Todos os posts de Felipe Lindoso

Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, Diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil Pode Ser um País de Leitores? Política para a Cultura, Política para o Livro, pela Summus Editorial.

O MUNDO GIRA

Duas notícias sacudiram o mercado editorial brasileiro nos últimos dias.
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A mais importante, no meu entender, foi o convênio entre o MEC e a Amazon para que essa última converta e coloque o conteúdo digital na plataforma Kindle de mais de 200 livros didáticos. O acordo não é exclusivo, de modo que, em tese, outras empresas podem fazer o mesmo trabalho. De qualquer maneira, essa conversão e distribuição saem gratuitas para o MEC.

A segunda notícia foi a venda, pela PRISA espanhola, de todos os selos não didáticos da Santillana para a Penguin Random House, a gigante que resultou da fusão de negócios entre a Pearson inglesa e a Bertelsmann alemã. Assim, todos os selos da Santillana no Brasil, inclusive a Objetiva (Roberto Feith vendeu sua participação minoritária para os novos donos). Mas o negócio não inclui somente o Brasil. São todos os selos da Santillana na Espanha e no resto do mundo.

Primeiro, o caso MEC/Amazon.
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FUNDO DE CATÁLOGO: A MINA A SER EXPLORADA

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O chamado “fundo de catálogo” – os livros que vão sendo editados no decorrer dos anos e continuam com contratos válidos – pode ser uma benção ou uma maldição para as editoras. Para certo tipo de editoras que desenvolvem seu catálogo pensando em títulos de vida longa, são muitas vezes a principal fonte de rendimentos. As bíblias, por exemplo, fazem esse papel nas editoras religiosas cristãs. Certo tipo de manuais e publicações técnicas de caráter universitário constituem a espinha dorsal de muitas editoras.

Para outras, entretanto, o fundo de catálogo pode se transformar em uma verdadeira ameaça à sua sobrevivência. Quando a editora erra o cálculo e imprime uma quantidade muito grande de exemplares, o que poderia ser a bonança de um best-seller se transforma em encalhes e o bicho realmente pega.

Mesmo sem caracterizar como encalhe, o fundo de catálogo é sempre um fator a ser administrado com muito cuidado pelas editoras. Isso porque os processos de impressão tradicionais – ainda muito usados no Brasil, seja com máquinas planas ou com rotativas – acabam sempre por resultar em uma sobra depois que a “vida de prateleira” do título se esgota. Essa vida de prateleira é o período logo após os lançamentos, quando os títulos (principalmente das editoras de obras gerais) ainda encontram espaço nas livrarias. Se calham de se transformar em best-seller, o problema se resume em administrar corretamente as reimpressões. Inclusive a decisão de reimprimir ou não, caso a tiragem se esgote.
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EDITORES BRINCAM COM FOGO

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Em recentes declarações, o Ministro Guido Mantega, da Fazenda, afirmou que as projeções macroeconômicas incluídas no Orçamento Federal e na Meta Fiscal para 2014 não preveem novas desonerações para a indústria, e que podem até mesmo ocorrer aumento de impostos. Como se sabe, entretanto, as mudanças na cobrança direta de impostos só valem para o exercício fiscal seguinte, e isso reforça a percepção de que, além de não haver mais incentivos através de desoneração fiscal, existe a possibilidade de redução daquelas vigentes, ou até mesmo da extinção de algumas delas.

Macaco velho não só mete a mão em cumbuca como também fica com o ouvido bem aberto para os tambores da selva que anunciam problemas. E problemas podem vir atingir a indústria editorial nesse período em que a grande imprensa, e analistas econômicos e políticos pedem arrocho fiscal, inclusive Hubert Alquéres, Vice-Presidente da CBL, que escreveu que “quem quer que seja o presidente eleito em 2014, este será obrigado a dar um brutal freio de arrumação na economia, tais os enormes desacertos econômicos cometidos pelo governo Dilma.” (Panorama Editorial – 16/01/2014).

