de conhecimento que se ligavam harmonicamente. E la nave va

Achar livros, mesmo em uma biblioteca menor, já é um problema. Nas gigantescas, então…

Já no início da idade moderna, as grandes bibliotecas (como a Vaticana e a British), batalhavam com o estabelecimento de sistemas de classificação. De vez em quando brinco com bibliotecários dizendo que alguns são capazes de assassinar por conta de como classificar um livro, como mostra a trama do divertido romance do Umberto Eco, “O Nome da Rosa”.

A primeira grande virada começa a ser desenhada por Antonio Panizzi, revolucionário italiano condenado à morte em Módena e que acaba como bibliotecário do British Museum. Panizzi foi o primeiro a estabelecer que “o primeiro e principal objetivo do Catálogo”, diz Battles descrevendo seu trabalho, citando o relatório que ele preparou, “é o acesso fácil às obras que fazem parte da coleção”. E esse não era simplesmente uma ferramenta para os bibliotecários, mas um instrumento “que o público tem o direito de esperar em tal instituição”. (Battles, pg, 130). Os livros deixavam de ser o domínio dos eruditos e seu acesso passava a ser um “direito do público”. Era uma tarefa monumental, ainda baseada na ordem alfabética, com as relações temáticas dos livros especificadas. Só a catalogação da letra “A” demorou onze anos. E despertou polêmicas.

Para encurtar a história, o sistema de indexação adquiriu sua forma final nas mãos de Melville Dewey, e a invenção do Sistema Decimal de Classificação. Não vou me estender aqui sobre o assunto, de amplo conhecimento geral, e constante desenvolvimento por parte das associações de bibliotecários. De qualquer modo, o eixo da catalogação era a indexação dos títulos. Que permitia aos bibliotecários localizar os livros por temas específicos ou relacionados. Era uma ferramenta eficiente, mas muito dependente do trabalho especializado dos bibliotecários (ou conhecimento dos interessados), mesmo quando os cartões de catalogação foram colocados online.

O problema se complicou geometricamente com duas questões: a) o aumento também exponencial dos livros publicados e colocados à venda; b) além do aumento ainda mais vertiginoso dos títulos disponíveis, com a digitalização e os livros eletrônicos, apareceu também a questão dos “livros órfãos”. A própria digitalização das bibliotecas, processo iniciado pelo Google, deixou acessíveis milhões de títulos previamente confinados em coleções impressas em bibliotecas já de por si gigantescas, espalhados pelo mundo inteiro.

Pelo lado da indústria editorial, alguns problemas já eram sentidos há muito. Uma primeira questão enfrentada foi a da identificação de cada edição. Na distribuição, a identificação correta de um título é crucial para os mais diversos controles. Diferentes livros, de autores distintos, com o mesmo título; edições diferentes do mesmo título; identificação de cada tradução ou formato de um título, e por aí vai. Daí nasceu o ISBN, lá pelos anos sessenta. ISBN, para os que ainda não sabem, é o acrônimo de International Standard Book Number. É um código que usa uma identificação para cada país, para cada editora e para cada título publicado, diferenciando de forma unívoca um livro de outro, seja lá por qual fator seja (nova edição – modificações da primeira; formatos diferentes; traduções, etc. etc.).

O aumento do número de edições, formato, meios de acesso, etc. é que complicou mais e mais o problema. Imaginemos que desde a biblioteca de Nínive e seus 25.000 tabletes, até a nossa Biblioteca Nacional (com seus cerca de oito milhões de títulos), e outras bem maiores, como a questão se complicou. A nossa Biblioteca Nacional, ainda tem gargalos de catalogação, incorporação do depósito legal e outros probleminhas, mas avançou na digitalização do acervo, particularmente de obras raras, dentro de um programa da UNESCO. No que diz respeito ao mercado editorial, o número de títulos disponíveis no catálogo, aqui no Brasil, chega a várias centenas de milhares de títulos. No mundo inteiro… São vários bilhões de títulos, entre os disponíveis no mercado e os disponíveis nas bibliotecas virtuais.

