{"id":940,"date":"2012-04-05T11:53:06","date_gmt":"2012-04-05T14:53:06","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=940"},"modified":"2012-04-05T11:53:07","modified_gmt":"2012-04-05T14:53:07","slug":"como-a-politica-e-as-condicoes-sociais-podem-atrapalhar-a-viagem-de-uma-obra","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=940","title":{"rendered":"Como a pol\u00edtica e as condi\u00e7\u00f5es sociais podem atrapalhar a \u201cviagem\u201d de uma obra"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?attachment_id=941\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Foxisdoproblema.com.br%2F%3Fattachment_id%3D941','peregrina%C3%A7%C3%A3o+copia+bnp')\" rel=\"attachment wp-att-941\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/peregrina\u00e7\u00e3o-copia-bnp-208x300.jpg\" alt=\"\" title=\"peregrina\u00e7\u00e3o copia bnp\" width=\"208\" height=\"300\" class=\"alignleft size-medium wp-image-941\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/peregrina\u00e7\u00e3o-copia-bnp-208x300.jpg 208w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/peregrina\u00e7\u00e3o-copia-bnp.jpg 477w\" sizes=\"(max-width: 208px) 100vw, 208px\" \/><\/a> <a href=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?attachment_id=942\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Foxisdoproblema.com.br%2F%3Fattachment_id%3D942','pregrina%C3%A7%C3%A3o+folha+de+rosto+bnp')\" rel=\"attachment wp-att-942\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/pregrina\u00e7\u00e3o-folha-de-rosto-bnp-202x300.jpg\" alt=\"\" title=\"pregrina\u00e7\u00e3o folha de rosto bnp\" width=\"202\" height=\"300\" class=\"alignright size-medium wp-image-942\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/pregrina\u00e7\u00e3o-folha-de-rosto-bnp-202x300.jpg 202w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/pregrina\u00e7\u00e3o-folha-de-rosto-bnp.jpg 478w\" sizes=\"(max-width: 202px) 100vw, 202px\" \/><\/a><\/p>\n<p>No post Sem editores o livro n\u00e3o vive, sem tradutores, n\u00e3o viaja tentei mostrar como a vida editorial de uma obra \u00e9 fundamental para seu reconhecimento e sua transforma\u00e7\u00e3o em um \u201ccl\u00e1ssico\u201d.<\/p>\n<p>Quero aproveitar a oportunidade para fazer uma \u201cdemonstra\u00e7\u00e3o reversa\u201d: o exemplo de um livro que teria tudo para se tornar um cl\u00e1ssico compar\u00e1vel ao de Cervantes, e important\u00edssimo para a consolida\u00e7\u00e3o do portugu\u00eas como idioma liter\u00e1rio, e que perdeu essa oportunidade por conta de circunst\u00e2ncias pol\u00edticas que se refletiram sobre seu destino editorial.<\/p>\n<p>Trata-se da <strong>Peregrina\u00e7\u00e3o<\/strong>, de Fern\u00e3o Mendes Pinto, relato das aventuras que esse portugu\u00eas passou pela \u00c1sia e Oceania durante d\u00e9cadas, e onde apresenta uma vis\u00e3o \u201cpor dentro\u201d do ciclo das navega\u00e7\u00f5es: pilhagens, portugueses escravizando portugueses e roubando uns aos outros, extrema viol\u00eancia e cobi\u00e7a e outras p\u00e9rolas do g\u00eanero.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nO livro foi publicado pela primeira vez em Portugal em 1614, depois do autor j\u00e1 ter morrido havia 31 anos. <\/p>\n<p>As circunst\u00e2ncias pol\u00edticas que menciono s\u00e3o as seguintes:<\/p>\n<p>1 \u2013 Os Lus\u00edadas, publicado em 1572, \u00e9 um paneg\u00edrico das navega\u00e7\u00f5es lusitanas. Em 1580 Portugal passa a ser governado por Filipe II da Espanha, e a obra camoniana assume cada vez mais o papel de sustent\u00e1culo ideol\u00f3gico do nacionalismo portugu\u00eas;<\/p>\n<p>2 \u2013 Fern\u00e3o Mendes Pinto escreveu a Peregrina\u00e7\u00e3o entre 1569 e 1578, e recebeu uma ten\u00e7a (pens\u00e3o) do soberano espanhol que governava Portugal. Al\u00e9m do mais, vinculou-se, no fim da vida, aos jesu\u00edtas, o que o colocava sob suspeita para uma boa parte do resto do clero e da nobreza portuguesas. A Ordem de Jesus sempre foi pol\u00eamica e controversa.