{"id":752,"date":"2012-01-24T13:51:43","date_gmt":"2012-01-24T16:51:43","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=752"},"modified":"2012-01-24T13:51:43","modified_gmt":"2012-01-24T16:51:43","slug":"o-universal-e-o-particular-na-nossa-literatura","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=752","title":{"rendered":"O UNIVERSAL E O PARTICULAR NA NOSSA LITERATURA"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?attachment_id=753\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Foxisdoproblema.com.br%2F%3Fattachment_id%3D753','Capturar')\" rel=\"attachment wp-att-753\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/Capturar2.jpg\" alt=\"\" title=\"Capturar\" width=\"992\" height=\"443\" class=\"aligncenter size-full wp-image-753\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/Capturar2.jpg 992w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/01\/Capturar2-300x133.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 992px) 100vw, 992px\" \/><\/a><\/p>\n<p>H\u00e1 algumas semanas a jornalista Eliane Blum escreveu um artigo na Revista <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/revistaepoca.globo.com\/Sociedade\/eliane-brum\/noticia\/2012\/01\/lingua-que-somos-lingua-que-podemos-ser.html');\"  href=\"http:\/\/revistaepoca.globo.com\/Sociedade\/eliane-brum\/noticia\/2012\/01\/lingua-que-somos-lingua-que-podemos-ser.html\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Frevistaepoca.globo.com%2FSociedade%2Feliane-brum%2Fnoticia%2F2012%2F01%2Flingua-que-somos-lingua-que-podemos-ser.html','%C3%89poca')\" target=\"_blank\">\u00c9poca<\/a> sobre as dificuldades que os agentes liter\u00e1rios que trabalham com autores brasileiros t\u00eam para vender seus t\u00edtulos. Dizia Eliane, citando agentes liter\u00e1rios, que \u201cos escritores americanos conquistaram o direito de ser universais para a velha Europa e seu ran\u00e7o colonizador \u2013 j\u00e1 dos brasileiros exige-se uma esp\u00e9cie de selo de autenticidade que seria dado pela \u201ctem\u00e1tica brasileira\u201d.\u201d<\/p>\n<p>O texto da Eliane \u00e9 muito interessante e levanta quest\u00f5es bem pertinentes, mais al\u00e9m do que trato aqui. E faz pensar sobre o assunto (o que, para mim, \u00e9 realmente sua maior virtude), e disso resultaram algumas reflex\u00f5es que desejo compartilhar.<\/p>\n<p>Primeiro fato: o escritor brasileiro mais traduzido na atualidade \u00e9 o Paulo Coelho. Independentemente de quaisquer considera\u00e7\u00f5es sobre suas virtudes (ou n\u00e3o) liter\u00e1rias, uma coisa \u00e9 certa: Paul Rabitt n\u00e3o tem \u201ctem\u00e1tica brasileira\u201d, definitivamente. Ali\u00e1s, uma \u2013 dentre as tantas \u2013 \u201cacusa\u00e7\u00f5es\u201d que lhe s\u00e3o feitas \u00e9 precisamente a de nem ser conhecido como brasileiro. Talvez ele seja \u201co estrangeiro domesticado que mora dentro deles\u201d, como diz Eliane. Seus romances-receitu\u00e1rios de peregrino, etc. etc., abordam precisamente os famosos temas universais: solid\u00e3o, busca espiritual, reden\u00e7\u00e3o, etc. etc.<br \/>\n<!--more--><\/p>\n<p>Segundo fato: dois dos autores brasileiros mais prestigiados no exterior tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o conhecidos pela \u201ctem\u00e1tica brasileira\u201d. Clarice Lispector e Moacyr Scliar s\u00e3o prestigiados pela linguagem, e pela universalidade de seus temas. Se h\u00e1 algo de peculiar aos dois \u00e9 essa universalidade passar por uma certa \u201c\u00f3tica judaica\u201d, coisa, a meu ver, altamente duvidosa.<\/p>\n<p>S\u00e3o dois exemplos para relativizar essa exig\u00eancia da \u201ctem\u00e1tica brasileira\u201d nos autores traduzidos. O que n\u00e3o exclui os problemas mencionados pela Eliane Blum, mas alerta para n\u00e3o cairmos em outro clich\u00ea.