Os livros estão lá. Como descobrir o texto que desejo, seja para leitura ou para pesquisa? Se fosse ler todas as fichas catalográficas para achar tudo que se refira, por exemplo, a “sistema político brasileiro”, a correlação de temas seria gigantesca, mesmo com sistemas eletrônicos, porque cada “tema” não estaria vinculado aos demais como tags de metadados.

Uma parte do problema foi solucionado com os sistemas booleanos de busca, que usa operadores lógicos para organizar as pesquisas (veja aqui uma descrição simples do uso ). Mas esses sistemas de busca ainda exigem um certo preparo técnico para serem produtivos.

É preciso um mapa de navegação pelo labirinto

Foi então que começou a preocupação com o conceito de metadados. Já escrevi vários posts sobre o assunto, que podem ser consultados no meu blog , aqui. Nem vou lista-los aqui. Basta olhar na coluna da esquerda, na seção “tags”, e poderão achar “metadados” e muitos outros “tags” semelhantes. O que é isso? É a forma pelo qual indico aos eventuais leitores quais os temas (ou o tema) que está tratado em cada post. E posso colocar quantos “tags” queira em um post, já que cada um deles pode eventualmente se referir também outros assuntos relacionados.

Pois bem, os metadados é que abriram caminho para a criação do conceito de “discoverability”. Parece que a palavra foi importada das teorias de marketing para indicar o “tempo de exposição” de um determinado produto nas prateleiras. Os marquetólogos que confirmem ou não isso.

O fato é que, aplicado ao mercado editorial, esse conceito de “tempo de exposição” torna-se extremamente elástico. Mesmo quando um determinado título saiu do catálogo, ainda pode ser localizado por um dos “tags/metadados” que estejam embutidos lá dentro. Daí que, para identificar a disponibilidade do título, existem “tags” específicos para informar isso em relação a cada título.

A questão da “discoverability” aparece, portanto, da necessidade de “deixar um título com a possibilidade de ser descoberto” com certa facilidade. Um dos meus posts que estão sob a “tag” de metadados oferece um exemplo prático de como isso poderia funcionar (o condicional é por conta do desprezo com que os metadados são ainda tratados por editoras e livrarias por aqui, comparados com os de alhures (veja aqui esse post, e repita a experiência se quiser). Evidentemente, ainda que não seja um trabalho especificamente “técnico”, a qualidade dos tags e metadados pode melhorar significativamente a “discoverability” de um determinado título.

Particularmente, considero isso fundamental para as pequenas e médias editoras. É um modo de permitir que os livros que editem tenham a possibilidade de ser descobertos por leitores interessados, para além da máquina de marketing das grandes editoras e do espaço cada vez menos nos jornais.

Essa história começou mesmo a tomar corpo com a entrada da Amazon no mercado livreiro. O Bezos descobriu (porque foi fazer o curso de livreiro da ABA – American Booksellers Association) que os livros podem ser disponibilizados através das editoras e das distribuidoras, e que a livraria não precisa tê-los em estoque para vende-los (e ainda tem mais prazo para pagar). O que fez? Contatou a Ingram e a Baker & Taylor, as duas maiores distribuidoras, incorporou o catálogo delas no seu projeto de site e investiu o que podia em tecnologia de “discoverability”, primeiro colocando os metadados disponíveis, depois aperfeiçoando isso, e praticamente fazendo as editoras desenvolveram padrões mais consistentes de metadados. É o que faz até hoje: mantém estoques mínimos, medidos pela demanda registrada no sistema e pareadas com os prazos de entrega de distribuidores e editoras, e apresenta seu imenso catálogo ao público. Isso foi o que tornou possível seu slogan inicial “A livraria com mais de um milhão de títulos disponíveis”.

Não foi ele quem descobriu essa possibilidade, mas certamente foi dos que levou essa questão à perfeição, refinando cada vez mais os metadados e manipulando-os na construção de listas de “mais vendidos”, atuando proativamente junto aos clientes/leitores (e depois aos que compram qualquer coisa na loja da Amazon), como bem sabe quem já fez uma compra nessa varejista.

