“Relativa prosperidade, absoluta indigência”

O ensaio do prof. Vladimir Safatle na revista Carta Capital 734 se diferencia, sob vários aspectos, da matéria de Rosane Pavan sobre a qual comentei em post anterior. A primeira, e talvez mais importante, é que se trata de um breve ensaio, enquanto a outra era uma reportagem.
Entretanto, tal como a outra, pretende abranger em um só escopo coisas que, a meu ver, são diferentes. Ou, melhor dito, têm a aparência de estar albergadas em um único conceito, o de “cultura brasileira”, e misturam temas que merecem abordagens diferenciadas.
Reclama o prof. Safatle da ausência de análises dos “rumos da cultura brasileira”, “como se julgamentos de valor no campo da cultura fossem exercícios proibidos, pois seriam pretensas manifestações de uma vontade de submeter a multiplicidade da produção cultural a padrões, no fundo particulares de avaliação”. Segundo ele, os momentos anteriores de crescimento econômico brasileiro foram traduzidos em “momentos de grande explosão criativa”, mesmo na ditadura, e não são assim agora.
(Cabe sempre dizer: estou me dispondo a comentar esse número da Carta Capital motivado principalmente pelo respeito que tenho pela publicação e pelos autores dos textos. Não gastaria meu tempo com barbaridades de colunistas e pseudo jornalistas que babujam calhordices em outros semanários). Dito isso…

Se explicitasse que fala apenas, e tão somente, da chamada “alta cultura”, pouco teria a contradizer ao artigo do prof. Safatle, particularmente nesse aspecto. O campo das artes (o campo no sentido que lhe dá Bourdieu) sofre, por aqui, de uma imensa anemia crítica e o predomínio do compadrio e das afinidades é, infelizmente, avassalador.
Mas tal cultura não é a manifestação exclusiva da criatividade dos diferentes segmentos da população brasileira. Posso concordar com a afirmativa de que “sem crítica cultural não é possível consolidar uma cena artística com capacidade de induzir novos artistas a dar visibilidade a problemas comuns”. Mas, sem diferenciar e explicitar claramente do que fala, o prof. Safatle cai na mesma armadilha que acusa a grande imprensa: a de desconhecer o que acontece fora do campo constituído da “alta cultura”.
Há alguns anos participei de um périplo de divulgação de uma das edições do programa “Rumos”, do Itaú Cultural. Sim, do Itaú Cultural, instituição financiada pelo banco, em parte com recursos da renúncia fiscal, e em parte com recursos próprios. Essa edição do “Rumos” tinha duas vertentes. A primeira cuidava do levantamento da produção musical que se fazia por todos os estados do país. O objetivo do programa é fazer uma espécie de mapeamento dessa produção.
A segunda vertente, na qual eu estava mais ligado, procurava motivar grupos de todas as regiões a desenvolver um trabalho de “recriação” formal de textos literários. Foram selecionados vários contos, de escritores reconhecidos, que deveriam ser transformados, primeiro em um roteiro para um programa de rádio, e depois no próprio programa. Os participantes poderiam, entretanto, desenvolver suas próprias criações literárias e transformá-las nessas duas outras manifestações, o roteiro e o programa. A ideia era ver como, espalhados pelo país, grupos se propunham a experimentar essas permutações do texto literário.
Foram produzidos dois CDs, distribuídos gratuitamente pelo Itaú Cultural para centenas de instituições, e disponibilizados pela Internet.
Porém, o que mais me chamou a atenção na viagem de quinze dias pelo Pará, Maranhão, Roraima, Amazonas, Amapá e Rondônia, foi a vitalidade dos grupos de música, e especialmente os grupos de hip-hop. Em sua maioria constituídos por jovens das periferias que realmente antropofagizavam essa linguagem importada da cultura dos Estados Unidos, já transformada nas periferias das capitais do sudeste, e a transformavam em um eficaz instrumento de expressão artística. Quase sempre vinculados a movimentos de bairros e de periferia, muito ligados à questão da educação, e em busca de uma articulação com os demais grupos que faziam o mesmo trabalho nos outros estados.
Certamente não eram “alta cultura”, e evidentemente passavam muito por fora do radar da imprensa, dos críticos e da indústria cultural. Mas, certamente, faziam parte do que se pode chamar de “economia criativa”. E faziam parte também dos esforços daqueles grupos de encontrar uma voz política e social para expressar seus anseios, tanto os artísticos quanto os de integração social.
Esses grupos não estavam, pelo que vi (e não vi tudo, evidentemente), preocupados com a afirmação da “cultura popular”. Queriam, simplesmente, encontrar meios de expressar de um modo que consideravam artístico, seus anseios, e preocupações. Conseguir resultados materiais ou reconhecimento era, evidentemente, um subproduto. Queriam, sobretudo, se expressar. Tal como os poetas que se reúnem do Sarau da Cooperifa e nos mais de cinquenta saraus semelhantes que se espalham por S. Paulo, por exemplo. Não são “centros culturais” patrocinados por ONGs (embora ninguém seja bobo de recusar ajuda). São a simples manifestação de uma explosão de criatividade, uma versão do “não queremos só comida, mas comida, diversão e arte” da canção dos Titãs.
Para esses grupos, e os tantos outros similares que fazem música, poesia, teatro, dança e sei mais lá o que, a sua expressão artística certamente não se apresenta “como um fim em si mesmo”, mas tampouco é tão só “um meio para conseguir outras coisas”. Faz parte da vida deles, complexa e batalhadora, e nem por isso alheia à sensibilidade artística.
Essa visão da “autonomia da cultura”, a rigor, nunca existiu, salvo para os moradores de torres de marfim, sejam essas as dos castelos universitários ou dos românticos à moda do século XIX, morrendo de consumpção na busca da realização de seus altos ideais estéticos.
Lamentar uma suposta “financeirização” da cultura é tarefa vã. Em que momento, pergunto, a produção cultural esteve afastada da questão de quem a financia? De minha parte, não é de hoje que critico muitas das injunções da Lei Rouanet, inclusive e particularmente seu uso pelas empresas para patrocínio de eventos (efêmeros) ou de transferência direta de recursos para a produção (i.e., para os artistas que, no caso, serão necessariamente luminares bem conectados) em vez de direcionados para melhorar o acesso e a fruição, pela população, dos produtos culturais. Debater a economia da cultura e os mecanismos de financiamento não é “financeirizar” a questão, e sim buscar formas mais transparentes e democráticas de permitir o afloramento das mais diversas manifestações artísticas.
É certo que elementos de espontaneidade estão presentes nessas manifestações da arte dita popular, e que a cultura do improviso, do autodidatismo, deve ser combatida, tal como entre os cultores das “artes nobres” – ou os nobres da cultura. E a importância de se estabelecer uma política de formação, com a constituição de escolas de artes, conservatórios e escolas de cinema, como assinala o prof. Safatle, está mais que devida. Como também ações muito mais amplas de constituição de museus, teatros, bibliotecas e outros equipamentos culturais que possibilitem troca – os artistas “constituídos” se apresentando para novos públicos e os “neo” artistas podendo encontrar seu público.
É de se esperar que o pacote de matérias e ensaios desse número da Carta Capital conduza a um aprofundamento do debate, e nisso reside a principal virtude da publicação da revista.

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