AS DIFICULDADES PARA A INTERNACIONALIZAÇÃO DA LITERATURA BASILEIRA

A internacionalização da literatura brasileira enfrenta uma série de dificuldades. Algumas dessas são estruturais, outras derivadas de problemas de políticas públicas (ou ausência delas) para que esse processo ocorra de modo mais eficaz.

Vejamos algumas dessas dificuldades.

IDIOMA DA ESCRITA E CENTRALIDADE DOS AUTORES

Existe um campo farto de discussões sobre a existência de uma literatura mundial, a chamada “República Mundial das Letras”. Na formulação original, que veio do Iluminismo, o diálogo entre escritores, através de suas obras, comporia esse mundo da inteligência, no qual a filosofia e a literatura teriam papel primordial. Hoje, essa “República Mundial das Letras” é um campo de disputas em torno do que se pode chamar de “capital literário”. O que se supunha ser uma circulação livre, internacional, das ideias, na verdade é uma disputa que parte de “posições de força”, que incluem o idioma original do trabalho de cada escritor.

Por isso mesmo, analisar a posição do idioma português nesse contexto é uma das condicionantes para que se compreenda como a literatura produzidas nesse idioma – principalmente de Portugal e do Brasil, e a partir dos anos 1970, das ex-colônias lusitanas em África, tem uma posição fraca no contexto da República Mundial das Letras.

Thomas Jefferson, um dos que acreditava que a circulação de ideias era essencial para a “República Mundial das Letras”.
Didretor, o da Enciclopédie, era outro que acreditava no diálogo internacional.
René Descartes, outro ilumininista.

Um dos poucos indicadores para verificar essa questão é o Index Translationum. Este é um banco de dados que compila informações sobre traduções de todos os países membros da UNESCO. Melhor, dizendo, compilava. O Index foi criado em 1932, ainda pela Liga das Nações. Herdado pela UNESCO, a compilação foi interrompida em 2012, a pretexto de dificuldades econômicas da organização internacional. O banco de dados era composto por informações enviadas pelas Bibliotecas Nacionais dos países membros, encarregados da compilação das respectivas bibliografias nacionais. Não era completíssimo, pois muitas vezes as respectivas bibliotecas deixavam de informar. A própria Biblioteca Nacional do Brasil atrasava sistematicamente o envio. Era, no entanto, a fonte de informações mais abrangente disponível. A partir de 1979 os dados foram computadorizados, e podem ser vistos aqui, compilados até 2012:

Um primeiro quadro extraído do Index mostra o idioma de origem das traduções compiladas:

Idiomas de Origem
1 Inglês 1.265.835
2 Francês 225.996
3 Alemão 208.178
4 Russo 103.618
5 Italiano 69.549
6 Espanhol 54.576
7 Sueco 39.980
8 Japonês 29.246
9 Dinamarquês 21.251
10 Latim 19.967
11 Holandês 19.667
12 Grego antigo (até 1453) 18.073
13 Tcheco 17.159
14 Polonês 14.661
15 Norueguês 14.276
16 Chinês 14.070
17 Árabe 12.410
18 Português 11.581
19 Húngaro 11.297
20 Hebreu 10.279

Pelo quadro já constatamos algumas evidências: a) Predominância esmagadora do inglês, seguido de longe pelo francês, alemão e russo, como o idioma de origem das traduções; 2) O português está na 18ª. Posição, logo abaixo do chinês e do árabe; 3) Idiomas com populações muito menores, como os nórdicos (sueco, dinamarquês e norueguês), os da Europa Oriental (húngaro, tcheco), etc., são idiomas originais de mais traduções que o português. Até línguas mortas (latim e grego antigo) são mais traduzidos que a última flor do Lácio.

E aqui estão os idiomas “alvo” (aqueles que recebem mais traduções). Coloco apenas os TOP 10, que inclui o português:


“TOP 50” Idiomas alvo
1 Alemão 301.934
2 Francês 240.044
3 Espanhol 228.558
4 Inglês 164.505
5 Japonês 130.649
6 Holandês 111.270
7 Russo 100.806
8 Português 78.905
9 Polonês 76.706
10 Sueco 7.120

Essa tabela revela, de certo modo, o nível de “internacionalização” na absorção da cultura mundial pelos falantes dos diferentes idiomas. Note-se, no caso, que o inglês vale para inúmeros países (EUA, GB, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul), além de ser, como atual “língua franca”, habitualmente lido pelas elites cultas de dezenas de outros países, principalmente as publicações técnico-científicas.
Mais interessante ainda é a tabela que mostra o número de traduções por países, onde fica ainda mais claro esse nível de internacionalização cultural:


