DIAS PARA PROFISSIONAIS EM FEIRAS DE LIVRO – GUADALAJARA PODE DAR LIÇÕES?

A Feira de Livros de Gudalajara, FIL, já é reconhecida como uma alternativa latino-americana para compra e venda de direitos autorais e como um evento onde os negócios do livro florescem. Evidentemente, não trata de emular a Feira de Frankfurt, o grande evento internacional de negociações de direito autoral, mas de se firmar como uma feira onde a cultura se mescla com o lazer e os negócios de modo muito dinâmico.
Sala de negócios da FIL GUADALAJARA - Sempre movimentada
O fato da FIL ser organizada por uma universidade pública, a Universidad de Guadalajara, certamente contribui para que a programação de eventos tenha um nível excepcional. Mas, independentemente disso, o fato é que sua organização permite efetivamente o realce de algumas questões.

Os dias profissionais, por exemplo, funcionam exatamente para que os diversos tipos de profissionais possam frequentar a feira nessa condição, sem disputar a atenção dos expositores com o público em geral. Já mencionei que a visitação escolar ocorre em um espaço separado, com uma programação própria.

Mas, quem são esses profissionais e como se estruturam suas atividades?

Uma das características mais marcantes da FIL é o investimento feito para atrair bibliotecárias estadounidenses para visitá-la e aproveitar a oportunidade para atualizar acervos de suas bibliotecas com títulos latino-americanos. Bem, as bibliotecárias dos EUA dispõem de recursos para aquisição de acervos. E mais, são obrigadas – geralmente por lei – a manter acervos adequados à composição de imigrantes de sua área. Em todos os estados que fazem fronteira com o México, a presença da migração é intensa. Na costa leste dos EUA e na Flórida, os migrantes da América do Sul, de Porto Rico e do Caribe se fazem também muito presentes. E, na região de Boston e em cidades de New Jersey e de New York, a presença de brasileiros também já é significativa.

A crise econômica diminuiu o número de visitantes dessa categoria. Ainda assim, este ano cerca de 150 bibliotecários estavam presentes. Esses visitantes recebem da ALA – American Librarias Association, um subsídio de US$ 100 (cem dólares) para despesas de passagem, e ganham estadia e alimentação da FIL, concentrando-se em um hotel na Puerta del Sol, próximo do local da feira. Além disso, a FIL promove um Colóquio Internacional de bibliotecários (este ano foi o XIX), durante os três dias de atividades profissionais.
Programação para profissionais
Ou seja, editores e expositores se preparam para receber esses profissionais com cuidado, pois são compradores de livros. E compradores especiais, que não podem fazer suas visitas competindo com multidões.

Mas a presença dos bibliotecários não é a única característica da FIL. As atividades para profissionais lista os seguintes:

– Encontro de Promotores de Leitura. Um dia lotado de atividades, com palestrantes de vários países debatendo experiências e políticas públicas de promoção da leitura, inclusive do Brasil, da Argentina, da Colômbia, Venezuela, Peru, Dinamarca e Estados Unidos.

– O XI Fórum Internacional de Editores e II Encontro de Livrarias e Editoras Independentes Iberoamericanas “La Outra Mirada”. Foi para esse que fui convidado para participar da mesa “El desafio digital: Es posible crear uma red de distribución de contenidos digitales fuera de las redes dominantes y de las grandes corporaciones?”, com Javier Sepúlveda, do Chile, Blanca Rosa Roca, da Espanha e Buenaventura Porcel, também espanhol.

Além dessa mesa, outras contaram com a presença de personagens do mundo editorial e livreiro, dos Estados Unidos (Oren Teicher, diretor executivo da ABA, Sarah McNally, livreira no Brooklin e Johnny Temple, da Akashic Books), mais representantes do CERLALC e de vários outros países da América Latina.

– XVI Congreso Internacional de Traducción e Interpretación San Jerónimo, onde se discutiu desde questões de ordem prática, como os recursos tecnológicos disponíveis, até as do reconhecimento profissional e social dos tradutores.

– II Congreso Internacional de Correctores de Texto em Español. Pela primeira vez organizado no México, discutiu sobre aspectos práticos e teóricos dessa atividade, que precede mesmo a invenção da imprensa. As diferentes versões do castelhano impõem dificuldades práticas e teóricas para o mercado editorial nesse idioma.

