MARCO ZERO – LADEIRA DA MEMÓRIA II

O fato de Lutas Camponesas no Brasil ter sido nosso primeiro livro editado é indicador de outro componente de nosso projeto. A Marco Zero foi fundada como uma editora da esquerda. Não como editora “de partido” (como na tipificação do livro do Flamarion Maués, que já comentei no final do ano passado), mas sim como uma que pretendia publicar livros que fossem também uma intervenção na vida política brasileira naquele momento.

Não vou aqui fazer autobiografia política, até porque acho isso cabotino. Mas éramos todos militantes. O Márcio já mais afastado, mas Maria José e eu tínhamos uma longa história com a Ala Vermelha, que me levou à prisão (e também o Márcio) e os dois ao exílio.

Isso se refletia não apenas na linha editorial. Também aparece na contratação de dois de nossos primeiros colaboradores. Daniel Aarão Reis e Vladimir Palmeira haviam recém-chegados do exílio e acabaram trabalhando conosco. Imaginem. Nenhum dos dois entendia coisa nenhuma de administração ou comércio, mas eram oficialmente encarregados disso na jovem Marco Zero. Meio período, que os dois estavam tratando de se encaminhar para o que sabiam mesmo fazer. Daniel para retomar uma carreira acadêmica e o Vladimir louco para fazer política, sempre. E era muito divertido e produtivo trabalharmos juntos, discutindo sobre os lançamentos, o que fazer e como lançar os livros.
papalagui
Uma ideia do Vladimir foi fazer o lançamento de O Papalagui na praia, com farta distribuição de caipirinhas. Esse livro relata as supostas memórias de um chefe de uma tribo da polinésia que visita a Europa e faz um relato antropológico do que viu ao relatar espantado para seu povo os estranhíssimos hábitos dos brancos, os papalagui. O livro foi um long-seller da editora, mas no lançamento, em plena praia de Ipanema, não vendeu nada. O povo liquidou em pouquíssimo tempo com a cachaça que levamos.

Bolamos também uma coleção de divulgação, em formato pequeno, com discussões sobre vários tópicos. Eram sempre dois autores (pelo menos). Aí estão as capas de A Cidade está com medo e Os Índios vão à luta. Como os temas permanecem! Também publicamos títulos como A Crise do Socialismo Real, do Hércules Correa. O Hércules era do CC do partidão, o que demonstra o quanto procurávamos abrir espaço para todos do campo das lutas contra a ditadura. Afinal, era a época da mobilização pelas diretas. Também mais tarde publicamos As Raízes do Golpes, do Almino Affonso, um relado desde o parlamento da gestação do dito.
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Editamos também um livro muito importante, Imagens da Revolução – Documentos políticos das organizações clandestinas de esquerda dos anos 1961-1971 (1985), hoje reeditado pela Expressão Popular, no qual o Daniel (que colocou como coautor, em homenagem, Jair Ferreira de Sá, antigo dirigente do movimento estudantil que morrera em um estúpido acidente de auto) apresenta os documentos que coligiu. Daniel Aarão Reis, como sabemos, tornou-se um dos especialistas na história das esquerdas em nosso país.
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Um dia recebemos um convite insólito. A associação dos editores cubanos estava organizando um encontro com editoras latino-americanas para aprender como é que funcionava essa história de direitos autorais. A União Soviética havia recém ingressado na Convenção de Berna, e com ela foi toda a cambada.

O convite chegou quando eu me recuperava de uma operação de hérnia de disco. A Maria José, esgotada de cuidar de tudo, inclusive da minha doença, desistiu de ir. Mas eu queria aproveitar a oportunidade. Os cubanos disseram que pagavam a passagem do México para Havana e tudo lá. E quem tinha grana para ir até o México? Agradeci e expliquei. Veio uma alternativa: eles pagavam de Buenos Aires para Havana, ida e volta. Bom, Buenos Aires já era viável. Cheguei em Buenos Aires no dia seguinte à posse do Alfonsín, a cidade fervilhando de animação pela volta da democracia. Fui à embaixada de Cuba pegar a passagem e o visto. Que era entregue em um papel separado. Os passaportes brasileiros, para quem não viveu essa época, tinham um carimbo logo nas primeiras páginas: NÃO É VÁLIDO PARA CUBA. A viagem era estritamente ilegal.

