Falências e concordatas no mercado editorial


A notícia de que a Houghton Mifflin Harcourt entrou com um pedido de concordata preventiva (que pode virar falência) é mais um ato (talvez o final), de uma história importante do mundo editorial dos EUA.

A Houghton Mifflin traça suas origens em 1832, quando William Ticknor e James Fields fundiram seus respectivos empreendimentos para fundar uma nova editora, a Ticknor & Fields. Por volta de meados do século XIX essa editora já havia publicado alguns dos mais renomados nomes da literatura americana, como Longfellow, Emerson, Nathaniel Hawthorne, Harriet Beecher Stowe, Mark Twain e Henry Thoreau. Em 1880 essa editora se fundiu com a The Riverside Press, uma impressora de propriedade de Henry Houghton e George Mifflin, daí resultando a Houghton, Mifflin & Co. A nova editora acrescentou em seu catálogo nomes como Willa Cather, Carson McCullers, Philip Roth, Paul Theroux, Robert Stone e Jonathan Safran Foer.

Em dezembro de 2007 a empresa adquiriu a Harcourt Education, empresa que também possuía uma impressionante história na edição literária dos EUA, inclusive como responsável pela tradução de notáveis autores em um mercado não afeito a escritores estrangeiros. A Harcourt publicou, entre americanos e estrangeiros, Sinclair Lewis, Virginia Woolf, George Orwell, C. S. Lewis, Antoine de Saint-Exupéry, Robert Lowell, T. S. Elliot, Günther Grass, Hannah Arendt, Umberto Eco, Italo Calvino, Octavio Paz e José Saramago. Nessa época a editora já era parte da Reed Elsevier, que havia comprado a antiga Harcourt, Brace, Jovanovich.

Esse processo de concentração vem se verificando já há muito no mercado editorial norte-americano, com consequências muitas vezes desastrosas. Como já assinalou André Schiffrin em seu The Business of Books, a incorporação das editoras pelos grandes conglomerados de mídia trouxe consigo consequências desastrosas para o mundo editorial. A exigência de lucratividade título a título faz perder a visão de conjunto do processo editorial, diminui a diversidade da oferta bibliográfica e empobrece a cultura. E quando os conglomerados editoriais deixam de oferecer as margens de lucro impostas pelas companhias-mães (ou madrastas), são jogadas ao léu e se inicia um novo processo de fragmentação.

Evidentemente os grandes nomes publicados pela empresa não ficarão sem casa, mas qual será o resultado final da reestruturação financeira proposta para a publicação de novos autores é uma incógnita.

É mais um belo capítulo da editoração como aventura intelectual que se encerra nos EUA. Processo que, infelizmente, está se repetindo pelo mundo afora.

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