China – Políticas para o livro na visão de um inglês

Roger Tagholm visitou recentemente a China no contexto da organização do Market Focus Program, da Feira de Livros de Londres, que colocará o país asiático no centro das perspectivas do mercado naquele evento internacional. Tagholm publicou o artigo abaixo no Publishing Perspectives, que autorizou sua reprodução aqui.

CHINA, UMA HISTÓRIA LITERÁRIA QUE SE DESENROLA

Existe uma grande ênfase hoje na China no enorme projeto governamental de Salas de Leitura Rurais, uma ambiciosa iniciativa que tem como alvo colocar uma “sala de leitura” – de fato uma biblioteca – em cada uma das 630.000 aldeias da nação. Até agora cerca de 500.000 já foram instaladas e quando o projeto terminar, o investimento do governo chinês deverá ficar por volta de 18,5 bilhões de yuan (aproximadamente US$ 2,9 bilhões, ou R$ 5,22 bilhões).

Esse esquema, orgulhosamente apresentado por Wu Shuilin, vice-ministro da Administração Geral de Imprensa e Publicações da China (AGIPC), o órgão governamental que dirige toda a mídia do país, está entre a grande quantidade de ideias e informações absorvidas pela mídia do Reino Unido durante a recente visita ao país, organizada pelo British Council e ligadas ao papel da China como Market Focus na Feira de Livros de Londres, este mês. Como a maioria de meus colegas jornalistas, jamais havia estado antes na China e o programa apertado, cobrindo três cidades, foi cheio de descobertas.

“A China ainda é um país em desenvolvimento e 800 milhões de pessoas ainda vivem nas áreas rurais”, disse Shulin. “Como garantir a eles o acesso aos livros é um assunto importante. Os governos central e locais já gastaram muito dinheiro para ajudar os fazendeiros a ter acesso aos livros. As Salas de Leitura nas pequenas aldeias tem 1.500 títulos e 100 periódicos e jornais, mas em algumas das maiores, as Salas de leitura podem chegar a ter 50.000 livros. Estamos despendendo muito tempo e energia no direito dos cidadãos saber e ler.”

É claro que os cínicos dirão que esse projeto trata apenas da doutrinação das pessoas para que se transformem em autênticos seguidores do Partido, ou coisa assim. É interessante observar que a atitude inicial de muitas pessoas no Ocidente é criticar a China em tudo que faça – a menos, é claro, que você seja diretor da Cartier, Dior, Burbery, ou qualquer outra dessas marcas de luxo, casos em que sua língua fica de fora, realmente babando por todos esses yuans.

A ocidentalização de partes de Shangai, Nanjing e Beijing é impressionante. Parece existir mais marcas familiares ali que nos países de origem. A China deve ser o mais capitalista dos países comunistas do planeta, com os muitos shoppings centres verticais de Beijing ao mesmo tempo familiares e irreconhecíveis. Fica-se esperando ver uma Waterstones ou uma Foyles (esses lugares parecem muito com os dois shoppings de Westfield, em Londres), ou mesmo uma Barnes & Noble.

LIVRARIAS COMO EM NENHUM OUTRO LUGAR

Minha visita à enorme livraria Wang Fujing, que faz parte da imensa cadeia Xinhua, que é propriedade do governo, foi um ponto alto pessoal. A loja está perto da Praça Tiananmen e viu os tanques passando em 1989. Retratos emoldurados do Presidente Mao e seus camaradas Chu Enlai, Deng Xiaoping e Sun Zhong Shan recepcionam os clientes, enquanto abaixo deles, incongruentemente, há uma grande seção dedicada aos livros de Dale Carnegie. Os títulos das seções são dignos de admiração: “Obras dos Líderes do Estado”, “Teorias e Obras de Marx, Engels e Lênin”, “História e Desenvolvimento do Partido Comunista”, e uma enorme exibição de títulos associados a Li Feng, um leal soldado maoísta, pouco conhecido no Ocidente, que morreu jovem e é saudado como cidadão modelo. “Todos esses livros são clamados de ‘clássicos vermelhos’”, disse Meijing, do British Council em Beijing. “Algumas empresas estatais os compram para leitura dos funcionários”.

Nessa enorme livraria, o departamento de ficção – tanto chinesa quanto ficção estrangeira traduzida – estava no último andar, fazendo o papel, supõe-se, como o de muitos restaurantes nas lojas de departamento, de atrair os clientes para a loja. Notei cerca de 20 estantes marcadas como “Romances de Detetive Estrangeiros”, com o país de origem marcado na lombada, assim como uma enorme seção de caligrafia, incluindo pinceis e papel – uma lembrança da longa e nobre tradição caligráfica da poesia chinesa.