Eu viajei acompanhado pelo Gian Calvi. O conhecido ilustrador fora convidado pelo CERLALC para fazer uma oficina de ilustração em Havana.

Recebemos o visto e as passagens. Aerolíneas até Lima e Aeroflot até Havana. Dormimos em Lima na casa do meu amigo e professor Rodrigo Montoya, espantado com a súbita invasão. O voo na Aeroflot foi, digamos, intrigante. Era algum modelo de tupolev que imitava o antigo caravelle. No assento da janela estava uma moça, filha de algum diplomata da Alemanha Oriental, possivelmente deportada depois de alguma estripulia limenha. A aeromoça tinha o hmmm… posterior tão avantajado que só conseguia andar de lado no corredor enquanto jogava uma bandeja com um pedaço de enlatado. Maravilha!

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Mas a estadia em Havana rendeu – além de lhes mostrar o beabá de fazer contratos e pagar direitos – alguns contratos para publicação. Do Miguel Barnett, sujeito fantástico, publicamos depois Memórias de um Cimarrón, e eu trouxe também o contato para publicar o livro do Alejo Carpentier, O Recurso do Método (1984) (que tinha seus direitos controlados desde Paris), ambos traduzidos por Beatriz Cannabrava. Publicamos também outro autor cubano, Miguel Cossío, Foguetes sobre Cuba, que narra as tensões de um miliciano aguardando o possível ataque nuclear dos EUA na famosa crise dos mísseis.

Sempre procuramos lançar autores latino-americanos. Um dos mais notáveis foi O Pau de Sebo, (1983 trad. Estela dos Santos Abreu e Maria Wanda Maul de Andrade), do haitiano René Depestre. Depestre aparece em uma cena do filme Memórias del Subdesarrollo, do Alea. Participa de uma mesa redonda que acontece na casa-museu do Hemingway, perto de Havana. Ele esteve no Brasil como funcionário da UNESCO. Fomos almoçar com ele no folclórico – e ótimo – Sentaí, atrás da Central do Brasil e do antigo Ministério da Guerra, no Rio. Além de outros, publicamos também A Ilha da Chuva e do Vento, de Simone Schwarz-Bart (1986, tradução da Estela dos Santos Abreu). Também o guatemalteco Arturo Arias, com Itzam-Na, a Casa das Lagartixas.

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Mas não nos restringimos a essa área. Os europeus também tinham nossa atenção.

Um dos autores que lançamos – pela primeira vez no Brasil, foi Lobo Antunes. A primeira edição de Os Cus de Judas foi da Marco Zero, e vale lembrar duas curiosidades. Lobo Antunes, que tem fama de zangado, concordou em trocar algumas expressões lusas por outras mais correntes por aqui. Lembro de “autoclismo”, substituído por descarga (de privada). Outra curiosidade, bem sintomática dos tempos em que vivíamos, foi a resenha publicada no JB. O circunspecto jornal mudou o título do romance, que virou Os Cafundós do Judas. Cus, nem pensar. Hoje, os Cus estão estacionados na Objetiva/Alfaguara.

Um lançamento marcante, de outro autor inédito por aqui, foi o do Homem Invisível, traduzido por Márcia Serra (1990). O clássico da literatura negra dos EUA só é achado hoje nos sebos. homem invisivel059 E publicamos também, entre outros, Prokosh, Kazantzakis, Heinrich Böll, William Gass, Lars Gustafsson. E também um dos clássicos da contracultura, o hilariante Pescar Truta na América, do Richard Brautigan, traduzido pelo José J. Veiga,que fez também uma apresentação.

Maria José trouxe o título quando esteve em Stanford, fazendo um curso de imersão no mercado editorial. Ela foi uma das primeiras brasileiras a fazer esse curso, pelo qual passaram depois vários outros.

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Passamos pela Turquia, com Memed, meu falcão, de Yashar Kemal, traduzido (do inglês), pelo Wilson Vaccari (1989) e Chuva Negra, e pelo Japão, com o pungente romance sobre as sequelas de Hiroshima, de Masuji Ibuse.

Não conseguíamos os autores badalados, mas fizemos uma senhora seleção.

