Brasil em Bogotá – A primeira experiência das novas políticas da Biblioteca Nacional

A 25ª. Feira do livro de Bogotá – FILBO – inaugura hoje com o Brasil como “País Invitado de Honor”. É a primeira dessas homenagens articuladas por Galeno Amorim desde que assumiu a presidência da Fundação Biblioteca Nacional. A sequência de feiras que homenageiam o Brasil terá seu ápice na Feira do Livro de Frankfurt, em 2013, quando o país será, pela segunda vez, o país tema. Aliás, também em Bogotá é a segunda vez. A primeira foi em 1995, o ano seguinte ao da presença do Brasil em Frankfurt, e naquele ano algumas das exposições levadas para a Alemanha foram remontadas na Colômbia.

Essas participações fazem partes das iniciativas da FBN de apoiar uma maior presença da literatura brasileira na indústria editorial internacional, juntamente com as bolsas de tradução e o aumento do número e do tamanho dos estandes brasileiros em outras feiras internacionais.

Funcionará?

Vejamos alguns condicionantes disso.

Em primeiro lugar é preciso dizer que praticamente todos os países europeus (fora a Inglaterra), auspiciam programas de apoio à tradução e edição de livros de seus autores em outros países. Dos países de língua inglesa, o Canadá também tem iniciativa desse gênero.

A recente presença aumentada de autores portugueses no nosso panorama editorial se deve, também, a um programa que funcionou por anos, de apoio à edição de autores portugueses no Brasil (que era paralelo ao programa de apoio às traduções), mantido pelo Instituto Português do Livro e da Biblioteca. Uma política cultural que, juntamente com o Instituto Camões, dava a Portugal uma indiscutível primazia na difusão internacional do português, muito superior ao poderio econômico e político daquele país. Política que vem sendo desmantelada sob a batuta das imposições do resgate financeiro. E que nunca foi devidamente compreendida pelo governo brasileiro.

A razão é simples: todos igualmente sofrem com a avassaladora predominância da indústria editorial norte-americana e sabem que a presença de seus autores é um dos componentes de sua diplomacia. A presença cultural de um país no panorama internacional é um fator relevante. Não basta ser rico, ter armas atômicas e coisas do gênero. O conhecimento mútuo das características e das diferenças faz parte do jogo. E tanto faz que um dos componentes do predomínio mundial dos EUA se dá precisamente através da indústria cultural, e nessa as bases repousam em um tripé: livros, cinema, televisão.

Por essas razões, o estabelecimento de uma política pública de promoção do livro e dos autores brasileiros é da maior importância. Infelizmente ainda não está acompanhada de outras ações de maior profundidade de política cultural, a partir da criação do que poderia ser o Instituto Machado de Assis. E também ainda não há segurança de que essa política terá continuidade institucional.

Uma ação de promoção do livro brasileiro na Colômbia deverá levar em consideração alguns fatores.

O primeiro é a presença e a força da indústria editorial espanhola. Os espanhóis, com o apoio do governo, há anos perceberam que sua real oportunidade de expansão estava nas Américas. Nos países da América hispanofalante, na população de origem hispânica dos EUA, e no Brasil. Daí a presença de filiais das principais editoras espanholas em todos esses países, e também no Brasil.

Com as facilidades tecnológicas hoje disponíveis, o trabalho editorial (preparação dos textos, revisão, composição, etc.) pode ser feito em qualquer país, e a impressão sob demanda em cada um desses países facilita essa penetração. Essas características são um componente na definição de preços locais e seu manejo correto oferece uma grande vantagem para as editoras espanholas.

Os núcleos editoriais mais importantes em língua espanhola no continente americano são a Argentina, a Colômbia e o México, com os Estados Unidos entrando forte nessa parada.

Para ser eficaz, portanto, uma política de ocupação de espaços para nossos autores deve levar em consideração esses pontos. Há uma concorrência e certa complementação de esforços com as editoras espanholas, na medida em que várias delas já estão bem implantadas no Brasil e também editam autores brasileiros, e lhes interessa a difusão desses autores pelo resto do continente.

A participação importante na feira da Colômbia – serão mais de trinta autores e mais uma fornida presença de músicos, do cinema e da dança – é um bom começo. Mas é isso, um começo.

É necessário que haja continuidade e aprofundamento. A presença como “País Invitado de Honor” certamente trará uma boa visibilidade para os autores e artistas que foram à Colômbia. Mas isso só resultará em um efetivo aumento da presença da literatura brasileira nos países de fala espanhola se for aprofundada a ação, levando em consideração os outros polos de difusão do livro na América Latina, e houver continuidade.

Na minha experiência pessoal como um dos organizadores da participação brasileira em Frankfurt em 1994, e em Bogotá em 1995, a grande frustração foi precisamente acompanhar o desperdício do esforço e dos resultados alcançados, devido à falta de continuidade e de aprofundamento de uma política pública e de Estado para a presença do livro brasileiro no exterior.

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