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria das edi\u00e7\u00f5es da Peregrina\u00e7\u00e3o \u00e9 significativa disso. Teve um sucesso inicial fulgurante (dezenove edi\u00e7\u00f5es em seis l\u00ednguas), logo depois entrou em um limbo editorial. Edi\u00e7\u00f5es esparsas, geralmente reprodu\u00e7\u00f5es da edi\u00e7\u00e3o de 1614. Somente em 1908-1909 aparece uma \u201cedi\u00e7\u00e3o popular\u201d em Lisboa e, at\u00e9 a restaura\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica em Portugal, h\u00e1 not\u00edcias, no s\u00e9culo XX, de apenas cinco edi\u00e7\u00f5es (al\u00e9m da mencionada popular), tr\u00eas das quais reproduzindo o original, sem tratamento cr\u00edtico. Ou seja, s\u00f3 para eruditos. Apenas a quinta edi\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XX, de 1961, preparada por Ant\u00f4nio Jos\u00e9 Saraiva, traduz um esfor\u00e7o para tornar Fern\u00e3o Mendes Pinto acess\u00edvel ao leitor moderno (cf. \u201cPref\u00e1cio\u201d de A. J. Saraiva, op. cit. pg. XLVI e sgs.). A edi\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas atual preparada pela escritora Maria Alberta Men\u00e9res, foi lan\u00e7ada em 1971, nos estertores do salazarismo. <\/p>\n<p>Tudo o contr\u00e1rio dos <strong>Lus\u00edadas<\/strong> e obviamente tamb\u00e9m do <strong>Dom Quixote<\/strong> de Cervantes. <\/p>\n<p>Para muita gente mais capacitada que eu, a <strong>Peregrina\u00e7\u00e3o<\/strong> \u00e9 um marco important\u00edssimo na consolida\u00e7\u00e3o do portugu\u00eas como forma liter\u00e1ria em prosa. No entanto, at\u00e9 hoje \u00e9 um personagem semiclandestino na literatura portuguesa, e s\u00f3 foi editado pela primeira vez no Brasil em 2005.<\/p>\n<p>Tive o enorme prazer e a honra de ser o editor da <strong>Peregrina\u00e7\u00e3o<\/strong> no Brasil. Passei mais de vinte anos tentando fazer isso, desde que era s\u00f3cio da falecida Marco Zero. Somente em 2005 a Nova Fronteira, ent\u00e3o ainda sob a dire\u00e7\u00e3o de Carlos Augusto Lacerda, topou a parada, gra\u00e7as tamb\u00e9m a um incentivo do programa de apoio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o de autores portugueses do Instituto Portugu\u00eas do Livro e das Bibliotecas. A edi\u00e7\u00e3o, em dois volumes, era a reprodu\u00e7\u00e3o, com notas adicionais e ortografia atualizada, da preparada pela prof. Maria Alberta M\u00e9neres, em dois volumes. O professor Arno Wehling escreveu uma introdu\u00e7\u00e3o e eu, que fui o respons\u00e1vel final da edi\u00e7\u00e3o, escrevi tamb\u00e9m uma apresenta\u00e7\u00e3o, da qual reproduzo abaixo v\u00e1rios trechos nos quais dou uma vers\u00e3o explicativa de sua trajet\u00f3ria editorial. O livro continua no cat\u00e1logo da Nova Fronteira.<\/p>\n<p>Vamos l\u00e1 ver de perto o destino do Fern\u00e3o e de sua obra.<br \/>\n<em>&#8230;..<br \/>\n[Fern\u00e3o Mendes Pinto]abre seu livro queixando-se, \u201cda ventura que parece que tomou por particular ten\u00e7\u00e3o e empresa sua perseguir-me e maltratar-me, como se isso lhe houvera de ser mat\u00e9ria de grande nome e de grande gl\u00f3ria; porque vejo que, n\u00e3o contente de me por na minha P\u00e1tria logo no come\u00e7o da minha mocidade, em tal estado que nela vivi sempre em mis\u00e9rias e em pobreza, e n\u00e3o sem alguns sobressaltos e perigos de vida, me quis tamb\u00e9m levar \u00e0s partes da \u00cdndia, onde em lugar do rem\u00e9dio que eu ia buscar a elas, me foram crescendo com a idade os trabalhos e os perigos\u201d.