Assim sendo, não sei se brutal, mas que vem um freio de arrumação, vem. Atendendo a pedidos, pelo visto.

Já que é o caso, o que os editores têm a ver com isso?
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LISTAS RELÂMPAGOS E LISTAS PENSADAS

anúncio fantasma Digital

Na Internet de vez em quando começam umas brincadeiras de listas. Uma das últimas que apareceu foi de “lista relâmpago” de livros preferidos. Já havia feito até algumas anotações, pois quem pediu foi a Maria José, que pode pedir mandando.
Mas depois fiquei pensando – o que é sempre coisa perigosa – que era melhor fazer uma lista “pensada”. Afinal, já tenho certa quilometragem de leituras. E mais, pensei. Se eu fizesse essa lista vinte anos atrás, o que eu incluiria? E o que ainda posso incluir daqui pra frente? Ainda não entrei nessa de reler o que gosto (embora de vez em quando faça isso).
Assim, cada lista é um exercício de lembranças de diferentes momentos da vida, e às vezes é bom lembrar. Além do mais, lista pensada (e comentada) permite o truquesinho de acrescentar mais alguns títulos.

Então, vamos lá.

1 – Monteiro Lobato. Claro. Acho que não há leitor da minha geração que não tenha Lobato entre os autores preferidos da infância e início da adolescência. Mas, qual Lobato? É claro que gosto das Reinações de Narizinho. Mas a verdade é que eu curtia mesmo eram os livros “paradidáticos” do Lobato. Todos: Aritmética da Emília, Emília no País da Gramática, Geografia de Dona Benta (lembro de uma impagável conversa de D. Benta e sua turma com o então presidente Roosevelt, no qual este menciona as “34 universidades americanas” e D. Benta lamenta não haver nenhuma no Brasil; queria ver como ficou a visita às colônias portuguesas na China e na Índia, e pensar como os politicamente corretos ainda não caíram de pau nisso). O Poço do Visconde é uma misturada danada: o Pó de Pirlimpimpim faz os dólares caírem na cabeça do fornecedor gringo para pagar os equipamentos, o Visconde dá um quinau no geólogo gringo… Há também a Reforma da Natureza e A Chave do Tamanho. Taí, Lobato inventou a literatura fantástica brasileira com aquelas maluquices. Do que me lembro mais são Os Doze trabalhos de Hércules. Como gostei daquele livro. Então, pronto, o primeiro título é Os Doze Trabalhos de Hércules. Os demais ficam de apêndice, e podem por O Minotauro de contrapeso.
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Bibliotecas virtuais: iniciativas, perspectivas e problemas

No última quinta-feira, dia 13 de fevereiro, fui assistir à apresentação do modelo de Biblioteca Pública virtual que está sendo lançado pela Xeriph. Há duas semanas, Galeno Amorim anunciou o próximo lançamento de um projeto de bibliotecas virtuais para bibliotecas escolares, e nos últimos dias a joint-venture da Saraiva, GEN, Atlas e Grupo A anunciou nova versão do modelo de seu programa Minha Biblioteca, que já está com três anos de vida.

Por outro lado, pipocam notícias sobre várias alternativas de aluguel e empréstimo de livros eletrônicos. A Amazon tem um serviço que funciona entre proprietários do Kindle e startups como a Oyster e outros almejam se tornar a “Netflix” dos livros. Como se sabe, a Netflix é um sistema de assinatura que permite o streaming de uma seleção já bastante extensa de filmes, séries de TV e congêneres.

Todas essas iniciativas possuem algo em comum, e imensas diferenças entre si.
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Prêmios, Crítica e Campo Literário

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Bernard Pivot, há muito um dos meus ídolos do jornalismo literário, foi recentemente escolhido como presidente da Académie Goncourt, que outorga anualmente um dos prêmios literários mais prestigiosos da França, o Prix Goncourt.

