O português brasileiro no mundo e a tradução.

404 — Not Found

blacktroop.com

404

Page Not Found

It seems that the page you were trying to reach does not exist anymore, or maybe it has just moved. You can start again from the home or go back to previous page.

A tradução é um grande fator de consolidação e expansão das línguas literárias. Mesmo depois de sua consolidação – geralmente por um processo político, mas que inclui em muitos casos a cristalização em uma grande obra literária – o enriquecimento dos idiomas sempre se dinamiza com a polinização feita pelas traduções. No caso das línguas neolatinas, deu-se a necessidade de traduzir os textos originários do latim, que em muitos casos já eram traduções do grego, e mais ainda, traduções feitas através do árabe. No caso do inglês e do alemão as respectivas traduções da Bíblia foram fator importantíssimo na cristalização dos respectivos idiomas. As traduções de Lutero e a do Rei Jaime introduziram e consolidaram muitas palavras e expressões que, paulatinamente, se tornaram comuns no alemão e no inglês.

No decorrer da história, algumas circunstâncias políticas, econômicas e sociais fazem que, em um determinado período, alguns idiomas assumam um papel predominante. No início do mundo moderno o português e o espanhol assumiram esse papel, e espalharam vocábulos pelo mundo afora. Mais tarde foi a vez do francês, a língua da diplomacia, talvez a primeira – depois da eliminação do latim – a se tornar “língua franca” no chamado Ocidente. Finalmente o inglês, impulsionando primeiro pelo Império Britânico e depois pela preponderância econômica e militar dos Estados Unidos, assumiu esse papel.

Essa preponderância aparece de modo muito concreto no mundo editorial, evidenciando-se sob duas formas. Em primeiro lugar, o inglês é o idioma de origem da imensa maioria das traduções feitas para qualquer outro idioma. Em segundo lugar, o idioma inglês – e particularmente o que se expressa nos livros publicados nos Estados Unidos – é o que menos recebe traduções.

Chad Post, professor da Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, mantém um site chamado “The Three Percent Problem”. O nome vem da avaliação feita por ele que ao norte apenas três por cento das publicações nos EUA são traduções, e que isso estreita a visão do mundo dos americanos. Chad Post é um batalhador pelo aumento das traduções nos Estados Unidos. Há alguns anos o secretário da Academia Sueca também “acusou” a literatura estadounidense de provinciana e limitada por não receber a influência da literatura universal.

À parte a ranhetice do sueco, o fato é que, não apenas na literatura, mas também nas ciências, o predomínio do inglês é avassalador. Tão grande que gera reações bem características em diferentes países, geralmente bradando por um apoio especial para suas literaturas e na promoção dos respectivos escritores. E os norteamericanos acabam se encerrando em sua autossuficiência.

A UNESCO mantem um arquivo chamado “Index Translationum”, desde 1932. A partir de 1979 as informações foram colocadas online e servem de base para algumas observações interessantes. Recentemente estudei essas informações em função de um projeto em que trabalho no Itaú Cultural, o “Conexões – Mapeamento Internacional da Literatura Brasileira” (www.conexoesitaucultural.org.br), que pretende montar um banco de dados com informações de pesquisadores, professores e tradutores da literatura brasileira no exterior. Já temos mais de 200 mapeados e continuamos crescendo, e vários quadros estatísticos que podem ser vistos no site.

A análise de alguns dados do Index revelou-se interessante. Dos cinquenta autores mais traduzidos no mundo, segundo o Index, nada menos que vinte e dois são de língua inglesa, seis são alemães e franceses, quatro russos, um polonês (João Paulo II), um grego (Platão), uma sueca (Astrid Lindgren), um checo (Kafka), um dinamarquês (Andersen) e um “coletivo”. Ou seja, 44% do total são de língua inglesa. É muito para um só idioma.

Entretanto, dos vinte países que mais publicam traduções, os Estados Unidos estão em 11º. lugar e a Inglaterra não está no grupo. E, considerando o tamanho da produção editorial e a população dos EUA, essa posição é sintomática da falta de interesse pelo que se escreve no resto do mundo. O país que mais traduz é a Alemanha, o Brasil está em 12º. lugar, logo depois da China. Esses números dizem respeito a todos os tipos de tradução, das ciências humanas e sociais às ciências naturais e exatas, e à literatura.

As informações confirmam a percepção de que os Estados Unidos são “exportadores idiomáticos” muito maiores que importadores. E a Alemanha absorve gulosamente em seu idioma uma boa parte do que se escreve pelo resto do mundo.

As recentes iniciativas da Biblioteca Nacional de melhorar o programa de bolsas para a tradução podem contribuir um pouco para aumentar a presença brasileira (e, por conseguinte, do português), no panorama. Mas certamente não vão alterar o quadro geral.

Ao manusear os questionários enviados pelos mapeados do Conexões percebemos também um problema ligado a esse intercâmbio idiomático: nosso mercado editorial é muito pobre em dicionários. Nos últimos vinte anos tivemos a publicação no Brasil de dois importantes dicionários do português, o Aurélio e o Houaiss, além do Dicionário da Academia de Ciências de Lisboa (Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea). Todos referentes ao português contemporâneo, sem nenhum que tenha um alcance histórico e filológico que mesmo de longe possa ser comparado ao OED – Oxford English Dictionary (mas esse, epítome da lexicografia, dificilmente será algum dia emulado).

Na área dos dicionários técnicos a situação é mais precária. Temos a Enciclopédia Agrícola Brasileira, projeto da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da USP, que se destaca nesse panorama. Existem, é claro, vários dicionários especializados de direito, economia, ciências naturais, mas há uma queixa constante de tradutores a propósito da insuficiência de nossa produção lexicográfica. Os dicionários de gíria e expressões idiomáticas são quase todos folclóricos, além de limitados, produzidos mais a partir de uma perspectiva bairrista do que com rigor científico.

O problema é particularmente sensível na área dos dicionários bilíngues, onde a presença daqueles produzidos em Portugal é muito maior que a dos brasileiros.

A produção de dicionários é uma tarefa cara, exige investimentos consideráveis e de longo prazo. No mercado editorial, acrescente-se agora a necessidade premente de que sejam produzidas versões eletrônicas, e essas têm sido vítimas implacáveis da cópia não autorizada.

A elaboração de dicionários nas diferentes áreas técnicas e também de dicionários bilíngues merece uma atenção específica de políticas governamentais, o que até hoje não existiu.

Pior ainda, nos últimos anos – em particular entre 1994 e 2002 – houve um recuo do Itamaraty na manutenção dos Centros de Estudos Brasileiros, onde se dão cursos de português e se desenvolve – nos que sobraram – uma importante ação cultural. Foram também encerradas cátedras de português em algumas universidades europeias e norte-americanas onde existiam.

Tudo isso contrasta com a ação do Instituto Camões, de Portugal, e o Instituto Cervantes, da Espanha. Duas instituições que, apesar das recentes restrições orçamentárias, principalmente em Portugal, aplicam uma política proativa de promoção do idioma, de estímulo ao seu ensino e da tradução de seus autores. Com o devido respeito à lusofonia, não podemos ficar dependentes dos portugueses para a difusão do idioma, e urge tornar real a antiga promessa da criação do Instituto Machado de Assis para a promoção do português falado no Brasil e de nossos autores. Essa é uma tarefa à qual não podem se furtar o Itamaraty, o Ministério da Cultura e o Ministério da Educação.

Deixe uma resposta