NÃO SE ESCREVE COMPLETAMENTE SEM RESTRIÇÕES

Nossa programação intensa teve encontro com escritores, editores, publishers de livros e revistas, assim como com a diretoria da AGIPC. Esse foi um encontro significativo, já que esse tipo de encontros com jornalistas são raros. Alistar Burtenshaw, Diretor da Feira de Livros de Londres também acompanhou o grupo, para salientar a importância do Market Focus deste mês, que é o maior de todos já acontecidos.

Em nosso primeiro encontro com escritores, em Shangai, ambos os lados (desculpem esse linguajar da Guerra Fria) estavam um pouco nervosos. Podemos mencionar a Praça Tiananmen? Que liberdade teriam os autores para dizer o que desejassem? Algumas das respostas foram fascinantes.

“É melhor escrever sem liberdade do que com liberdade”, disse o romancista e professor universitário Xiao Bai. Metaforicamente – e os chineses são adeptos de tais conceitos – saltamos sobre ele para que explicasse. “Se existem restrições, você sente a necessidade de quebrar essas restrições, mas não queremos o papel de oposição [política]. Os escritores devem observar uma política humana desde sua perspectiva pessoal, individual.”

Seu colega romancista Sun Ganlu, diretor da Associação de Escritores de Shangai, acrescentou: “Acredito que seja obrigação de todos nós expressar nossas opiniões sobre as políticas públicas, mas os escritores têm maneiras diferentes de fazer isso. Nenhuma escrita é completamente livre, completamente sem restrições – você está restrito por seu gênero, raça, o tempo, ou pelo estilo de escrever. Assim, a política talvez seja apenas mais uma dessas restrições.”

Sobre Tiananmen, a visão era a de que foi um momento na história, e que as atuais limitações também passarão a fazer parte da história. O romancista Fang Teng – que está entre os autores que irão à Feira de Londres – disse, “Eu escrevo tão livremente quanto quero, mas dou aos meus editores a liberdade de cortar o que quiserem. Fiz meu acordo com o mundo”.

REVISTAS LITERÁRIAS E A BIBLIOTECA 2666

A saúde das revistas literárias é impressionante, como a Chutzpah (porque audácia foi necessária para lançá-la) e que vende 30.000 de cada número, segundo seu editor-chefe, Ou Ning. Ele irá participar de um painel de discussão sobre revistas literárias na feira do livro e espera achar um distribuidor para sua revista no Reino Unido. Muitas obras novas, inclusive romances, aparecem inicialmente em um caleidoscópio de revistas literárias – Literatura do Povo, Caminho de Luz, Colheita – e então mais tarde podem se transformar em livro. Publicar primeiro nesse formato parece ser comercialmente menos arriscado e também prepara o mercado para o livro. O contista Li Er, que também irá a Londres, colocou de modo simples: “O futuro da literatura na China está nas revistas”.

Em vez de sermos levados à enorme biblioteca de Shangai, seguimos o guia por um estreito hutong (beco) até a minúscula Biblioteca 2666, que deve ser uma das mais escondidas do mundo. Fundada há um ano por cinco jornalistas como recurso comunitário para os moradores locais, a biblioteca emprestou seu nome do romance 2666, do autor chileno Roberto Bolaño. Um dos fundadores, Shi Jan Feng, disse: “Somos diferentes de outras bibliotecas – pequena e aconchegante. Temos cerca de 3.000 livros, com alguns autores doando seus livros, alguns dos quais, autografados, temos à venda. Fazemos eventos diferentes todas as semanas e organizamos a visita de 20 ou 30 autores anos passado, inclusive Janette Winterson. Às vezes ficamos abertos até a uma da madrugada – frequentemente são os usuários que nos ajudam a fechar”.

Como introdução à indústria editorial chinesa a visita não poderia ter sido melhor. Mostrou uma indústria – tal como o próprio país – em processo de transição, deixando de ser propriedade estatal para um híbrido de estatal/particular. As livrarias de algumas províncias recebem ajuda estatal, fato que deve interessar às associações profissionais do Ocidente, e a continuidade da existência de livrarias físicas é evidentemente valorizada pelo governo. Os escritores parecem ter liberdade para escrever o que querem, mesmo que às vezes nem sempre possam publicar o que escrevem. Críticas ao governo saem via NET ou o weibo , o Twitter chinês, que é difícil de policiar.

Burteenshaw voltou ainda uma vez para supervisionar os últimos detalhes do extenso programa chinês, que ele resume dessa maneira: “Como convém ao maior mercado editorial por volume, e o tamanho do país, o programa do China Market Focus será o mais extenso que fizemos. O pavilhão deles cobre mais de 2.100 metros quadrados no qual mais de 180 editoras chinesas estão expondo. Além disso, muitas companhias chinesas farão exposições independentes. A escala do pavilhão, o programa e o número de visitantes chineses deverá proporcionar uma oportunidade fantástica para os editores internacionais desenvolverem suas redes, construindo contatos e aumentando seu conhecimento da indústria editorial chinesa.

Eu certamente passarei para dizer ni hao a meus novos amigos e contatos e saber mais sobre essa história fascinante, e que ainda está em curso.

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