{"id":672,"date":"2011-12-07T17:26:55","date_gmt":"2011-12-07T20:26:55","guid":{"rendered":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=672"},"modified":"2011-12-07T17:26:56","modified_gmt":"2011-12-07T20:26:56","slug":"preco-medio-dos-livros-uma-ficcao-aritmetica","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?p=672","title":{"rendered":"&#8220;Pre\u00e7o m\u00e9dio&#8221; dos livros: uma fic\u00e7\u00e3o aritm\u00e9tica"},"content":{"rendered":"<p>Al\u00e9m das diverg\u00eancias das duas \u201cvers\u00f5es\u201d de dados de 2009, os \u00faltimos relat\u00f3rios da pesquisa \u201cProdu\u00e7\u00e3o e Vendas do Setor Editorial Brasileiro\u201d, encomendada pela CBL e pelo SNEL e executada pela FIPE, apresentam uma novidade: tabelas de \u201cpre\u00e7os m\u00e9dios\u201d dos livros no Brasil.<\/p>\n<p>A apar\u00eancia \u00e9 sofisticada: as tabelas est\u00e3o divididas entre v\u00e1rios tipos de \u201cpre\u00e7o m\u00e9dio\u201d: por subsetor editorial (no \u201cpre\u00e7o m\u00e9dio\u201d de mercado) e pelos diferentes programas governamentais, nas vendas para o governo.<\/p>\n<p>Em 2005, quando da desonera\u00e7\u00e3o do setor editorial, quando o Presidente Lula assinou lei isentando as editoras do pagamento do PIS\/PASEP-COFINS, as entidades do setor haviam assumido um compromisso: em troca da isen\u00e7\u00e3o, que significava um al\u00edvio de mais de 4% sobre o faturamento das empresas, assumiam o compromisso de contribuir para um fundo de promo\u00e7\u00e3o do livro e da leitura, no valor de 1% do faturamento.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nQuando a proposta foi feita, o entusiasmo foi grande. Acompanhei esse processo de perto, mas n\u00e3o vou entrar em detalhes agora. S\u00f3 lembro que, nessa ocasi\u00e3o, manifestei aos funcion\u00e1rios do Governo Federal que tratavam do assunto que seria importante fazer as duas coisas ao mesmo tempo: a desonera\u00e7\u00e3o e a institui\u00e7\u00e3o do fundo, destinado aos programas de aquisi\u00e7\u00e3o de livros para bibliotecas, implanta\u00e7\u00e3o de programas de est\u00edmulo \u00e0 leitura, capacita\u00e7\u00e3o de bibliotec\u00e1rios, etc. Ou seja, coisas que voltavam em benef\u00edcio do pr\u00f3prio setor editorial.<\/p>\n<p>Por v\u00e1rias raz\u00f5es isso n\u00e3o foi poss\u00edvel.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 que o \u201cvenha n\u00f3s\u201d para as editoras veio. A isen\u00e7\u00e3o est\u00e1 em vigor. <\/p>\n<p>Mas a contribui\u00e7\u00e3o, o \u201cvosso reino\u201d&#8230;<\/p>\n<p>Alguns anos depois, capitaneadas pela ABRELIVRO, as entidades do setor fundaram o Instituto Pr\u00f3-Livro, que seria a resposta do setor privado a essa demanda. A contribui\u00e7\u00e3o para o IPL financiou a segunda pesquisa \u201cRetratos da leitura no Brasil\u201d e a terceira, que est\u00e1 em etapa de finaliza\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de algumas outras atividades. Tudo muito merit\u00f3rio e digno dos maiores elogios. Mas muito longe do que seria o 1% do faturamento para um fundo que, na proposta original, teria gest\u00e3o compartilhada entre governo, sociedade civil e os representantes da ind\u00fastria editorial e livreira.<\/p>\n<p>H\u00e1 dois anos, a quest\u00e3o do fundo ressurgiu no Minist\u00e9rio da Cultura. A\u00ed o discurso dos editores mudou. Al\u00e9m da contribui\u00e7\u00e3o para o Instituto Pr\u00f3-Livro, a argumenta\u00e7\u00e3o das editoras era a de que o pre\u00e7o do livro estava baixando. Portanto, os editores estavam \u201cfazendo sua parte\u201d para cumprir os objetivos da desonera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sinceramente n\u00e3o sei se o pre\u00e7o dos livros est\u00e1 baixando em termos reais. <\/p>\n<p>Entretanto, aparece a pesquisa da FIPE dizendo que sim, o \u201cpre\u00e7o m\u00e9dio\u201d dos livros est\u00e1 baixando.