BIENAL DO LIVRO DE SÃO PAULO 2012 – DE ONDE VEIO, PARA ONDE VAI?

Inaugura-se esta semana mais uma Bienal Internacional do Livro de S. Paulo, no Pavilhão do Anhembi. Participo das Bienais do Livro desde os anos 1980, como visitante, expositor e, a certas alturas, como membro da organização. Desde 2004 voltei a ser apenas visitante.

Como a Bienal do Livro é um evento de grande importância, quero aproveitar a oportunidade para comentar alguns dos problemas, sintomas que vêm sendo sentidos desde pelo menos o início do século XXI. E que, aparentemente, vêm se agravando.
Este ano já se podem fazer algumas constatações. Desistências de participações – algumas simbólicas e outras de peso –, uma programação divulgada com atraso e sem nomes internacionais de peso, reclamações sobre o preço dos estandes (raíz de algumas desistências). Por outro lado, a CBL, detentora da Bienal e a Reed Exhibitions Alcântara Machado, a organizadora, informam que a área do evento aumentou e que o aumento real no custo do metro quadrado de estandes foi “apenas” 6,81 %, considerando-se os aumentos havidos de 2008 a 2012. Na época da inflação esse era um índice baixo. Hoje…

Mas, antes de comentar isso, volvemos à origens.

A primeira proposta de Feira do Livro feita pela CBL data de 1951. Era uma feira de rua, na praça de República, semelhante às que até hoje acontecem no Rio de Janeiro, com barraquinhas dos participantes. Em 1961, em conjunto com o MASP, foi organizada a 1ª Bienal Internacional do Livro e das Artes Gráficas, repetida em 1963 e 1965. O MASP ainda funcionava na Sete de Abril, no centro.

A Bienal Internacional do Livro nasceu em 1970, no Pavilhão da Bienal, no Parque do Ibirapuera. Os veteranos que participaram dessa primeira iniciativa, que esta semana chega à sua 22ª. edição, lembram que tiveram de por as mãos na massa, montar estandes com tábuas, de forma quase amadoristica. Depois chegaram as montadoras, os estandes com a tecnologia dos moldes e, em 1996, o evento se tranferiu para o ExpoCenter Norte.

Essa mudança já provocou polêmica, com reclamações de que a saída de um espaço “nobre” como o Pavilhão da Bienal descaracterizava o evento. A verdade é que o “caminho de rato” obrigatoriamente exigido pelas características do Pavilhão da Bienal provocava reclamações dos expositores e de muitos visitantes, espremidos nos corredores estreitos.

É bom lembrar que, enquanto esteve no Ibirapuera, a Bienal do livro foi também um dos palcos de resistência à censura e encontros com escritores, que eram muito incomuns na época. E, sobretudo, a Bienal proporcionava o momento em que os leitores, tanto de livros de ficção quanto de não ficção, tinham oportunidade de ver de perto a multiplicidade dos lançamentos que às vezes não chegam a todas as livrarias ou por ali passam rapidamente.

A CBL, organizadora do evento, é uma entidade que reúne editores, distribuidores e livreiros. Estes últimos sempre viram com muita desconfiança o evento, alegando que retirava compradores das livrarias. A solução encontrada desde as primeiras edições da Bienal era o “cheque-livro”. Este era simplesmente um vale de desconto, equivalente a 10% do valor da compra, e que só podia ser usado nas livrarias fora da Bienal. Assim, os livreiros se beneficiavam com pelo menos 10% da movimentação financeira do evento. Aliás, era formalmente proibido aos expositores que dessem descontos. Dessa forma, a presença das livrarias no evento, reduzida, quando existia era focada em parcerias com editoras. Assim, a Saraiva exibia primordialmente os livros da Editora Saraiva, a antiga Nobel, que era distribuidora, os livros de suas distribuídas, e assim por diante.

Era o espírito de promover o conjunto da cadeia editorial: editoras, distribuidoras e livrarias.

