{"id":917,"date":"2012-03-27T15:13:48","date_gmt":"2012-03-27T18:13:48","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=917"},"modified":"2012-03-27T15:13:48","modified_gmt":"2012-03-27T18:13:48","slug":"a-projecao-da-cultura-em-um-pequeno-pais","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=917","title":{"rendered":"A proje\u00e7\u00e3o da cultura em um pequeno pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<p>Ram\u00f3n Villares \u00e9 o presidente do Consello da Cultura Galega e esteve em S. Paulo esta semana como parte de suas atividades de difus\u00e3o da cultura da Galiza. Est\u00e1 empenhado em que o Museu da L\u00edngua Portuguesa aumente o espa\u00e7o dedicado ao galego na forma\u00e7\u00e3o do nosso idioma. De fato, h\u00e1 quem defenda que o galego \u00e9 t\u00e3o somente uma variante do portugu\u00eas, assim como o de Portugal e o do Brasil. A posi\u00e7\u00e3o oficial do governo espanhol e da Comunidade Aut\u00f3noma da Galiza, entretanto, \u00e9 a de que o idioma tem caracter\u00edsticas pr\u00f3prias e se diferencia do portugu\u00eas, muito embora os dois descendam diretamente do galaico-portugu\u00eas medieval.<\/p>\n<p>Ram\u00f3n Villares se refere \u00e0 Galiza como \u201cum pequeno pa\u00eds\u201d. Para n\u00f3s, brasileiros, onde as diferen\u00e7as regionais n\u00e3o alcan\u00e7am essa dimens\u00e3o, essa afirma\u00e7\u00e3o soa um tanto estranha. Quem conhece a Espanha, entretanto, sabe perfeitamente que as quatro \u201cautonomias\u201d nas quais existe a forte presen\u00e7a de idiomas pr\u00f3prios \u2013 Catalunha, Valen\u00e7a, Pa\u00eds Basco e Galiza \u2013 que essa \u00e9 uma quest\u00e3o que toca fundo e implica em discuss\u00f5es sobre o que \u00e9 ser \u201cespanhol\u201d.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nEssas quatro comunidades aut\u00f4nomas enfrentam quest\u00f5es que \u00e0s vezes assumem dimens\u00f5es bem problem\u00e1ticas. O Pa\u00eds Basco j\u00e1 viveu momentos de muita tens\u00e3o e viol\u00eancia diante da a\u00e7\u00e3o de grupos nacionalistas que defendem a independ\u00eancia total da regi\u00e3o. Nas outras, os problemas de car\u00e1ter pol\u00edtico n\u00e3o assumem essa dimens\u00e3o, mas as quest\u00f5es culturais est\u00e3o sempre presentes. O centralismo madrilenho \u00e9 um ponto focal de disputas, j\u00e1 que a hist\u00f3ria mostra as repetidas tentativas do poder estatal central de reprimir as manifesta\u00e7\u00f5es culturais dessas regi\u00f5es como parte do exerc\u00edcio de controle pol\u00edtico. O \u00e1pice dessa pol\u00edtica se deu durante a ditadura franquista, que chegou a obrigar a troca de nomes pr\u00f3prios e o uso da l\u00edngua local em p\u00fablico.<\/p>\n<p>As rea\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito da cultura, al\u00e9m da pol\u00edtica, se desenvolveram rapidamente depois do processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o. Na Catalunha, por exemplo, o sistema escolar s\u00f3 passa a ensinar o castelhano \u2013 aquele idioma que n\u00f3s chamamos genericamente de espanhol \u2013 a partir de um certo ano do ensino b\u00e1sico, e como \u201cidioma estrangeiro\u201d. O que chega a causar problemas para a ind\u00fastria editorial barcelonesa, que responde por um ter\u00e7o da produ\u00e7\u00e3o editorial espanhola: j\u00e1 se sente a falta de revisores e redatores com um dom\u00ednio cabal do castelhano.