TRÊS NOTAS

Depois do jogo do Brasil, quando não achei a moqueca lá muito bem temperada, só deu para o gasto, vão três notas de atualidade do mercado editorial, para não perder o ritmo.

LUCIANA VILLAS BOAS – FICÇÃO HOJE NA VISÃO DE UMA AGENTE LITERÁRIA

Nelson de Oliveira – assinando como Luís Brás – vem publicando, no Jornal Rascunho, uma série de artigos que solicita aos mais diferentes personagens do cenário editorial brasileiro. Do cenário editorial, não exclusivamente da literatura. Até eu já fiz um texto para o Nelson – ops, Luís Brás – nessa série.

No número 170 do jornal curitibano foi a vez da agente literária Luciana Villas Boas. Como todos sabemos, Luciana foi durante muitos anos diretora editorial da Record, e lá publicou muitos autores brasileiros. Depois de sair da editora, casou-se, mas não mudou. Com seu marido americano, Moss, vive entre o Rio, Atlanta e Nova York, administrando uma agência que já conta com um plantel importante de autores brasileiros.

Uma revelação: a iniciativa da Luciana de mandar traduzir trechos dos autores da Record que ela considerava possíveis de serem colocados no mercado internacional foi o que me inspirou a sugerir à Biblioteca Nacional, na administração do Galeno Amorim – uma publicação semelhante, a hoje Machado de Assis Magazine – para publicar excertos de autores para apresentação no mercado internacional de direitos de autor.

Também durante um evento no Itaú Cultural, em um dos Encontros Internacionais do Conexões Itaú Cultural – Mapeamento Internacional da Literatura Brasileira, para o qual havia sido convidada ainda como diretora da Record, Luciana chamou atenção para o fato de que a ausência da literatura brasileira na lista dos livros mais vendidos – e portanto, lembrou ela, também no imaginário do leitor brasileiro – era uma questão grave. Como poderíamos pensar em conquistar mercados internacionais, perguntava ela, se não conseguimos ser importantes nem no nosso? E esse foi um tema e uma colocação polêmica que ela retomou depois.

Há que tomar essa afirmativa da Luciana cum grano salis. De fato, literatura mesmo não é o forte na lista dos best-sellers brasileiros, mas esta ainda é frequentada pelos religiosos e semi-religiosos (ou como queiram qualificar nosso Coelho), assim como pelos “produtores de textos”, como qualifica o prof. João Cezar de Castro Rocha. E, de qualquer modo, qualidade literária não é o forte de nenhuma lista de best-sellers, embora em alguns países a presença dos autores “nacionais” seja predominante.

Luciana toca em um ponto que considero importante para a conquista dos leitores. Diz ela: “Tenho folgado em saber que uns tantos escritores percebem vida literária além da autoficção, que tanto caracteriza a literatura brasileira contemporânea. No exterior, agentes e editores me perguntam quando nossa produção literária vai apresentar histórias que não envolvam almas torturadas de narradores com bloqueio de criação, mergulhados em relações perversas, em cenários de grandes metrópoles, narrativas que buscam sistematicamente diluir sinais de brasilidade.”

De fato, aí temos um ponto importante. Será que nossa literatura (ou boa parte dos nossos escritores contemporâneos, principalmente os mais jovens), estão tão ligados no próprio umbigo que esquecem que sua tarefa como escritores só se realiza plenamente quando são lidos – e lidos preferencialmente por muitos leitores?

Mas isso não exime uma boa parte da responsabilidade dos editores. A impressão que dá, francamente, é que os editores publicam autores nacionais pensando mais nos possíveis prêmios que tais títulos possam ganhar, e aí sucumbem mais aos modismos e às tendências em moda, e isso só pelo “prestígio”, não pelas vendas. Ou, alternativamente, como se cumprissem certa obrigação de “cota”. Publicam (autoficção?) para que não se diga que não editam autores nacionais. Ou, finalmente, na esperança que entrem em algum dos programas de aquisição de livros do governo (o que vale principalmente para a literatura para crianças e jovens).

São pouquíssimos os casos em que existe um investimento real, planos de marketing, apoio às viagens e lançamentos dos autores, etc. Dito seja que até mesmo a presença nas feiras e eventos literários (exceção da FLIP, objeto de desejo de todos, principalmente pelo prestígio, não tanto pelas vendas geradas) não são planejadas e apoiadas pelas editoras. Na maioria das vezes os promotores desses eventos é que escolhem os convidados, e editoras e autores são sujeitos passivos nesse processo.

Em uma palavra, falta muito mais esforço e planejamento dos nossos editores para conquistar mercado para os autores nacionais, mobilizando-os também para essa tarefa de conquistar leitores (e compradores de livros). Afinal, é mais fácil entrar na onda do marketing espontâneo dos best-sellers internacionais.

DRM – ISCA DOS VAREJISTAS PARA USURPAR A RELAÇÃO ENTRE EDITORES, AUTORES E LEITORES.

Em um número recente da newsletter PublishingPerspectives, foi publicado artigo que relata a palestra que Cary Doctorow fez sobre “Escrever na Era Digital”, organizada em Londres pela The Literary Conference. Doctorow não deixa por pouco. Afirma que o DRM – Digital Rights Management, é uma “armadilha” estabelecida pela legislação global de direitos autorais que proporciona às companhias das plataformas digitais – Amazon, Apple, Google, Kobo, Barnes&Noble, entre outras, “o poder de usurpar o relacionamento entre os editores e seus clientes”.

Doctorow á autor de ficção científica (um de seus livros – “Pequeno Irmão” – foi publicado no Brasil pela Record) e literatura para jovens, militante do chamado “copy left” e um dos editores do divertido BoingBoing. O raciocínio que ele desenvolveu na conferência é muito interessante.

