2012 – Um ano complicado

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Estive revisando os posts publicados aqui na PublishNews e no meu blog, O Xis do Problema, durante o ano que termina. Foi uma experiência interessante revisar os assuntos e posições tomadas neste ano, cheio de novidades e movimentações no mercado editorial.

Desde que comecei a publicar o blog, em julho de 2011, foram 185 posts, todos sobre aspectos relacionados com o mercado editorial. O plugin “akismet”, que protege contra spam, bloqueou nada menos que 12.054 tentativas de jogar abobrinha por ali, sintoma dessa praga que aflige a todos os internautas.

Mas o que quero fazer aqui é repassar brevemente alguns dos temas que chamaram minha atenção durante este ano que termina com ameaças apocalípticas.

Uma das minhas preocupações constantes no decorrer de 2012 foi com a qualidade e a quantidade das informações disponíveis para o mercado editorial e as maneiras de aproveitá-las para fazer que os livros cheguem de modo mais fácil ao leitor.

Em um dos primeiros posts do ano, já no começo de janeiro, eu perguntava se “Teremos mais e melhores dados sobre as vendas em 2012?”. Criticava a pesquisa da FIPE/CBL-SNEL, que, no meu entender, rompeu com a série histórica sem explicações convincentes e lançou sombras e dúvidas em relação a essa importante pesquisa sobre a produção e venda de livros no Brasil. Mas, também, especulava sobre a possível chegada do BookScan, da Nielsen, e do sistema da GfK de monitoramento das vendas online, com dados recolhidos diretamente dos pontos de vendas das livrarias.

Esses sistemas produzem uma quantidade impressionante de dados sobre o comportamento dos compradores de livros, sua demografia, a distribuição das vendas e os assuntos de interesse dos leitores/compradores. Só que, em diversos posts no decorrer do ano, chamei atenção para o fato das editoras brasileiras não perceberem a importância dessas informações, subestimarem a questão dos metadados, inclusive como meio de informar os leitores sobre os títulos disponíveis. Em maio publiquei um post no qual comparava os resultados de pesquisas em sites como o da Amazon e da Barnes&Noble com os sites brasileiros da Cultura e da Saraiva, que eram, e continuam sendo, um desastre total em matéria de facilitar informação para os clientes. A GfK já está atuando, e a BookScan diz que chega logo. Oxalá! E espero que os editores comecem a usar melhor os dados.

A Amazon e sua vinda para o Brasil, foi objeto de vários posts. Comecei comentando a suposta vocação “consumer centric” da empresa, que passou meses sem permitir que os brasileiros que tinham Windowsphone pudessem usar o app do Kindle nesses aparelhos. E agora, já com a loja funcionando, descobri que não aceitam todos os cartões de crédito…

Mas isso é detalhe. A grande questão que envolveu a Amazon a teve como expectadora ansiosa e torcedora da ação que o Departamento de Justiça dos EUA fez contra as editoras estadunidenses que adotaram o chamado sistema de agenciamento, a partir da Apple, para se contrapor à política de preços praticada pela gigante varejista. Boa parte dos analistas do mercado editorial considerava que a Amazon desenvolvia uma política que conduzia ao estabelecimento de um monopólio na área de e-books, destruindo a concorrência que não tinha capacidade de acompanhar sua política de preços artificialmente baixos em alguns títulos. E o Departamento de Justiça dos EUA agiu em favor da Amazon, processando as editoras. Belo exemplo de capitalismo selvagem em ação.

O resultado do imbróglio, aparentemente, é misto. Acabaram achando um modelo de “agenciamento light”, que limita os descontos globais, mas permite uma certa manipulação de preços. No entanto, as editoras americanas ganharam certa capacidade de estabelecer e controlar os preços dos e-books.

Em outro momento voltarei a tratar da questão dos preços dos e-books, que passou de raspão nos posts do ano que termina. Mas, ao que parece, as editoras brasileiras conseguiram, de algum modo, estabelecer condições de negociação que não deixam a Amazon tão à vontade para manipular preços quando se pensava.

(De passagem, algumas consultas para compra de e-books originais dos EUA e da Inglaterra, que fiz, mostram que, em vários casos, os preços da loja da Kobo/Cultura estão mais baixos que os da Amazon…).

Outra questão que tomou vários posts foi a da reprografia, bibliotecas e direitos autorais. No dia 13 de março publiquei um post sobre o assunto, chamando atenção para o papel que as bibliotecas, principalmente as universitárias, poderiam ter para evitar a reprografia em papel (xerox) e a eletrônica, as cópias online piratas. O caminho sempre foi o de ter mais e melhores bibliotecas, que permitem o acesso gratuito aos livros. Voltei ao assunto já no dia 14 de março, mostrando os mecanismos de licenciamento amplamente difundidos na Europa, e mesmo na América do Norte, permitindo a convivência do interesse dos leitores de acessarem parte dos conteúdos de livros e a defesa dos direitos de autores e editores.

