A Biblioteca de Babel existe?

Acabei de ler (no meu Kindle), o livro Information – A History – A Theory – A Flood (Informação – Uma História – Uma Teoria – Uma Inundação), de James Gleick (Pantheon Press). Já li dois outros livros de Gleick – Genius, que é uma biografia de Richard Feynman, talvez o último gênio da física do Século XX, e a biografia de Isaac Newton, quando o autor teve que tirar leite de pedra para conseguir os fatos do formulador da lei da gravidade, um bizarro que gostava de queimar todos seus papeis.
Em Information, Gleick começa mostrando como funciona, de fato, a comunicação por tambores usada na África, trata do telégrafo, da criptografia e detalha o surgimento da teoria da informação e de como esta foi se imbricando com a física quântica, a genética, o acaso, o facebook e a Wikipédia, e termina nas indagações sobre a biblioteca de Babel.
Mas, antes de chegar lá, Gleick vai mostrando uma galeria de personagens fantásticos. Ele realmente consegue transformar em algo sensacional e eletrizante (!) a vida de físicos, engenheiros e outros quetais.

Algumas pérolas.
Todos nós, letrados, já ouvimos falar do poeta romântico inglês Lord Byron. Não apenas por seu papel no romantismo como pelas viagens, inclusive a famosa estadia em Genebra com Percy e Mary Shelley, quando esta escreveu Frankenstein. Acusado de ter tido uma filha com a irmã, Augusta, Byron casou-se com outra aristocrata inglesa, Anne Milbanke, e com ela teve uma filha, Ada Augusta Byron King, Condessa de Lovelace. Essa mocinha, com esse nome que nos faz lembrar o filme Deep Throath, foi uma matemática de altíssimo nível, e é considerada a primeira programadora de computadores – na primeira metade do século XIX. Ela programou o computador projetado por Babbage, outro matemático, que não conseguiu construi-lo porque a metalurgia da época não tinha condições técnicas para isso. Já no século XX a máquina foi feita e funcionou, seguindo a programação de Lovelace.
Podem acreditar que o livro tem muito mais personagens geniais, bizarros e pacatamente criativos que foram construindo a teoria da informação. Uma delícia de leitura.
Claude Shannon, matemático e pesquisador do Bell Laboratory, foi quem definiu o “bit” como a unidade mínima de informação existente. No mesmo laboratório e na mesma época da invenção do transístor, e a combinação das duas coisas levou a hoje podermos ler esse texto em computadores que podem estar separados por milhares de quilômetros, recebendo dados armazenados na “nuvem”.
Essa tortuosa história, entretanto, interessa aqui pelas implicações práticas e filosóficas que dizem respeito à Biblioteca de Babel, a invenção borgiana, na qual metaforicamente estaria depositado todo o conhecimento humano. “O Universo, (que outros chamam de biblioteca)” e o seu paradoxo: nenhum conhecimento pode ser descoberto ali porque todo conhecimento já está lá, lado a lado nas prateleiras que contem todos os livros sobre todas as coisas em todos os idiomas.
A Biblioteca de Babel é o caso perfeito do empanturramento de informação que nos assola. Imaginariamente, Borges já tinha descrito esse verdadeiro caos que é a abundância da informação, que nos bombardeia por todos os lados, a todo instante. Biblioteca de Babel que a Wikipédia imagina reproduzir, como a enciclopédia de todas as enciclopédias. Biblioteca de Babel que o Google quer que exista online, com todos os livros do mundo, em todos os idiomas, digitalizados e disponíveis “na nuvem”.
O caos.
No entanto, no final, a semântica, o significado, termina por prevalecer. Ao contrário da invenção borgiana, os sistemas de informação criaram seus sistemas de busca e filtro, e é isso que nos separa da Biblioteca de Babel, onde tudo está e nada é encontrado. Diferenciar entre informação e significado no meio dessa pletora de bits é o que restaura nossa humanidade. Os engenheiros simplesmente nos deram a oportunidade de explorar melhor, ao compreender, que informação não é significado, não é conhecimento.
O Universo é a Biblioteca de Babel, mas nós é que damos significado a ela.

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