<\/p>\n<p>Fern\u00e3o Mendes Pinto foi buscar o rem\u00e9dio, mas o que apresentou a seus leitores foi a brutal descri\u00e7\u00e3o das barbaridades cometidas entre os pr\u00f3prios portugueses e para com as popula\u00e7\u00f5es asi\u00e1ticas, que certamente n\u00e3o se encaixava com a vis\u00e3o heroica que se aprestava para ser constru\u00edda precisamente naquele momento, quando o dom\u00ednio portugu\u00eas come\u00e7ava a mostrar seus sinais de esgotamento como a\u00e7\u00e3o estatal organizada, e passava a existir quase apenas como suporte para a a\u00e7\u00e3o dos mercadores \u2013 leg\u00edtimos e piratas \u2013 que assumiam o comando da presen\u00e7a portuguesa na \u00c1sia. Efetivamente, Ant\u00f4nio de Farias, o personagem de boa parte da Peregrina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o cabia no molde do her\u00f3i camoniano nem se encaixava na est\u00e1tua do Vasco da Gama erigida pelo seu tetraneto na casa da C\u00e2mara de Goa.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, a\u00ed pelo come\u00e7o dos anos oitenta, uma companhia de teatro popular portuguesa, \u201cA Barraca\u201d, apresentou no teatro Glauce Rocha v\u00e1rias montagens de pe\u00e7as portuguesas contempor\u00e2neas. Entre elas, uma curiosa e divertida <strong>Peregrina\u00e7\u00e3o<\/strong> que, para mim, apresentava pela primeira vez o paralelo de vida e obra entre o galego (Cam\u00f5es) e o alentejano (Fern\u00e3o).<\/p>\n<p>S\u00e3o contempor\u00e2neos quase perfeitos. N\u00e3o h\u00e1 data certa do nascimento de Fern\u00e3o Mendes Pinto, embora se calcule tenha sido 1510. Seria, ent\u00e3o, 14 anos mais velho que Cam\u00f5es, nascido em 1524.<\/p>\n<p>Fern\u00e3o Mendes Pinto passa vinte e um anos continuados na \u00c1sia, entre 1537 e 1558. Cam\u00f5es divide sua experi\u00eancia asi\u00e1tica\/africana em duas etapas (1549\/1551 e 1553\/1570). Mas este se inscreve totalmente na estrutura portuguesa oficial, na ventura e na mis\u00e9ria. Fern\u00e3o Mendes Pinto, por sua vez, embora embarque inicialmente numa frota oficial, oscila permanentemente entre fun\u00e7\u00f5es oficiais e extraoficiais e o com\u00e9rcio (leg\u00edtimo e cors\u00e1rio) privado. \u201cEra em 1654 um traficante que ganhara muitas riquezas navegando entre o Jap\u00e3o, a China e o Peg\u00fa, durante longos anos\u201d, relata Ant\u00f4nio Jos\u00e9 Saraiva, citando correspond\u00eancias dos jesu\u00edtas, aos quais o \u201ctraficante\u201d tinha se ligado naquele ano, financiando uma miss\u00e3o destes ao Jap\u00e3o e a constru\u00e7\u00e3o de pelo menos uma igreja em Malaca. <\/p>\n<p>Cam\u00f5es regressa definitivamente a Portugal em 1570 e dois anos depois publica seu poema \u00e9pico. Fern\u00e3o Mendes Pinto, j\u00e1 h\u00e1 muitos anos retornado, s\u00f3 ter\u00e1 seu livro publicado em 1614, trinta e um anos depois da sua morte, acontecida em 1583, tr\u00eas anos ap\u00f3s a de Cam\u00f5es. Tinha, antes de morrer, recebido uma ten\u00e7a de Felipe II, o espanhol que ent\u00e3o ocupava tamb\u00e9m o trono portugu\u00eas.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata, aqui, nem mesmo de fazer resumo das biografias dos dois literatos. Pretendo apenas assinalar alguns marcos que permitem situar o ambiente social e pol\u00edtico da trajet\u00f3ria dos dois, para adiante consider\u00e1-los em fun\u00e7\u00e3o da aprecia\u00e7\u00e3o dos p\u00f3steros sobre as respectivas obras.