<\/p>\n<p>Terceiro fato: recentemente traduzi para a Leya um romance de uma autora americana cujo t\u00edtulo original \u00e9 \u201cThe Chocolate Chip Cookie Murder\u201d. \u00c9 uma hist\u00f3ria na qual uma dona de loja de cookies no cafund\u00f3 dos EUA, num desses lugares onde neva durante metade do ano, acaba ajudando a resolver um assassinato (os chocolate chip cookies feitos por ela estavam no colo do falecido&#8230;). E estou traduzindo um livro de contos, para a Record, da Edna O\u2019Brien, \u201cSaints and Sinners\u201d. Os v\u00e1rios contos transcorrem em Londres, Nova York, e mesmo em uma cidade e um pa\u00eds desconhecidos. O <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/migre.me\/7DfGb');\"  href=\"http:\/\/migre.me\/7DfGb\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Fmigre.me%2F7DfGb','The+Guardian')\" target=\"_blank\">The Guardian<\/a>, na resenha do livro, diz que \u201ca suntuosa e melanc\u00f3lica nova cole\u00e7\u00e3o de contos \u00e9 habitada n\u00e3o tanto por personagens sagrados ou malditos, mas por personagens imperfeitos que todos reconhecemos: os tristes e deslocados, os esperan\u00e7osos e os com dor-de-cotovelo \u2013 pessoas que habitam integralmente em seu presente complexo e, no entanto, antecipam as perdas que sobre eles cair\u00e3o\u201d. O\u2019Brien \u00e9 reconhecida como um dos ep\u00edtomes da literatura irlandesa contempor\u00e2nea. Seus livros, ainda que quase sempre contenham elementos marcantes da vida social irlandesa \u2013 alcoolismo, viol\u00eancia, uma certa mentalidade \u201ctribalista\u201d e a marca do feminismo, s\u00e3o estimados pela universalidade das situa\u00e7\u00f5es que seus personagens vivem. Da sua aldeia, O\u2019Brien mostra o mundo, como j\u00e1 disse T\u00f3lstoi: \u201cSe queres ser universal, come\u00e7a por pintar a tua aldeia\u201d.<\/p>\n<p>A que nos leva essa coisa de que os estrangeiros buscam o pitoresco na nossa literatura para public\u00e1-la? E como n\u00f3s publicamos aqui livros sobre uma senhora que fabrica cookies no Meio Oeste americano?<\/p>\n<p>Evidentemente temos que considerar, sempre, o poderio econ\u00f4mico da ind\u00fastria editorial americana, que leva de reboque os autores ingleses e alguns outros canadenses, australianos e neozelandeses. Isso \u00e9 mais que um pano de fundo, \u00e9 uma conting\u00eancia avassaladora. Os caras jogam bruto, e \u00e0s vezes para comprar os direitos de um bom autor \u00e9-se obrigado a levar um contrapeso, como antigamente se dizia nos a\u00e7ougues, levar um osso para a sopa. Some-se a isso a refra\u00e7\u00e3o dos americanos \u00e0 tudo que seja estrangeiro (os ultra-conservadores Romney e Gingrich \u201cacusados\u201d de saber falar franc\u00eas!), e a ex\u00edgua propor\u00e7\u00e3o de apenas 3% de todos os livros lan\u00e7ados nos EUA serem tradu\u00e7\u00f5es, e se pode ter ideia da dificuldade de vender autores estrangeiros por l\u00e1.<\/p>\n<p>Mas apenas isso n\u00e3o explica tudo, e duas s\u00e9ries de reflex\u00f5es me v\u00eam \u00e0 mente.<\/p>\n<p>A primeira. Ser\u00e1 que alguns dos agentes simplesmente n\u00e3o sabem vender a nossa literatura? Explico: se chegam de cara anunciando que tem um autor brasileiro para vender, abrem espa\u00e7o para as defesas se armarem. Que tal come\u00e7ar pelo conte\u00fado do livro, pelos aspectos universais da hist\u00f3ria contada, e terminar pelo fato de ser brasileiro? N\u00e3o sei como o Lu\u00eds Schwarcz vendeu o Milton Hatoum da primeira vez, mas o fato \u00e9 que Manaus, em \u201cRelato de Um Certo Oriente\u201d, \u00e9 irrelevante para o conte\u00fado do romance. Poderia ser Lagos, Bogot\u00e1 ou Paris, e o relevante \u00e9 a din\u00e2mica que se estabelece entre os personagens. A \u201carquitetura imagin\u00e1ria\u201d do Milton poderia ser constru\u00edda em qualquer cidade em que houvesse uma col\u00f4nia libanesa, ou qui\u00e7\u00e1 uma col\u00f4nia qualquer de emigrados. Ser\u00e1 que o Conrad recebe a estima cr\u00edtica que tem por que descreve lugares ex\u00f3ticos ou por tratar de assuntos que eventualmente s\u00e3o enfrentados por seres humanos em lugares distantes de suas terras? Lord Jim \u00e9 personagem da literatura universal porque \u00e9 um ingl\u00eas covarde aportado no Oriente ou porque \u00e9 um covarde envolvido com seus remorsos, seja l\u00e1 em que cafund\u00f3s se esconda?