São Paulo – A Babel começa a fazer sentido


A Biblioteca de Babel borgiana, onde todo conhecimento se acumula e nada acontece porque tudo já está lá, só pode ser decifrada quando se consegue recuperar a informação, para assim lhe dar sentido. Esta semana o Sistema de Bibliotecas Públicas de S. Paulo (que está muitíssimo longe de ter esse alcance borgiano, mas que já é um sistema considerável), deu um passo importante para que se possa explorar seu conteúdo.

A Secretaria Municipal de Cultura de S. Paulo completou a catalogação retrospectiva do acervo circulante de todo seu sistema de bibliotecas públicas: 52 bibliotecas de bairro, a Biblioteca Mário de Andrade – segunda maior do país em acervo – Biblioteca Monteiro Lobato, as quatro Bibliotecas do Centro Cultural S. Paulo (Vergueiro), dez ônibus-biblioteca, Biblioteca do Centro Cultural da Juventude e treze pontos de cultura. O sistema abriga também as bibliotecas dos CEUs (45), cujos acervos são adquiridos pela Secretaria Municipal de Educação.

Os cidadãos em geral – não apenas os munícipes da pauliceia – podem saber pela Internet que livros estão disponíveis, em que unidades do sistema se encontram, se estão disponíveis para empréstimo ou leitura. A partir do próximo ano, depois de uma atualização do software, será possível também reservar o livro a ser retirado posteriormente. O usuário cadastrado pode retirar livros em qualquer unidade do Sistema Municipal de Bibliotecas Públicas.

O Secretário Municipal de Cultura, Carlos Augusto Calil, lembrou na cerimônia de anúncio que aquela era uma das “metas secretas de gestão”, referindo-se a ações que não aparecem, mas que são fundamentais para o efetivo funcionamento de políticas públicas.

E poucas coisas são mais “secretas” e fundamentais que a constituição efetiva de um sistema de bibliotecas. Uma biblioteca isolada, desligada das demais, está destinada a estiolar. Nenhum acervo pode ser suficientemente abrangente, em um só lugar, para atender as necessidades dos leitores. Não é necessário que todas as bibliotecas tenham exemplares do “Raízes do Brasil”, por exemplo, mas é preciso saber quantos existem no sistema e onde estão.

A informatização do acervo, entretanto, não é útil tão somente para que os cidadãos saibam onde encontrar o livro que desejam ler. É também um importante instrumento de geração de informação para os administradores do sistema: qual a frequência de retiradas e devoluções em cada unidade; como estão os atrasos de devoluções, que autores, gêneros, idiomas, formatos são solicitados. Todas são informações que permitem aos administradores de sistema ultrapassar vários “achismos” na gestão, e tomar decisões com base em dados sólidos, computados online.

Permite também que se possa construir um meio de comunicação com os usuários das bibliotecas, através dos dados cadastrais. Comunicação que deve se dar nas duas mãos. Diria mesmo, que deve ser fundamentalmente feita a partir dos usuários em direção aos gestores do sistema.

O Sistema Municipal de Bibliotecas de S. Paulo é o mais extenso do Brasil. As unidades mencionadas abrigam – disponíveis para consulta e empréstimo – um acervo de aproximadamente 2.600.000 exemplares, de quase 300.000 títulos. Além desses, existe ainda o acervo de pesquisa, de obras raras e de livros de arte da Biblioteca Mário de Andrade, que deverão ter sua catalogação retrospectiva incorporada ao sistema nos próximos dois anos. É um acervo considerável, e sua organização sistemática permitirá seu melhor aproveitamento.

Mas é insuficiente.

A UNESCO estima uma quantidade mínima – mínima mesmo – de dois livros per capita (bem distribuídos quanto a gêneros, formatos, etc.) para um sistema de bibliotecas públicas. Basta fazer a conta a partir da população registrada no último censo, de 11.253.503 habitantes, para saber com precisão qual o déficit.

A organização do Sistema Municipal de Bibliotecas, entretanto, é um começo fundamental. E o município de S. Paulo é pioneiro nisso.

A importância de implantar sistemas de bibliotecas é um conceito bem estabelecido na biblioteconomia, reconhecido como fator essencial para o desenvolvimento e aplicação de políticas públicas para o livro e a leitura. Várias unidades da federação e municípios iniciaram esse trabalho, mas apenas São Paulo conseguiu completa-lo, até agora.

No Rio de Janeiro, por exemplo, as bibliotecas de Manguinhos, de Niterói e a da Rocinha, que será inaugurada nos próximos dias, já têm seu acervo disponível para consulta online. A Biblioteca Estadual Celso Kelly, que está em reforma, quando reaberta também terá seu acervo incorporado a esse sistema. Mas as bibliotecas do Município do Rio de Janeiro não estão integradas em sistema.

Em Curitiba, a Biblioteca Pública do Paraná, atualmente sob a direção do Rogério Pereira, tem seu acervo também disponível online. Mas o conjunto de bibliotecas municipais de Curitiba, inclusive a dos Faróis do Saber, não estão integradas. No Rio Grande do Sul, também apenas a Biblioteca Estadual, em Porto Alegre, permite o acesso online do acervo.

Essa situação se reproduz Brasil afora. Não fiz nenhum levantamento sistemático e posso estar cometendo injustiças e omissões, mas com certeza em nenhuma capital estadual temos uma situação de sistema de bibliotecas como a de S. Paulo.

O mesmo se repete no interior do país. Várias cidades, dos mais diferentes portes, iniciaram processo de catalogação dos acervos, mas não conheço nenhuma que tenha completado essa tarefa interligando as informações de todas as unidades. Até porque, como se sabe, a situação pelo interior do país se reveste de tons muito mais sombrios, como mostrou a pesquisa sobre as bibliotecas públicas divulgada há dois anos pelo MinC.

