Luiz Brás e sua pesquisa sobre o “estado atual” da literatura brasileira.

Luiz Brás – anteriormente conhecido como Nelson de Oliveira (eu me divirto muito com esse heterônimo?) – propôs ao Rogério Pereira, editor do jornal Rascunho, uma Pesquisa sobre a evolução literária no Brasil. E me enviou a pergunta abaixo:

Tendo em vista a quantidade de livros publicados e a qualidade da prosa e da poesia brasileiras contemporâneas, em sua opinião a literatura brasileira está num momento bom, mediano ou ruim?

A minha resposta, que saiu no Rascunho deste mês:

Pode-se usar vários critérios para tentar responder à questão.

Primeiro, um critério “quantitativo”. A quantidade de livros publicados no país denota, efetivamente, aquilo que chamou atenção de Antonio Cândido há décadas: temos um sistema literário com escritores que almejam o reconhecimento como tais; um sistema de transmissão (a língua, o mercado editorial); e um público leitor. Esse sistema é cada vez mais forte, maior e mais desenvolvido. E nele cabe e ele abriga uma imensa diversidade de expressões literárias, de temas, de abordagens. São milhares de autores em busca de seus leitores.

Uma segunda medida seria dada pela própria divisão por gêneros. Literatura adulta, literatura para crianças e jovens e poesia. Mas, nesse caso, é necessário também considerar dinâmicas próprias para cada uma delas.

Tome-se a poesia, por exemplo. Na pesquisa “Retratos da leitura no Brasil 3” (Instituto Pró-livro/Imprensa Oficial, S. Paulo, 2012) Temos os seguintes poetas citados entre os 25 autores brasileiros mais admirados: Carlos Drummond de Andrade (5º.), Vinícius de Moraes (8º.), Cecília Meireles (12º.), Manuel Bandeira (16º.), Fernando pessoa (18º.) e Mário Quintana (23º.). Será que os brasileiros estão lendo assim tanta poesia? A resposta, na verdade, tem a ver com os livros didáticos. Esses poetas aparecem com frequência nesses livros, e em vários contextos, nem todos ligados ao ensino de literatura. E é significativo que todos estejam solidamente encastelados no cânone. Nada de poetas novos. E esses poetas estão na companhia, na mesma lista, do Monteiro Lobato (por conta da TV), Maurício de Souza, Ziraldo e Pedro Bandeira. Todos autores amplamente lidos nas escolas.

Essa lista daria panos para muitas mangas, com a presença de outros autores, numa verdadeira salada de frutas: Paulo Coelho (3º.), Zíbia Gasparetto (9º.), Augusto Cury (10º.), Chico Xavier (13º.), Padre Marcelo Rossi (14º.) e Silas Malafaia (24º.). Os demais autores citados são do cânone: Machado de Assis (2º.), Jorge amado (4º), José de Alencar (7º.), Érico Veríssimo (11º.), Paulo Freire (17º.), Clarice Lispector (19º.), Ariano Suassuna (20º.), Graciliano Ramos (21º.), Mário de Andrade (22º.).

Ou seja, dos autores vivos não há presença de nenhum dos que estão no campo de apreciação da crítica contemporânea. Há, portanto, uma profunda dissociação entre o que o campo literário (no sentido dado ao termo por Bourdieu) privilegia, e o que aparece na preferência dos leitores.

O que leva, simplesmente, a uma reformulação da pergunta: de que literatura se está falando? Da que entra no radar das forças dominantes do campo literário ou da que, por uma ou outra razão, é efetivamente lida no Brasil?

Quem quiser, responda para o Nelson: luiz.bras@uol.com.br

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