TERRITÓRIO POUCO EXPLORADO

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A Machado de Assis Magazine no. 3, recém disponível online, está dedicada a excertos de tradução de livros para crianças e jovens. São vinte autores brasileiros (dezessete com trechos em inglês e três em espanhol), a maioria com mostras das ilustrações dos respectivos livros. Com a ajuda dessa publicação, uma iniciativa conjunta da Fundação Biblioteca Nacional e do Itaú Cultural, e da qual sou o editor, eles partem para a disputa de uma fatia do mercado internacional.

A edição da revista ficou disponível no dia da inauguração da Feira de Bolonha, o principal evento internacional do segmento. Em 2014 o Brasil será o país homenageado nessa feira e, assim como o primeiro número da Machado de Assis Magazine se apresentou em Frankfurt antecipando em um ano a homenagem ao nosso país, a revista se apresenta na Feira de Bolonha como um aperitivo das ações que o governo, autores, ilustradores e editores farão, no próximo ano, na “Cidade Vermelha” italiana.

A literatura para crianças e jovens ocupa uma situação peculiar no chamado “campo literário”. Um lugar meio de lado, com uma ambiguidade permanente.

Tento explicar. Ainda que seja um dos segmentos economicamente mais importantes do mercado editorial – aqui e em muitos países – e tenha autores reconhecidos nacional e internacionalmente (para citar nossa querida Ana Maria Machado, atual presidente da ABL, e Roald Dahl, como exemplos), é quase sempre referida como algo à parte no campo literário. Tem seus próprios críticos, seu próprio mundo acadêmico, um universo particular de referências. Salvo contadas exceções, seus autores não são incorporados ao “mainstream” da história literária.

Mais recentemente, entretanto, alguns fenômenos como o da série do Harry Porter e outras séries lançadas internacionalmente assumiram um papel de protagonistas no panorama de vendas. Mas, qual o crítico internacional de peso que analisou os livros de J. K. Rowling? Posso estar enganado, mas só percebi avaliações (e explicações de como a série destruiu o “mito” de que os livros para jovens deviam ter poucas páginas) que vieram essencialmente de quem analisa o mercado editorial a partir das perspectivas de venda ou dos críticos e analistas enfronhados no segmento de livros para crianças e jovens.

No mercado editorial internacional é possível se distinguir algumas “tendências”, nas quais se misturam os empreendimentos mais puramente comerciais com trabalhos da maior qualidade.

Os livros mais comuns são os que usam “e abusam” de contos de fadas e da reciclagem gigantesca do que é produzido pelas fábricas de desenhos animados dos EUA. Antigamente isso se restringia praticamente à Disney e alguns personagens dos Looney Tunes da Warner. Paralelamente, a Marvel e outras produziam quadrinhos para adolescentes, a variadíssima gama de super-heróis. Mais recentemente, outras produtoras entraram na área, principalmente a Pixar (que foi absorvida pela Disney). Apesar de haver aumentado um pouco a lista de fornecedores desse tipo de conteúdo, são basicamente provenientes de produtores dos EUA.

O resultado é a proliferação de derivados dos desenhos animados, por um lado, e dos recontos de contos de fadas, lendas mitológicas e outros materiais do mesmo gênero. Em grande medida são livros “empacotados” e muitas vezes impressos em gigantescas tiragens internacionais, sob vários selos, onde muda apenas a impressão do “preto”. Ou seja, dos textos. Livros ilustrados, baratos, e que retroalimentam as produtoras originais dos filmes. Atualmente, deles também são derivados games para os diferentes consoles e para tablets, laptops e computadores de mesa. Os suportes eletrônicos estão gerando uma quantidade significativa de e-books ditos interativos, às vezes com links para os games e sites das editoras. É um segmento massacrantemente dominado pela produção proveniente dos EUA, onde são gerados os “originais”.

Um outro segmento é o do chamado ˜para jovens adultos”. É o terreno do Harry Porter e similares. No Brasil, em comparação, esse seria o dos livros do Monteiro Lobato e de várias autores importantes, como Lygia Bojunga, Ana Maria Machado, Ruth Rocha e outros. São livros cujo público alvo já tem o domínio completo da leitura, e aceita textos mais longos e que nem sempre têm o suporte de ilustrações.

Evidentemente essa divisão extremamente esquemática não permite distinguir as muitas nuances de todo o segmento.

É importante destacar, entretanto, que uma parcela muito importante e significativa da literatura para crianças e jovens tenta escapar da vala comum do reconto de mitos que viraram “universais” a partir dessa massificação comercial, e procura contribuir para a formação de leitores em cada país, trabalhando temas e modos de falar que apresentam às crianças e jovens a literatura a partir da realidade na qual vivem. Nem por isso deixam de tratar temas realmente universais, de modo criativo e enriquecedor. É sempre o belo axioma tolstoiano, de falar do mundo a partir de sua aldeia.

Essas perspectivas, peculiaridades e idiossincrasias das crianças e jovens de cada país enriquecem os de outras regiões do mundo. Esse é o tipo de literatura para crianças e jovens que efetivamente merece ser traduzida e difundida.

O terceiro número da Machado de Assis Magazine pretende tornar acessível ao mercado editorial os textos e ilustrações desses autores brasileiros que podem contribuir para enriquecer e polinizar crianças e jovens de outros países com a riqueza das experiências brasileiras.

A Machado de Assis Magazine espera ajudar que nossos autores desse segmento encontrem um espaço maior no mercado internacional.

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