<\/p>\n<p>Das quatro \u201cautonomias\u201d, a Galiza \u00e9 que tem a menor popula\u00e7\u00e3o (cerca de tr\u00eas milh\u00f5es de habitantes) e o menor poderio econ\u00f4mico, principalmente diante dos catal\u00e3es e bascos.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o impede que ela desenvolva pol\u00edticas culturais bem ativas, e que enfrentem seus problemas e ofere\u00e7am solu\u00e7\u00f5es que s\u00e3o interessantes tamb\u00e9m para n\u00f3s, brasileiros.<\/p>\n<p>At\u00e9 a poucos anos, muito da pol\u00edtica cultural galega se manifestava atrav\u00e9s dos subs\u00eddios para os produtores culturais: dinheiro para editoras publicarem livros em galego, subven\u00e7\u00f5es para artistas, escritores, etc. Essa perspectiva vem sendo questionada.<\/p>\n<p>O <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/www.consellodacultura.org\/paxina.php?id=537');\"  href=\"http:\/\/www.consellodacultura.org\/paxina.php?id=537\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Fwww.consellodacultura.org%2Fpaxina.php%3Fid%3D537','Consello+da+Cultura+Galega')\" target=\"_blank\">Consello da Cultura Galega<\/a>, apesar de ter sua exist\u00eancia sancionada pelo Estatuto da Autonomia, n\u00e3o \u00e9 parte da estrutura pol\u00edtica. Est\u00e1 composto por representantes corporativos \u2013 universidades, associa\u00e7\u00f5es profissionais, institui\u00e7\u00f5es culturais, etc. \u2013 que indicam representantes para sua composi\u00e7\u00e3o. Apenas uma parte dos membros do Consello s\u00e3o eleitos \u2013 e indiretamente \u2013 pelo plen\u00e1rio. O Consello tem capacidade de assessoramento e de propor medidas legislativas e administrativas, mas sua miss\u00e3o principal \u00e9 a de \u201cdefesa e promo\u00e7\u00e3o dos valores culturais do povo galego\u201d.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a de rumo que est\u00e1 sendo proposta para a pol\u00edtica cultural da Galiza tem dois componentes. O primeiro \u00e9 o direcionamento do investimento para a demanda e consumo dos produtos culturais, diminuindo o investimento na oferta. Assim, destinar mais recursos para o fomento \u00e0 leitura, para os livreiros e para as bibliotecas e menos para as editoras. O segundo vetor \u00e9 a melhoria dos m\u00e9todos de governan\u00e7a. Ram\u00f3n Villares caracterizou como \u201cdiscricion\u00e1rios\u201d os processos de atribui\u00e7\u00e3o de recursos. Ou seja, em bom galaico-portugu\u00eas, \u201co dinheiro \u00e9 para os amigos\u201d. Villares defende a import\u00e2ncia de que sejam estabelecidos crit\u00e9rios objetivos e prioridades definidas para a distribui\u00e7\u00e3o dos recursos, que ali\u00e1s ficaram muito mais escassos com a crise econ\u00f4mica europeia, que se abate com particular viol\u00eancia na Espanha.<\/p>\n<p>Ram\u00f3n Villares manifesta uma admira\u00e7\u00e3o muito grande pelo sistema de incentivos fiscais do Brasil. Segundo ele, de fora pode-se notar que, apesar de parte dos recursos serem provenientes de incentivos fiscais, \u00e9 evidente um maior engajamento do setor privado na oferta de equipamentos culturais e programas relacionados com a cultura. <\/p>\n<p>O Consello mant\u00e9m um programa de documenta\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a galega na imigra\u00e7\u00e3o. Existe um programa de digitaliza\u00e7\u00e3o de documentos, depoimentos, dados geneal\u00f3gicos, etc., entre os descendentes dos imigrantes galegos, particularmente os que vieram para a Am\u00e9rica. Cuba, por exemplo, foi recipiente de uma forte corrente de imigra\u00e7\u00e3o galega.