Queixas dos editores contra a Amazon se expandem

Publicamos o artigo da Publishing Perpectives do dia 17 de abril, sobre debate acontecido na London Book Fair.

Roger Tagholm e Edward Nawotka

Editores internacionais e livreiros presentes na Feira do Livro de Londres deste ano estão vocalizando cada vez mais suas dificuldades em trabalhar com a Amazon.com. Em privado, editores levantaram preocupação com as exigências da Amazon, a venda que a empresa faz de edições para as quais não possui direitos territoriais de venda, e a compra de exemplares de atacadistas.

Falando off record, como se tornou norma quando a Amazon está envolvida, uma figura importante disse: “Todo mundo fala que se está chegando a uma situação horrível sobre os termos de negócio, e acho que existe uma preocupação crescente no que diz respeito a dados e à oferta que fazem de múltiplas edições, frequentemente desconsiderando a territorialidade.”

“É possível que haja algum problema com os campos de dados, mas circulam também teorias conspiratórias. Tentar consertar isso é vagaroso e difícil. Também estamos descobrimos que, quando se trata de seus próprios livros, muitas vezes eles não estão comprando de você. Procuram um atacadista em outro território – Ingram, por exemplo, ou alguém na Índia – onde o livro pode ser mais barato. Isso pode ser prejudicial aos autores, porque significa que recebem direitos autorais sobre livros exportados, mais baixos que os do mercado interno.”

Os boatos sobre a Amazon fazer “importações cinzentas” nos mercados em inglês e espanhol não são incomuns.

Um alto executivo de uma filial nas Américas de uma das Três Grandes espanholas confirmou ao Publishing Perspectives que soube que a Amazon estava vendendo uma edição importada de um dos grandes best-sellers da empresa na Espanha, apesar da matriz da mesma firma ter os direitos para a Espanha e produzir uma edição local. Quando o problema foi levantado junto à Amazon, a companhia atribuiu isso a um “erro de metadado”.

Quanto à mudança na alimentação de dados, um editor assinalou: “É preciso haver uma solicitação para que eles façam a mudança, mas isso pode levar até quatro semanas”.

Ainda outro editor queixou-se de que, quando confrontados com o erro de vender edições importadas, a Amazon só concordou em parar de vender os livros quando recebessem provas de obrigação legal de fazer isso. Além disso, quando mais de um título do editor foi descoberto como importado, a Amazon exigiu solicitações individuais para cada um deles, um processo oneroso, potencialmente caro e demorado – especialmente para os editores espanhóis com problemas de caixa.

Ainda outro editor notou que, quando se trata de dados, essencialmente, a Amazon quer ter todos os arquivos do editor – e-books, POD – de modo a se tornar fornecedora de si mesma e deixar de lado toda a indústria editorial. Eles tentam obter todos os IPs para si – e querem esses arquivos.

“Do mesmo modo, são uma companhia cujos termos de publicidade sobem todos os anos, mesmo quando se argumenta com eles que devem diminuir. As livrarias deixaram de cobrar pelas vitrines, mas o Deal of the Week na Amazon custa £ 15.000”.

Amazon: Amiga ou inimiga?

Em um fórum mais público, o “Great Debate” da segunda-feira, um debate estilo Oxford, popular na Feira – perguntou se as pessoas concordavam ou discordavam com a premissa de que “a Amazon era uma influência positiva no negócio editorial”.

Não foi surpresa o fato de Tim Godfray, Executivo Chefe da Associação de Livreiros do Reino Unido, argumentar em oposição. “Minha discordância – disse ele – é que a Amazon se tornou tão grande que não compete mais, e sim destrói a competição”. E passou a delinear uma série de queixas, desde o uso que a Amazon faz de Luxemburgo como sede europeia, uma posição que lhe permite cobrar apenas 3% de imposto sobre as vendas versus os índices muito maiores, se estivessem baseados em algum país da Comunidade Europeia, ao fato de que encorajam os fregueses a usar as livrarias como mostruários – folhear os livros nas lojas físicas, mas comprar online.

Robert Levine, autor de Free Ride, retomou as queixas sobre o uso que a Amazon faz de empresas de segurança da ultra-direita para vigiar os trabalhadores da Europa Oriental nos centros de distribuição na Alemanha, e a confiança da empresa em algoritmos para recomendar livros. “Não ficaria surpreso – disse Levine – se em dois ou três anos se descobrir que a Amazon recomenda principalmente livros publicados pela Amazon”.

Dois editores argumentaram em favor da Amazon, apesar de serem de tamanho bem modesto: o irlandês Eoin Purcell, editor da New Island Books, e Jennifer Lee, Publisher da DailyLit/Plimpton – uma empresa que trabalhou muito de perto com a Amazon quando foi lançada.

Dos dois, foi Purcell que ofereceu o argumento mais irrefutável, sugerindo que a Amazon era difamada maliciosamente. Declarou que a vantagem competitiva da empresa derivava do advento da Internet, e não de práticas não-éticas de negócios. Sobre o domicílio fiscal da Amazon em Luxemburgo, situação que permite que cobre apenas 3% de imposto sobre as vendas versus taxas muito maiores se estivesse localizada em outro lugar da Comunidade Europeia, Purcell declarou taxativamente que “eles tiram vantagem de um furo no sistema de impostos que qualquer editor usaria se pudesse”. E acrescentou que os desafios que os editores enfrentam na economia hoje são decorrentes de sua própria irresponsabilidade. “Talvez estivéssemos levando as coisas com muita facilidade no último século e simplesmente tivemos que despertar”, disse ele, acrescentando, “A Amazon é apenas o sintoma, não é o problema”.

Quando a contagem final dos votos da audiência foi anunciada para determinar o vencedor do debate, 59 membros da plateia concordaram que a Amazon era uma influência positiva, enquanto 117 discordaram.

Um participante do debate – livreiro independente – notou, sarcasticamente: “A única inovação que percebo que a Amazon trouxe para venda de livros foi na área da contabilidade”.
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