<\/p>\n<p>O Relat\u00f3rio de 2009 fala em \u201csubstantiva queda de pre\u00e7os\u201d, e a cole\u00e7\u00e3o de slides apresentada na Bienal do Rio de Janeiro, \u00e0 guisa de Relat\u00f3rio de 2010, afirma que \u201co pre\u00e7o m\u00e9dio do livro manteve a tend\u00eancia de queda, que apresenta desde 2004. Em 2010 o pre\u00e7o m\u00e9dio do livro declinou 4,42%. Considerada apenas as vendas ao mercado, declinou 4,91%\u201d (destaque no slide).<\/p>\n<p>Como \u00e9 feita essa conta? Considera-se o faturamento total das editoras, por subsetor, e divide-se pelo n\u00famero de exemplares vendidos. Esse \u00e9 o \u201cpre\u00e7o m\u00e9dio\u201d. <\/p>\n<p>Ser\u00e1?<\/p>\n<p>Existe uma s\u00e9rie de vari\u00e1veis na defini\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o de um livro. Custos editoriais (adiantamentos ao autor, tradu\u00e7\u00e3o, prepara\u00e7\u00e3o de textos, revis\u00e3o, diagrama\u00e7\u00e3o, capa, etc. etc.) e custos industriais, entre os quais os componentes mais importantes s\u00e3o papel e impress\u00e3o. A quantidade de papel \u00e9 determinada por quatro vari\u00e1veis simples: formato do livro, n\u00famero de p\u00e1ginas, qualidade do papel (gramatura, tipo \u2013 cuch\u00ea ou offset) e tipo de acabamento. O custo de impress\u00e3o tem uma tend\u00eancia decrescente at\u00e9 um determinado n\u00edvel. Ou seja, imprimir mil exemplares sai mais caro por unidade que imprimir cinco mil. Isso por causa dos ajustes, do tipo de m\u00e1quina e outros detalhes t\u00e9cnicos. Mas, a partir de uma determinada quantidade, o custo por exemplar impresso n\u00e3o diminui mais: uma vez ajustada a m\u00e1quina, esse fator se torna irrelevante. Uma eventual negocia\u00e7\u00e3o entre editora e gr\u00e1fica em fun\u00e7\u00e3o de quantidades maiores pode diminuir um pouco mais o custo por exemplar por raz\u00f5es financeiras, mas isso tem um limite.<\/p>\n<p>Em resumo, um livro com quinhentas p\u00e1ginas obviamente custa mais que um livro de cento e cinquenta p\u00e1ginas, e isso independente da tiragem. Se somarmos o pre\u00e7o de um livro de 500 p\u00e1ginas e o pre\u00e7o de um de 150 p\u00e1ginas e dividirmos por dois estaremos fazendo uma fic\u00e7\u00e3o aritm\u00e9tica, mas n\u00e3o um c\u00e1lculo. Algo parecido com o que minha professora de prim\u00e1rio dizia: N\u00e3o se pode fazer as quatro opera\u00e7\u00f5es com coisas diferentes, n\u00e3o se pode somar laranja com cavalo e assim por diante.<\/p>\n<p>O editor calcula seu \u201cpre\u00e7o de capa\u201d a partir dessas vari\u00e1veis, considerando seu retorno e a taxa de lucro esperada, al\u00e9m de outro componente: os custos de comercializa\u00e7\u00e3o. Ou seja, o desconto dado \u00e0s livrarias e distribuidoras para que estas possam vender os livros.<\/p>\n<p>Quem acompanha o mercado editorial sabe que as grandes cadeias de livrarias e distribuidoras t\u00eam exigido descontos cada vez maiores dos editores para colocar os livros em destaque. Principalmente aqueles t\u00edtulos que os editores trabalham para que se transformem em best-sellers. Mas deixemos esses detalhes de lado para simplificar, e vamos considerar que o desconto de comercializa\u00e7\u00e3o fica em 50% do pre\u00e7o de capa. <\/p>\n<p>Ou seja, se um livro custa R$ 30,00 como pre\u00e7o de capa, o editor recebe R$ 15,00. O livreiro pode vender a R$ 30,00 ou oferecer algum tipo de desconto para seus clientes (o que ser\u00e1 uma fun\u00e7\u00e3o do desconto que as editoras lhe deram), mas vamos deixar tamb\u00e9m isso de lado. Assim, para o pre\u00e7o de capa de R$ 30,00, repito, a editora recebe R$ 15,00. Multiplicado pelo n\u00famero de exemplares vendidos, esse \u00e9 o seu faturamento bruto, que \u00e9 o declarado na pesquisa CBL\/SNEL-FIPE.<\/p>\n<p>Preparei uma tabela hipot\u00e9tica considerando uma lista de best-sellers, o desconto de 50% sobre o pre\u00e7o de capa, um n\u00famero de exemplares vendidos e o faturamento das editoras por t\u00edtulo.