JOSÉ MAURO DE VASCONCELOS – O SUBESTIMADO MUITO TRADUZIDO

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meu pé capa hoje Na minha adolescência, dois autores eram extremamente populares, e muito lidos. O poeta J. G. de Araújo Jorge, autor de copiosas poesias sentimentais que confortavam os corações das mocinhas, e José Mauro de Vasconcelos, com o “Meu Pé de Laranja Lima”.  A crítica sempre descascou os dois, e adolescente pretensioso que era, recusei ler esses livros (o que não quer dizer absolutamente nada, já que também detestei “Senhor Embaixador”, do Érico Veríssimo, ao mesmo tempo que sempre gostei da trilogia do “Tempo e o Vento”, de “Clarissa” e das “Aventuras de Tibicuera”, o que dá conta de sei lá o que na minha formação literária).

A percepção da crítica em relação ao autor mudou, como atesta a apreciação de Nelly Novaes Coelho, em seu “Dicionário Crítico da Literatura Infantil e Juvenil Brasileira”, no qual faz duas observações. A primeira, mais geral, sobre o autor, considera que sua obra consiste em “romances de um realismo duro (na maior parte registros quase diretos das experiências vividas pelo autor, [que] compõem uma obra muito irregular quanto ao valor de transfiguração estética. Todos eles permeados por uma visão de mundo pessimista e desesperançada, embora perpassada por um enorme anseio de humanidade e ternura”. Já quanto ao “Meu Pé de Laranja Lima”, a avaliação é mais simpática: “Verdadeiro poema de exaltação da vida e da paciência exigida pelo viver, este romance tem muito a oferecer em emoções e lições de vida ao jovem leitor” (p. 387).

Do José Mauro de Vasconcelos acabei lendo “Barro Blanco”, romance sobre as salinas do Rio Grande do Norte, certamente influenciado pela obra de Jorge Amado. E nada mais.

scan0192.pdf_page_3 Mais recentemente, entretanto, na busca de informações sobre traduções de autores brasileiros, encontrei o site do Index Translationum da UNESCO, um banco de dados formado a partir de informações enviadas pelas bibliotecas nacionais dos países membros. O Index relaciona as publicações de traduções a partir dessas informações, cruzando depois por autores. Dessa maneira, obtém tabelas de traduções publicadas por países, pelo idioma de origem e outros cruzamentos. Não é um banco de dados perfeito, porque as bibliotecas nacionais atrasam o envio das informações, enviam dados incompletos, etc. etc. Aqui da nossa Pindorama, os últimos dados enviados pela Biblioteca Nacional foram de 2007.

Ainda assim, o Index é um trabalho formidável, e uma das poucas fontes confiáveis de dados internacionais sobre traduções – desde que se tenha em mente as já mencionadas deficiências dos informantes. Algumas estatísticas são coligidas por países. Outras, por idioma de origem. Por isso, não existe uma distinção, nos publicados originalmente em português, entre brasileiros e lusos.

A tabela mais recente de autores traduzidos do português é a seguinte:

2015

autores traduzidos do português 2015 É uma lista surpreendente – não pela presença avassaladoras de traduções do Paulo Coelho, e sim pela presença do Leonardo Boff e do José Mauro de Vasconcellos. Mas não vou comentar o conjunto desses dados. Já o fiz em um post anterior, LITERATURA BRASILEIRA NO EXTERIOR: PROBLEMA DOS EDITORES?

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Foi então que voltei a me interessar pelo José Mauro de Vasconcelos. E acabei descobrindo coisas surpreendentes. Gustavo Sorá, pesquisador que trabalha sobre as relações editoriais entre o Brasil e a Argentina, por exemplo, me disse que não apenas o livro é bem aceito pela crítica portenha, como tem sido lido por várias gerações de estudantes, como um típico “romance de formação”. Em vários países constatei, pelo Index, tanto a continuidade da presença do “Meu pé…”, como, eventualmente, a existência de várias traduções. É o caso da Turquia. Não é possível saber se isso se deve à necessidade de renovação das traduções ou meras disputas comerciais entre editoras e tradutoras. Mas é significativo o fato de acontecer a publicação de várias versões do mesmo livro.

