O Prêmio Internacional Neustadt de Literatura: O Nobel dos EUA

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A Publishing Perspectives publicou recentemente esse artigo sobre o Prêmio Neustadt de Literatura, reproduzida abaixo. O único brasileiro ganhador da láurea foi João Cabral de Melo Neto, em 1992. Este ano não houve indicações de brasileiros para o prêmio e nenhum faz parte do júri.

O Prêmio Internacional Neustadt de Literatura: O Nobel dos EUA
Daniel Kalder
(Originalmente publicado no Publishing Perspectives de 12 de agosto de 2013. Reproduzido com permissão)

O Prêmio Internacional Neustadt de Literatura é provavelmente o prêmio literário de maior prestígio do qual você nunca ouviu falar. Em alguns círculo se referem a ele como “O Nobel Americano” não apenas por conte de sua reputação pela qualidade, mas também porque os jurados, em várias ocasiões, selecionaram um vencedor que logo depois ganhou o ilustre prêmio norueguês. No próximo novembro outro escritor receberá na University of Oklahoma a honraria (mais US$ 50.000 e uma pena de águia em prata que os acompanha), e acrescenta à lista dos potenciais, se não prováveis, vencedores do Nobel. Publishing Perspectives aproveitou a oportunidade para comentar os 44 anos de história do prêmio – e dos candidatos deste ano – com o Dr. Robert Com Davis-Undiano, diretor executivo do World Literature Today, a revista que administra o prêmio. “Os fundadores do prêmio estabeleceram um padrão muito alto”, diz Davis-Undiano, que preside de modo permanente o júri do Neustadt. “Basicamente, os melhores escritores do mundo estão sempre nos júris, e esses escritores indicam seus pares para o prêmio. E como o prêmio opera em um nível incrivelmente alto de reconhecimento e expectativa, não é surpresa que muitos dos jurados e vencedores do Neustad sejam também laureados com o Nobel”.

A lista dos vencedores anteriores do Neustadt que triunfaram em Oslo inclui Gabriel Garcia Márquez, que ganhou o prêmio em 1972, dez anos antes de ganhar o Nobel; Czeslaw Milos, que ganhou em 1978, dois anos antes de ganhar o Nobel; Octavio Paz, que ganhou em 1982, oito anos antes de ganhar o Nobel. Davis-Undiano acredita que os homens e mulheres por trás do Nobel prestam muita atenção ao Neustadt:

“Acredito que a Academia Sueca notou que o processo do prêmio Neustadt peneira entre os melhores e mais importantes escritores do mundo, e os ajuda incomensuravelmente a seguir o que fazemos como um forte indicador do que eles deveriam buscar… houve um ano em que convidaram toda a equipe da World Literature Today para assistir à cerimônia do Nobel, reconhecendo sua dívida para com nosso prêmio”.

No final das contas, entretanto, Davis-Undiano acha que a confluência entre os dois prêmios é lógica:

“Os prêmios Neustadt e o Nobel escolhem seus vencedores dentro do mesmo conjunto dos autores de elite do mundo e, dessa maneira, a sobreposição é inevitável… Acho que verão que a sobreposição dos dois prêmios continuará no futuro.”

OS INDICADOS DE 2013 INCLUEM VÁRIOS “PRIMEIROS”

Os indicados para o Neustadt deste ano incluem uma mistura de nomes, um dos quais provavelmente se tornará mais familiar aos leitores de língua inglesa que outros. Certamente o indicado mais famoso é Haruki Murakami, do Japão, que é indicado pela terceira vez. Outros indicados são: Cesar Aira, escritor/tradutor argentino; Mia Couto, poeta moçambicano e autor; Duong Thu Huong, romancista vietnamita; Edward P. Jones, autor americano; Ilya Kaminsky, poeta nascido na Ucrânia e atualmente residente nos EUA; Chang-era Lee, autor sul-coreano residente nos EUA; Edouard Maunick, poeta da República de Maurício, e Ghassan Zaqtan, poeta, novelista e editor palestino. E entre os indicados há vários primeiros casos: nunca houve escritores de Maurício, Moçambique, Palestina e Ucrânia indicados, e Jones é o primeiro escritor afro-americano.

