LITERATURA INFANTO-JUVENIL BRASILEIRA NO EXTERIOR – UMA JANELA QUE SE ABRE


O número 3 da Revista Machado de Assis – Literatura Brasileira em Tradução, editado pela FBN e coeditado pelo Instituto Itaú Cultural será dedicado à produção nacional de livros destinados ao público infantil e juvenil, com vistas à participação do Brasil na Feira de Bolonha – a maior do setor – que em 2013 acontecerá em março. Em 2014 o Brasil será o país convidado do evento.

A Revista Machado de Assis está aceitando o envio de propostas de trechos de livros já publicados no país – que devem estar traduzidos para o inglês ou espanhol – até o dia 20 de novembro. Esse número da Revista Machado de Assis terá duas novidades importantes: A primeira é que a edição será totalmente digital, online, embora editoras e agentes possam fazer o download dos textos e das ilustrações. A segunda é que, precisamente por ser digital, a edição da Revista Machado de Assis aceitará proposta que envolvam livros ilustrados, inclusive a cores.

A literatura infanto-juvenil brasileira á uma das forças do mercado editorial. E só bem recentemente tem sido objeto de programas sistemáticos de aquisição de acervos por programas do Governo Federal, através do PNBE, embora anteriormente tenha se beneficiado de programas como o das “Salas de Leitura”. Governos estaduais e municipais também compram livros do segmento, ainda que de forma muitas vezes não sistemática.

Monteiro Lobato é considerado como o grande mestre da literatura para jovens no Brasil, ainda que recentemente tenha sido alvo de percepções, no meu entender, equivocadas e a-históricas sobre o conteúdo de alguns de seus livros, acusados de racistas.

Monteiro Lobato, entretanto, inspirou uma forte linha de sucessores e sucessoras. Autores e ilustradores como Lygia Bojunga e Ana Maria Machado – as duas ganhadoras do Prêmio Hans Christian Andersen, equivalente ao Nobel do setor –, Ruth Rocha, Angela Lago, Bartolomeu Campos de Queiroz, Marina Colasanti, Roger Mello, Luís Antonio Aguiar, Eva Furnari, Marcos Rey, Ziraldo. A lista é por demais extensa e já cometi injustiças deixando fora dela inúmeros nomes. Mais informações sobre os autores podem ser encontradas no site da Fundação Nacional do livro Infantil e Juvenil – FNLIJ. O Sistema de bibliotecas Públicas de S. Paulo, através da Biblioteca Monteiro Lobato, há anos também publica resenhas de livros do setor: a Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil, editada desde 1941, disponível naquela unidade da Secretaria de Cultura do Município de S. Paulo , uma valiosa contribuição que, é pena, às vezes falha em continuidade.

A grande força e presença desse segmento, entretanto, deve-se a seu uso extensivo nas escolas. Desde os programas de alfabetização – e mesmo pré-escola – até o ensino médio, acontece um uso extenso de livros que, em algum momento, eram conhecidos como “paradidáticos”. O termo abrangia desde obras de literatura – romances, contos e poesias – para todas as faixas de idade e segmentos escolares, até os livros de divulgação histórica e científica.

Um dos marcos do crescimento desse segmento foi a revista “Recreio”, em sua primeira etapa, de maio de 1969 a junho de 1981, quando foram publicados textos inéditos de alguns dos mais importantes autores do segmento. A Editora Ática – quando ainda era independente – iniciou a Coleção Vagalume, importante marco de lançamento de autores e títulos em suas diferentes subdivisões. O exemplo da Ática foi seguido por muitas outras editoras, destacando-se as que tinham forte presença no segmento didático. Os “divulgadores” dessas editoras, junto às escolas, apresentavam esses livros depois da época de adoção dos livros didáticos, o que contribuiu enormemente para a expansão do setor.

Essa estratégia das editoras do segmento didático – usar a força dos divulgadores para difundir os “paradidáticos” na “entresafra” – foi crucial para seu crescimento.

