Nossa elusiva matéria prima

Uma das coisas que aprendi nessa faina do mercado editorial é que o mundo dos livros é um reflexo do mundo real. Cabe tudo. Das coisas mais sublimes às calhordices mais inomináveis. Como papel (e agora, bits) aguenta tudo, é possível encontrar toda e qualquer coisa impressa e sendo vendida (ou empurrada, ou doada por conta de outros interesses) no mundo do livro.
Essa variedade me fascina.
Do lado positivo, há o aprendizado de uma lição de humildade: o que eu gosto, o que me satisfaz intelectual e esteticamente, não é nem (necessariamente) o melhor nem é o que o OUTRO precisa para satisfazer o mesmo tipo de necessidades. E isso não é uma rendição a um relativismo absoluto: o que acho uma porcaria tenho minhas razões para considerar assim e não pretendo mudar de opinião. Mas, quando analiso políticas públicas de acesso ao livro, devo reconhecer o direito do outro gostar (ou ter necessidade) do que eu não gosto ou até mesmo desprezo.

Isso vem da reflexão de quem analisa e defende políticas públicas na área do livro: a pedra de toque é o respeito às necessidades dos outros. Por isso mesmo defendo a importância de que as bibliotecas ofereçam aos seus frequentadores os livros que eles queiram ler, e não apenas aqueles que os “sábios” consideram bons e que encaminham para a formação do famoso e abstrato “leitor crítico”. Kenneth Tynan, crítico inglês que foi uma das testemunhas no julgamento sobre a obscenidade do “Amante de Lady Chatterley”, de D. H. Lawrence, louvou, em um ensaio sobre os “Dirty Movies” – os filmes declaradamente pornográficos dos anos 20 e 30 nos EUA – a literatura e o cinema pornográficos, por seu caráter “utilitário” (e quem quiser que vá ver o que Tynan entendia por isso). Com ele de respaldo, eu defendo a presença da pornografia nas bibliotecas simplesmente porque esse gênero interessa a um segmento do público, que tem o direito de ter acesso a ele do mesmo modo que quem deseje ler Jacques Maritain ou Paulo Coelho. Como sei onde o calo aperta, nunca comprei do gênero para bibliotecas que montei, e o trabalho de bons mediadores pode indicar outras alternativas de leitura aos adeptos do sexo solitário.
O velho mote latino, “de gustibus non est disputandum” se aplica perfeitamente aqui.
Mas não só aqui.
O segmento mais prestigioso (embora não seja o mais rentável do ponto de vista financeiro) do mercado editorial é a literatura. Mas, que diabos vem a ser literatura?
Ora, ora…
O leitor da Zylbia Gasparetto (se pensar no assunto), dirá que lê literatura e é daquela que ele gosta. José de Souza Martins, eminente sociólogo uspiano que lançou recentemente um livro autobiográfico, declarou em entrevista que a “forma literária” é constitutiva da sua conceituação sociológica. Nada de exatamente novo: os linguistas, e os antropólogos, são coincidentes em afirmar que o discurso contem todos os elementos da cultura. De certa forma é uma inversão da proposta do McLuhan: não é o meio que constitui a mensagem e sim a mensagem (conteúdo) que encontra seu meio de expressão, sempre, e de modo muiltifacetado, já que o conteúdo se expressa não apenas pelas palavras, como também pelos gestos, pelas ilustrações, e isso tudo dentro do famoso “contexto”.
Quando fundamos a hoje falecida Marco Zero (que não tem nada a ver com esse cadáver zumbi que ainda anda por aí), Maria José Silveira, Márcio Souza e eu decidimos que só publicaríamos o que gostássemos, e gostávamos de literatura e política. Mas o nosso “gosto” estava condicionado não apenas pela combinação das histórias pessoais, como também pela necessidade de fazer sobreviver a editora e ganhar nosso suado dinheirinho. Por isso, o que definíamos, na prática, como literatura, era simplesmente o que gostávamos, e não passava por nenhuma discussão acadêmica sobre “o que é literatura” e, muito menos, sobre supostos parâmetros de qualidade.
Ainda que trabalhando sob os condicionamentos daquilo que Bourdieu define como “campo” – especificamente o campo da literatura, parcialmente sobreposto e imbricado com o campo da edição – para nós, simplesmente, era literário aquilo que gostávamos ou que pretendíamos vender em quantidade.
Certamente não éramos os únicos a pensar e a agir dessa maneira. Todos os editores, simplesmente, fazem a mesma coisa: editam o que gostam, ainda que esse gosto esteja condicionado (em maior ou menor grau) pela determinação de vender (ou colocar à disposição) do público aqueles títulos escolhidos por critérios que são totalmente subjetivos. E mais ainda, critérios que dialogam com o público leitor, abrindo a possibilidade que cada título lido enriqueça o “vocabulário do gosto” de cada um dos leitores e, por sua vez, reforce as apostas da editora.
Outra seara é a do crítico. Mesmo que não assuma uma postura normativa e autoritária, o crítico lê e analisa com base em uma série de conceitos e a uma história do cânone literário. Suas ferramentas analíticas são diferentes das do editor e mais ainda das do leitor comum.
Este, o leitor comum, o objeto de desejo de autores e editores, pesca em águas turbulentas dentro de uma oferta fenomenal. São milhares e milhares de títulos que se oferecem para ser lidos e a sua escolha obedece a inúmeras variáveis: educação, trajetória de vida, leituras anteriores, ambiente familiar, círculo de amizades, indicações da imprensa, de amigos, de bibliotecários, de vendedores de livrarias. Ufa!
Entrar em uma livraria ou uma biblioteca e decidir por um livro para ler é uma façanha. A realização desse “encontro feliz” entre o leitor e um livro, mencionado pelo Gabriel Zaid em “Livros Demais” é quase uma loteria.
Essa característica escorregadia de conceitos e definições é a grande diferença entra a indústria editorial e a de outros produtos de consumo. Quem escolhe sabonetes no fundo está decidindo entre um número de variáveis pequeno e definível: textura e perfume. Mas quem vai atrás de um livro de literatura acaba construindo, antes de ler qualquer livro, um conceito imaginário e extremamente pessoal do que seja literatura. E viva essa diversidade anárquica.
Essas mal traçadas me vieram depois de uma conversa com a Maria José sobre sua participação no Encontros de Interrogação do Itaú Cultural, no próximo dia 7. Ela estará em uma mesa que homenageia a primeira dama da literatura brasileira, nossa querida Lygia Fagundes Telles. Junto com Fabrício Carpinejar e Marcelino Freira, com mediação do Flávio Carneiro, eles conversarão com a Lygia sobre sua literatura e trajetória como escritora.
Vai ser ótimo, e anote aí: dia 7 de setembro, às 20 horas, no Itaú Cultural, na Av. Paulista 149.

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