No entanto, se os críticos do Nobel frequentemente acusam a academia de permitir que critérios não-literários distorçam seu julgamento, Davis-Undiano insiste que não existem nem indicações simbólicas nem políticas, que não desempenham qualquer papel no Neustadt. O único critério para a escolha do vencedor, diz ele, é “mérito literário”.

“Os jurados compreendem isso, e fatores externos, como a necessidade que o autor tem de dinheiro ou o fato de algum autor em particular ter sido perseguido por seu governo, jamais podem ser critérios que influenciem o resultado.”

UM PRÊMIO JULGADO POR PARES DE CLASSE INTERNACIONAL

Instituído por uma doação da família Neustadt, de Ardmore, Oklahoma e Dallas, o regulamento do prêmio realmente estipula que este seja conferido com base exclusivamente no mérito literário. Mas será tão fácil garantir esses ideais? Por exemplo, Haruki Murakami é tão famoso que teoricamente isso poderia inclinar os jurados para qualquer lado: sendo mais familiares com sua obra, poderiam votar nele, ou poderiam rejeitá-lo por esnobação inversa. Davis-Undiano não se preocupa com isso, reforçando a natureza dos jurados escolhidos, todos que fazem as indicações, e que são escritores aclamados por mérito próprio:

“Os jurados provavelmente estariam mais sujeitos ao impacto da reputação do escritor e seu status mundial se fossem principalmente críticos ou resenhistas. No entanto, são sempre escritores que discutem sobre seus pares quando deliberam, provavelmente pessoas que conhecem e com quem talvez tenham colaborado em algum momento. Portanto, como “insiders” do mundo literário, sabem muito mais sobre quem está escrevendo e o que as pessoas escrevem do que as próprias reputações poderiam sugerir. Como tais, os jurados são juízes incrivelmente sofisticados, e tendem a ver cada escritor no contexto amplo do que acontece na literatura mundial.”
E acrescenta Davis-Undiano: “Podem saber que algum escritor em particular é famoso e que sua obra está na moda, mas como sabem muito mais sobre esse escritor do que a fama revela, são “imunizados” no processo decisório por seu alto nível de conhecimento sobre todos os escritores considerados para o prêmio. O fato dos júris serem compostos por escritores profissionais do mais alto nível modula muito do que acontece nesses júris e provavelmente é o segredo pelo qual os prêmios Neustadt tradicionalmente terem sido outorgados a escritores adequados e merecedores.”

COMPARANDO CULTURAS E FORMATOS

A qualidade dos jurados é um fatos ao qual Davis-Undiano volta uma e outra vez. Os organizadores do prêmio escolhem entre sete e dez jurados (“simplesmente escolhemos os melhores escritores do mundo para participar do júri”) e… “tentamos fazer que os jurados estejam balanceados entre o Ocidente, Oriente, Africanos e do Meio-Oriente, etc.”.

Adicionalmente, Davis-Undiano menciona um círculo internacional de “cerca de 800 consultores [que] nos mantêm informados sobre quem atualmente entrou no grupo de escritores a ser observados. Simplesmente dizemos aos jurados que os escritores indicados devem estar vivos e dispostos a vir ao nosso campus para aceitar o prêmio, caso vençam. O processo se torna consideravelmente mais complicado devido ao fato dos jurados poderem escolher poetas, dramaturgos, escritores de ficção e não-ficção. Essencialmente, a disputa para definir o vencedor pode ser entre um poeta concorrendo com um dramaturgo. Os jurados devem ser sofisticados na abordagem para perceber como a poesia de um se coloca diante da peça de outro. Têm uma tarefa difícil a cumprir, mas são escritores profissionais e capacitados para a tarefa”.

Consciente da história ilustre do Neustadt, David-Undiano salienta a dedicação intensa dos jurados:

“São prêmios literários que moldam a história literária, de modo que jamais queremos que os jurados decidam muito rapidamente ou tomem atalhos em sua deliberação. A outra constante desse processo é a atenção séria e a dedicação dos jurados para com as decisões tomadas. O nível de concordância dos jurados é sempre impressionante e, para mim, muito comovedor. Depois que cada júri termina seu trabalho, eu saio do processo admirando o que os jurados passaram para escolher um vencedor, e especialmente a sabedoria da decisão deles.”

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2 comentários em “O Prêmio Internacional Neustadt de Literatura: O Nobel dos EUA”

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