{"id":725,"date":"2012-01-11T11:33:00","date_gmt":"2012-01-11T14:33:00","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=725"},"modified":"2012-01-11T11:33:00","modified_gmt":"2012-01-11T14:33:00","slug":"mais-um-retrocesso-da-politica-cultural-em-portugal","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=725","title":{"rendered":"Mais um retrocesso da pol\u00edtica cultural em Portugal"},"content":{"rendered":"<p>Sempre admirei a pol\u00edtica \u2013 que supunha ser de Estado, e n\u00e3o dos eventuais governos \u2013 para a difus\u00e3o cultural de Portugal e da Espanha. O Instituto Cam\u00f5es e o Instituto Cervantes, o Instituto Portugu\u00eas do Livro e da Biblioteca como institui\u00e7\u00f5es aut\u00f4nomas, desenvolviam \u2013 e at\u00e9 certo ponto ainda desenvolvem \u2013 um trabalho important\u00edssimo de difus\u00e3o da cultura desses dois pa\u00edses ib\u00e9ricos. O Instituto Cam\u00f5es mantem leitorados e c\u00e1tedras em dezenas de pa\u00edses, centros de ensino do portugu\u00eas como l\u00edngua estrangeira, centros culturais, apoio a publica\u00e7\u00f5es e projetos de pesquisa. O mesmo faz o Instituto Cervantes.<\/p>\n<p>Durante alguns anos a a\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Cultura de Portugal foi apoiada pelo ICEP, uma vers\u00e3o lusa da Apex, ag\u00eancia de promo\u00e7\u00e3o de exporta\u00e7\u00f5es. A presen\u00e7a portuguesa nas bienais de livros de S\u00e3o Paulo e do Rio, com delega\u00e7\u00f5es de escritores, era financiada pelo ICEP. H\u00e1 coisa de dez anos isso deixou de ser feito, e os estandes portugueses minguaram substancialmente nesses eventos.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nMas a presen\u00e7a das a\u00e7\u00f5es do Instituto Cam\u00f5es e do Instituto Portugu\u00eas do Livro e da Biblioteca, criado em 1997, mantiveram uma din\u00e2mica muito interessante de promo\u00e7\u00e3o do livro portugu\u00eas no mundo. O programa de apoio \u00e0 difus\u00e3o do livro de autores portugueses incluiu logo os autores da \u00c1frica lus\u00f3fona. Em rela\u00e7\u00e3o ao Brasil, foi criado um programa especial, vinculado ao programa de apoio \u00e0s tradu\u00e7\u00f5es, que visava o est\u00edmulo \u00e0 publica\u00e7\u00e3o de autores portugueses aqui. E uma boa quantidade de autores hoje conhecidos e publicados por iniciativa das editoras brasileiras teve suas primeiras edi\u00e7\u00f5es no Brasil parcialmente financiadas pelo IPLB. <\/p>\n<p>Eu sugeri \u00e0 Nova Fronteira (quando ainda era dirigida pelo Carlos Augusto Lacerda), a publica\u00e7\u00e3o da primeira edi\u00e7\u00e3o no Brasil da <strong><a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/www.ediouro.com.br\/site\/products\/content_book\/5369');\"  href=\"http:\/\/www.ediouro.com.br\/site\/products\/content_book\/5369\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Fwww.ediouro.com.br%2Fsite%2Fproducts%2Fcontent_book%2F5369','Peregrina%C3%A7%C3%A3o')\" target=\"_blank\">Peregrina\u00e7\u00e3o<\/a><\/strong>, de Fern\u00e3o Mendes Pinto, reputada por muitos estudiosos como mais importante para a consolida\u00e7\u00e3o da prosa liter\u00e1ria em portugu\u00eas que <strong>Os Lus\u00edadas<\/strong> (afinal, como diria um luso, Cam\u00f5es escreveu em versos, e a <strong>Peregrina\u00e7\u00e3o<\/strong> \u00e9 em prosa). Foi um trabalho editorial que sonh\u00e1vamos \u2013 M\u00e1rcio Souza, Maria Jos\u00e9 Silveira e eu \u2013 desde a \u00e9poca em que t\u00ednhamos a Marco Zero, e que nunca hav\u00edamos conseguido realizar pelo porte da empreitada. Finalmente, gra\u00e7as ao apoio do IPLB, foi feita a primeira edi\u00e7\u00e3o em nosso pa\u00eds desse cl\u00e1ssico da l\u00edngua.