Os metadados são o farol que permite a descobertabilidade dos livros

Por essas e algumas outras razões fundamentais que o conceito de “discoverability” passou a circular e a ser cada vez mais importante. Não por um modismo acadêmico, mas como fruto do desenvolvimento da indústria editorial. E que tem repercussões TAMBÉM para as bibliotecas e aumento da leitura em geral: melhores mecanismos de busca geram demandas e ampliação de leitores… e pressão sobre as bibliotecas que têm verba para compras. O que não acontece por aqui, tanto pela falta de verbas como pela mania de encomendar a “especialistas” as listas de aquisições de acervo. Mas isso já é outro papo.

Por tudo isso é que a possível tradução do termo inglês fica longe de ser preciosismo ou subserviência. É uma questão de terminologia (técnica, que seja) que, tenho certeza, irá adquirir cada vez mais relevância.

Estou usando, por enquanto, descobertabilidade. Acho a palavra feia, não gosto, mas é a disponível no momento. Por isso mesmo, aceito sugestões.

Aliás, só para brincar. Outro dia sonhei (juro!) com uma tradução melhor para esse outro horror que é o “empowerment”. Quando acordei, lembrei do que tinha sonhado, mas não da palavra. E fico pensando se Hipnos, Morfeu, e os Oneiroi (os benignos) voltarão a me ajudar. Espero que o ôneiro do pesadelo não se faça presente.

MARGARET ATWOOD, Profetisa da Distopia

Em uma longa matéria sobre Margaret Atwood, “A Profetisa da Distopia”,  escrita por Rebecca Mead para o The New Yorker traduz um excelente testemunho sobre uma das maiores escritoras vivas, que mereceria não apenas o Nobel, mas todos os prêmios possíveis, mais além do Booker Prize que ganhou uma vez e foi finalista em cinco outras ocasiões.

Maria José, eu e o Márcio Souza (que a conheceu no Harbourfront Book Festival em Toronto, e trouxe seus livros) temos o enorme orgulho da Marco Zero ter sido a primeira editora a publicá-la em tradução. Margaret Atwood já era muito conhecida no Canadá, nos EUA e na Inglaterra, mas nunca havia sido traduzida para o português (nem, pelo que sabemos, para outros idiomas). “Madame Oráculo”, traduzido por Domingos Demasi, em 1984. Depois publicamos as traduções de A Vida Antes do Homem (Théa Fonseca), A História da Aia (Márcia Serra), Olho de Gato (Maria José Silveira), A Noiva Ladra (Maria José Silveira), e Vulgo, Grace (Maria José Silveira).

Só deixamos de traduzi-la quando, forçados, tivemos que vender nossa participação na Marco Zero para a Nobel, que enterrou a lista da editora, exceto alguns livros de culinária, e hoje existe publicando sabe-se lá o quê de uma empacotadora inglesa…

A Rocco, que acabou ficando com a autora (a Vivian Wyler não dormia no ponto), republicou alguns dos livros que havíamos publicado, com novas traduções, e continuou publicando os que se seguiram.

Nunca li essas novas traduções. A de The Handmaids Tale, por nós publicado como A História da Aia, romance distópico sobre um EUA fundamentalista evangélico, transformado em República Gilead, voltou com força para a lista dos best-sellers nos EUA. Aqui, ao que parece, continua escondido. O novo título dado ao livro é “O Conto da Aia”. Para nós, como editores, o “tale” em inglês, nesse caso, está mais para “história” (no sentido que usamos de “contar histórias” e não “contar contos”(sic)). Bem, cada tradutor tem uma margem de escolha. Mas hoje, uma autora como a Margaret só leio no original.

A capacidade técnica, a imaginação, a maestria na construção de personagens que fazem de Margaret Atwood uma grande autora não estão nunca distantes de uma tomada de posição implícita no texto, como exemplificado por esse trecho da matéria do The New Yorker:

Como seus antecessores vitorianos, Atwood não se afasta da ideia de que o romance é um lugar onde se pode explorar questões de moralidade. Em um e-mail que escreveu para mim, “Você não pode usar a linguagem e evitar as dimensões morais, já que as palavras têm tanto peso (lírios que apodrecem versus ervas daninhas, etc.) e todos os personagens têm que viver em algum lugar, mesmo que sejam os coelhos de A Longa Jornada (Watership Down), e têm que viver em alguma época… e têm que fazer escolhas”. O desafio, ela assinalou, é evitar o moralismo: “Como você se engaja sem bancar o pregador e reduzir os personagens a simples alegorias? Um problema perene. Mas quando grandes temas sociais são realmente grandes (Doutor Jivago), os personagens agirão dentro – e sofrerão a influência – de tudo que está a seu redor”.