Ser membro da Académie Goncourt é uma manifestação de enorme prestígio. Já houve época em que os acadêmicos recebiam um estipêndio derivado dos juros da herança dos fundadores. Hoje, formalmente, só ganham o jantar mensal, mas certamente desfrutam de um prestígio e de um poder literário – e à vezes político – consideráveis. Fundada pelos irmãos Edmond e Jules Goncourt no final do Século XIX, reúne dez membros, os titulares dos respectivos “couverts”: as reuniões formais da Académie acontecem sempre em um restaurante de Paris, o Drouant, no qual uma refeição custa mais que no tal Eleven de Lisboa, objeto da polêmica do jantar da presidente Dilma. Assim que, quem quiser desfrutar o “dîner des académiciens” , o jantar mensal, que se prepare.

O Prix Goncourt, outorgado anualmente no começo de novembro, é financeiramente insignificante: são apenas € 10. Mas ser premiado é garantia de edições de altas tiragens e grandes vendas na França. Seus detentores passam a desfrutar de imenso prestígio literário, e a ser considerados como “exemplares” da “saison litéraire”.

A outorga do prêmio sempre é objeto de polêmica. Durante anos circularam insinuações e acusações de que as grandes editoras francesas manipulavam o prêmio. De fato, o próprio Pivot já declarou que Jean Giono, que o antecedeu como titular do “couvert”, “aparentemente nunca lia qualquer um dos livros da lista do Goncourt e na manhã do prêmio telefonava para o editor Gaston Gallimard para lhe perguntar em quem votar”.
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“THEMA” A Nova Ferramenta de Metadados

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Os leitores de “O Nome da Rosa”, do Umberto Eco, podem lembrar que os crimes no mosteiro acontecem, no final das contas, em torno de um assunto aparentemente prosaico: a classificação a ser dada ao suposto manuscrito de Aristóteles achado na biblioteca do convento. O suposto tratado sobre o riso seria obra filosófica (no sentido dado à palavra pela escolástica), ou um texto demoníaco que negava o cristianismo? Dessa classificação dependeria o acesso ao manuscrito ou sua condenação ao “inferno” dos livros proibidos. Da disputa, surge a razão dos assassinatos.

Por isso é que às vezes eu brinco, conversando com bibliotecários, que eles são capazes de assassinar em disputas sobre a classificação. O estruturado sistema decimal usado nas bibliotecas abre espaços para esse tipo de disputas (felizmente, rara vez resultando em assassinatos, mas muitas vezes em disputas acerbas entre os bibliotecários).

O sistema decima serve muito bem aos sistemas de bibliotecas. Mas, para a indústria editorial e para o comércio de livros resulta demasiadamente complicado. O assunto foi progressivamente sendo enfrentado pela indústria. Primeiro veio o ISBN, um identificador unívoco de cada título e edição, Mas, se não se sabe qual o ISBN, as buscas devem utilizar algum outro metadado. Os mais comuns, certamente, são o título e o nome do autor. Durante várias décadas isso funcionou bem para o mercado e foi incorporado nos sistemas de bibliotecas. Mecanismos com o protocolo Z.39.5 permitem que os computadores de diferentes bibliotecas “conversem” entre si a partir de fragmentos como esses, e importem/exportem dados de classificação cooperativa (nossa BN, infelizmente, não abre esse mecanismo. O sistema de bibliotecas das universidades paulistas abre, em parte).
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MARCO ZERO – LADEIRA DA MEMÓRIA II

O fato de Lutas Camponesas no Brasil ter sido nosso primeiro livro editado é indicador de outro componente de nosso projeto. A Marco Zero foi fundada como uma editora da esquerda. Não como editora “de partido” (como na tipificação do livro do Flamarion Maués, que já comentei no final do ano passado), mas sim como uma que pretendia publicar livros que fossem também uma intervenção na vida política brasileira naquele momento.

Não vou aqui fazer autobiografia política, até porque acho isso cabotino. Mas éramos todos militantes. O Márcio já mais afastado, mas Maria José e eu tínhamos uma longa história com a Ala Vermelha, que me levou à prisão (e também o Márcio) e os dois ao exílio.

