{"id":885,"date":"2012-03-26T12:10:01","date_gmt":"2012-03-26T15:10:01","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=885"},"modified":"2012-03-27T10:57:56","modified_gmt":"2012-03-27T13:57:56","slug":"sem-editores-o-livro-nao-vive-sem-tradutores-nao-viaja","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=885","title":{"rendered":"Sem editores o livro n\u00e3o vive, sem tradutores, n\u00e3o viaja"},"content":{"rendered":"<p>O surgimento dos livros eletr\u00f4nicos e a possibilidade de auto publica\u00e7\u00e3o tem levado muita gente a especular sobre o fim dos editores. Agora j\u00e1 n\u00e3o se fala mais tanto do \u201cfim do livro\u201d. Acho que a maioria j\u00e1 percebeu que livro n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o somente o objeto f\u00edsico, e sim seu conte\u00fado, difundido seja l\u00e1 por que formato.<\/p>\n<p>A bola da vez, agora, s\u00e3o os editores. E, como consequ\u00eancia, todo o processo editorial.<\/p>\n<p>Fico feliz em discordar totalmente disso tudo.<br \/>\n<!--more--><\/p>\n<p>Evidentemente muitos livros podem ser <strong>publicados<\/strong> sem editores. Seja fisicamente, em papel, seja em formato eletr\u00f4nico. \u00d3timo para quem os publica.<\/p>\n<p>Mas, o que significa isso para a vida de um livro?<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria das publica\u00e7\u00f5es mostra que desde sempre houve um continuado processo de depura\u00e7\u00e3o na sobreviv\u00eancia dos t\u00edtulos publicados. E isso \u00e9 v\u00e1lido para a fic\u00e7\u00e3o e igualmente para a n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o. Recentemente li um livro, \u201cThe Book in the Renaisssance\u201d, de Andrew Petegree (em formato eletr\u00f4nico, vejam), onde o historiador mostra a din\u00e2mica da publica\u00e7\u00e3o nas primeiras d\u00e9cadas depois da inven\u00e7\u00e3o de Gutemberg. O livro \u00e9 interessant\u00edssimo sob v\u00e1rios aspectos, inclusive sobre o papel da imprensa \u2013 e dos livros \u2013 naquele per\u00edodo hist\u00f3rico. Um dos dados que ele levantou mostra que, nos primeiros quarenta anos do livro impresso (h\u00e1 um cap\u00edtulo sobre o livro <strong>antes<\/strong> da imprensa), quase a metade de tudo publicado era produ\u00e7\u00e3o erudita. E desta, quase noventa por cento era de livros religiosos. A pol\u00eamica iniciada por Lutero foi important\u00edssima para o desenvolvimento de uma cultura livresca de massa.<\/p>\n<p>Essa propor\u00e7\u00e3o jamais se repetiu. A diversidade foi cada vez mais tomando corpo e at\u00e9 mesmo as categorias da classifica\u00e7\u00e3o decimal universal abrigam hoje tantas subdivis\u00f5es que dificilmente pode-se dizer que existe alguma categoria dominante, salvo a de agruparmos em grandes e abstratas subdivis\u00f5es, do tipo fic\u00e7\u00e3o e n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o, que se tornam categorias desprovidas de conte\u00fado anal\u00edtico.<\/p>\n<p>Mas, dos 345 mil t\u00edtulos publicados na Europa nessas primeiras d\u00e9cadas, quantos sobreviveram, quantos continuam sendo lidos pelo p\u00fablico em geral? (N\u00e3o conto aqui os livros estudados pelos historiadores, arque\u00f3logos da hist\u00f3ria do conhecimento). <\/p>\n<p>Pouqu\u00edssimos. <\/p>\n<p>E o que t\u00eam em comum os livros sobreviventes?<\/p>\n<p>Todos tiveram uma <strong>hist\u00f3ria editorial<\/strong> onde se nota claramente a interven\u00e7\u00e3o dos desprezados editores na conforma\u00e7\u00e3o das diferentes \u201cencarna\u00e7\u00f5es\u201d dos livros. E, tamb\u00e9m, dos tradutores, que os fizeram viajar.<\/p>\n<p>Tenho em m\u00e3os a edi\u00e7\u00e3o comemorativa do IV Centen\u00e1rio da Publica\u00e7\u00e3o do Don Quijote de la Mancha, produzida pela Real Academia de la Lengua e publicado pela Alfaguara em edi\u00e7\u00e3o internacional, que gostaria de usar como primeiro exemplo.