Empresas pressionam governo dos EUA a seu favor na Internet

O Washington Post do dia 31 de maio, publica uma matéria muito interessante, modelo de como ideologia e economia se misturam (de modo nem tão sutil assim), nas questões da Internet e do “livre acesso ao conhecimento”. Dito seja de passagem que sou totalmente favorável ao livre acesso ao conhecimento e à liberdade de imprensa.

Vamos ver a matéria de perto.

O título: “Companhias tecnológicas americanas advertem sobre ameaças à Internet por governos estrangeiros”.

O texto, com comentários em itálico:

“Autoridades dos EUA e gigantes da alta tecnologia lançaram uma ofensiva contra o que percebem como um ataque maciço à Internet e à lucratividade das empresas do Vale do Silício: governos estrangeiros”. Sem disfarces: as autoridades e as empresas se unem contra a ameaça dupla, à Internet e à lucratividade das empresas. Depois que o Departamento de Justiça dos EUA agiu para beneficiar a Amazon, o que mais se poderia esperar?”

Prossegue o texto: “Em uma audiência no Congresso na quinta-feira próxima eles advertirão os legisladores sobre o crescente movimento liderado pela China, Rússia e alguns países árabes para dar mais controle sobre a WEB para as Nações Unidas e impor regras na Internet que as companhias americanas dizem que permitirão a governos abafar direitos civis e a liberdade de expressão”. A primeira manobra de cerco se delineia: potências “inimigas”, usando essa nefanda organização das Nações Unidas, querem atacar os valores americanos.

“Isso pode significar que a WEB poderia ser drasticamente diferente em outros países do que é nos Estados Unidos, dizem os opositores da proposta. Um usuário da Internet no Usbequistão poderia ser mais facilmente rastreado pelas autoridades governamentais e poderia ter acesso apenas a uma portão dos resultados de pesquisa do Google do que os vistos nos Estados Unidos, por exemplo.” O Big Brother orwelliano não poderia redigir melhor: só é bom o que aparece nos EUA, não há nenhum problema no fato do Facebook, Apple e Amazon rastrearem intensivamente o uso da Internet, principalmente se os resultados da grande parceira, Google, aparecerem do modo como é manipulado nos EUA. Mas, cuidado, se os usbeques não tiverem esse privilégio, a liberdade de expressão e os mecanismos de controle são malignos.

E logo vem o punch direto: “Em um raro esforço coordenado para derrubar as propostas, Google, Microsoft, Verizon e Cisco advertem também para o risco financeiro a seus negócios se as novas regras forem adotadas. Dizem eles que algumas nações podem implementar legislação na Internet que pode impor tarifas sobre os provedores de serviços da Internet tais como a Verizon, ou mesmo empresas da Web como o Facebook, que permitem às pessoas se comunicar através da Internet”. Depois das horríveis ameaças ao acesso da Google (tão boazinha), um valor mais alto se alevanta: grana.

“As ameaças são reais e não imaginárias, apesar de admitirem que às vezes soem como obras de ficção, disse Robert McDowell, um Republicano membro da Federal Communications Commision.” O Congresso mobilizado para definir regras internacionais. Uma visão peculiar do multilateralismo.

“Os protestos das companhias americanas se antecipam a um encontro chave que acontecerá em dezembro em Dubai, quando membros das Nações Unidas irão reavaliar o tratado de comunicações de 1988. Vários governos estrangeiros argumentaram que o tratado precisa ser atualizado, dada a crescente influência das comunicações via Internet”. As companhias americanas não dão mole: elas pagam dinheiro grosso para ter o melhor governo que sirva aos seus interesses.

“O número de usuários da WEB deve crescer dos 2,3 bilhões de hoje para 3,4 bilhões em quatro anos, segundo um recente relatório da Cisco. Facebook e Twitter provaram que foram vitais para os revolucionários durante a Primavera Árabe do ano passado. E, em muitos países desenvolvidos, a única abertura para o mundo exterior é o que as pessoas leem online”. Sempre uma no cravo e outra na ferradura: a importância da comunicação para a “democracia”, sim, mas também cuidado, é muita gente que precisa ficar exposta aos anúncios.

Como a boa prática exige, logo vem alguns parágrafos com a versão contrária:

“Muitas coisas mudaram desde as revisões de 1988, de modo que o marco regulatório e a política global precisam ser atualizados, disse Hamadoun Toure, secretário-geral da União Internacional de Telecomunicações, o órgão das Nações Unidas, em um discurso recente.
Muitas nações querem ter mais presença no formato da Web. A Internet tem sido fortemente influenciada pelas firmas dos EUA e acadêmicos americanos, que estabelecem os padrões, argumentam. A China, em particular, é crítica dos esforços dos Estados Unidos para encorajar políticas da Web abertas ao redor do mundo.