O prestigio internacional alcançado pelos autores brasileiros do segmento, entretanto, não se reflete no número de traduções. É notável que o autor mais traduzido desse gênero seja José Mauro Vasconcellos e seu “Meu Pé de Laranja Lima”, há anos na lista dos livros de autores brasileiros mais traduzidos do mundo (é o quarto autor brasileiros mais traduzido, segundo o Index Translationum da UNESCO. O próprio Monteiro Lobato foi bastante traduzido para o espanhol (chegou a ter uma filial de sua editora em Buenos Aires) e Ziraldo, hoje, pela minha avaliação (não existem dados concretos) é o autor brasileiro mais traduzido da área.

A tradução de livros infantis e juvenis é empreitada complicada. O uso de expressões coloquiais e o contexto cultural têm um peso muito grande nesse tipo de tradução. Basta lembrar as dificuldades até para o português lusitano. Meninos/putos, moças/raparigas, para citar dois dos mais conhecidos.

O Programa de Apoio à Tradução e à Divulgação da Literatura Brasileira, da FBN, concedeu apenas sete bolsas para livros desse segmento entre 2011 e 2012. Isso equivale a apenas 4,3% do total de 164 bolsas concedidas. Uma para tradução de Ana Maria Machado, três para tradução de Clarice Lispector, duas para Jorge Amado e uma para Susana Salerno. Esses números denotam bem a questão: dificuldades de tradução, principalmente para o segmento mais jovem e ilustrado, e concentração nos autores mais conhecidos.

A Feira de Bolonha, o equivalente da de Frankfurt para o setor, conta com estande brasileiro há vários anos, organizado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, com recursos da FBN e da CBL (via projeto Brazilian Publishers). Tal como em Frankfurt, essa presença se dava muito mais na área de aquisição de textos, principalmente os fartamente ilustrados, e de livros juvenis, mais fáceis de traduzir. Algumas editoras, como a Callis, também montavam estandes próprios e desenvolviam ações proativas de venda de livros físicos (impressos no Brasil) ou direitos de publicação.

A exportação de livros e direitos desse segmento teve também uma contribuição do Governo Mexicano. A Secretaria de Educación Pública do México (o MEC deles), mantêm um programa de publicações de autores latino-americanos que abriu algum espaço para os autores brasileiros, embora a maior parte dos selecionados seja proveniente dos demais países de língua espanhola.

No contexto dos programas de apoio à divulgação da literatura brasileira no exterior, a Fundação Biblioteca Nacional aceitou o convite para, em 2014, ser o País Convidado de Honra da Feira de Bolonha, tal como em 2013 será da Feira de Frankfurt.

Para superar o pequeno número de bolsas de tradução de autores de livros infantis e juvenis, o número três da Revista Machado de Assis – Literatura Brasileira em Tradução, será dedicado a esse segmento.

É uma grande oportunidade para que os autores de nossa pujante literatura para crianças e jovens busque aumentar seu nicho no mercado internacional.

É também uma oportunidade também para que tradutores experimentem sua mão nessa difícil – e saborosa – arte de traduzir livros para crianças e jovens.

As propostas devem ser enviadas exclusivamente para o e-mail cil@bn.br e, para os textos aprovados, deverão posteriormente ser enviadas informações complementares e autorizações de publicação tanto dos autores como dos tradutores e ilustradores.

3 thoughts on “LITERATURA INFANTO-JUVENIL BRASILEIRA NO EXTERIOR – UMA JANELA QUE SE ABRE”

  1. Trabalho numa biblioteca den escola pública. Recebemos muitos livros da comunidade, recebemos através do governo federal e estadual, fazemos aquisições com recursos próprios. Mas vejo que temos muitos livros de autores estrangeiros, como estas séries atuais, como Crepúsculo,Harry Portter,Percy Jackson, e outros. Gostaria, no entanto, de autores brasileiros para adolescentes.

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