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio, entretanto, acrescentar mais um personagem nessa hist\u00f3ria. Dom Miguel de Cervantes, um pouco mais novo que os dois portugueses (nasceu em 1547), e que publicou seu Quixote em 1605. Morreu onze anos depois, em 1616.<\/p>\n<p>(Curioso notar que os tr\u00eas literatos foram tamb\u00e9m soldados e aventureiros, prisioneiros e feridos \u2013 Cam\u00f5es cego, Cervantes maneta e Fern\u00e3o Mendes Pinto a\u00e7oitado e escravizado v\u00e1rias vezes \u2013 dando azo \u00e0 confirma\u00e7\u00e3o do mote renascentista: naquela \u00e9poca os homens tinham que fazer de tudo e saber de tudo, nada de especialistas).<\/p>\n<p>Cervantes assume na literatura em castelhano o papel de grande fundador. Tal como se estabeleceu que seria o papel de Cam\u00f5es para o portugu\u00eas. Ora, poderia perguntar mais tarde o Conselheiro Ac\u00e1cio, se FMP escrevia em prosa, como Cervantes, porque o alentejano n\u00e3o assume o mesmo papel nas letras lusas?<\/p>\n<p>Diz Ant\u00f4nio Jos\u00e9 Saraiva: \u201cO Autor da <strong>Peregrina\u00e7\u00e3o<\/strong> e a sua obra confundem-se \u00e0 primeira vista: Fern\u00e3o Mendes Pinto \u00e9 para n\u00f3s o her\u00f3i da <strong>Peregrina\u00e7\u00e3o<\/strong>. Mas n\u00e3o deve esquecer-se que o Fern\u00e3o Mendes da <strong>Peregrina\u00e7\u00e3o<\/strong> \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria do Autor do livro. Se n\u00e3o houvesse documentos a autenticar a exist\u00eancia de Fern\u00e3o Mendes Pinto nada nos garantiria que este n\u00e3o fosse uma pura personagem de romance, como o <strong>Guzm\u00e1n de Alfarache<\/strong> de Mateo Alem\u00e1n\u201d.<\/p>\n<p>A\u00ed est\u00e1, na minha opini\u00e3o, a chave da quest\u00e3o. Cervantes n\u00e3o tem medidas e liquida o fabul\u00e1rio medieval com personagens declaradamente ficcionais. Fern\u00e3o Mendes Pinto torna-se ele mesmo personagem de um texto que oscila entre o relato autobiogr\u00e1fico e a mais pura inven\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Fern\u00e3o Mentes? Minto!<\/p>\n<p>E, para o Portugal subjugado pelos Habsburgos, mente sobretudo naquilo que era mais caro e fundador do nacionalismo portugu\u00eas: a conquista da \u00c1sia n\u00e3o foi simplesmente um feito heroico, a hipocrisia da miss\u00e3o religiosa transparece quase que a cada p\u00e1gina da <strong>Peregrina\u00e7\u00e3o<\/strong> e Ant\u00f4nio de Faria, o personagem de maior destaque de quase metade do livro certamente n\u00e3o foi feito nos moldes heroicos de Vasco da Gama.<\/p>\n<p>Essa oscila\u00e7\u00e3o parte, certamente, do fato de que grande parte do livro se baseia efetivamente no relato de uma vida. Novamente Ant\u00f4nio Jos\u00e9 Saraiva assinala que a <strong>Peregrina\u00e7\u00e3o<\/strong> constitui \u201cuma das primeiras informa\u00e7\u00f5es de conjunto acerca do Extremo Oriente \u2013 com o atrativo especial de ser uma informa\u00e7\u00e3o em forma romanesca e sugestiva para os esp\u00edritos pouco dados a leituras \u00e1ridas\u201d.<\/p>\n<p>Compreender essa oscila\u00e7\u00e3o \u00e9 crucial para o desfrute dos leitores de hoje e ajuda a explicar os fados do livro.<\/p>\n<p>\u00c9 relato de fatos ver\u00eddicos? Certamente. A grande maioria dos fatos descritos, as indica\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas, da fauna e da flora mencionadas j\u00e1 foram conferidas por historiadores.