Para lembrar: DRM é o meio de estabelecer condições para o uso de conteúdos digitais. Na sua base está o DOI – Digital Objetc Identifier – um código internacional embutido no conteúdo digital que não apenas o identifica, como permite que, toda vez que tal conteúdo trafegue na web, possa ser rastreado. A partir daí foram construídos vários tipos de DRM, também embutidos, que estabelecem essas condições. A principal empresa licenciadora de DRM, no caso de livros, é a Adobe. Os livros publicados no formato ePub são (quando o editor quer) protegidos por esse sistema. Outro produtor de DRM é a própria Amazon. Nesse caso, seu sistema é proprietário e exclusivo, aplicado sobre o formato Mobi, e “escravizado” pela plataforma Kindle.

Mas nem todos os DRMs são restritivos, como os anatemizados por Doctorow. Os chamados DRM sociais simplesmente mostram uma marca d’água digital que alerta os que copiam do fato de que estão eventualmente fazendo uma cópia ilegal, mas não a impedem. Assim, as pessoas podem fazer outras cópias para uso próprio, sem problemas. O site da J.K. Rowling, Pottermore, usa algo desse tipo na venda dos livros do bruxinho.

De fato, a legislação internacional proposta pela OMPI – Organização Mundial da Propriedade Intelectual, órgão da ONU, estabelece que é ilegal remover o DRM dos conteúdos digitais. Na medida em que as editoras colocam – ou aceitem que coloquem (a Rowling não aceita), DRM nos livros, estão, de fato, transferindo o poder de cópia para as plataformas digitais. Essa mania do uso de DRM nasceu da preocupação das editoras com a pirataria digital.

Doctorow argumenta que é uma medida rigorosamente inútil. É praticamente impossível detectar, notificar e tomar medidas legais contra milhares de milhares de sites que colocam conteúdos digitais piratas na rede. Qualquer pirata – e nem precisa ser tecnologicamente muito esperto – sabe como retirar essa proteção fuleira, copiar o conteúdo e, se desejar, coloca-lo na rede a um preço ínfimo ou de graça (que é o que a maioria faz).

O paradoxo é que isso é particularmente verdadeiro para os livros (e também músicas, filmes, programas de TV e o que mais circule na web) de sucesso. Ninguém se preocupa em piratear o que não é sucesso. Coisa com que concordo, e subscrevo. DRM é uma inutilidade para as editoras e um incômodo para os leitores.

Menos para as plataformas.

A Amazon é o exemplo mais acabado disso. Qualquer um consegue remover o DRM dela. Basta procurar na web para achar dúzias de “receitas” de como fazer isso. Mas o formato Mobi é lido por poucos leitores digitais dedicados. Ou seja, quebrar o DRM da Amazon permite que os livros continuem a ser lidos… no Kindle.

Ora, milhões de compradores de produtos da Amazon fazem isso atraídos pelo preço e pelo serviço oferecido. O DRM, no caso, é muito mais parte do processo de prender o freguês no “ecossistema” da Amazon. Uma vez ali dentro, os estímulos são crescentes para que continuem clientes da varejista. Em menor grau, esse também é o objetivo dos demais proprietários de plataformas digitais: manter a fidelidade dos clientes.

O raciocínio do Doctorow vai mais longe. Para ele, as editoras se viram prisioneiras da armadilha na qual elas mesmas se enfiaram. O exemplo da disputa Amazon/Hachette deixa isso evidente.

Diz ele que a Hachette, dentre todas as maiores editoras, sempre assumiu a posição “mais comprometida com o DRM”. A consequência é que cada um e todos os livros da Hachette vendidos pela Amazon estão encadeados pelo DRM da varejista, pois o sistema é da varejista, a editora tão somente autoriza todos os vendedores a colocarem os seus respectivos sistemas. A Hachette poderia desistir de vez da Amazon e vender exclusivamente através de outros. “Porém, para os mais leais compradores de seus livros a Hachette estaria dizendo que, se quiserem continuar comprando seus livros em formato digital, teriam que jogar fora todos os livros que compraram na Amazon para segui-la na Kobo, na Barnes&Noble, no GooglePlay ou na Apple. Casso contrario, teriam que manter duas diferentes infraestruturas de leitura, duas bibliotecas diferentes”. Em uma palavra, dois diferentes sistemas de tudo: busca, armazenamento e desfrute.

Ou seja, a Hachette está enfrentando um brutal dilema, e essa situação será enfrentada mais adiante por todas as demais. A solução, que parece óbvia para muita gente, ainda não é aceita pelas editoras: acabar com o DRM restritivo, deixar seus produtos tão somente com os avisos dos DRMs sociais.

É por isso que defendo que isenção fiscal e tributária para e-readers só deveria valer para aqueles que lessem todos os formatos (obviamente, os atualmente existentes). O que não impediria o uso do DRM, mas evitaria, pelo menos, a escravidão ao aparelho.

AMAZON SMARTPHONE. MAIS DA MESMA ARMADILHA

A semana foi marcada também pelo lançamento (nos EUA), do smartphone da Amazon. Bezos, como sempre, diz que é a coisa mais maravilhosa do mundo. De fato, para quem já está dominado pela varejista, é mais um torrão de açúcar.

As primeiras avaliações repetem o que foi dito sobre o tablet da linha Kindle Fire: são ótimos para quem é fã e está absolutamente satisfeito como que a Amazon oferece.

Mas nem tente usar a traquitana para escapar da coleira. Só quem for muito bom de informática consegue usar o tablet (e o futuro telefone) para além das fronteiras estabelecidas pela varejista.

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