<\/p>\n<p>Vejam aqui a reprodu\u00e7\u00e3o fac-similar da primeira p\u00e1gina do primeiro cap\u00edtulo do livro e, ao lado, a primeira p\u00e1gina da edi\u00e7\u00e3o comemorativa:<br \/>\n<a href=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?attachment_id=891\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Foxisdoproblema.com.br%2F%3Fattachment_id%3D891','quijote+primer+capitulo+fac')\" rel=\"attachment wp-att-891\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/quijote-primer-capitulo-fac2-195x300.jpg\" alt=\"\" title=\"quijote primer capitulo fac\" width=\"195\" height=\"300\" class=\"alignleft size-medium wp-image-891\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/quijote-primer-capitulo-fac2-195x300.jpg 195w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/quijote-primer-capitulo-fac2-666x1024.jpg 666w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/quijote-primer-capitulo-fac2.jpg 700w\" sizes=\"(max-width: 195px) 100vw, 195px\" \/><\/a> <a href=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?attachment_id=894\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Foxisdoproblema.com.br%2F%3Fattachment_id%3D894','cervantes+santillana_NEW_0001')\" rel=\"attachment wp-att-894\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/cervantes-santillana_NEW_0001-185x300.jpg\" alt=\"\" title=\"cervantes santillana_NEW_0001\" width=\"185\" height=\"300\" class=\"alignnone size-medium wp-image-894\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/cervantes-santillana_NEW_0001-185x300.jpg 185w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/cervantes-santillana_NEW_0001-632x1024.jpg 632w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/cervantes-santillana_NEW_0001.jpg 1362w\" sizes=\"(max-width: 185px) 100vw, 185px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O leitor moderno, mesmo nativo da Espanha, teria muitas dificuldades para a leitura se a forma da publica\u00e7\u00e3o tivesse se mantido imut\u00e1vel, e por v\u00e1rias raz\u00f5es. As primeiras se referem a quest\u00f5es ortogr\u00e1ficas: Cervantes usava a ortografia usual na \u00e9poca, com todas as varia\u00e7\u00f5es admitidas. Depois, temos quest\u00f5es relacionadas com a organiza\u00e7\u00e3o da p\u00e1gina, a \u201cmancha\u201d, a disposi\u00e7\u00e3o dos t\u00edtulos, etc. Finalmente, na edi\u00e7\u00e3o moderna, temos o aparato de notas esclarecedoras e explicativas que permitem ao leitor atual compreender efetivamente as sutilezas da obra, com as informa\u00e7\u00f5es complementares de vocabul\u00e1rio, contexto, etc. As edi\u00e7\u00f5es modernas sem as notas tornam a leitura muito mais exigente, com a consulta aos dicion\u00e1rios, enciclop\u00e9dias, etc. para evitar inclusive percep\u00e7\u00f5es err\u00f4neas.<\/p>\n<p>O mesmo vale para qualquer um dos cl\u00e1ssicos sobreviventes, em qualquer idioma.<\/p>\n<p>Essas transforma\u00e7\u00f5es, meus amigos, que atualizam a forma e informam o leitor, s\u00e3o trabalho dos editores. E \u00e9 um trabalho acumulativo. Cada edi\u00e7\u00e3o subsequente (ou pelo menos as edi\u00e7\u00f5es publicadas em momentos hist\u00f3ricos subsequentes) vai incorporar as transforma\u00e7\u00f5es anteriores que, sem modificar o escrito, transformaram-no para deix\u00e1-lo acess\u00edvel ao leitor contempor\u00e2neo daquela edi\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Os cl\u00e1ssicos se mant\u00eam por sua vitalidade, import\u00e2ncia liter\u00e1ria e hist\u00f3rica, e se tranformam em cl\u00e1ssicos <strong>porque tamb\u00e9m t\u00eam uma vida editorial<\/strong>. N\u00e3o houvesse centenas, milhares de edi\u00e7\u00f5es do Quixote, em praticamente todos os idiomas, nosso imagin\u00e1rio n\u00e3o teria se enriquecido com o Cavaleiro da Triste Figura.<\/p>\n<p>As sucessivas edi\u00e7\u00f5es (e tradu\u00e7\u00f5es) passam a fazer parte do corpus da obra, de modo que desde as percep\u00e7\u00f5es do leitor \u201ccomum\u201d at\u00e9 as exegeses mais sofisticadas \u201cse incorporam\u201d ao escrito inicial.<\/p>\n<p>Podem ter certeza os auto publicados: se, em algum momento, suas obras n\u00e3o come\u00e7arem a circular com tratamento profissional, suas chances de sobreviv\u00eancia se reduzir\u00e3o drasticamente. Poder\u00e3o ser objeto da arqueologia e da hist\u00f3ria liter\u00e1ria, mas n\u00e3o enriquecer\u00e3o as gera\u00e7\u00f5es futuras.