<\/p>\n<p>Muitos dos agentes liter\u00e1rios que lidam com a nossa literatura chegam a ela levados por sua atra\u00e7\u00e3o pelo Brasil. \u00c9 natural que a nossa literatura chegue a eles por ser brasileira. Mas ser\u00e1 que todos percebem o alcance universal do que \u00e9 relatado em nossa aldeia, e que \u00e9 isso que pode tornar um romance atraente para o leitor estrangeiro? <\/p>\n<p>Estou falando aqui no abstrato, e certamente sendo injusto com muita gente que se empenha na difus\u00e3o dos nossos autores no exterior. Mas devo dizer tamb\u00e9m que uma parte dessa responsabilidade cabe aos editores: examinar o <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/brazilianpublishers.com.br\/catalogo\/');\"  href=\"http:\/\/brazilianpublishers.com.br\/catalogo\/\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Fbrazilianpublishers.com.br%2Fcatalogo%2F','cat%C3%A1logo')\" target=\"_blank\">cat\u00e1logo<\/a> preparado pelo programa da Apex de apoio \u00e0 presen\u00e7a dos autores \u2013 textos preparados pelos editores \u2013 \u00e9 algo deprimente. Al\u00e9m do ingl\u00eas p\u00e9ssimo de algumas tradu\u00e7\u00f5es sem qualidade, macarr\u00f4nico, a abordagem da apresenta\u00e7\u00e3o revela v\u00e1rios casos de provincianismo e uma atroz incapacidade de saber vender para o exterior.<\/p>\n<p>A responsabilidade dos editores tamb\u00e9m se manifesta no tratamento do mercado interno. O \u201cChocolate Chip Murder\u201d exemplifica o que quero dizer. A ind\u00fastria editorial americana explora com vigor uma grande variedade de segmentos de mercado. Cria mercado para seus produtos. Evidentemente livros sobre senhoras cozinheiras do Meio Oeste foram publicados para atingir um desses segmentos. Quer tenha sido escrito por iniciativa da autora ou n\u00e3o, o fato \u00e9 que \u00e9 publicado porque as editoras buscam de modo consistente atingir os v\u00e1rios segmentos.<\/p>\n<p>Pergunto: que editora brasileira se preocupa com isso? Quem pretende, por exemplo, explorar o mercado do Centro-Oeste, regi\u00e3o da fronteira agr\u00edcola em expans\u00e3o, rica em dinheiro e rica em temas, problemas e autores tamb\u00e9m, que vivem por l\u00e1 editando localmente e sem nenhuma repercuss\u00e3o? Sem repercuss\u00e3o porque as editoras locais s\u00e3o provincianas, amadoras, e vivem mais de servi\u00e7os gr\u00e1ficos prestados ao governo, editando v\u00e1rios desses autores para atender a vaidades e n\u00e3o para desenvolver o mercado potencial. E as grandes editoras do sudeste pouco se preocupam em desenvolver produtos para esses segmentos e comercializ\u00e1-los com efici\u00eancia. A nossa diversidade, como diz a Eliana, \u00e9, em grande medida, perdida para as editoras, tanto cultural quanto comercialmente.<\/p>\n<p>Certo, temos os problemas conhecidos de distribui\u00e7\u00e3o, de falta de livrarias e bibliotecas.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, mais certo ainda, \u00e9 que \u00e9 f\u00e1cil publicar as tradu\u00e7\u00f5es (e n\u00e3o os culpo por isso, com certeza). S\u00f3 que eles parecem n\u00e3o perceber que existem possibilidades de ganhar dinheiro desenvolvendo esse imenso mercado em potencial com livros que atendam a expectativa desses leitores em potencial. A ind\u00fastria musical faz isso: a\u00ed est\u00e3o as centenas de duplas sertanejas, que nascem por l\u00e1 e se espelham pelo Brasil. Ou o brega paraense, que vai pelo mesmo diapas\u00e3o. <\/p>\n<p>A ind\u00fastria editorial brasileira, particularmente no segmento \u201ctrade\u201d, din\u00e2mica que \u00e9 em muitos aspectos, n\u00e3o tem a imagina\u00e7\u00e3o e a disposi\u00e7\u00e3o para ganhar dinheiro com a literatura nacional. E se acomoda.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio, entretanto, chamar aten\u00e7\u00e3o para mais uma coisa: nem o universal nem o particular est\u00e3o no umbigo dos autores. Olhar para o pr\u00f3prio umbigo, e dissertar sobre problemas umbigais, n\u00e3o \u00e9 sinal de universalidade. A literatura francesa, quando se dedicou a essa forma de autoimola\u00e7\u00e3o nas d\u00e9cadas de 50 e 60, perdeu o resto de espa\u00e7o que tinha conquistado e escancarou de vez a porta para o dom\u00ednio do ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Em tempo, o Chocolate Chip Cookie Murder, al\u00e9m de divertido, t\u00eam \u00f3timas receitas de biscoitinhos&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 algumas semanas a jornalista Eliane Blum escreveu um artigo na Revista \u00c9poca sobre as dificuldades que os agentes liter\u00e1rios que trabalham com autores brasileiros t\u00eam para vender seus t\u00edtulos. 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