<\/p>\n<p>Por\u00e9m o que mais me surpreendeu entre as informa\u00e7\u00f5es do professor Ram\u00f3n Villares foi a de que, at\u00e9 agora, a Galiza mant\u00e9m mais de quarenta \u201cleitores\u201d \u2013 professores de cultura galega \u2013 em universidades das outras regi\u00f5es da Espanha e em v\u00e1rios outros pa\u00edses. Na perspectiva do \u201cpequeno pa\u00eds\u201d, a a\u00e7\u00e3o na Espanha \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o no estrangeiro.<\/p>\n<p>Esse n\u00famero deve se reduzir no final dos conv\u00eanios vigentes com as universidades, diante da crise econ\u00f4mica, mas deve ficar na casa dos trinta \u201cleitores\u201d.<\/p>\n<p>Amigos, isso \u00e9 feito por um \u201cpequeno pa\u00eds\u201d que tem cerca de tr\u00eas milh\u00f5es de habitantes&#8230;<\/p>\n<p>O contraste desse esfor\u00e7o de valoriza\u00e7\u00e3o da cultura galega com o que se faz no Brasil \u00e9 abissal. O Brasil simplesmente n\u00e3o tem um programa sistem\u00e1tico de estabelecimento de \u201cleitorados\u201d e c\u00e1tedras de cultura brasileira ou do ensino de portugu\u00eas. <\/p>\n<p>Recentemente o Minist\u00e9rio da Cultura, atrav\u00e9s da Funda\u00e7\u00e3o Biblioteca Nacional, dinamizou o programa de bolsas para tradu\u00e7\u00e3o. Iniciativa louv\u00e1vel e da maior import\u00e2ncia. Mas absolutamente insuficiente e em completo descompasso com as iniciativas diplom\u00e1ticas e econ\u00f4micas que o pa\u00eds assumiu nos \u00faltimos anos. O Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e o Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia e Tecnologia est\u00e3o preocupados em mandar um n\u00famero maior de estudantes brasileiros para o exterior, com bolsas de forma\u00e7\u00e3o em v\u00e1rios n\u00edveis. <\/p>\n<p>Muito bem.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, por\u00e9m, foi reduzido o n\u00famero de Centros de Estudos Brasileiros, fechados em v\u00e1rias capitais estrangeiras e, como j\u00e1 assinalei, n\u00e3o existe nenhum programa consistente de a\u00e7\u00e3o no exterior no sentido da proje\u00e7\u00e3o de cultura brasileira. Ficamos muito felizes que grandes universidades dos EUA estejam abrindo escrit\u00f3rios no Brasil, para recrutamento de estudantes e apoio \u00e0s atividades de pesquisa dos seus alunos. <\/p>\n<p>Quem acha que essas iniciativas s\u00e3o gratuitas e desinteressadas precisa urgentemente de um bom banho de realpolitik. As universidades v\u00eam para c\u00e1, estabelecem programas de ensino e pesquisa relacionados com o Brasil por conta dos interesses econ\u00f4micos e pol\u00edticos dos respectivos pa\u00edses de origem. E se o Brasil n\u00e3o se preparar e agir consequentemente para projetar a cultura brasileira, vai simplesmente assistir \u00e0 drenagem de talentos, predatoriamente importados por essas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A difus\u00e3o da cultura brasileira no exterior deveria ser um componente importante da pol\u00edtica externa. E o tr\u00e1gico \u00e9 que o \u201cpequeno pa\u00eds\u201d demonstre mais vis\u00e3o nessa \u00e1rea que a nossa t\u00e3o louvada diplomacia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ram\u00f3n Villares \u00e9 o presidente do Consello da Cultura Galega e esteve em S. Paulo esta semana como parte de suas atividades de difus\u00e3o da cultura da Galiza. Est\u00e1 empenhado em que o Museu da L\u00edngua Portuguesa aumente o espa\u00e7o dedicado ao galego na forma\u00e7\u00e3o do nosso idioma. 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