<\/p>\n<p>Os primeiros sinais de alarme come\u00e7aram em 2007. O governo de direita, iniciando o longo e in\u00fatil  processo de \u201cconten\u00e7\u00e3o de despesas\u201d do receitu\u00e1rio dos FMIs da vida, liquidou com a autonomia do IPLB, recriou uma Dire\u00e7\u00e3o Geral do Livro e das Bibliotecas que enfiou tudo de volta ao saco da Biblioteca Nacional de Portugal. O desmonte continuou em 2010, quando assumiu o governo de direita chefiado por Passos Coelho, que extinguiu o Minist\u00e9rio da Cultura, transformando-o em uma secretaria vinculada ao gabinete do primeiro ministro. A fal\u00eancia atual de Portugal \u00e9 o resultado dessa submiss\u00e3o aos interesses financeiros, aos receitu\u00e1rios neoliberais, coisa que j\u00e1 vimos tamb\u00e9m por aqui em priscas eras. Faz-se economia nos clipes da cultura para satisfazer o apetite da banca predadora.<\/p>\n<p>A \u00faltima not\u00edcia desse desmonte chegou esta semana, com o an\u00fancio da desativa\u00e7\u00e3o da Livraria Cam\u00f5es, no Rio de Janeiro. A Livraria Cam\u00f5es, que funcionava no Edif\u00edcio Avenida Central, na Avenida Rio Branco, existia desde 1972. Era uma pequena loja (75 m2), mas desempenhou um important\u00edssimo papel de divulga\u00e7\u00e3o do livro e dos escritores portugueses em nosso pa\u00eds. <\/p>\n<p>As justificativas para o fechamento da livraria, que era subsidiada pela Imprensa nacional de Portugal, caem sempre no tecnocrat\u00eas economicista: conten\u00e7\u00e3o de despesas, os meios tecnol\u00f3gicos atuais s\u00e3o \u201cmais eficientes\u201d para a tarefa, etc. etc. A mat\u00e9ria sobre o assunto, publicada n\u2019<em>O Globo<\/em> de hoje, est\u00e1 neste <a onclick=\"javascript:pageTracker._trackPageview('\/outgoing\/oglobo.globo.com\/cultura\/apos-40-anos-livraria-camoes-anuncia-fim-das-atividades-3631234');\"  href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/cultura\/apos-40-anos-livraria-camoes-anuncia-fim-das-atividades-3631234\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Foglobo.globo.com%2Fcultura%2Fapos-40-anos-livraria-camoes-anuncia-fim-das-atividades-3631234','link')\" target=\"_blank\">link<\/a>. <\/p>\n<p>O que preocupa a todos os defensores de pol\u00edticas p\u00fablicas para o livro e a leitura \u00e9 a evid\u00eancia do desmonte de uma pol\u00edtica que alcan\u00e7ou invej\u00e1vel \u00eaxito.<\/p>\n<p>Sim, invej\u00e1vel. Portugal \u00e9 um pequeno pa\u00eds. Em popula\u00e7\u00e3o e recursos econ\u00f4micos \u00e9 mais ou menos do tamanho de Pernambuco. Mas tinha a sabedoria de manter uma ativa pol\u00edtica cultural relacionada com o livro e com o idioma (e n\u00e3o vamos nem falar das bibliotecas p\u00fablicas portuguesas), de fazer inveja, pela sua dimens\u00e3o, alcance e profundidade. Constru\u00edda penosamente desde a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, mostrava para o mundo um Portugal cioso de seu patrim\u00f4nio cultural, da import\u00e2ncia do portugu\u00eas e do legado da nossa l\u00edngua comum para o patrim\u00f4nio cultural universal.