<\/p>\n<p>\u00c9 mentira? Certamente. Al\u00e9m de exageros e imprecis\u00f5es, v\u00e1rios cr\u00edticos assinalam relatos fant\u00e1sticos inseridos no texto. Aqui, entretanto, cabe desde logo uma observa\u00e7\u00e3o. O relato renascentista n\u00e3o distinguia o visto pessoalmente pelo autor do que lhe fora dito por terceiros ou lido alhures. E certamente Fern\u00e3o Mendes Pinto n\u00e3o vai diferenciar v\u00e1rios mitos que lhe s\u00e3o relatados \u2013 e que s\u00e3o claramente mitos de origem ou de explica\u00e7\u00e3o de posturas religiosas \u2013 como se fosse um moderno antrop\u00f3logo. Essa indiferencia\u00e7\u00e3o \u00e9 muito comum na literatura da \u00e9poca. Carlo Ginzburg, no seu ensaio <strong>O Queijo e os Vermes<\/strong> cita o exemplo do <strong>Il Cavalier Zuanne de Mandavilla<\/strong>, livro apreendido na biblioteca do moleiro acusado de heresia pela inquisi\u00e7\u00e3o, como \u201co famoso livro de viagem, escrito em meados do s\u00e9culo XVI e atribu\u00eddo a um fantasmag\u00f3rico sir John Mandeville\u201d. Uma mostra galhofeira disto nos \u00e9 dada por Umberto Eco no seu romance <strong>Baudolino<\/strong>. Em pleno Renascimento, a distin\u00e7\u00e3o entre o \u201creal\u201d e o imagin\u00e1rio naquela sociedade fortemente marcada pela cren\u00e7a no relato fant\u00e1stico do Deus que nasce de uma virgem fecundada por um anjo, n\u00e3o era f\u00e1cil de ser feita.<\/p>\n<p>Entretanto, essa oscila\u00e7\u00e3o entre o relato factual e a cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria que est\u00e1 presente na <strong>Peregrina\u00e7\u00e3o<\/strong> termina por abrir o espa\u00e7o para que o livro entre numa esp\u00e9cie de limbo: \u00e9 lido e admirado pelos especialistas, mas jamais teve a divulga\u00e7\u00e3o que merecia. E muito menos se promove junto ao grande p\u00fablico a import\u00e2ncia do livro para a consolida\u00e7\u00e3o do portugu\u00eas como idioma liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00c9 esse espa\u00e7o que torna poss\u00edvel, e no ambiente de decad\u00eancia do poderio mar\u00edtimo e imperial de Portugal, at\u00e9 necess\u00e1rio, que se promova a oculta\u00e7\u00e3o da <strong>Peregrina\u00e7\u00e3o<\/strong>. Ou algu\u00e9m seria ing\u00eanuo de pensar ser poss\u00edvel que o reinado decadente do s\u00e9culo XIX e a rep\u00fablica claudicante do s\u00e9culo XX se orgulhasse da obra de Fern\u00e3o Mendes Pinto? Isso para n\u00e3o mencionar a ilus\u00e3o salazarista do Portugal \u201cavozinho\u201d das col\u00f4nias, vendendo aqui no Brasil o papel \u201ccivilizat\u00f3rio\u201d do dom\u00ednio portugu\u00eas. <\/p>\n<p>Para todos, quanto menos se falasse da <strong>Peregrina\u00e7\u00e3o<\/strong> e mais se louvasse <strong>Os Lus\u00edadas<\/strong>, melhor.<\/p>\n<p>Ao fim e ao cabo, tanto Fern\u00e3o Mendes Pinto quanto Cam\u00f5es pagaram o pato. O primeiro, oculto, e o segundo transformado numa verdadeira tortura nas aulas de gram\u00e1tica nos dois lados do Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p>A estrutura da <strong>Peregrina\u00e7\u00e3o<\/strong> como s\u00e1tira \u2013 e dentro do g\u00eanero de romance picaresco que teve seu auge no Siglo de Oro da literatura da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica \u2013 \u00e9 reconhecido amplamente pelos especialistas. Sempre, por\u00e9m, notando-se essa ambiguidade de g\u00eanero que transparece na obra.