<\/p>\n<p>Ficou assim:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?attachment_id=674\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Foxisdoproblema.com.br%2F%3Fattachment_id%3D674','Capturar')\" rel=\"attachment wp-att-674\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/Capturar.jpg\" alt=\"\" title=\"Capturar\" width=\"822\" height=\"381\" class=\"aligncenter size-full wp-image-674\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/Capturar.jpg 822w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/Capturar-300x139.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 822px) 100vw, 822px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Na segunda coluna, depois do \u201cnome do livro\u201d, temos o pre\u00e7o de capa; na terceira, a quantidade de p\u00e1ginas; na quarta, o faturamento bruto da editora por exemplar; na quinta, uma proje\u00e7\u00e3o de quantos exemplares se venderam em um ano; e, na sexta, o faturamento bruto total da editora por cada livro.<\/p>\n<p>Ou seja: para um milh\u00e3o de exemplares vendidos, ter\u00edamos um \u201cpre\u00e7o m\u00e9dio\u201d para as editoras, de R$ 18,20. Reitero: pre\u00e7o m\u00e9dio <strong>para as editoras<\/strong> porque \u00e9 disso que trata o c\u00e1lculo da pesquisa. Os pre\u00e7os reais praticados nas livrarias podem variar muito mais, dependendo dos descontos que cada rede consiga, etc, etc.<\/p>\n<p>Vejam bem, nessa tabela s\u00f3 considero duas vari\u00e1veis: o n\u00famero de p\u00e1ginas por livro e o pre\u00e7o de capa. N\u00e3o considerei o formato nem o tipo de papel usado.<\/p>\n<p>Vamos imaginar que, no ano seguinte, livros com as mesmas caracter\u00edsticas (n\u00famero de p\u00e1ginas e pre\u00e7o de capa) entrassem na lista de best-sellers. N\u00e3o os mesmos livros, mas outros, repito, com as mesmas caracter\u00edsticas. S\u00f3 que em posi\u00e7\u00f5es diferentes na lista, quer dizer, no n\u00famero hipot\u00e9tico de exemplares vendidos.<\/p>\n<p>Ficaria assim:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/?attachment_id=677\" onclick=\"return TrackClick('http%3A%2F%2Foxisdoproblema.com.br%2F%3Fattachment_id%3D677','Capturar2')\" rel=\"attachment wp-att-677\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/Capturar2.jpg\" alt=\"\" title=\"Capturar2\" width=\"903\" height=\"487\" class=\"aligncenter size-full wp-image-677\" srcset=\"http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/Capturar2.jpg 903w, http:\/\/oxisdoproblema.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/Capturar2-300x161.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 903px) 100vw, 903px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Vejam bem. S\u00e3o livros com exatamente a mesmas caracter\u00edsticas. S\u00f3 mudou sua \u201cposi\u00e7\u00e3o\u201d na nossa lista de best-seller e, por conseguinte, a quantidade de livros vendidos. E s\u00f3 a\u00ed ter\u00edamos um \u201cpre\u00e7o m\u00e9dio\u201d quase 5% mais baixo.<\/p>\n<p>Pensem agora em quase cinquenta mil t\u00edtulos por ano (na verdade a quantidade de t\u00edtulos dispon\u00edveis a cada momento \u00e9 muito maior), com caracter\u00edsticas diferentes, pre\u00e7os diferentes, descontos para livrarias diferenciados, quantidade vendidas diferentes de cada t\u00edtulo e fica evidente apenas uma coisa: \u201cpre\u00e7o m\u00e9dio\u201d baseado na divis\u00e3o do faturamento por unidades vendidas \u00e9 apenas e t\u00e3o somente conversa para boi dormir. <\/p>\n<p>N\u00e3o quer dizer absolutamente nada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Al\u00e9m das diverg\u00eancias das duas \u201cvers\u00f5es\u201d de dados de 2009, os \u00faltimos relat\u00f3rios da pesquisa \u201cProdu\u00e7\u00e3o e Vendas do Setor Editorial Brasileiro\u201d, encomendada pela CBL e pelo SNEL e executada pela FIPE, apresentam uma novidade: tabelas de \u201cpre\u00e7os m\u00e9dios\u201d dos livros no Brasil. 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