<\/p>\n<p>Era tudo o que n\u00e3o t\u00ednhamos e continuamos n\u00e3o tendo, em grande medida. <\/p>\n<p>N\u00e3o temos um Instituto Machado de Assis para a promo\u00e7\u00e3o do portugu\u00eas no \u00e2mbito internacional. A pol\u00edtica cultural do Itamaraty \u00e9 uma piada de mau gosto. A Comunidade de Pa\u00edses da L\u00edngua Portuguesa mal funciona como articula\u00e7\u00e3o para manter os votos dos pa\u00edses africanos nos organismos internacionais, com uma t\u00eanue capa de a\u00e7\u00f5es culturais ineficientes, mal planejadas e sem continuidade. Promove reuni\u00f5es de vez em quando c\u00e1 e l\u00e1 \u2013 e as de c\u00e1 muito apreciadas pelos representantes dos pa\u00edses africanos \u2013 onde o tom \u00e9 muito mais de acomoda\u00e7\u00e3o de vaidades do que de estabelecimento de pol\u00edticas comuns, sejam essas quais forem.<\/p>\n<p>As embaixadas e consulados brasileiros desenvolvem a\u00e7\u00f5es culturais (quando o fazem), dependendo quase exclusivamente do interesse e do empenho dos senhores embaixadores ou c\u00f4nsules. Evidentemente, quando dos grandes eventos como exposi\u00e7\u00f5es internacionais, feiras nas quais o Brasil \u00e9 convidado de honra, o profissionalismo do Itamaraty se manifesta e a a\u00e7\u00e3o dos nossos diplomatas \u00e9 eficiente e importante. J\u00e1 mencionei isso em posts sobre a participa\u00e7\u00e3o do Brasil em Frankfurt em 1994, e tenho certeza que acontecer\u00e1 o mesmo naquela cidade em 2013. Mas n\u00e3o existe uma pol\u00edtica org\u00e2nica para a difus\u00e3o da cultura brasileira no Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores.<\/p>\n<p>No Minist\u00e9rio da Cultura, nesse \u00e2mbito, \u00e9 louv\u00e1vel e j\u00e1 se fazia tarde a a\u00e7\u00e3o de promo\u00e7\u00e3o da tradu\u00e7\u00e3o de autores brasileiros. O programa de apoio \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o da Biblioteca Nacional, important\u00edssimo, ressalta ainda a mais a aus\u00eancia de outras pol\u00edticas na \u00e1rea.<\/p>\n<p>Assim, \u00e9 preciso ficar de olho vivo. O que se pensava ser uma pol\u00edtica de Estado virou p\u00f3 na submiss\u00e3o de governos, que s\u00e3o transit\u00f3rios por natureza. Perde Portugal. E nos alerta para o que pode acontecer por aqui. E tamb\u00e9m para o que pode acontecer na Espanha, onde o franquismo disfar\u00e7ado em populismo voltou ao poder.<\/p>\n<p>A can\u00e7\u00e3o do Chico Buarque e do Ruy Guerra, o Fado Tropical, dizia:<\/p>\n<p><em>\u201cAi, esta terra ainda vai cumprir seu ideal:<br \/>\nAinda vai tornar-se um imp\u00e9rio colonial!<br \/>\nAi, esta terra ainda vai cumprir seu ideal:<br \/>\nAinda vai tornar-se um imenso Portugal!\u201d<br \/>\n<\/em><br \/>\nO risco \u00e9 duplo: Portugal voltar a ser, na \u00e1rea cultural, o Portugal pr\u00e9-1974. E n\u00f3s o imitarmos precisamente nisso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre admirei a pol\u00edtica \u2013 que supunha ser de Estado, e n\u00e3o dos eventuais governos \u2013 para a difus\u00e3o cultural de Portugal e da Espanha. 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