<\/p>\n<p>O conte\u00fado acerbamente cr\u00edtico do livro, por exemplo, \u00e9 assinalado por Rebecca Catz: \u201cS\u00f3 ele, no desabrochar da era do imperialismo europeu, teve a grande coragem, o discernimento e a perspic\u00e1cia de p\u00f4r em d\u00favida a moralidade das conquistas ultramarinas, as quais condena como atos de b\u00e1rbara pirataria, em ofensa a Deus. (&#8230;) Na filosofia de Mendes Pinto, a miss\u00e3o de conquistar era inspirada pela cobi\u00e7a e mascarada pela hipocrisia; e a miss\u00e3o de converter estava condenada desde o come\u00e7o porque os Portugueses tiveram plena consci\u00eancia de que pecavam contra Deus, violando os seus mandamentos. (&#8230;) O maior santo cat\u00f3lico do seu tempo, Francisco Xavier, \u00e9 obliquamente apresentado na obra como um sacerdote-guerreiro que instiga os homens ao combate. O retrato de Francisco Xavier contrasta com o dos sacerdotes pag\u00e3os, aos quais \u00e9 proibido trazer \u2018qualquer coisa que tire sangue\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio Jos\u00e9 Saraiva sintetiza magistralmente o cul-de-sac em que meteram Fern\u00e3o Mendes Pinto na hist\u00f3ria da literatura em l\u00edngua portuguesa, no seu Pref\u00e1cio: \u201cHoje em dia Fern\u00e3o Mendes Pinto pode considerar-se um desconhecido. N\u00e3o s\u00f3 porque a <strong>Peregrina\u00e7\u00e3o<\/strong> deixou de ser lida fora de Portugal, mas porque os leitores portugueses nem sempre se d\u00e3o conta do rico conte\u00fado que o livro encerra. Os eruditos continuam a discutir o problema da veracidade ou autenticidade da informa\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica da <strong>Peregrina\u00e7\u00e3o<\/strong>. Uns batem-se a favor, outros contra. E esquecem o essencial: que a <strong>Peregrina\u00e7\u00e3o<\/strong> \u00e9, antes de mais, uma obra de arte de grande classe, uma das maiores cria\u00e7\u00f5es romanescas sa\u00eddas da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica. \u00c9 como obra de arte ou, mais precisamente, como express\u00e3o de uma consci\u00eancia e de uma realidade atrav\u00e9s da fic\u00e7\u00e3o, que me parece que importa consider\u00e1-la, marcando o seu lugar e o seu significado dentro da hist\u00f3ria do romance na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica e dentro da hist\u00f3ria das ideias na literatura europeia\u201d.<\/p>\n<p>A publica\u00e7\u00e3o da <strong>Peregrina\u00e7\u00e3o<\/strong> no Brasil assume, assim, a import\u00e2ncia singular de apresentar ao nosso p\u00fablico uma das obras capitais da forma\u00e7\u00e3o do nosso idioma como l\u00edngua liter\u00e1ria, at\u00e9 agora in\u00e9dita nas nossas praias. Somos tamb\u00e9m herdeiros do caldo de cultura e desenvolvimento social que lan\u00e7ou aquele pequeno povo da f\u00edmbria atl\u00e2ntica da Europa na conquista dos mares nunca dantes navegados, e n\u00e3o pod\u00edamos mais ser c\u00famplices na oculta\u00e7\u00e3o desta pe\u00e7a vital do que \u00e9 tamb\u00e9m a nossa forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de Cam\u00f5es e de Cervantes, a obra de Fern\u00e3o Mendes Pinto n\u00e3o caminhou pelas Am\u00e9ricas, e perdeu aqui tamb\u00e9m a oportunidade de crescer com sua leitura, como diz um velho ad\u00e1gio.<\/p>\n<p>Ler o livro vale a pena, pois certamente n\u00e3o \u00e9 pequena a alma do autor.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n<p>Saraiva, Ant\u00f4nio Jos\u00e9, \u201cPref\u00e1cio\u201d, \u00e0 Peregrina\u00e7\u00e3o, de FMP, Livraria S\u00e1 da Costa, Lisboa, 1961, p. VII e sgs.<br \/>\nGinzburg, Carlo, O Queijo e os Vermes, Companhia das Letras, SP, 1987.<br \/>\nCatz, Rebecca, \u201cPara uma compreens\u00e3o da Peregrina\u00e7\u00e3o\u201d, in Peregrina\u00e7\u00e3o, (edi\u00e7\u00e3o de Maria Alberta Men\u00e9res), Ed. Afrodite, Lisboa, 1989.<\/p>\n<p><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No post Sem editores o livro n\u00e3o vive, sem tradutores, n\u00e3o viaja tentei mostrar como a vida editorial de uma obra \u00e9 fundamental para seu reconhecimento e sua transforma\u00e7\u00e3o em um \u201ccl\u00e1ssico\u201d. 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