– V Foro Internacional de la Edición Universitaria, com a presença de editoras universitárias de vários países, reunidos sob o tema “Fronteira Zero: pela livre circulação do livro acadêmico e universitário”.

Houve também uma Tarde do livro Eletrônico, com palestrantes de vários países, assim como atividades profissionais para ilustradores.

O salão de negócios e o salão de profissionais estavam sempre movimentados, com gente de toda a América Latina e da Espanha reunindo-se para estabelecer as mais variadas negociações, que não incluem apenas direitos autorais, mas também a importação e exportação de livros, particularmente de coleções. A crise na Espanha levou a um aumento da presença de agentes literários para a venda de direitos autorais diretamente para os países latino-americanos. Segundo a feira foram 109 reuniões com agentes de 25 países, contra 89 reuniões ano passado.

Em resumo, a FIL Guadalajara investe em um programa para profissionais que justifica a entrada restrita de público nos dias dedicados ao setor, quando a abertura para entrada geral só começa a partir das 17 horas.

Nada do que se vê por aqui, nos chamados dias profissionais, que o são só no nome, quando os encarregados dos estandes só tem condições de atender os visitantes – inclusive os estudantes – que entram na feira normalmente.

Mas, além das atividades para profissionais, é bom destacar que as atividades culturais da FIL não dependem apenas da iniciativa dos expositores. Os eventos propostos por esses são organizados de modo estruturado, e em muitos casos se devem à iniciativa da própria feira.

Um exemplo é o programa “Ecos de la FIL”, que leva autores de vários países para diálogos com os estudantes dos cursos de preparatória (algo equivalente ao ensino médio), nas escolas da zona metropolitana de Guadalajara. Este ano o programa contou com a participação de autores como Marçal Aquino, João Carrazcoza, Bernardo Carvalho, Férrez, Michel Laub, Luiz Ruffato, Cíntia Moscovich, Carola Saavedra, Tatiana Salem Levy e Milton Hatoum, que também fizeram parte do programa “Destinação Brasil”, com outros eventos na feira. Esses escritores brasileiros foram acompanhados na extensa programação por autores mexicanos e outros provenientes de vários países latino-americanos, e inclusive do Québec.

Aliás, a programação de autores é um caso aparte. Foram mais de 500 escritores, provenientes de 28 países. Muitos trazidos por suas editoras, mexicanas, espanholas e mesmo brasileira (a Callis levou uma autora e uma ilustradora, por exemplo), como também por vários programas administrados pela própria FIL ou pelo país convidado de honra, que este ano foi o Chile.

O “Catálogo de Contenidos” editado pela FIL é um belo livro com 271 páginas, listando esses e tantos outros eventos que acontecem durante a Feira, inclusive entrega de prêmios.

Pode-se dizer que o lado comercial da FIL convive com uma extensa programação profissional e cultural. Desenvolvida dentro e fora da exposição, que atrai não apenas profissionais, como também leitores de todos os gêneros, de todas as faixas de idade e áreas de interesses.

A FIL Guadalajara, procurando afirmar-se cada vez mais como um acontecimento central para o negócio do livro na América Latina, é também um acontecimento literário de primeira grandeza.

Algo que, infelizmente, as duas grandes bienais – São Paulo e Rio – não conseguem ser.

E a questão é de colocar a imaginação e planejar o assunto.

Alguns exemplos, ao acaso:

– Convencer a Biblioteca Nacional e talvez os governos do Estado e do Município a usar a Bienal como local para que bibliotecários adquiram parte dos acervos.

– Negociar com instituições que administram grandes redes de bibliotecas, como o SESC, a fazer o mesmo.

– Organizar melhor a presença dos autores internacionais, de modo que a Bienal seja também uma feira literária atrativa para os leitores mais sérios, recuperando assim o brilho que vem perdendo nessa área.

– Da mesma maneira, melhorar as condições para a presença de agentes literários estrangeiros. Já se nota uma presença desses agentes durante a FLIP, e mesmo nas Bienais. Falta, entretanto, uma programação e incentivos específicos para que o aumento do prestígio brasileiro no mercado internacional se expresse na presença de agentes negociando aqui nas bienais.

– Estruturar de fato os dias profissionais, com entrada restrita para os do setor, com atividades que justifiquem o investimento dos expositores.

– Encontro da UNDIME e do Fórum dos Secretários de Cultura.

Mas, tudo isso, depende evidentemente da vontade de aperfeiçoar as nossas bienais, e não simplesmente continuar fazendo mais do mesmo.

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