<\/p>\n<p>E as tradu\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>Antes de chegarmos l\u00e1, duas notas.<\/p>\n<p>As primeiras edi\u00e7\u00f5es do <em>Quijote<\/em> em Portugal n\u00e3o foram traduzidas. No mesmo ano da publica\u00e7\u00e3o da edi\u00e7\u00e3o princeps (1605) foram publicadas tr\u00eas edi\u00e7\u00f5es em Portugal em castelhano. Note-se que, na \u00e9poca, Portugal e Espanha estavam unidos, situa\u00e7\u00e3o que perdurou at\u00e9 1640, quando D. Jo\u00e3o de Bragan\u00e7a recuperou o trono e se tornou Jo\u00e3o IV. Naquele momento o multilinguismo era um fen\u00f4meno estendido na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica. Vale lembrar que o castelhano, o idioma em que foi escrito o<em> Quijote<\/em>, se j\u00e1 era a l\u00edngua da corte, n\u00e3o tinha o status que chegou a ter posteriormente e ser considerado como a l\u00edngua nacional da Espanha. Com a derrubada do franquismo, ali\u00e1s, essa situa\u00e7\u00e3o multilinguistica voltou a se fortalecer, ainda que o castelhano seja a l\u00edngua comum entre as comunidades aut\u00f4nomas.<\/p>\n<p>Vale destacar tamb\u00e9m que o nosso portugu\u00eas atual \u00e9 a variante dominante do galaico-portugu\u00eas, at\u00e9 hoje falado na Galiza espanhola, que reinvindica inclusive uma participa\u00e7\u00e3o na CPLP \u2013 Comunidade dos Pa\u00edses de L\u00edngua Portuguesa.<\/p>\n<p>Esse bilinguismo justificava a impress\u00e3o, em Portugal, da edi\u00e7\u00e3o em castelhano, a l\u00edngua \u201cculta\u201d das elites do reino ent\u00e3o unido de Portugal e Espanha. <\/p>\n<p>A primeira tradu\u00e7\u00e3o ao \u201cvulgar\u201d \u2013 ou seja, ao portugu\u00eas \u2013 s\u00f3 vai aparecer em 1794, ou seja 189 anos depois da primeira publica\u00e7\u00e3o em Lisboa. N\u00e3o se conhece o nome do tradutor dessa primeira vers\u00e3o para o portugu\u00eas, como se v\u00ea na folha de rosto:<br \/>\n<a href=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?attachment_id=897\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Foxisdoproblema.com.br%2F%3Fattachment_id%3D897','rosto+quixote+em+portugu%C3%AAs')\" rel=\"attachment wp-att-897\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/rosto-quixote-em-portugu\u00eas-286x300.jpg\" alt=\"\" title=\"rosto quixote em portugu\u00eas\" width=\"286\" height=\"300\" class=\"alignleft size-medium wp-image-897\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/rosto-quixote-em-portugu\u00eas-286x300.jpg 286w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/rosto-quixote-em-portugu\u00eas.jpg 493w\" sizes=\"(max-width: 286px) 100vw, 286px\" \/><\/a><\/p>\n<p>N\u00e3o vou me deter aqui na hist\u00f3ria das diferentes tradu\u00e7\u00f5es feitas em Portugal, exceto para mencionar a dos Viscondes de Castilho e Azevedo (Primeiro Livro e parte do Segundo), e de Manuel Pinheiro Chagas (Segundo Volume) feita em meados do S\u00e9culo XIX. Essa tradu\u00e7\u00e3o ainda hoje \u00e9 a mais difundida no Brasil (em n\u00famero de tiragens e de exemplares vendidos), e sua mais recente apari\u00e7\u00e3o foi na Cole\u00e7\u00e3o Obras Primas, da Nova Cultural\/Abril.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria das tradu\u00e7\u00f5es do Quixote no Brasil foi objeto de tese na USP, da prof. Silvia Cobelo, da qual um resumo pode ser encontrado <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/migre.me\/8qizi');\"  href=\"http:\/\/migre.me\/8qizi\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Fmigre.me%2F8qizi','aqui')\" target=\"_blank\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p>A prof. Cobelo levantou 72 edi\u00e7\u00f5es do Dom Quixote entre 1942 e 2008, correspondendo a v\u00e1rias tradu\u00e7\u00f5es, algumas das quais, como a Almir de Andrade (Primeiro Livro) e Milton Amado (Segundo Livro), publicadas originalmente em 1952 pela Jos\u00e9 Olympio, foram marcos na presen\u00e7a do <em>Quixote<\/em> nosso pa\u00eds. Como diz a prof. Cobelo, \u201cAs pesquisas apontam Milton Amado como o verdadeiro respons\u00e1vel pela excel\u00eancia da edi\u00e7\u00e3o luxuosa da Jos\u00e9 Olympio em 1952 (231 notas), especialmente ap\u00f3s sua rigorosa revis\u00e3o em 1954 (mais de 872 notas) e 1958 (mais de 931 notas). Apenas observando a diferen\u00e7a entre o n\u00famero de notas j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel perceber seu extenuante trabalho e cuidado com o texto\u201d.