Entrevista para matéria na Carta Capital – 2


Continuação do texto completo da entrevista que dei, por escrito, ao repórter Lucas Callegari, da Carta Capital. A entrevista ajudou na redação da matéria, mas por sua extensão não podia, evidentemente, ser usada integralmente pela revista. Por isso, continuo aqui a transcrevê-la:

– Alguns atores do setor são a favor da adoção de um preço fixo para livros lançados no mercado. Qual a sua opinião?

O “preço fixo” na verdade é a limitação de descontos dados pelas grandes cadeias de livrarias, permitindo que as livrarias independentes possam competir em serviço e na oferta mais ampla de títulos. Já foi um sistema mais amplamente usado na Europa. Continua em vigor na França e na Alemanha, mas foi abandonado no Reino Unido e sofre ataques constantes por parte da Comissão Europeia.

O “preço fixo” é importante para a sobrevivência das pequenas livrarias, mas não é uma panaceia. O preço fixo francês, por exemplo, fez a FNAC se capitalizar mais rapidamente, e as independentes tiveram que se unir em “Groupements Libraires” – espécies de cooperativas – para enfrentar a concorrência em serviços. Acredito também que a não existência do “preço fixo” conduz a um aumento do preço de capa dos livros, em função dos grandes descontos exigidos pelas cadeias. Esse aumento, às vezes, é disfarçado pelo repasse de parte desses descontos para o público comprador por parte das cadeias de livrarias, o que entusiasma o pessoal dos CADE e defesa do consumidor. A nossa legislação de defesa econômica se preocupa muito com a concentração/cartelização e estimula a concorrência através dos preços – pelo menos nos preços nominais.
Uma vez um técnico do Ministério da Fazenda comentou comigo na seguinte linha: se permitíssemos o “preço fixo” nos livros, quando começaria a exigência do “preço fixo” – para eles entendida simplesmente como tabelamento – do leite, da carne, do material de limpeza?

Eu sou a favor do “preço fixo”, pois a situação atual favorece amplamente não apenas as cadeias de livrarias, como também as editoras mais fortes, que têm condições de negociação melhores. Mas reconheço, como disse, que não é uma panaceia, e que sua implantação no Brasil exigiria uma mudança de perspectiva muito grande por parte das autoridades da área econômica e de defesa do consumidor.

– Como analisa o mercado varejista de livros? Também há um processo de concentração nesse elo da cadeia do setor livreiro?

Sim, há uma grande concentração. Mas, por outro lado, a grande maioria dos municípios brasileiros não tem sequer uma livraria. Uma parte da demanda desses cidadãos é atendida pelo comércio online, que teve uma formidável expansão nos últimos anos. Mas evidentemente é necessário que existam políticas específicas de estímulo para que equipamentos culturais estejam presentes nos municípios. E neles se nota não apenas a ausência de livrarias, mas também de cinemas, teatros e outros locais de fruição da produção cultural. Há, portanto, uma janela de possibilidades de crescimento das livrarias independentes, ou pelo menos de pontos de venda de livros, nos milhares de municípios brasileiros.

Mas não é uma tarefa fácil. As dificuldades logísticas são imensas. Os livros são produtos peculiares: não se vendem grandes quantidades do mesmo título, e sim pequenas quantidades de um número muito grande de títulos. Assim, resolver o problema logístico de levar milhares de unidades de um produto de limpeza, por exemplo, é mais fácil que resolver o problema de levar pequenas quantidades de milhares de títulos. Que tem um giro muito lento, aliás. Para citar um dos problemas.

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