PASSO FUNDO – O CANCELAMENTO É UMA TRAGÉDIA

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O anúncio do cancelamento da Jornada de Literatura de Passo Fundo, que deveria acontecer este ano, é um fato muito grave, tanto pelo que significa de prejuízo para um projeto vitorioso, como pelas implicações que decorrem dos mecanismos de financiamento da cultura em nosso país.

A Jornada de Passo Fundo é (esperamos que o uso do presente continue válido) um empreendimento de uma universidade particular. A Universidade de Passo Fundo não faz parte nem do sistema estadual nem do sistema federal de universidades públicas. Reconheço que não tenho detalhes sobre o conjunto de suas atividades, nem sobre a avaliação geral de seus cursos.

A Jornada, por sua vez, é uma iniciativa da Tânia Rösing – que acho que já está até aposentada – que a criou há quase três décadas. Muito modesta no início, foi arrebanhando admiradores e apoiadores entre alguns dos principais escritores do país, que colaboram e colaboraram para a organização do evento. Cito, de memória, alguns que já prestaram sua contribuição ao evento, como o Ignácio de Loyola Brandão, o Josué Guimarães e o Deonísio da Silva.

A principal característica da Jornada de Passo Fundo, que a torna única, é que não se trata simplesmente de um evento. Os dias da jornada propriamente dita são precedidos e sucedidos por um trabalho sistemático junto ao conjunto das escolas de ensino fundamental da região, com a leitura dos romances, contos e novelas dos autores convidados (e mesmo dos que não são). O resultado disso, pelo que já tomei conhecimento, é um efetivo aumento da qualidade dos resultados das avaliações pedagógicas na região. Não apenas no domínio do português, como também de outras áreas. Afinal, quem sabe ler e escrever corretamente com certeza tem condições de mostrar desempenho melhor nas várias áreas do conhecimento.

As notícias sobre o cancelamento da Jornada não deram conta da suspensão ou da continuidade desse trabalho junto à rede escolar. Se o cancelamento se refletir também nessa área, seu prejuízo será incomensurável para os jovens da campanha gaúcha.

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A professora Tânia Rösing, sua idealizadora e até hoje dirigente, possui inúmeras virtudes que, em determinados momentos, podem até parecer defeitos. A principal é o seu compromisso com a qualidade do evento. Nisso, Tânia Rösing não transige. Conseguiu transformar um problema – o da falta na cidade de um local suficientemente grande para o acontecimento – em uma solução altamente criativa e simpática: as Jornadas acontecem debaixo de lonas de circo. Mas Tânia Rösing não abre mão da ampla seleção de convidados. Importante: os convidados não são apenas os autores. São as crianças e professores de muitos municípios em torno de Passo Fundo, que devem ir de ônibus, ter um mínimo de garantia de alimentação e segurança para participar na Jornada.

O cancelamento da Jornada deste ano, ao que tudo indica, está acompanhado também do cancelamento do que seria o 9º. Prêmio Zaffari Bourbon de Literatura. O Prêmio era (ou ainda é, oxalá) um dos mais significativos da vida literária nacional. Patrocinado pela rede de supermercados Zaffari, que faz parte do grupo Bourbon de hotéis e shoppings centres, se for cancelado também significará uma perda importante.

GAUCHISMO E REPERCUSSÃO

O Rio Grande do Sul destaca-se no panorama literário e editorial do país por uma pujança incomum fora do eixo São Paulo-Rio de Janeiro. Recordemos a iniciativa da antiga Editora Globo, de Henrique Bertaso, que teve em Erico Veríssimo uma peça chave para a edição no Brasil de grandes nomes da literatura universal. Outras editoras gaúchas foram se sucedendo. Um dos aspectos mais importantes, para mim, é a presença muito grande de pequenas casas dedicadas a autores gaúchos e seus temas, inclusive os famosos “causos de galpão”. As migrações gaúchas levaram e levam esses livros até o extremo norte brasileiro, e isso transforma o Rio Grande do Sul em caso único de valorização da cultura regional.

Outra característica importante do Rio Grande do Sul é a longa existência do nstituto Estadual do Livro. Com os altos e baixos a que estão sujeitas todas as instituições públicas, o IEL vem desenvolvendo, há décadas, importante trabalho de criação e manutenção de bibliotecas, apoio a feiras de livros locais, circulação de autores e atividades semelhantes. E não se pode esquecer também a feira de livros mais antiga do país, a de Porto Alegre, que já ultrapassou meio século de existência.

Isso tudo faz do “gauchismo” um fenômeno que se reflete também na movimentação literária, no comércio de livros e na indústria editorial. E os gaúchos sempre tiveram muito orgulho disso tudo, ao par com as disputas políticas acirradas que sempre caracterizaram a região, desde o Império.