<\/p>\n<p>E esse \u00e9 o ponto que quero ressaltar. As tradu\u00e7\u00f5es v\u00e3o se aperfei\u00e7oando, com a inclus\u00e3o de paratextos \u2013 todos esses elementos que comp\u00f5em a edi\u00e7\u00e3o, desde as informa\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas inclu\u00eddas na folha de rosto e na falsa folha de rosto, colof\u00e3o, orelhas, capas, pref\u00e1cios e notas. E a\u00ed se revela n\u00e3o apenas a participa\u00e7\u00e3o do tradutor, como tamb\u00e9m a do editor. O aparato complementar e a pr\u00f3pria escolha do tradutor (que implica na estrat\u00e9gia de tradu\u00e7\u00e3o), revelam a import\u00e2ncia do editor. Sem o suporte profissional da editora, essas vers\u00f5es tamb\u00e9m n\u00e3o poderiam existir.<br \/>\n<figure id=\"attachment_906\" aria-describedby=\"caption-attachment-906\" style=\"width: 207px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?attachment_id=906\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Foxisdoproblema.com.br%2F%3Fattachment_id%3D906','quixote+dos+viscondes+cortado')\" rel=\"attachment wp-att-906\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/quixote-dos-viscondes-cortado1-207x300.jpg\" alt=\"\" title=\"quixote dos viscondes cortado\" width=\"207\" height=\"300\" class=\"size-medium wp-image-906\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/quixote-dos-viscondes-cortado1-207x300.jpg 207w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/quixote-dos-viscondes-cortado1.jpg 323w\" sizes=\"(max-width: 207px) 100vw, 207px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-906\" class=\"wp-caption-text\">Trad &quot;Viscondes&quot;<\/figcaption><\/figure> <figure id=\"attachment_907\" aria-describedby=\"caption-attachment-907\" style=\"width: 206px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?attachment_id=907\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Foxisdoproblema.com.br%2F%3Fattachment_id%3D907','quixote+molina+rec1')\" rel=\"attachment wp-att-907\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/quixote-molina-rec11-206x300.jpg\" alt=\"\" title=\"quixote molina rec1\" width=\"206\" height=\"300\" class=\"size-medium wp-image-907\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/quixote-molina-rec11-206x300.jpg 206w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/quixote-molina-rec11.jpg 219w\" sizes=\"(max-width: 206px) 100vw, 206px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-907\" class=\"wp-caption-text\">Trad. Molina<\/figcaption><\/figure><\/p>\n<p>A mais recente e elogiada tradu\u00e7\u00e3o do <em>Dom Quixote<\/em> ao portugu\u00eas foi feita por S\u00e9rgio Molina e publicado pela Editora 34. Existem na verdade duas vers\u00f5es, uma em formato maior, \u00e9 bil\u00edngue, e a outra, em formato de bolso, cont\u00e9m apenas a tradu\u00e7\u00e3o. Destaque-se tamb\u00e9m a bela apresenta\u00e7\u00e3o da prof. Maria Augusta da Costa Vieira.<\/p>\n<p>As estrat\u00e9gias de tradu\u00e7\u00e3o revelam as preocupa\u00e7\u00f5es para com a legibilidade do texto para o leitor atual. Mas, n\u00e3o apenas na tradu\u00e7\u00e3o. A edi\u00e7\u00e3o espanhola mais moderna, comemorativa do IV Centen\u00e1rio da publica\u00e7\u00e3o, apresenta uma quantidade de notas maior que as edi\u00e7\u00f5es brasileiras, tanto a dos Viscondes quanto a de Molina. N\u00e3o pude verificar nenhum fac-s\u00edmile da tradu\u00e7\u00e3o original dos Viscondes, de 1876, e portanto n\u00e3o sei como se apresentavam as notas. Na edi\u00e7\u00e3o brasileira da Nova Cultural\/Abril existe a indica\u00e7\u00e3o de que as notas foram traduzidas por Fernando Nuno Rodrigues, observa\u00e7\u00e3o incompleta. \u201cTraduzidas\u201d do portugu\u00eas de Portugal ou de alguma edi\u00e7\u00e3o espanhola?