A Biblioteca Nacional, apesar de esforços recentes, possui apenas informações fragmentadas do que seja o conjunto das bibliotecas públicas no Brasil – apesar da referida pesquisa – e não dispõe ainda de meios eficazes de acompanhar o desempenho dessas unidades, e muito menos meios para integrar acervos.

No Brasil, além de poucas e precárias, as bibliotecas vivem, em sua imensa maioria – ou quase totalidade, diria – envolvidas nessa sombria situação de isolamento.

A construção do Sistema Municipal de Bibliotecas Públicas de S. Paulo é uma história de superação de dificuldades. Deixando de lado o justificado ufanismo do tamanho da Mário de Andrade, a importância do trabalho de avaliação do acervo infantil e juvenil que há décadas vem sendo feito na Monteiro Lobato, e os números de frequentadores das unidades do Centro Cultural São Paulo, a verdade é que também durante décadas a questão da integração desses acervos foi subestimada.

O primeiro esforço mais recente nesse sentido – ainda muito incipiente – foi dado ainda pela Prof.ª Marilena Chauí, Secretária de Cultura na administração da Luiza Erundina, quando foi feito o primeiro ensaio de catalogação eletrônica das novas aquisições e do acervo da Mário de Andrade. As administrações Maluf e Pitta não deram a menor importância ao assunto, que só foi retomado com a administração Marco Aurélio Garcia, Secretário de Cultura de Marta Suplicy, ainda que sem o impulso e a decisão necessárias. É justiça reconhecer que Carlos Augusto Calil tem sido, de todos os secretários municipais de cultura do período mais recente, o que mais se empenhou para completar modificações essenciais nessa área.

E foram atuações muito significativas. Calil conseguiu terminar a reforma da Mário de Andrade, com recursos do BID cuja negociação havia sido feita na administração Marta Suplicy, quando o prof. José Castilho ocupou a presidência da Mário de Andrade. Calil criou as condições para que a reforma fosse efetivada e recuperou esse monumento, para que faça justiça ao nome que tem.

A reorganização do sistema, sob a direção da bibliotecária Maria Zenita Monteiro, teve outros aspectos importantes. A caracterização de várias bibliotecas por vocação temática – ciências, cinema, contos de fadas, cultura popular, literatura fantástica, meio ambiente, música e poesia – sistematiza os acervos e permite melhor acesso a gêneros específicos, foi um deles.

Outro passo corajoso e necessário foi dado quando, na preparação para a catalogação eletrônica, foram descartados volumes que já estavam imprestáveis para o uso. O descarte é uma atividade normal na gestão de bibliotecas. Livro é de papel. Se cinquenta pessoas leram um mesmo livro, o exemplar se desfaz. E é falta de respeito ao usuário manter um exemplar completamente despedaçado no acervo. Uma das tragédias mais frequentes em nossas péssimas bibliotecárias é representada pelo desespero das bibliotecárias, que passam anos, décadas, sem recursos para adquirir livros novos, e fazem campanhas de doações. E as pessoas recolhem o lixo de casa e colocam livros velhos, desatualizados e arrebentados na porta das bibliotecas. As doações devem ser controladas e selecionadas, e o descarte feito também de modo sistemático. Mas há quem, desinformado ou hipócrita, ache que o descarte é um crime, e consegue repercutir isso até na grande imprensa. O crime, na verdade, é o dos prefeitos que negam recursos para a renovação dos acervos e humilham bibliotecárias e usuários obrigando-os ao uso de livros imprestáveis.

Cabe uma palavra sobre o sistema de gestão de bibliotecas usado pela SMC de São Paulo. O Alexandria Online é um programa de primeira linha, constantemente atualizado. Raquel Mattes, Leonardo Mattes e Luiz Menici, seus responsáveis, construíram um sistema de nível internacional, sem desmerecimento de outros disponíveis no mercado. Suas funcionalidades são amplas e bem estruturadas, permitindo que os administradores do sistema modelem as várias interfaces – com os usuários, com os administradores locais nas bibliotecas e com os gestores do sistema. Está estruturado também para facilitar a catalogação cooperativa, com a utilização do protocolo Z39.5, usando o formato MARC21 para importação e exportação de registros.

Aliás, o bom aproveitamento dessa funcionalidade é um desafio que ainda se impõe ao Sistema Municipal de Bibliotecas de S. Paulo. Esse protocolo Z39.5 permite a captura dos principais elementos de catalogação feito pelas grandes bibliotecas internacionais, intercambiando, consolidando e facilitando a catalogação. As grandes bibliotecas internacionais, como a biblioteca do Congresso dos EUA, a Bibliothèque Française, e dezenas de bibliotecas universitárias de vários países, mantêm aberta a porta para essa troca de informações. No Brasil, apenas o sistema de bibliotecas da USP aproveita essa facilidade, mas apenas dentro do seu sistema, não a abrindo para usuários externos. A Biblioteca Nacional não disponibiliza esse protocolo. O Sistema de Bibliotecas Públicas de S. Paulo está preparado para disponibilizar o acesso de sua catalogação para as demais bibliotecas do mundo inteiro. Não o faz porque a PRODAM, que hospeda o sistema, alega questões de segurança para a permissão. Mais um obstáculo a ser superado, para que S. Paulo possa dar sua contribuição e ajudar na catalogação do acervo de bibliotecas menores espalhadas pelo país e deixar acessível os dados de catalogação de livros brasileiros para as congêneres internacionais.

A modesta cerimônia realizada na Biblioteca Alceu de Amoroso Lima (Biblioteca Temática de Poesia), com a presença do Prefeito Municipal, foi um marco no desenvolvimento de políticas públicas para o livro e leitura em nosso país.

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