Isso se refletia não apenas na linha editorial. Também aparece na contratação de dois de nossos primeiros colaboradores. Daniel Aarão Reis e Vladimir Palmeira haviam recém-chegados do exílio e acabaram trabalhando conosco. Imaginem. Nenhum dos dois entendia coisa nenhuma de administração ou comércio, mas eram oficialmente encarregados disso na jovem Marco Zero. Meio período, que os dois estavam tratando de se encaminhar para o que sabiam mesmo fazer. Daniel para retomar uma carreira acadêmica e o Vladimir louco para fazer política, sempre. E era muito divertido e produtivo trabalharmos juntos, discutindo sobre os lançamentos, o que fazer e como lançar os livros.
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Uma ideia do Vladimir foi fazer o lançamento de O Papalagui na praia, com farta distribuição de caipirinhas. Esse livro relata as supostas memórias de um chefe de uma tribo da polinésia que visita a Europa e faz um relato antropológico do que viu ao relatar espantado para seu povo os estranhíssimos hábitos dos brancos, os papalagui. O livro foi um long-seller da editora, mas no lançamento, em plena praia de Ipanema, não vendeu nada. O povo liquidou em pouquíssimo tempo com a cachaça que levamos.
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MARCO ZERO – LADEIRA DA MEMÓRIA

No Caderno 2 do Estadão de sábado, (25/1/14), Sérgio Augusto publicou uma de suas belas crônicas sobre o cinema, citando amplamente um livro editado pela Marco Zero – Suspeitos, de David Thomson – trad. José Eduardo Mendonça – 1992. Não é a primeira vez que Sérgio Augusto escreve sobre o livro, que certamente é um dos que ele curte bastante.
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Diz o cronista que Suspeitos é “um misto de dicionário biográfico e ensaio ficcional (labirinticamente borgeano) sobre a realidade paralela do cinema”, e que o autor “inventou a metahistória do cinema”.

O texto do Sérgio Augusto me jogou na ladeira da memória, para a época em que vivemos um belo sonho de editora. A Marco Zero começou, lá pelo final dos anos 1970 com a Maria José Silveira, com quem sou casado. Acabamos reunindo alguns caraminguás, ajuda da família, muito especialmente do Otávio Silveira, irmão da Zezé, que generosamente fez uma contribuição fundamental para que o projeto pudesse existir.
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OS TEMAS DE 2013 CONTINUAM EM 2014

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“Com mais de trinta anos de vivência no mercado editorial, busco mais aprender a fazer as perguntas certas do que qualquer outra coisa. Fazer as perguntas certas para as várias personas sociais, e procurar verificar se os paradigmas (no conceito de Thomas Kuhn) se sustentam ou não. Até porque, ao contrário das ciências físicas, a sociedade muda ao mesmo tempo em que são feitas as perguntas e se elaboram os discursos. E, nessa situação de mudanças e incertezas, sobra pouco espaço para afirmações taxativas, e necessidade de muito empenho para começar a vislumbrar o que se deseja compreender.”

14 de maio – Um mercado opaco

Entre esta coluna no PublishNews e as que saíram no blog O Xis do Problema publiquei ano passado cerca de setenta posts sobre questões do mercado editorial.

Os temas foram bem variados. Os livros têm essa característica de servir de “meio” para se falar de qualquer coisa. São, de certa maneira, um reflexo do mundo real. E as complexidades do mercado editorial acompanham essa variedade: autores, editores, distribuidores, livreiros, leitores. Para se realizar, o livro precisa ser lido, chegar a seu destinatário final, o leitor. Sem isso, perde sentido. O esforço de todos os envolvidos, portanto, se unifica nesse objetivo comum: chegar ao leitor.

E como o livro é, ao mesmo tempo, produto, objeto de consumo e um bem cultural ou educacional, a mescla dessas características torna as atividades de todos dessa cadeia sujeitas a inúmeros condicionantes.
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