<\/p>\n<p>Notemos, entretanto, algumas das notas do primeiro par\u00e1grafo do original e das duas tradu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>1 \u2013 \u201cAdarga antigua\u201d. A edi\u00e7\u00e3o do IV Centen\u00e1rio nota: \u201cescudo ligero de piel\u201d. A acep\u00e7\u00e3o do Real Diccionario de la Lengua, da Real Academia espanhola diz: adarga. (Del \u00e1r. hisp. add\u00e1rqa, y este del \u00e1r. cl\u00e1s. daraqah). 1. f. Escudo de cuero, ovalado o de forma de coraz\u00f3n.<\/p>\n<p>Molina assinala: \u201cA adarga, j\u00e1 em desuso em fins do s\u00e9culo XVI, era um escudo leve, com a forma aproximada de cora\u00e7\u00e3o, feito de couro costurado\u201d.<\/p>\n<p>Os Viscondes, por sua vez, n\u00e3o anotam a palavra.<\/p>\n<p>O Houaiss assim a define: \u201cAdarga: substantivo feminino. Escudo de couro dobrado, de forma oval, com uma bra\u00e7adeira estreita para a m\u00e3o e outra, larga, para o bra\u00e7o, originalmente us. pelos mouros; darga\u201d.<\/p>\n<p>Ou seja, a edi\u00e7\u00e3o em espanhol contempor\u00e2neo faz por bem esclarecer o significado da palavra, que j\u00e1 estava em desuso (embora recente) na \u00e9poca cervantina. Os Viscondes, com uma tradu\u00e7\u00e3o rebuscada, viram que a palavra estava dicionarizada e n\u00e3o se deram ao trabalho de explic\u00e1-la. Molina adotou a mesma estrat\u00e9gia da edi\u00e7\u00e3o comemorativa do IV Centen\u00e1rio e explicou.<\/p>\n<p>Poderia citar outros exemplos, nas tr\u00eas edi\u00e7\u00f5es, apenas no primeiro par\u00e1grafo do romance. N\u00e3o \u00e9 o caso. O que importa aqui \u00e9 mostrar que, tal como o original, as tradu\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m \u201cviajam\u201d no tempo e no espa\u00e7o. E o denominador comum dessas viagens \u00e9 o editor. Sem o trabalho t\u00e9cnico, intelectual, e o aporte financeiro das editoras, os livros terminam por se estiolar. A a\u00e7\u00e3o dos tradutores, de car\u00e1ter intelectual aut\u00f4nomo, evidentemente, tamb\u00e9m depende dessa atua\u00e7\u00e3o dos editores, seja na determina\u00e7\u00e3o da quantidade e forma dos paratextos seja tamb\u00e9m para financi\u00e1-los. Os mortos j\u00e1 n\u00e3o podem mais contar com a auto publica\u00e7\u00e3o, e sem o labor editorial o patrim\u00f4nio cultural universal ficaria restrito \u00e0s pesquisas de arqueologia estil\u00edstica e liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Essa miss\u00e3o espec\u00edfica, a de levar o escrito ao p\u00fablico, no correr do tempo e do espa\u00e7o, depende do valor da obra e do talento do autor, mas depende tamb\u00e9m do esfor\u00e7o intelectual e financeiro de muito mais gente, coordenados e agrupados nessa figura tamb\u00e9m essencial para a difus\u00e3o do livro: o editor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O surgimento dos livros eletr\u00f4nicos e a possibilidade de auto publica\u00e7\u00e3o tem levado muita gente a especular sobre o fim dos editores. Agora j\u00e1 n\u00e3o se fala mais tanto do \u201cfim do livro\u201d. Acho que a maioria j\u00e1 percebeu que livro n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o somente o objeto f\u00edsico, e sim seu conte\u00fado, difundido seja l\u00e1 &hellip; <a href=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=885\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Foxisdoproblema.com.br%2F%3Fp%3D885','Continue+lendo+Sem+editores+o+livro+n%C3%A3o+vive%2C+sem+tradutores%2C+n%C3%A3o+viaja+%26rarr%3B')\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Sem editores o livro n\u00e3o vive, sem tradutores, n\u00e3o viaja<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[292,289,118,291,290],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/885"}],"collection":[{"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=885"}],"version-history":[{"count":21,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/885\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":915,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/885\/revisions\/915"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=885"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=885"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=885"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}