“TOP 19” Países
1 Alemanha 269.724
2 Espanha 232.853
3 França 198.574
4 Japão 130.496
5 URSS (até 1991) 92.734
6 Holanda 90.560
7 Polônia 77.716
8 Suécia 73.230
9 Dinamarca 70.607
10 China, República popular 67.304
11 República Tcheca 62.480
12 Federação Russa 58.491
13 Hungria 56.868
14 Itália 54,072
15 EUA 52.515
16 Finlândia 51.710
17 Brasil 50.183
18 Noruega 46.314
19 Reino Unido 42.647

Estados Unidos e Reino Unido, os dois maiores fornecedores de traduções, somados (95.162), publicam juntos apenas pouco mais de traduções que a Holanda. Mas é importante notar que, se há uma concentração na origem, há uma grande dispersão no destino. Isso confirma a hipótese do predomínio da produção em inglês no mercado internacional.
A tabela inclui todos os tipos de traduções. Não apenas as de literatura. A circulação da literatura técnico-científica é importantíssima. E se é verdade que a maioria dos cientistas pelo menos lê em inglês, não se pode dizer que os dos EUA leem em outros idiomas. Por isso, o conhecimento produzido no resto do mundo tem que ser traduzido para ser acessado pelos monolíngues de lá.

Um último quadro para podermos chegar a conclusões, é o que mostra os dez autores que escrevem em português e o número de traduções dos mesmos:

Os autores brasileiros mais lidos

Os cinquenta autores mais traduzidos no mundo podem ser consultados no Index. Nenhum escreveu originalmente em português. Escrevendo originalmente em espanhol só o Garcia Marquez, que aparece em 48º. lugar.

Enquanto nosso Mago tem 1.077 traduções registradas, a autora mais traduzida de língua inglesa (Agatha Christie) marcou 7.216 traduções. Note-se que Paulo Coelho só começou a ser traduzido em meados da década de 1980

Machado tem poucas traduções.
Comparado com Agatha Christie, por exemplo, Paulo Coelho fica bem atrás.

Machado de Assis registra apenas 99 traduções de 1979 a 2012.

Dizer, portanto, que nossos escritores partem para a luta a partir de uma posição extremamente frágil é eufemismo. E cada país consegue resultados diferentes para conseguir os “créditos” para seus autores.

A importância dos autores, seu “crédito” no mercado internacional de traduções é extremamente desigual, no que diz respeito ao prestígio crítico que usufruem em seus países de origem. Como sabemos, há muita gente escandalizada com a posição do Paulo Coelho e do José Mauro Vasconcelos, e injuriada pela ausência de outros.

Certamente podemos ficar felizes pelos grandes clássicos do idioma português que estão na lista, e por Jorge Amado e pela Clarice Lispector. A presença de Leonardo Boff abre outra pista para que se entenda essa distribuição de “créditos”, ou seja, a valorização de escritores: depende também do segmento para o qual escrevem. Astrid Lindgren é autora de livros para jovens, assim como Enyd Blyton, (conhecida como Mary Pollock – não localizei traduções aqui) que é a quarta mais traduzida no mundo. E quem for examinar a lista dos 50 Mais encontrará autores como Barbara Cartland e Danielle Steel, mas também Lênin, Marx, Tolstoi, Dostoievski. Enfim, para todos os gostos, e prato cheio para qualquer tipo de análise.

Assim, se determinados autores são centrais nessa desigualíssima distribuição de créditos da República Mundial das Letras, é sempre bom lembrar que as forças que condicionam essa presença não são facilmente domáveis, ou detectáveis.

OS FATORES DA PRESENÇA DE AUTORES QUE ESCREVEM EM PORTUGUÊS NO MERCADO INTERNACIONAL

Um dos fatores que contribuem de modo decisivo para que autores que escrevem em idiomas que disputam com o inglês a presença na República Mundial das Letras é, sem dúvida, a existência de políticas públicas consistentes de apoio à tradução e difusão desses autores.

Como melhorar a presença da literatura brasileira no exterior?

O questionário do Mapeamento Internacional da Literatura Brasileira fornece algumas indicações.

A primeira pergunta sobre o assunto questiona se escrever em português é, ou não, um obstáculo para a difusão da literatura brasileira no exterior.

As respostas são, definitivamente, inconclusivas:

As MESMAS justificativas foram usadas por quem, na pergunta anterior, havia respondido sim, não ou em termos.
Ou seja, havia uma grande coincidência nas justificativas, por exemplo:

– as traduções eram a solução;

– outros idiomas, particularmente o espanhol, eram mais divulgados.

Os mapeados, portanto, entendiam que o idioma português sofria de um certo tipo de “subalternidade”, ou “falta de reconhecimento” vis-à-vis outros idiomas.

Ou, como poderia dizer Pascale Casanova, o português tinha “menos valor” no capital literário internacional. Esse “valor menor” do idioma é certamente um dos fatores que dificultam a difusão internacional da literatura brasileira.

