A MEMÓRIA QUE SE PERDE

Há alguns dias o jornal El País publicou uma série de reportagens sobre Carmen Balcells, a mega agente literária. O pretexto era a entrega do arquivo da agente literária para o Archivo General de la Administración (AGA) de Alcalá de Henares, órgão do Ministério da Cultura da Espanha. O atual governo socialista pretendia que o destino final desse acervo fosse um centro nacional de memória da criação literária, edição e industrial editorial, com base nesse fundo. Com o PP no poder, provavelmente o fundo ficará mesmo no Archivo Nacional.

São mais de 2.000 caixas (2,5 quilômetros de documentos alinhados), com a correspondência da agente com autores e editores, cópias de contratos e prestações de conta. Enfim, o “subterrâneo” da vida literária espanhola dos últimos cinquenta anos.

De fato, as relações entre escritores e editores – e agentes, quando é o caso – constituem o pano de fundo da vida literária. É material riquíssimo para o estudo daquilo que Bourdieu chama de “campo literário”, no qual as disputas parecem se reduzir a questões estéticas ou propriamente literárias. Por trás delas, entretanto, existe um pano de fundo de disputas de poder, prestígio, recursos, etc. Não apenas entre os autores, mas também entre os demais agentes do campo literário, que inclui também a imprensa, cadernos literários, resenhistas, etc.

Essas notícias do El país me fizeram pensar na situação daqui.

Sei que algumas editoras antigas mantêm seus arquivos, como a Melhoramentos, Vozes e a Nacional. Como nunca os examinei, também não sei se o acervo está catalogado com critérios arquivísticos modernos. Dois exemplos de problemas me saltam à lembrança.

O primeiro é o relatado por Gustavo Sorá em seu livro “Brasilianas – José Olympio e a Gênese do Mercado Editorial Brasileiro” (EDUSP, S. Paulo, 2010), que mostra a precariedade do arquivo original da editora e do editor. Hoje esse arquivo está fragmentado. Uma parte está depositada na Casa Ruy Barbosa, e outra parcela, na época da pesquisa do livro, estava em um galpão da Xerox do Brasil, por cujas mãos a propriedade da José Olympio passou, na pessoa do seu então presidente, Sérgio Henrique Gregori. Aparentemente a parte do acervo que se encontra na Casa Ruy Barbosa diz respeito à correspondência de JO com seus autores mais importantes. No outro arquivo, a correspondência com escritores de “menor renome” e o acervo administrativo da editora. Uma fragmentação que pode satisfazer aos que se iludem com a suposta autonomia “da literatura” e se esquecem da profunda imbricação do fazer literário com o mundo editorial.

O segundo, mais prosaico. Há cerca de um mês e meio, quando me preparava para escrever a série de artigos sobre a participação do Brasil como País Tema da Feira de Frankfurt em 1994, pedi permissão para examinar os arquivos da CBL, que foi a principal responsável por aquele evento. Não consegui. Não me deixaram examinar o arquivo, e lá pelas tantas um funcionário da CBL me disse que estava tudo “muito desorganizado”.

No começo dos anos 90, com Altair Brasil como presidente da CBL, houve uma tentativa de se instituir um “Centro Cultural do Livro”, com múltiplas finalidades: Escola do livro, Livraria Modelo, Biblioteca Modelo, Arquivo, auditório e área para recepção de escolares para que conhecessem o processo de elaboração de um livro, da escritura à impressão. O projeto não foi adiante até porque o prédio em que se pensava instalá-lo foi demolido. Era o local da exposição de presépios sob a marquise do Ibirapuera. Esse prédio era uma excrecência que não fazia parte do projeto original do Parque.

De qualquer forma, a ideia morreu.

E a verdade é que essa memória da criação literária e da edição também está morrendo. O estado lamentável do arquivo da JO mostra que não há garantia para a sobrevivência organizada dessa documentação nem mesmo quando se trata de grandes casas editoriais. O índice de nascimento de editoras é altíssimo – e a isso se deve, em grande medida, a diversidade bibliográfica – mas também é muito alta a taxa de mortalidade. E, no final das contas, são poucas as editoras que chegam mesmo a passar do marco dos dez anos de existência.

Seria uma grande contribuição para a preservação da memória da vida literária e da história da edição se as entidades do livro – notadamente a CBL e o SNEL – unissem esforços para por de pé uma instituição que preservasse esses acervos.

Mesmo as editoras já desaparecidas podem ter parte o seu acervo recuperado, seja por este continuar na posse de herdeiros e descendentes, seja pela reconstituição do relacionamento dos autores com as editoras. Além disso, a simples catalogação do que existe e onde se localiza (os arquivos hoje existentes nas editoras), já seria de enorme importância para os historiadores da vida cultural brasileira.

Os editores, de modo geral, não se preocupam muito com isso. As empresas são isso: empresas. E o arquivamento é visto, na maioria absoluta dos casos, como algo estritamente funcional. São os documentos que devem ser preservados por razões fiscais, os contratos ativos, etc. O resto simplesmente “ocupa espaço” e pode estar sujeito a faxinas periódicas.

Quem sabe não seria possível estabelecer um acordo entre as entidades e a Casa Ruy Barbosa para reformular o escopo do material que já se encontra lá e abrir espaço para o arquivo e catalogação desse patrimônio da história cultural brasileira?

Com a palavra a Câmara Brasileira do Livro e o Sindicato Nacional dos Editores de Livros, além das outras entidades afins, como a Associação Nacional de Livrarias, a Abrelivros, a ABDL, a Libre, as Câmaras Estaduais (RS, MG, CE). A sopa de letrinhas do mercado editorial poderia pelo menos, dessa vez, se unir para preservar sua própria memória.

One thought on “A MEMÓRIA QUE SE PERDE”

  1. Mais uma ideia linda, Felipe. Um artigo emocionante. Quem sabe um dia se possa viabilizar? Outros sonhos seus já viraram realidade, vamos divulgar todos esse artigo!

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