Com a transferência para o Center Norte esse esquema começou a sofrer abalos.

Em primeiro lugar, verificou-se uma mudança no público que frequentava a Bienal. Enquanto no Ibirapuera o público era majoritariamente de classe média intelectualizada, o que passou a frequentar a Bienal no Center Norte tinha um forte componente de outros segmentos da população, como mostravam as pesquisas qualitativas e quantitativas feitas durante o evento.

A melhoria do espaço físico permitiu também um esforço crescentemente maior para atrair os alunos do ensino básico. As visitas escolares já existiam no Ibirapuera, mas o espaço exíguo limitava o seu número e os colégios que a visitavam eram principalmente os de ensino pago, da classe média. No Center Norte essa relação começou a mudar, com o aumento da presença da rede pública.

Dessa maneira, o ambiente supostamente mais intelectualizado do Ibirapuera foi substituído por um público que procurava mais editoras religiosas, livros infantis, etc. As reclamações sobre a “cara de feirão”, esvaziamento do “charme” do Ibirapuera e coisa do estilo começaram aí.

Até 1998, a Bienal do livro tinha um conjunto de atividades chamadas de “Eventos Paralelos”, que incluíam principalmente ações junto aos professores e algumas palestras.

Em 1999, a CBL tomou uma iniciativa que se revelou polêmica. A diretoria da entidade considerou que havia espaço para a realização de uma feira anual, em período diferente da Bienal do Livro. Note-se que a Bienal do Livro do Rio de Janeiro acontecia normalmente em agosto/setembro dos anos ímpares, e a de São Paulo na mesma época nos anos pares. A Diretoria da CBL resolveu promover naquele ano um Salão do Livro, que aconteceria nos anos ímpares, no primeiro semestre, para evitar coincidência com o evento carioca.

O SNEL, que promove a Bienal do Livro do Rio de Janeiro, rejeitou a ideia, e de modo bem agressivo. Transferiu sua Bienal de agosto para abril, para coincidir com o Salão do Livro paulista.

Mas os dois eventos apresentaram uma novidade. A CBL anunciou que os “eventos paralelos” seriam ampliados e agrupados em um Salão de Ideias, com presença de autores de várias áreas, e em conversas temáticas. Imediatamente os cariocas declararam que a Bienal do Rio de Janeiro teria um Café Literário, com as mesmas finalidades.

No frigir dos ovos, essa disputa meio idiota resultou num upgrade para as duas feiras, com uma ênfase muito maior nos eventos literários, convidando-se autores internacionais e nacionais de prestígio.

No que toca ao evento paulista, de cuja organização na época eu fazia parte, a seleção dos autores convidados obedecia a sugestões das editorasinteressadas, indicações de intelectuais e mesmo de outros editores. E a viagem era feita sempre em parceria: a CBL pagava a passagem – nacional ou internacional – e as editoras pagavam os custos de hospedagem e o que mais seus autores acordassem com as mesmas. Os autores que vinham para a Bienal normalmente viajavam para outras cidades, maximizando o esforço conjunto da CBL e dos expositores.

Na virada do milênio, a Diretoria da CBL, na administração Raul Wassermann, criou uma “Comissão Repensando a Bienal”, para estudar e propor eventuais modificações no formato. Já havia uma certa sensação de “malaise” no ar, de que o modelo começava a se esgotar: reclamações sobre os custos do evento e, principalmente, sobre o não retorno esperado do investimento feito pelos expositores. Essa Comissão, entretanto, não chegou a apresentar propostas específicas de mudanças.

É importante destacar três coisas, válidas principalmente para a Bienal do Livro de S. Paulo, e sob alguns aspectos, também na do Rio de Janeiro.

A primeira é a de que o evento sempre foi considerado principalmente por seu valor promocional. Promoção da leitura, promoção do livro em geral, promoção de autores e promoção do catálogo das editoras. A expectativa de que os visitantes encontrassem ali um panorama geral do catálogo de cada um dos expositores sempre foi um fator muito presente, e objeto também de cuidadosos estudos para a elaboração do lay-out da feira, de modo a mesclar estandes grandes e pequenos.