E houve o caso do site “livros de humanas”, derrubado pela ABDR – Associação Brasileira de Direitos Reprográficos, entidade que foi criada para promover o licenciamento de cópias e se transformou numa triste paródia da RIIA, a associação da indústria fonográfica norte-americana que vive tentando colocar gente na cadeia. O assunto foi tratado em mais três posts em maio, inclusive o do dia 29 de maio, “Não existe almoço grátis, ou como Carlos Slim ganha dinheiro”, depois republicado – com modificações – no livro que comenta os resultados da III pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, publicado pelo Instituto Pró-Livro. Explicava ali, que os grandes interessados no conteúdo “gratuito” na Internet são os provedores de serviço, que ganham sempre, e muitas vezes às custas do trabalho de autores e editores.

Terminei a série com o post sobre a “Biblioteca da Utopia”, tratando da iniciativa de fazer uma biblioteca digital mundial, e das dificuldades práticas e jurídicas para levar a cabo esse empreendimento.

Outro assunto que ocupou vários posts em diferentes ocasiões foi o impasse que parece estar surgindo em relação às grande feiras de livros, como as Bienais do Rio e de S. Paulo. Já em maio noticiei o incômodo de expositores com o modelo da Feira do Livro de Madrid, quando reclamaram da falta de atividades culturais.

A Bienal do Livro de S. Paulo transcorreu sob o signo de polêmicas. A CBL alardeando o sucesso medido no número de visitantes. Entretanto, vários expositores tradicionais deixaram de comparecer e críticas foram se avolumando. Escrevi no dia 7 de agosto um post sobre a história da Bienal e de algumas iniciativas tradicionais que foram sendo abandonadas, como o cheque-livro e a proibição de estandes de saldos. No meio da feira publiquei um post com as críticas formuladas por João Scortecci. E volta e meio surgem contraposições entre os festivais literários – como a FLIP – e as feiras de livro. As primeiras, caracterizadas como atividades culturais, e as últimas como empreendimentos feitos simplesmente para aumentar o faturamento dos “gananciosos” editores.

Pensando em contribuições positivas, escrevi três posts sobre a Feira de Guadalajara, para a qual fui convidado a participar de uma mesa sobre o futuro das livrarias. Nos três posts (e mais um sobre a eleição do GIE – Grupo Interamericano de Editores) procurei mostrar como imaginação e profissionalismo faziam da feira mexicana um exemplo de soluções criativas para alguns dos problemas que afligem as nossas bienais: atividades profissionais e atividades com escolares. Nos dois casos, a FIL mostra como as coisas podem ser diferentes, e melhores.

A pergunta sobre se as livrarias poderão resistir ao avanço da conglomeração e participar do mercado de livros digitais ainda irá merecer reflexões. Algumas foram adiantadas no post sobre a pesquisa patrocinada pela ANL, e também nos comentários sobre a “Carta Aberta” lançada pela associação dos livreiros, com “sugestões” que considero, na maior parte, inócuas, embora bem intencionadas. Mas ainda voltarei ao assunto.

Finalmente, quero mencionar dois posts que gostei muito de ter escrito. O primeiro, publicado no dia 26 de março, “Sem editores o livro não vive, sem tradutores não viaja” e o segundo, no dia 5 de abril, “Como a política e as condições sociais podem atrapalhar a ‘viagem’ de uma obra”.

No primeiro tomava o exemplo do Dom Quixote para mostrar a importância do trabalho editorial, que efetivamente torna acessível, no correr dos tempos, o conteúdo das obras literárias para as novas gerações. O imenso e acumulativo trabalho de editores – e de seus contratados, os comentadores, elaboradores de notas, normalizadores de ortografia, capistas e ilustradores, etc. – é que permitem que os clássicos sejam lidos, a cada geração, como se fossem escrito para aqueles leitores.

Os tradutores – maiormente pagos pelos editores – também recobrem os clássicos de sucessivas versões, apresentando-os para novos públicos e outras culturas.

Inversamente, certas condições políticas e sociais dificultam a difusão de verdadeiros clássicos, que às vezes ficam submergidos por séculos sem ser apresentados a seus leitores. A “Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto, um texto fundador da prosa em língua portuguesa, sofreu a reação dos nacionalistas portugueses revoltados com as descrições das peripécias nada edificantes das navegações, tão louvaminhadas por Camões no poema épico. Como poderia dizer, séculos depois, o personagem de Eça, Fernão Mendes é fundamental porque escreveu em prosa. Afinal, falamos em prosa, não em versos.

Os dois exemplos, entretanto, conduzem à reflexão final da importância dos editores, que são as pontes entre os autores e seu público. Sem editores, a ejaculação precoce da autopublicação se esgota tão simplesmente na satisfação narcisista de alguns, que só terão futuro quando encontrarem os profissionais que possam fazer a contento o papel de levar o conteúdo – seja impresso, seja em formato eletrônico – às mãos dos leitores.

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