Entretanto, a principal razão apresentada, sobre a importância da tradução, é amplamente reiterada nas respostas a outra questão, que pergunta “Como difundir a literatura brasileira no exterior?

As duas principais respostas são bem diretas:

  • Apoio para a tradução (178 respostas);
  • Criação de um Instituto para difusão da literatura e da língua portuguesa (O modelo do Camões e dos demais é evidente): 108 respostas.

 

De fato, quando se observa o que outros países fazem para oferecer às respectivas literaturas uma oportunidade de entrar no mercado internacional, os programas de tradução assumem sempre um papel de importância. Os programas de apoio às traduções desenvolvidas por instituições como o Institut de France, o Goethe Institut, a Fundación Cervantes e outras têm suas ações focadas tanto no ensino do idioma como no apoio às traduções. Portugal, cujo tamanho e importância econômica no cenário internacional é menor que a do Brasil, mantém de forma globalizada o Instituto Camões, com programas de apoio à tradução, além de doutorados e cursos de português em todos os continentes, Portugal chega à sofisticação de apoiar a publicação de autores portugueses no Brasil, além de manter extensos programas de publicações nos países africanos.

Os países escandinavos, e mesmo a Grã-Bretanha e vários outros, possuem tais programas de apoio à tradução.

Recentemente os países escandinavos tomaram a resolução de incentivar explicitamente um nicho onde seus autores começaram a ter maior destaque, o da literatura policial. Não tiveram pudor de incentivar esse tipo de tradução, que foge de outras mais antigas, como os romances de Lars Gustaffson ou Selma Lagerlöff (esta ganhou o Nobel).

A grande exceção são os EUA, que agem integralmente a partir da enorme força comercial da sua indústria editorial, ainda que esta seja hoje, em grande medida, controlada por capitais alemães.

O Brasil tem, desde 1993, um Programa de Apoio à Tradução, dentro da Biblioteca Nacional. No decorrer desse período, já ajudou na tradução de cerca de 900 títulos, em diferentes países. Em 2013 a sistemática de análise e liberação dos apoios foi simplificada e agilizada, mas o programa sempre sofre com as variações orçamentárias.

O programa é bem conhecido por agentes literários, mas a sua percepção entre os mapeados é muito baixa, como mostram os gráficos a seguir:

Solicitou apoio para os programas de apoio à tradução da FBN?
Se não solicitou, por que razão?
Se solicitou, recebeu o apoio solicitado?

O segundo ponto destacado pelos mapeados é o da criação de uma instituição similar ao Instituto Camões, ou Instituto Cervantes.

Nesse caso, a situação é bem pior. O Departamento Cultural do Itamaraty não tem uma política proativa de promoção da cultura brasileira. O número de CEBs foi muito reduzido no governo FHC. Voltou a crescer nos mandatos do Lula, principalmente na África. Entretanto, o Itamaraty responde principalmente às demandas dos chefes de missão. Se o embaixador gosta de música, pede concertos; se gosta de artes plásticas, pede exposições; se gosta de literatura, empreende ações na área.

Há alguns anos, a APEX- Agência Brasileira de Exportação, estabeleceu um convênio com a CBL para um programa, “Brazilian Publishers”, com o objetivo de estimular a exportação de livros e direitos autorais de autores brasileiros. O programa tem tido sucesso no aumento da participação em feiras internacionais, e também tem convidado agentes literários para visitar alguns dos festivais e Bienais brasileiros (FLIP e Bienais de São Paulo e do Rio). É um esforço continuado que já obteve algum sucesso, e é importante a manutenção da presença em feiras e festivais internacionais, o que aliás é outra das demandas dos mapeados.

O que se constata, entretanto, são iniciativas descontinuadas e sem a necessária profundidade e ação sistemática.

Ao constatar o ponto de partida extremamente difícil para promover a divulgação de nossos autores no exterior, parece claro que seria necessário ter uma ação internacional de promoção cultural integrada, consistente e continuada. E isso não apenas em relação à literatura, claro.

O diagnóstico existe, os problemas são conhecidos. Tudo depende, portanto, da decisão de efetivamente desenvolver uma política cultural consistente e continuada de promoção da cultura e, em especial, da literatura brasileira no exterior. Os esforços que são feitos têm produzido resultados, mas são muito pequenos diante da magnitude do problema – e de suas consequências, inclusive para o reconhecimento internacional do país.

Dito seja, como ponto final, que o Departamento Cultural do Itamaraty nem respondeu ao convite feito para participar do X Encontro Internacional do Conexões Itaú Cultural.
São lacunas que, como vimos, se expressam em todos os níveis.


Este post foi produzido para o X Encontro do Conexões Itaú Cultural, que aconteceu nos dias 8 a 10 de novembro em S. Paulo, com modificações.

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