A UIT criticou os protestos dos EUA contra as propostas de governos estrangeiros. Estamos atônitos, há muita desinformação sobre isso, disse Alexander Ntoko, chefe da estratégia corporativa da UIT. Ele disse que os americanos exageram sobre o quanto as Nações Unidas podem formatar a Web.

Ainda assim, autoridades dos EUA ficaram alarmadas com a linguagem que líderes estrangeiros estão usando quando discutem o que fazer com a Internet.

O presidente russo, Vladimir Putin, por exemplo, disse ano passado que apoiava a ideia de ‘controle internacional sobre a Internet usando a capacidade de monitoramento da UIT’.

Setembro passado, a Rússia, China, Tajiquistão e Usbequistão escreveram uma carta para a Assembleia Geral da ONU pedindo ‘um código de conduta internacional’, que estabelecesse ‘normas e regras que guiem o comportamento’ de países que supervisionam a Web.

Em fevereiro, várias nações árabes propuseram que os países deveriam ser capazes de ‘tomar medidas para assegurar uma compensação justa’ pelo fluxo do tráfego da Internet. Atualmente não existe regras estabelecidas para a circulação internacional de dados pela Internet. As companhias telefônicas, ao contrário, são obrigadas a pagar pelos serviços de firmas em países estrangeiros pelas ligações internacionais. ‘Muitos países do mundo em desenvolvimento receberam bilhões de dólares em divisas para completar as ligações telefônicas’, disse David Gross, ex- coordenador da política de comunicações internacionais do Departamento de Estado e agora representante de uma coalizão que inclui AT&T, Cisco, Comcast, Google e Microsoft. ‘Esse dinheiro desapareceu.’”

Mais uma vez o fundo do cerca-lourenço se revela: as companhias tem que pagar para que as ligações telefônicas sejam completadas, e ‘esse dinheiro sumiu’. As ligações não foram completadas? O lucro das empresas americanas é sagrado, o das outras companhias é abuso.

E o parágrafo final: “A Rússia sugeriu cortar o acesso à Internet para usuários que ameacem a segurança da rede. Nações árabes pedem proteção para a privacidade na rede, salvo para os objetivos das autoridades legais. ‘Tais propostas levantam a perspectiva de políticas que permitam controles governamentais e diminuam significativamente a ‘inovação sem permissão’ que está por baixo do extraordinário crescimento da economia baseada na Internet, para não dizer nada do menosprezo pelos direitos humanos’, diz Vint Cerf, vice-presidente do Google e ‘evangelista principal da Internet’.”

É realmente uma matéria muito interessante:

– Discurso semelhante ao da imprensa nativa, completamente antiregulamentação, pois isso prejudica a liberdade de expressão – e suas manipulações;

– Total privatização do controle da Internet. Não reclamam pelo reforço da capacidade dos organismos internacionais para combater abusos, mas deixam subjacente a censura feita pelo Facebook, a espionagem feita pelo governo americano e a proliferação das “guerras cibernéticas”.
Repito. Sou totalmente favorável à liberdade de expressão. Mas não sou ingênuo para deixar de perceber o caráter ideológico e manipulativo que essa defesa pode assumir por parte de certos interessados. E de perceber como esse direito é manipulado para a defesa de outro “bem supremo”, e muito superior: grana para as empresas.

Como já disse antes, para veicular isso aqui pago para a Embratel, através do Virtua, uso um programa da wordpress americana e não quero nem saber a quem pertence a Locaweb que hospeda o blog. E também frequento o Facebook e o Twitter. Só não sou ingênuo de achar que tudo é grátis, inocente e simplesmente democrático.

2 comentários em “Empresas pressionam governo dos EUA a seu favor na Internet”

  1. Fantásticos seus textos. Felipe. Precisa colocar a turma “laica” pra entender isso, começando pelos pirateiros que se julgam verdadeiros herois em sua sede de Partido Pirata em coberturas do alto Leblon.

  2. O objectivo do império é a privatização total de tudo, inclusivé, escravizar o ser humano. Se fizermos uma análise mais profunda, vemos que todas estas empresas tiveram origem na mesma universidade, e em torno da nefasta sociedade phi beta kappa que é o motor desta máquina infernal. Dela fazem parte pessoas bem colocadas na sociedade: mundo político, económico, empresarial, artes e ensino. Nesta sociedade encotramos etre outros, políticos de vários países do mundo. É preciso tomar noção que se trata de uma familia originária da antiga babilonia, e cujo objectivo é dominar o mundo. É preciso despertar, informar e lutar. Ée uma questão de sobrevivência. Eles ou nós. Os bancos, a usura, e quem está por detrás deles, é a raiz do mal.

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