Poliglota versus Tradutor: diferentes abordagens do Multilinguismo


Há algumas semanas li, no New York Times Book Review, a resenha desse livro, que achei muito interessante. Hoje, o autor publicou um artigo na newsletter Publishing Perspectives. Tomei a liberdade de escrever ao Ed Nawotka, editor da newsletter, para traduzir e publicar aqui o artigo, que compartilho com vocês.

Poliglota versus Tradutor: diferentes abordagens do Multilinguismo

Michael Erard

O tradutor e o poliglota assumem posições bem distintas diante do fato de que todos os seres humanos não falam a mesma língua. O tradutor está no negócio da transposição, levando significados de um lado para o outro das barreiras linguísticas, para benefício daqueles mais linguisticamente enraizados. O poliglota, por outro lado, vai sozinho, raramente retraça seus passos, e não leva nada para ninguém. O tradutor pilota uma balsa de transporte. O poliglota é como Marco Polo.

É claro, alguns poliglotas e hiperglotas sobre os quais escrevo em meu livro Babel No More (recém publicado pela Free Press) são (ou foram) tradutores, em parte porque é um modo de ganhar a vida com suas experiências linguísticas. Lomb Kató, uma figura estimada em sua Hungria nativa, trabalhou como tradutora; e aprendia seu 17º. Idioma, o hebraico, já com seus oitenta anos. Erik Gunnemark, o autor sueco de The Art and Science of Learning Languages, podia traduzir entre quarenta a tantas línguas, e Emil Krebs, diplomata alemão que morreu em 1930, foi treinado como tradutor do chinês, mas dizia poder trabalhar também em mais 31 línguas. O diplomata e militar americano Vernon Walters trabalhou como intérprete em múltiplas línguas para vários presidentes americanos.

Muita da atenção positiva para Babel No More veio de tradutores (por exemplo, Peter Constantine, um tradutor premiado, escreveu a resenha para o New York Times). Como hiperpoliglotas, são amantes apaixonados da linguagem, envolvidos com idiomas de um modo que a maioria das pessoas, mesmo falantes nativos, não é. Suas habilidades envolvem um tipo especializado de inteligência e habilidades linguísticas que supera até as melhores metáforas para explicar a prática. E, como os hiperpoliglotas, são incompreendidos, ou subestimados, e negligenciados.

Mas muitos hiperpoliglotas não trabalharam muito em tradução. Elihu Burrit, ianque de Connecticut do Século XIX, por exemplo, aprendeu sozinho a ler em 30 idiomas. De vez em quando ajudava quando apareciam documentos estranhos em idiomas desconhecidos, mas trabalhou principalmente como ferreiro, e depois se transformou num reformador do tráfego postal transatlântico (ele achava que a postagem das cartas só deveria custar um centavo). Em 1806, a primeira menção publicada sobre um cardeal italiano e famoso aprendiz de idiomas, Giuseppe Mezzofanti, foi sobre um pequeno trabalho de tradução feito por ele, que mais tarde desenraizou heresias potenciais embutidas em traduções ineptas das Escrituras. Mas na verdade ele não passava muito tempo disponibilizando as experiências de outros.

Mas se pensarmos sobre isso, poliglotas e tradutores na verdade não estão no mesmo time. Cada uma dessas práticas, na sua forma mais pura, assume posições opostas sobre a competência da tradução. Sim, o incansável acúmulo de línguas do poliglota está enraizado nas mesmas condições históricas e culturais que ajudaram a formar as tradições da tradução. E, sim, tradições de tradução se orientam de várias maneiras no sentido de construir-significado e preservar significado. Mas isso não quer dizer que uma prática seja melhor que a outra. Na verdade, é interessante ver como essas afinidades são tão profundas a despeito das diferenças.

As pessoas se tornam poliglotas porque precisam ou querem ler os textos nos idiomas originais. Às vezes não há tradutores que façam o trânsito entre aquela língua e a do poliglota. Às vezes existe esse trânsito, mas o texto é muito pouco conhecido para chamar atenção. Outras pessoas se tornam poliglotas porque acreditam que as ressonâncias do idioma original são tão sutis, tão sublimes, que não podem ser suficientemente representadas na tradução. Também não querem se limitar ao que foi traduzido. Se você conhece a língua, pode ler qualquer coisa, ir a qualquer lugar. O poliglota pensa, se essa linguagem é suficientemente boa para seus falantes nativos, por que não para mim? O tradutor pensa, se alguma coisa na língua A é suficientemente boa para seus falantes nativos, por quer não para os outros?

É claro que nem todo mundo se transforma em poliglota, de modo que sempre precisamos de tradutores. Por outro lado, os tradutores não conseguem traduzir tudo para todos, e é por essa abertura que sempre haverá pessoas seguindo o caminho do poliglota.

Michael Erard é autor de Babel No More: The Search for the World Most Extraordinary Language Learners (Free Press). Artigos seus apareceram também no New York Times, Science, Wired, Slate e muitas outras publicações. Seu livro sobre o que dizemos (mas desejamos não ter dito), Um…: Slips, Stumbles, and Verbal Blunders, and What They Mean foi publicado em 2007 (Pantheon)

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