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Capa belíssima sdo Felipe Taborda. Reparem que já usávamos o logo definitivo, um desenho feito a partir do quadro da Tarsila (com autorização)
Capa belíssima sdo Felipe Taborda. Reparem que já usávamos o logo definitivo, um desenho feito a partir do quadro da Tarsila (com autorização)

Uma vez li um ensaio do Kenneth Tynan, apresentando um livro curioso, Dirty Movies, an Illustrated History of the Stag Film, de Al Di Lauro e Gerald Rabkin, sobre os primórdios da indústria do cinema pornô. Tynan – conhecido entre outras coisas por ter sido um dos especialistas que testemunharam no processo sobre O Amante de Lady Chatterley, censurado nos EUA – faz uma apologia decidida da pornografia. Nós concordávamos.

E nos divertimos muito na Marco Zero publicando alguns títulos do gênero, uma coletânea dos catecismo do Carlos Zéfiro. Reparem em quem escreveu os pequenos ensaios que davam um indispensável -na época-, ar de erudição. Sim, nosso Sérgio Augusto, prof. Roberto da Matta e Domingos Demasi. A “bunda” do livro foi escrita pelo Márcio. Esse e outros dois títulos vieram da coleção de um amigo nosso, Joaquim Marinho, um dos maiores colecionadores de material pornográfico do Brasil.

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Na literatura brasileira, além dos livros do Márcio, pescamos alguns autores interessantes. Não conseguimos fazer tanto quanto gostaríamos, mas na época era ainda muito mais difícil publicar autores nacionais.

Manuel Carlos Karam, Haroldo Maranhão, Ricardo G. Dicke, Antonio José de Moura, estavam entre eles. Publicamos também um roteiro nunca filmado do Joaquim Pedro de Andrade, O Imponderável Bento, e a primeira edição de Samba-Enredo, o segundo livro do hoje premiado e reconhecido João Almino. Outro título de ficção foi o Mário/Vera – Brasil 1962-12964, da gaúcha Tania Jamardo Faillace. Também publicamos um belo livro – filho único – do crítico Inácio Araújo, Casa de Meninas, que é também uma homenagem ao livro da Lygia Fagundes Telles. Um dos autores inéditos que lançamos na época foi o Dau Bastos, com Das Trips, Coração, que o Goldenberg tentou censurar na FAE na época do Collor, assim como o da Bernardette Lyra, Aqui Começa a Dança.

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Vale lembrar, na área de não ficção, o livro do jornalista Lucio Flávio Pinto, Carajás, Ataque ao Coração da Amazônia, um dos primeiros a analisar em detalhes a perigosa aventura do Projeto Jari.

E por aí foi e por aqui vou terminando, que não é a história da editora, que publicou muito mais até “morrer” quando fomos obrigados a vendê-la para quem era, então, nosso sócio majoritário, a Nobel. Que fechou a editora (como fechou também a própria Nobel, a Estúdio Nobel e a editora que também comprou do Quartim de Morais). Não consigo explicar o móvel desse serial killer de editoras, mas é da vida.

Salvo os títulos mencionados que foram reeditados (posso até ter esquecido de um ou outro), esses livros hoje são encontrados em sebos ou em edições piratas (O Papalagui, por exemplo).

Foi bom enquanto durou. Deixou saudades e boas lembranças. A Maria José se firmou em sua verdadeira vocação, que é ser escritora, o Márcio continua produzindo, escrevendo e fazendo um belíssimo trabalho com jovens no TESC, em Manaus (aliás, já encenou dois monólogos e logo encenará uma peça sobre mitos brasileiros vistos de forma irônica, escritos pela Maria José). E eu continuo nessa faina de tentar entender porque tantos livros bons são lidos por poucas pessoas nesse nosso país.

Ladeira de memória é assim. Sinto saudades dos meus tempos de editor, com todos os que nos acompanharam em algum momento.

Algumas páginas do nosso último catálogo:
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2 thoughts on “MARCO ZERO – LADEIRA DA MEMÓRIA II”

  1. Adorei o relato, infelizmente em alguns aspectos tristes, parecido com o meu, no caminho percorrido com a minha editora. Precisamos conversar mais, pois como você, me pego sempre pensando por que tanta coisa boa fica escondida pelo mercado.

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