O livro, segundo a Melhoramentos – editora que o lançou – conta a história de “Zezé, um garoto pobre, de seis anos, inteligente e sensível. Carente de um afeto que não encontra na família, ele sai pelas ruas fazendo mil travessuras. Aprende tudo sozinho e inventa para si um mundo de fantasia em que seu grande confidente é Xururuca, o pé de laranja-lima”.

scan0195.pdf_page_3A Melhoramentos começou a editar o José Mauro de Vasconcelos em 1963, com “Rosinha minha canoa”, que continua em seu catálogo, juntamente com o “Meu pé…”, “Coração de Vidro”, Doidão”, Palácio Japonês”, “Vamos Aquecer o Sol” e “Veleiro de Cristal”. O que li, “Barro Blanco”, só em sebos (é de 1945). O “Meu Pé…”, segundo a editora, já vendeu mais de dois milhões de exemplares no Brasil, e cerca de um milhão no exterior. O conjunto da obra de JMV deve ter ao redor de sete milhões de exemplares publicados.

scan0196.pdf_page_3Como o Index não informa a tiragem, é difícil comparar o impacto possível entre o número de traduções e a quantidade de exemplares vendidos. Deixo a todos a especulação quanto a isso, embora seja fato conhecido as enormes tiragens dos livros do Mago. Mas é impossível comparar a extensão (não falo do impacto literário ou crítico) do JMV com, por exemplo, Clarice Lispector, Machado de Assis ou Lobo Antunes. E muito menos com os demais.

scan0196.pdf_page_4 Segundo a Melhoramentos, “Meu Pé de Laranja Lima” tem contrato vigentes com dezesseis editoras (fora a própria Melhoramentos), em idiomas como o espanhol, coreano, chinês (duas versões), polonês (também duas versões), alemão, turco, japonês, croata, catalão, romeno, dinamarquês e tailandês. Sabe-se que existiram traduções para o francês e para o inglês, embora não existam contratos vigentes. Afinal, são 115 traduções registradas.

Recentemente, o programa de Bolsas para a tradução da Biblioteca Nacional apoiou a tradução de  “Vamos aquecer o sol” e “Doidão”, que saíram em um só voluma, acompanhados por “eu Pé de Laranja Lima”, para a People’s Literature Publishing House, da China e, para a editora Libros del Asteroide, da Espanha, traduções de “Vamos Aquecer o Sol”, em espanhol, e o “Meu Pé de Laranja Lima”, em catalão.

Uma hora dessas eu acabo lendo o “Meu Pé de Laranja Lima”. Até por interesse sociológico…

José Mauro de Vasconcelos continua ampliando sua trajetória internacional.

scan0196.pdf_page_2scan0194.pdf_page_2scan0193.pdf_page_1 Abordei aqui o caso do José Mauro de Vasconcelos para chamar a atenção para as águas profundas que devem ser vistas mais de perto quando se examina a presença da literatura – ou, se quiserem, dos livros e dos autores – brasileiros no exterior. Como não me preocupo necessariamente com uma abordagem normativa ou qualitativa desse fenômeno, espero ser possível ir até a UNESCO e conversar com o pessoal do Index Translationum, quando estiver em Paris no próximo Salon du Livre.

Agradeço ao Breno Lerner, diretor da Melhoramentos, e sua equipe, pelas informações e pelas capas escaneadas, e a Fábio Lima, da FBN, pelas informações sobre as bolsas.

Agradeço os eventuais comentários ou críticas no site www.oxisdoproblema.com.br

 

One thought on “JOSÉ MAURO DE VASCONCELOS – O SUBESTIMADO MUITO TRADUZIDO”

  1. Não acho que ele tenha sido subestimado, ele foi um dos bem poucos escritores da época dele que pôde viver só da venda de direitos autorais, rompeu barreiras, Jorge Amado era de família abastada e Erico Veríssimo nunca foi pobre.

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