Para mim, é uma definição perfeita do labor do romancista, ontem, hoje e sempre. Se um romance não trata de personagens que vivem em um contexto no qual a escolha das palavras tem peso, e as escolhas dependem da sociedade e do momento em que vivem, esse é um romance descarnado. Pode satisfazer o ego dos autores (quantos vivem assim na literatura contemporânea?), mas não subsistirão.

No início deste ano, Margaret Atwood recebeu o “Lifetime Award” do National Book Critics Circle, por seu trabalho como crítica e resenhista. Foi pouco depois da posse do laranja, no dia em que ele anunciou sua primeira tentativa de barrar imigrantes. Logo no começo de seu discurso, Atwood brincou: “Ainda bem que não me barraram na fronteira” e, no final, assinalou, depois de jocosamente comentar a sensibilidade dos autores sobre qualquer coisa que pareça desmerecedora do talento de cada um, esquecendo os elogios. Como reporta Rebecca Mead:

Por que me dedico a uma tarefa tão dolorosa?” – disse ela. “Pela mesma razão pela qual dou sangue. Todos temos que fazer o que pudermos, porque se ninguém contribui para esse empreendimento meritório, então não haverá nada, justamente quando é mais necessário.” Estamos em um desses momentos, ela advertiu: “A democracia americana nunca foi tão desafiada”. As condições necessárias para uma ditadura, assinalou Atwood, incluem o emudecimento da mídia independente, o que impede a expressão da contradição ou de opiniões subversivas; os escritores fazem parte dessa frágil barreira que se antepõe entre o controle autoritário e a democracia aberta. “Ainda existem lugares neste planeta onde quem for surpreendido lendo vocês, ou mesmo a mim, pode ser submetido a penalidades severas”, disse ela. “Espero que logo haja menos lugares como esses”. Sua voz caiu para o tom de sussurro teatral: “Não estou segurando a respiração”.

Nem nós. Nem os autores de verdade. Lá, como aqui, vivemos uma democracia ameaçada pela truculência. E o mínimo dos mínimos que podemos fazer é deixar nosso protesto e nosso testemunho. Por escrito.

SARAIVA, CULTURA, AMAZON E AS LIVRARIAS INDEPENDENTES

Um dos temas mais permanentes nas discussões do mercado editorial e livreiro – aqui e alhures – é o papel e destino das livrarias independentes e das grandes cadeias. Essa discussão se intensificou com o surgimento da Amazon (e olhem que a varejista foi fundada em 1994, com início das atividades de comércio eletrônico em 1995 – já são 22 anos).

Naquele momento era observado o auge do crescimento das grandes cadeias de livrarias nos EUA. As livrarias independentes as tinham como inimigo principal, e as notícias contabilizavam o fechamento de inúmeras lojas nas grandes e médias cidades.

É bom lembrar que, por aqui, a cadeia dominante era a Siciliano (que provocou polêmicas, discussões e gritos ao exigir maiores descontos, na voz de seu controlador, exatamente depois do Plano Real, com a sincera alegação de que ganhava dinheiro com a inflação e que agora as editoras tinham que ajuda-los a recuperar suas margens…). Hoje, comprada a preço de xepa de feira pela Saraiva, o nome da rede é história.

História como nos EUA é o nome da Borders e outras cadeias menores, que não conseguiram concorrer com a Amazon. A própria Barnes&Noble anda mal das pernas há anos, embora seu controlador jure que resistirá. E as livrarias independentes voltaram a florescer na gringolândia, graças a estratégias empresariais e institucionais, através da ABA – American Booksellers Association, como já mencionei várias vezes por aqui.

Na Europa, por sua vez, a Amazon enfrenta problemas, com um severo escrutínio das autoridades reguladoras do continente. E, surpreendentemente, a W. H. Smith, uma cadeia de livros que andou tropeçando, mostrou lucros no ano passado.

