BIENAIS – PARA AVANÇAR NA DISCUSSÃO

Ao comentar o livro de Peter Weidhaas – “See You in Frankfurt!” – assinalei como a resposta encontrada para as acusações de que a Feira de Frankfurt só se preocupava com os best-sellers foi a de organizá-la em torno de “Temas”. Primeiro foram temas mais genéricos: Ano da Mulher, Literatura Latino-americana, Livro Infantil, África. Depois vieram os países Tema, entre os quais o Brasil, em 1994, agora novamente convidado para 2013.
Por outro lado, no post do dia 8 de julho, comentando a FLIP, a Jornada de Passo Fundo e as feiras de livro em geral, mostrei como foram progressivamente implantados os eventos culturais em nossas feiras. Sem dúvida, essa dinâmica representou um enorme avanço diante do que existia até o final dos anos 90, quando os “eventos paralelos” nas Bienais do Livro se transformaram em Salão de Ideias (S. Paulo) e Café Literário (Rio de Janeiro), e como esses foram se multiplicando dentro dessas feiras e nas outras que foram surgindo Brasil afora.

Quem acompanha de perto o mercado editorial sabe, entretanto, que o modelo das grandes bienais sofre muitas críticas e apresenta sinais de esgotamento. Críticas que partem principalmente de dois segmentos: as editoras de livros profissionais, técnico-científicos, e também das editoras menores. Os primeiros reclamam que as bienais se tornaram “passeios alternativos à ida a um shopping center ou à praia”, e os segundos – o das editoras menores – que se sentem perdidos diante do gigantismo dos estandes das principais editoras, que “sugam” os frequentadores com a presença dos autores mais conhecidos. Esse tipo de reclamação aparece também no segmento de editoras religiosas, embora em menor grau, já que estas atraem um público específico para seus estandes.
Em uma palavra, reclama-se que as Bienais se transformaram em grandes máquinas onde se amplifica o sucesso preexistente dos best-sellers, dos autores mais populares, etc. E isso apesar de hoje existir, nas duas grandes bienais, uma oferta muito significativa de discussões dos mais variados temas. Basta ver a excelente programação apresentada pela próxima Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Os “salões de ideias” e “cafés literários” segmentaram-se e proliferaram. Mas não eliminaram as queixas, como mostram as observações de Raul Wassermann, editor da Summus, do segmento técnico-científico-profissional, que publiquei faz alguns dias.
Gostaria de refletir com os leitores deste blog algumas alternativas e avançar nessa discussão.
Quero deixar claro, desde logo, que as feiras de livros são em princípio locais de negócios: os editores querem ter a oportunidade de mostrar de modo concentrado sua produção, inclusive porque esta passa muito rapidamente pelas livrarias. Sendo assim, nenhuma solução – ou pseudo-solução – que discrimine os best-sellers jamais terá sucesso. Até porque discriminar os leitores desse tipo de livros refletiria um elitismo que não condiz com a essência mais fundamental da indústria editorial, que é a de apresentar na diversidade dos livros a diversidade do mundo real, e atender às necessidades de todos os públicos. Portanto, é preciso respeitar também – e muito – os leitores de best-sellers.
Penso que o passo adiante para que as Bienais satisfaçam também ao público mais sofisticado passa de certo modo pela solução encontrada por Weidhaas para Frankfurt: encontrar um modo de tornar as Bienais do Livro culturalmente relevantes, além de centro de negócios.
Os “salões de ideias” e “cafés literários” precisam continuar existindo e proliferando, é claro. Mas seria importante que cada uma das feiras tivesse também um eixo agregador das discussões, e que esse fosse relevante para o público sofisticado que, de certa forma, sente-se hoje excluído desses eventos. Em uma palavra, instituir um Tema Focal em cada Bienal.
Uma ideia exemplificadora pode tornar mais fácil a compreensão do conceito.
Nos últimos anos tem se falado muito da chamada “nova classe média” brasileira, que aumentou o consumo de todos os tipos de bens, inclusive de livros; a incorporação de amplas camadas de consumidores, anteriormente excluídas do consumo de bens que não fossem os da cesta básica.
Pois bem, suponhamos que essa “Nova Classe Média” fosse um “Tema Focal”. Sem excluir a presença dos autores populares – afinal, quem consome as Talitas Rebouças da vida se não esse segmento de classe média ampliado? – pode-se estruturar uma série de eventos e discussões que tentem entender esse fenômeno. Como a Avon se tornou um dos principais canais de distribuição de livros do país. Como os livros destinados ao aperfeiçoamento profissional desse segmento vendem cada vez mais (como vender, como administrar, como montar pequenos negócios). Como o desenvolvimento de novos formatos de livros e de canais de comercialização procura atender a esse segmento – Avon, livros de bolso, livros em bancas de jornais, etc. Como cresce o setor educacional com essa incorporação de novos contingentes de universitários; os “sistemas de ensino”, os cursos de idioma, etc, etc. etc.
Enfim, não quero dar receitas aqui.
Pode se perguntar: essa discussão não é feita na universidade? Isso não é tema de teses e estudos acadêmicos?
O que respondo é que sim. Mas em nenhuma universidade se teria a oportunidade de tratar esse assunto com a diversidade de abordagens que seria possível em uma grande feira de livros, com uma oferta de autores buscando leitores acadêmicos e não acadêmicos. E assim trazendo para as bienais um novo e qualificado contingente de frequentadores.
E, principalmente, fazendo que uma camada significativa de formadores de opinião tivesse uma nova percepção sobre o significado e a importância das grandes feiras de livros. Esse universo fascinante de ofertas de produtos culturais, multifacetados, com abordagens diferenciadas, procurando ampliar seu público, procurando satisfazer essa sede de conhecimento, informação, diversão e lazer que o mundo dos livros proporciona adquiriria mais uma camada de significado e poderia, no caso, satisfazer também um universo mais amplo de editoras. É o conjunto delas, no final das contas, que pagam a conta e, se não tiverem retorno, vão acabar desistindo de participar das bienais. E as editoras de best-sellers vão querer bancar sozinhas essa conta?

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