Isso criava, de certa maneira, um paradoxo. A movimentação literária e editorial do Rio Grande do Sul há muito é motivo da admiração de quem trabalha e conhece o setor. Entretanto, pouco disso obteve a repercussão nacional que merecia. Culpa do resto do país, evidentemente.

Ora, mesmo antes do surgimento dos mecanismos fiscais de apoio à cultura, a sociedade riograndense encontrava meios de financiar tudo isso. Há muito eu observava que grandes empresas de origem gaúcha, como a Gerdau, investiam somas significativas na Feira de Porto Alegre. E o grupo Zaffari-Bourbon, mais recentemente, no Prêmio vinculado às Jornadas de Passo Fundo.

Será que os gaúchos andam perdendo esse aspecto muito salutar de seu conhecido bairrismo,  e começam a desistir de prestigiar as coisas locais?

O que terá acontecido para que essas fontes secassem, a ponto de inviabilizar a Jornada de Passo Fundo deste ano? Todos falam da crise atual, mas crises vêm e passam, e até hoje os gaúchos sobrepunham seu orgulho, seu gauchismo, a essas dificuldades momentâneas. Portanto, creditar tão somente à crise o cancelamento das Jornadas não me parece muito convincente.

Sem condições de fazer um estudo aprofundado, desconfio (olhem o verbo, por favor) que alguns fatores acabaram por supurar essas condições de financiamento. Sem ser necessariamente em ordem de importância, listo alguns.

Não apenas a crise, mas as continuadas ameaças que o Ministro da Cultura, Juca Ferreira, vêm fazendo às empresas que utilizam os mecanismos das leis de incentivo fiscal pode ter pesado nessa retração. Não é preciso ser muito esperto para concluir que o investimento empresarial em eventos culturais (tachados pejorativamente como investimentos de marketing) começa a se retrair diante desses ataques. Não apenas pela eventual insegurança de uso dos benefícios, como pelo constante pré-julgamento oficial e de eventual menosprezo por parte da imprensa, das empresas que os usam.

Ainda que possa haver (e há) empresas que continuam aplicando recursos próprios e incentivados em ações culturais, o desbalanço vis-à-vis o cinema, por exemplo, é notável. O cinema permite benefícios muito superiores em termos fiscais para os investidores. Em tempos de vacas magras, quem aplica quer aproveitar ao máximo as possibilidades de retorno.

Mas não apenas o cinema se beneficia de incentivos fiscais. O esporte também tem aproveitado de mecanismos muito flexíveis para captar recursos com benefícios fiscais.

Some-se a tudo isso as evidentes dificuldades orçamentárias, tanto da federação quanto de estados e municípios. No caso do Governo Federal, a situação é agravada também pelo fato de que apenas agora, nesses últimos dias, passou a existir a possibilidade de aplicar recursos. Para além do contingenciamento, o bloqueio na aplicação do orçamento só começou a ser liberado, pelo que sei, nesta semana.

Mas não se trata apenas das dificuldades de execução orçamentária. Faltou, evidentemente, sensibilidade e decisão política dos ministros envolvidos para entender e equacionar o problema das Jornadas de Passo Fundo. E desconfio (mais uma vez, o verbo, atenção) que as características da Jornada de Passo Fundo, que abrangem ações não apenas culturais (e promovidas por uma universidade particular), como de caráter educacional, podem ter provocado algum curto-circuito nos processos decisórios.

Repito e enfatizo: são observações feitas de longe, por quem tem acompanhado alguns dos meandros mais públicos das discussões, e que certamente não teve meios nem condições de pesquisar o assunto a fundo.

Triste nessa história toda, infelizmente, é o reflexo que esse cancelamento pode ter em outras iniciativas semelhantes. Em menor proporção pode ter atingido eventos (e a Jornada de Passo Fundo está longe de ser simplesmente um evento) que não têm essa abrangência e profundidade. Mas que, sim, conseguiram ter uma projeção midiática muito maior.

Melhor para esses eventos. Pior para as Jornadas Literárias de Passo Fundo.

Triste para o Brasil.

Um comentário em “PASSO FUNDO – O CANCELAMENTO É UMA TRAGÉDIA”

  1. Concordo totalmente com você que a interrupção deste projeto é uma tragédia. Não apenas porque é um evento que vem sendo feito há tempos, com muitos elogios dos participantes e, acredito eu, com sucesso, mas, principalmente, porque o evento contribui para reforçar para todos os jovens participantes de Passo Fundo a idéia de que ler é algo que pode ser interessante, divertido, produtivo. Ou seja, tudo aquilo que nós, amigos dos livros, nos esforçamos tanto para demonstrar, nem sempre com sucesso.

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