O segundo aspecto é de que as bienais – tanto a de S. Paulo quanto a do Rio de Janeiro – são um importante componente do orçamento para que as duas entidades – CBL e SNEL – contem com recursos para suas atividades de promoção, defesa dos interesses dos associados, apoio a outras feiras e participação em organismos internacionais – IPA, GIE, por exemplo – e atuação junto às esferas governamentais, etc.

O terceiro aspecto era o esforço para efetivamente integrar o conjunto da cadeia produtiva e criativa do livro no evento. Daí o “cheque-livro”, a proibição de descontos e o Salão de Ideias.

Como todos sabemos, nos últimos quinze anos as transformações foram aceleradas no mercado editorial e, digamos assim, no “ambiente literário”.

Neste último caso, o surgimento de uma quantidade expressiva de eventos puramente literários foi enorme. Hoje temos não apenas a FLIP, como também um número bem grande de outros eventos do mesmo gênero ou parecidos, em quase todos os estados. O contato autor/leitor se tornou muito mais fluido e permanente. Em alguns casos, os eventos são tão somente festivais, sem o caráter de feira. Em outros, verifica-se uma exitosa combinação das duas coisas: venda de livros no formato de estandes de editoras e livrarias, e programação com os autores.

No caso particular de S. Paulo, a proliferação de lugares e momentos para esse encontro entre leitores e autores se multiplicou. Instituições como o SESC aumentam cada vez mais sua presença. As grandes livrarias dispõem de auditórios para que os lançamentos não sejam apenas em torno da venda de livros, e sim momentos de debate. Além disso, existe cada vez mais programação de eventos nesses auditórios. Instituições como a Casa do Saber, Escola S. Paulo e outras, oferecem continuadamente uma programação de alto nível e sobre uma multiplicidade de temas, gerando um fluxo constante de oferta de possibilidades de discussões e debates intelectuais. O surgimento e o aumento de oficinas de criação literária propicia também outro fórum para as discussões literárias. Dessa maneira, aquele momento focal que eram as bienais foram, de certa forma, ultrapassados por essa imensa oferta.

Algumas modificações na estrutura das feiras também foram muito importantes, e nem sempre, no meu entender, no bom sentido.

Destaco questões importantes. O cancelamento do sistema de cheque-livro retirou as livrarias, especialmente as menores, da movimentação financeira das bienais. As grandes redes ficaram com duas alternativas, que utilizam amplamente: constroem grandes estandes nas feiras e desenvolvem um trabalho específico de relacionamento e marketing com seus clientes em todas suas lojas. Assim, por exemplo, a Livraria Cultura deixou de participar há muito das bienais, enquanto a Saraiva tranformous seu estande em uma “mini” megastore.

No modelo vigante até o final dos anos 1990, os dois primeiros dias eram dedicados aos profissionais do livro. Pretendia-se criar um ambiente de negócios entre editores, distribuidores e livreiros, e palestras que fossem de interesse dos diferentes segmentos de mercado. Isso acabou, apesar da programação se manter e apresentar várias mesas e palestras muito interessantes. Mas essas palestras para profissionais ocorrem no período normal de visitação, o que evidentemente dificulta a presença dos principais interessados, ocupados em seus estandes.

O lay-out das feiras abandonou, de modo evidente, a tentativa de mesclar expositores de porte diferente, que procurava fazer com que uns atraíssem visitantes também para os outros. O que se vê hoje é um “pelotão de frente” que procura capturar de imediato a atenção dos visitantes. Do abandono do cheque-livro já falei.