Na França e outros países do continente, a lei do preço fixo demonstra sua força e mantém vivas as livrarias independentes. Mas, também como já mostrei aqui, por trás da lei existe um sólido aparato que reúne editores, livreiros, e as “grandes superfícies”, em um comitê que supervisiona a aplicação da lei. Um dos aspectos importantes dessa legislação é que parte dos descontos concedidos pelas editoras às livrarias está condicionado a ações de promoção da leitura.

No entanto, a Amazon continua lépida e fagueira em seu crescimento. Já abriu algumas lojas físicas (modo de dizer, já que as lojas aplicam uma tecnologia muito mais avançada que a disponível em outros varejistas). Além da loja inicial em Seattle, a varejista tem outras em Boston, San Diego, Portland e New York – onde já são várias. E essas são livrarias – a Amazon já experimenta com verduras e alimentos, e agora saiu a notícia que fará o mesmo com eletrodomésticos e roupas. Mike Shatzkin, aqui  levanta a possibilidade de que a Amazon se torne a maior varejista – de tudo – nos EUA, e a prazo relativamente curto. Veremos.

Uma das características das lojas da Amazon é a seleção de livros em exibição. De onde veio essa seleção? Bidu: do histórico de compras acumulados pelo site naquela região. Nada de livreiros que “conhecem” seus clientes e mantêm uma seleção de acordo com os gostos dos seus frequentadores. Bezos não se dá a esse luxo, e tudo é definido por algoritmos. Para ele, os dados são mais preciosos que qualquer subjetividade, e definem cada passo a ser dado.

Dito seja de passagem e fora do tema imediato: Amazon já é a maior editora de livros traduzidos dos EUA, e há muito o KDP é o dominante na autopublicação, embora aí ainda tenha concorrentes sérios, tanto de propriedade de outras editoras como independentes.

Voltando à nossa questão inicial.

Todo essa aparente cabeça de cera para voltar à questão inicial. O que acontece por aqui e será que se abre uma janela de oportunidade para as livrarias independentes do Bananão?

Continue lendo SARAIVA, CULTURA, AMAZON E AS LIVRARIAS INDEPENDENTES

CBL 70 ANOS – E O RESTABELECIMENTO DE FATOS

A CBL comemorou seu aniversário de 70 anos com um evento no Teatro Frei Caneca, um show do Pedro Camargo Mariano e coquetel. Uma boa quantidade de representantes do mercado editorial esteve presente. Nem vou comentar algumas ausências significativas, talvez devidas à multiplicidade de entidades e disputa entre as muitas que existem no setor.

O Secretário de Cultura de S. Paulo, José Roberto Sadek esteve lá, representando o governador; Danilo Santos de Miranda, Diretor Regional do SESC foi outra presença significativa. Christian Santos, o novo diretor da área do MinC também se fez presente.

Dos sete últimos presidentes, seis estavam presentes: Alfredo Weiszflog, Ary Benclovicz, Armando Antongini, Raul Wassermann, Oswaldo Siciliano, Rosely Boschini e Karine Pansa, além do atual, é claro. Faltou o Altair Brasil, já falecido.

Depois dos discursos protocolares, o show do Pedro Mariano, filho do César Camargo e da Ellis, foi muito aplaudido pelos segmentos mais jovens da plateia (eu preferia os pais, mas a mãe, infelizmente, não está mais disponível), e um coquetel bem servido.

Mas quero comentar o vídeo que foi exibido, em particular as entrevistas dos ex-presidentes.

Cada um buscou ressaltar o que considerava aspectos importantes da sua gestão.

Qual minha surpresa quando vi e ouvi o Sr. Oswaldo Siciliano afirmar que ele e sua diretoria “fizeram gestões junto ao Senador José Sarney” para conseguir a desoneração do PIS/PASEP COFINS, que “complementaria a imunidade já concedida ao livro pela Constituição”.

É certo que a desoneração aconteceu quando o Sr. Oswaldo Siciliano era presidente da CBL.

Só que não foi fruto de nenhuma gestão dele nem de sua diretoria.

Eis os fatos, que posso relatar porque deles sou efetivamente um dos protagonistas e testemunha.

Continue lendo CBL 70 ANOS – E O RESTABELECIMENTO DE FATOS

Políticas públicas para o livro e o mercado editorial