O preço do estacionamento no Anhembi (que é uma concessão que não depende dos promotores das feiras) é um absurdo. Vamos convir: quem quer pagar R$ 30,00 pelo estacionamento e R$ 12,00 pelo ingresso para dar de cara com uma “mini” megastore da Saraiva, que pode ser visitada nos grandes shoppings centers com ingresso gratuito, estacionamento mais barato? É preciso muito boa vontade para achar que o transporte entre o Metrô e o o Anhembi compensa isso. A compensação evidente é a presença do público infantil e juvenil, importante para a formação de novos leitores, mas que também aliena o interesse dos leitores já formados em busca do que não conheciam.

Outro fator que modificou em muito o interesse pela Bienal é o desenvolvimento da Internet. Nos seus primórdios, ir à Bienal era praticamente a única forma de se conhecer o conjunto da produção editorial do país. Isso é passado. Não apenas as grandes megastores oferecem in loco uma grande variedade, com serviços cada vez melhores que facilitam o atendimento. Mas, sobretudo, o desenvolvimento da Internet mudou e muda cada vez mais aceleradamente o modo do público leitor achar os livros. As editoras, principalmente as especializadas e de pequeno e médio porte, constatam que a difusão de seus catálogos online mantem vivos títulos que, em outras épocas, já teriam sido retirados dos catálogos há muito tempo. E isso se deve ao fato de que os leitores encontram esses livros por meios eletrônicos.

O resultado é que começa a haver defecções significativas na presença de editoras na Bienal. Algumas são simbólicas, como é o caso da Summus, de propriedade de um ex-presidente da CBL, que deixou claro e por escrito as razões de sua não presença no evento. Outras tem um peso específico para um determinado público, como é o caso da Cosac&Naify. E, mais significativo ainda, é a ausência de duas editoras do setor didádico, e de grande porte, como é o caso da Positivo e da Editora Nacional/IBEP. A Positivo, aliás, patrocina um evento de uma subsidiária da Feira do Livro de Frankfurt, a CONTEC, que acontece nos dias 7 e 8 de agosto no Auditório do Ibirapuera, com uma fornida presença de palestrantes internacionais (e de ingresso gratuito para os inscritos).

São sintomas da crise do modelo, evidentemente. A “conta não fecha”, como diz Raul Wassermann, ou o público alvo não está presente no evento, como parece ser a consideração da Cosac&Naify, do IBEP/NACIONAL e da Positivo.

Acrescento que, na minha análise, a crise desse modelo é particularmente sensível para as Bienais do Livro de S. Paulo e do Rio de Janeiro. Pelas observações e informações que recolho, as feiras de capitais no norte, nordeste e centro-oeste do país ainda estão se sustentando com sucesso, muitas vezes graças a substanciais investimentos do setor público, principalmente na forma de cheques-livros e vales de compras entregues a alunos e professores da rede pública. Esses aportes são um fenômeno mais recente e muito importante para que professores e alunos tenham a oportunidade de adquirir livros. Além do mais, nessas cidades, a oferta de programas culturais é muito menor, de modo que as feiras e festivais suprem uma necessidade de abrir espaço para o contato entrte leitores e escritores.

Não tenho vocação para Cassandra e realmente gostaria de estar completamente equivocado. Mas acredito que, se o modelo das Bienais do Rio de Janeiro e de São Paulo não for repensado e reformulado, o risco que a CBL e o SNEL correm é de, em alguma das próximas edições, assumirem compromissos financeiros vultosos com o aluguel do espaço e a preparação do evento e, de repente, se verem sem expositores suficientes para cobrir esses compromissos. Se isso acontecer, acaba tanto a promoção do livro e da leitura e como o aporte para as finanças das entidades.

O modelo exitoso em um determinado período pode esgotar seu prazo de validade. O exemplo da FENIT, em São Paulo, é o mais gritante. Mas o surgimento de espaços expositivos menores e mais flexíveis é sinal de que, para vários setores, os mega-eventos já estão a caminho da extinção. Os dinossauros já foram extintos. Serão as grandes feiras as próximas vítimas da evolução?

2 comentários em “BIENAL DO LIVRO DE SÃO PAULO 2012 – DE ONDE VEIO, PARA ONDE VAI?”

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